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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

VELHO


"Tão velho estou como árvore no inverno,
vulcão sufocado, pássaro sonolento.
Tão velho estou, de pálpebras baixas,
acostumado apenas ao som das músicas,
à forma das letras.

Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético
dos provisórios dias do mundo:
Mas há um sol eterno, eterno e brando
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.

Desculpai-me esta face, que se fez resignada:
já não é a minha, mas a do tempo,
com seus muitos episódios.

Desculpai-me não ser bem eu:
mas um fantasma de tudo.
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo,
com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras.

Desculpai-me viver ainda:
que os destroços, mesmo os da maior glória,
são na verdade só destroços, destroços."


A Velhice Pede Desculpas, de Cecília Meireles, in Poemas (1958).




(DO AUTOR - CABEÇA DE VELHO - FORMAÇÃO ROCHOSA NATURAL - MONSANTO)
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2 comentários:

Anónimo disse...

A natureza tem destas coisas, esculturas fantásticas. Há, na Serra da Estrela, a Cabeça da Velha.
Maria Alice Catarino

Anónimo disse...

Não conhecia esta "cabeça do Velho" em Monsanto. Apenas conheço a da Serra da Estrela...
Gosto.
Joana Menano