quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A VIAGEM

Conseguiria chegar a tempo?

O trabalho terminara tarde, ainda estava longe de casa, muito longe. A tarde fria e chuvosa a esgotar-se e quase sem tempo para chegar a horas. Tinha prometido que chegava antes da meia-noite, ainda a tempo do Natal.

A estrada escura, molhada, com rios de água feitos pelos rodados dos camions, o nevoeiro a chegar e o trânsito a avolumar-se. Ainda faltavam muitos quilómetros, a distância parecia que não queria encurtar, e o tempo a passar.

Onze horas da noite... a faltar já menos de uma hora para o prometido.

Ela, em casa, enroscada na manta, olhava o lume da lareira, escutava o chiar da panela de ferro, a querer acreditar que iria ter a sua primeira consoada a dois... ela e ele.

A estrada a encurtar-se, o céu a dar tréguas à chuva, a lua cheia, como um balão enorme, a espreitar por entre as nuvens negras e a iluminar a paisagem, a deixar o caminho livre, a abrir as portas do Natal.

E-lo que chega, quase em cima da hora...  Ela, a desenroscar-se da manta de quadrados, a saltar do sofá, a acender a vela vermelha por cima da lareira e a correr-lhe para os braços...

Finalmente o Natal chegara, para os dois.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A NEVE

Desta vez, a brancura da neve e o seu encanto, transformou-se numa angústia e num pesadelo a impedir voos, a atrasar regressos, a dificultar o Natal.

A lembrar a nuvem negra do vulcão islandês.

A natureza, mais uma vez, a afirmar que nada somos, e nada podemos.

É o homem a querer pôr e Deus a dispôr.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

NOSTALGIA

Nostalgia dos Natais quando era pequeno, quando ia para os frios da Beira Alta.

Nostalgia das casas grandes dos avós, frias, mas cheias de calor da família.

Nostalgia da Missa do Galo, da igreja  gelada, dos cachecóis a tapar a cara, das luvas de lã, a esconderem as frieiras dos dedos, dos gorros enfiados na cabeça até aos olhos.

Nostalgia do chegar a casa, cheios de frio, do sentar à mesa para a ceia quente, da abertura das prendas à volta da lareira.

Nostalgia da hora de ir deitar, do quarto frio,  do caramelo de gelo no interior dos vidros da janela, da cama gelada, da botija de lata envolta numa camisa de flanela, do entrar na cama, devagarinho, rolando a botija à frente dos pés. 

Nostalgia do quase não adormecer porque o mexer na cama causava despertares frios de lençóis gelados, do quase não sentir a ponta do nariz  e as orelhas, de tão frios...

Agora tudo mudou, as casas não são tão grandes, são mais aquecidas, os quartos já não têm o frio de antigamente, mas sobretudo, agora, as camas têm um edredão... daqueles fofos e bem tufados... prontos a aquecerem o corpo, a confortarem o coração, a darem um adormecer tranquilo, a garantir um dormir sossegado.

O Natal, agora, passa-se melhor, com mais conforto, com mais calor, mas não deixa esquecer, nunca, o Natal da infância, o intenso frio beirão mas, sobretudo, o imenso calor do coração dos meus avós.

 (Casa dos avós - Mangualde - Foto de Agnelo Figueiredo)
          



domingo, 19 de dezembro de 2010

O PRESÉPIO

Este ano não armou a árvore de Natal, não colocou bolas, não pôs luzinhas a apagar e a acender, não pendurou os tradicionais enfeites, o pai Natal, o trenó, as renas, os sacos de presentes, os sinos, as estrelas...

Apenas armou um Presépio, simples na sua essência, simples nas imagens, sem adornos, sem vaca nem burro, sem pastores, sem ovelhas, sem a estrela de Belém, sem réis magos...

Foi assim que o Menino nasceu, por isso, assim quer que seja o seu o Presépio. 

Porque foi, na simplicidade deste Presépio, que nasceu o Homem mais importante de toda a humanidade...

... que pena não termos todos aprendido a grandeza desta lição de simplicidade!



sábado, 18 de dezembro de 2010

CHÁ E TORRADAS

O almoço tinha sido uma delícia, a Perdiz à Glória estava divinal, o leite creme a deixar saudade em cada colher que era comido, o vinho com  uma textura aveludada e toques de baunilha.  Terminou com o café e com o sorriso do empregado quando entregou a conta.

Passou a tarde a falar do almoço, a falar da perdiz à Glória, e que estava uma glória... tinha achado piada ao trocadilho - glória à Glória - e não parou de falar disso... glória à Glória, a  perdiz, e o leite creme, com o açúcar queimado. Aliás, não sabia do que gostava mais, se do leite creme ou daquele açúcar caramelizado, queimado, a impregnar de sabor aquele creme.

Começou a sentir um ligeiro desconforto no estômago, um certo ardor, uma azia, depois um enfartamento, depois uma náusea, uma agonia... e lá se foi a perdiz, o vinho, o leite creme...

Naquela noite, o jantar foi um chá e duas torradas...
   

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

MORANGOS

Estavam ali, na banca do supermercado, bem acondicionados, bem expostos, vermelhos, a lembrarem enfeites de Natal, daqueles de pendurar na árvore.

Além do mais deitavam um aroma que já não era habitual sentir... cheiravam mesmo a morango, a lembrar os "fraises du bois" que comera, uma vez, em Paris!

Os últimos que tinha comprado também eram bonitos, rechonchudos como um beijo, mas quase a cheirarem a  nada e, depois, ao saboreá-los, foi uma desilusão: boa consistência mas, mais nada, nenhum paladar.

Estava decidido, ia comprar duas caixas destes a cheirar a morango, com um vermelho forte e intenso de bolas de Natal e ia guardá-los para a consoada... já quase à porta. 

É verdade, este ano  passou rápido,  tinha sido um ano cheio de mudanças, um ano diferente.

Levou duas caixas, quase um quilo de morangos. 

Antigamente, nesta altura, nunca havia desta fruta mas, agora, com as estufas, com os transportes rápidos, era possível comer fruta fresca vinda dos países tropicais, ou do outro lado do mundo... até na fruta a globalização aconteceu!

Mas estes morangos tinham cheiro. No curto trajecto até casa o carro ficou impregnado deste aroma único do morango.

Pôs as duas caixas em cima da banca da cozinha enquanto abria a porta do frigorífico para arranjar um espaço para os guardar... até ao Natal! A pensar numa sobremesa especial, em que colocava os morangos num espeto de madeira e mergulhava, de seguida, numa calda quente de chocolate.


     

A fazer-lhe lembrar Bruxelas, a Grande Place, a casa Leónidas na esquina... uma tentação.





Mas o aroma que estes exalavam necessitava de confirmação em termos de sabor. Abriu a caixa, pegou num, pelo pé, e trincou-o desconfiada se não iria saber a nada. Mas não, o sabor correspondia ao cheiro, eram mesmo uma delícia... e deixou-se tentar por mais outro, e outro, e outro, e outro... e fechou a caixa rápido para a meter no frigorífico. Naquele espaço ali, mesmo ao lado da taça com o chocolate que preparara na véspera para os crepes com chantili.

E a gula a tentá-la, a pedir-lhe para aquecer no microondas aquele chocolate frio, a deixá-lo bem quente, e a mergulhar, um a um, cada morango naquele "fondue" dos deuses...


Passou o resto da tarde naquilo... a saborear prazeres, a imaginar sentires, a recordar saudades...





quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

LAMEGAL

"A minha velha tia na sua antiga casa, no campo
Onde eu era feliz e tranquilo e a criança que eu era..."  
(Álvaro de Campos).

A minha velha tia chamava-se Ana, e a sua casa era no campo,  no Lamegal.

E lá, fui uma criança muito feliz e tranquila...

Uma casa de aldeia, na Beira Alta, de granito, de bom tamanho, com uma escada por fora, a subir encostada à casa, um patamar com alpendre e a porta de entrada. Era uma casa rectangular com um pátio interior.

Entrava-se para uma sala para a qual davam dois quartos, um de cada lado, e dela saía um corredor curto que terminava numa varanda interior, em quadrado, com o centro, onde era o tal pátio, de céu aberto. Os quartos e as salas dispunham-se à volta dessa varanda.

A cozinha encostava-se a um enorme penedo de granito que fazia de parede. E tinha uma "marquise", comprida, toda envidraçada, com uma mesa enorme onde nos sentávamos, nos lanches de sábado, a comer o pão acabado de cozer no forno, com sardinhas, também assadas no mesmo forno.

Nunca mais vi nenhuma assim, nem nunca mais comi lanches, assim, tão saborosos.

Voltei lá há uns anos atrás. Abandonada, desventrada, em ruína total... uma tristeza!

A saudade feliz que me fez voltar lá, transformou-se, quase no mesmo instante, numa nostalgia triste e desiludida...



(A casa do Lamegal - fotografia de Ricardo Campos)


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

FICARAM JUNTOS

Ficaram juntos, perderam a mãe e ficaram sós, mas juntos, um e o outro.
 
Percorreram caminhos, passaram quilómetros,  subiram veredas, atravessaram pastos, bordejaram lagoas, até que chegaram, quase, aos picos da vida, quase ao fim do mundo.

Cansados, esgotados, arranjaram um canto para se encostarem.

E ali ficaram os dois, aninhados, assustados,  carentes, famintos, mas vivos.

Esperando. Esperando um futuro, um amanhã...

Mas hoje estavam ali, os dois, juntos!

E por ali ficaram...


(Furnas - Ilha de São Miguel - Açores - 2003)



terça-feira, 14 de dezembro de 2010

MEIAS SOLAS

Estão gastas, as solas. 

Gastaram-se até à alma do sapato.

Até deu para roçar a meia no alcatrão da estrada!

Agora nada mais resta, tudo está gasto, até o dinheiro para comprar meias solas.

Os tamancos vão ser a solução; daqueles feitos de madeira, uns socos rústicos, desconfortáveis, que fazem calos nos pés. Que põem os pés frios, húmidos, doridos...

Claro que os causadores desta desgraça não vão querer andar de tamanco ou de chinelo.

Mas antes que queiram voltar a usar sapato fino, de verniz e sola, o melhor é colocar-lhes logo umas ferraduras, bem cravadas, daquelas que fazem barulho quando tocam no chão... toc, toc, toc... como o das cavalgaduras!

Assim, ouvem-se ao longe... será que este país vai parecer um picadeiro?


(Salzburg - Áustria - Junho de 2006)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

AO CONTRÁRIO

Veio um tornado que levou tudo adiante. Varreu a zona centro do país. Destelhou casas, deitou empenas abaixo, partiu, devastou.

Não teve piada nenhuma!  Destruiu as parcas economias de muitos habitantes, destruiu sonhos, destruiu esperanças...

Claro que o ministro do pelouro, não sei o nome, lá apareceu, com ar sinistro, a falar para as câmaras (da televisão, entenda-se!). Só isso! Não falou em dádivas, em ajudas rápidas, em apoios urgentes. Que esta gente não dá nada! Só tira!

O que surgiu foi o espírito de entreajuda dos vizinhos, de Portugueses, que dispuseram o seu fim de semana, os seus tempos livres para ajudarem, gratuitamente, sem juros, na reconstrução das casas devassadas.

Mais uma vez o espírito de solidariedade (não de socialidade) veio à tona.

Precisamos deste povo assim, não precisamos é de governantes assim!

Este açoriano, não quis perder tempo... tratou logo de virar a casa, não vá um tornado aparecer por lá! Uma bela jogada  de antecipação!

E se o ministro aparecer por lá...


(Furnas - São Miguel - Açores - Julho de 2008)

domingo, 12 de dezembro de 2010

DOR

Andava há umas semanas com aquela dor, uma moínha nas costas que, por vezes, lhe chegava ao peito. Atormentava-o mais quando se sentia mais cansado, quando andava com mais stress, quando estava mais tempo sentado ao computador...

Incomodava-o mesmo, e tanto, que resolveu ir ao médico.

Ficou com a consulta marcada só para "daqui a duas semanas"... tudo cheio! Como não era uma urgência, tinha que aguentar.

E a moínha a atormentá-lo, a tornar-se mais consciente, a provocar-lhe ansiedade e, como não aguentasse mais e se sentisse mais ansioso, para além dos analgésicos, começou, por moto próprio, a tomar ansiolíticos.

Com o passar dos dias, com o aproximar do dia de ir ao médico... a tal sumidade... a dor começou a tornar-se mais  uma  companhia do que um incómodo. Por vezes já nem dava por ela, havia alturas em que se esquecia dela, já dormia mais tranquilo e andava, sobretudo, muito mais relaxado, mais tranquilo. E tudo isto desde que começou a tomar o ansiolítico. 

Na véspera da ida ao médico já não sentia dor nenhuma... ficou na dúvida se devia lá ir. Pagar uma consulta agora que não tinha nenhuma dor... agora que andava tranquilo, sem stress, descontraído, bem disposto.

Mesmo assim foi, achava que estava na altura de fazer um check-up, estava na idade ideal para tal: saber da glicémia, do colesterol, da próstata, fazer o HIV, uma radiografia. Nunca tinha feito um check-up e, de certeza, o médico ia pedir tudo. Pelo preço que lhe disseram que custava a primeira consulta... até devia ter direito a um exame completo ao coração e a uma TAC a qualquer coisa.

Esperou quase duas horas. Era um médico muito famoso e, disse a recepcionista, que hoje até era um dia calmo. É que o doutor tinha mandado desmarcar alguns doentes, os do fim do dia. Não andava muito bem, com uma dor nas costas, uma moínha que o incomodava bastante. Andava muito stressado, muito cansado e, desde o início da semana que andava com aquela dor incomodativa. Já lhe tinha dito que talvez fechasse o consultório se a dor não passasse. Tinha até já dado ordem para desmarcar os doentes.

Chegou a altura... o momento da consulta. Entrou e vê o médico sentado à secretária, com ar de sofrido, inquieto, dorido, com a mão a apertar o ombro, mesmo por cima da omoplata... tal como ele andava há umas semanas atrás. Sobretudo muito ansioso!

Não disse nada, apenas meteu a mão no bolso do casaco, tirou a caixa dos comprimidos ansiolíticos e deu-a ao médico. Experimente estes, dei-me bem com eles, vai ver que fica bom num instante.

As melhoras!

E saiu porta fora. Não pagou a consulta, mas também não lhe levou nada pelos comprimidos.



sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O CHAPÉU

 Tinha-o comprado num mercado de rua... um mercado de chão, daqueles de passeio, encostado a um muro... havia chapéus, capulanas, lenços, chinelos de praia...  tudo multicolor, com as cores fortes e intensas da África oriental e meridional.

Foi o chapéu que lhe chamou a atenção... de uma cor indefinida, com toques de um cinzento quase branco e de um rosa velho, desmaiado... a contrastar, pela sobriedade, com os outros chapéus ali amontoados; parecia feito de sisal e lã... tricotado como um crochet de fio duplo, a aba sem remate, a deixar pontas espigadas, quase propositadas, a dar um ar  rústico.

Pegou nele, colocou-o na cabeça... cabia perfeito... olhou-se no espelho gasto, fracturado de cima a baixo, que estava pendurado naquele muro velho... ficava lindo, sentia-se bem com ele... reparou no entrançado do mesmo material a fazer de fita do chapéu, e no toque de graça feminina... uma flor de plástico branco, de pétalas  mal recortadas, ponteadas por missangas vermelhas e com  o centro, também, feito das  mesmas missangas vermelhas.

Da flor saíam uns bigodes que lembravam os do "Farrusco", o seu gato branco farruscado de manchas de pelo preto, mas que tinha um bigode farto e comprido...

Uma compra destas não acabava sem ser bem regateada. O preço era quase uma ninharia mas, mesmo assim, o vício do regateio, do oferecer um terço do valor para deixar subir até metade, era superior às suas forças e à justeza do preço originalmente pedido. Mas ela gostava de regatear...

O clima quente e o sol intenso daquelas regiões pediam um chapéu leve, bem arejado e que protegesse dos raios daquele sol inclemente.  É que a pele branca, herdada de vikings que passaram pelo Minho, não facilitava nada... tinha vários casos na família de doenças de pele causadas pelo sol e não queria que lhe acontecesse o mesmo... 

Gostou tanto dele que não o tirou mais; até almoçou na esplanada do Jardim Primavera de chapéu posto. A olhar o mar, a sentir a brisa amena que lhe acariciava o rosto, a recordar outros tempos em que ali ia, nas tardes de verão, com os amigos e colegas da Faculdade.

Mas hoje estava sozinha, tinha resolvido dedicar o dia a si... só a si.

Ali ficou! Na esplanada... a brisa a tornar-se um vento mais mantido, uma ou outra sopradela mais forte, o mar a encrespar, a criar uma ondulação que batia com insistência no muro alto que protegia a esplanada... de súbito, uma rabanada de vento mais forte, e o chapéu a voar... em rodopios... e ela a correr, a tentar chegar-lhe com a ponta dos dedos, quase quase, mas o vento, castigador e traiçoeiro, levou-lho... e fê-lo pousar no mar agitado...

Ainda por cima, ela que não sabia nadar...

(Moçambique - Pemba - Dezembro de 2006)



quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A ROSA VERMELHA

Tinham ido à praia... ele tinha saudades do mar, ela do sol, do sol que lhe aquecia o corpo, lhe amorenava a pele...

Passearam juntos pela beira-mar fora, correram atrás das gaivotas, sentaram-se na areia molhada,trocaram abraços, beijos, e, sobretudo,  juras de amor, promessas de fidelidade, de cumplicidade, de verdades...

Apanharam conchas, imaginaram figuras nas nuvens brancas daquele céu azul, escreveram os seus nomes na areia, desenharam corações e setas de cupido a atravessarem-nos e construíram castelos.

Deixaram que a maré voltasse e fosse, lentamente, onda a onda, apagando as marcas deixadas naquela areia... 

Depois de tudo liso, sem desenhos, sem castelos, sem pegadas, como se tivessem diante de si uma mesa imensa, com uma toalha cor de areia, ele tira da mochila os copos de cristal... bem aconchegados... a garrafa do champanhe... ainda bem frio... e deixa que a rolha salte como explosão de um orgasmo!

Brindaram à felicidade de momento, ao amor, à construção do futuro, à vida a dois a avizinhar-se...

Abre, de novo, a mochila e tira uma rosa... vermelha...  para ela, para o culminar da emoção do momento...

E, enquanto foram tomar banho, deixaram a rosa dentro da garrafa, ainda meio cheia, a beber, também, daquele suco, daquele néctar,  pétillant...  cheio de gás feito bolhinhas... e a transformar aquele champanhe bruto num doce champanhe rosé!




(Ribeirinha - Salvador - Fevereiro de 2007)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

EU QUERO AMAR, AMAR PERDIDAMENTE!

Faz hoje 80 anos... foi em 8 de Dezembro de 1930...  que a Florbela abandonou a sua tristeza.

Conforme disse: "Esta é a história da minha tristeza. História banal como quase toda a história dos tristes." 

Faz hoje 80 anos... foi no mesmo dia em que nasceu... com 36 anos...  com Veronal... dois frascos... 

Deixou-nos um legado inestimável... de muito amar... de muita paixão... de muito querer e não querer...

Ela que foi fruto de amores proibidos... de amores desencontrados... fruto não desejado... Flor Bela de Alma Conceição, que cantava...

"Eu quero amar, amar perdidamente !
          Amar só por amar: Aqui ... além...
          Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente ...
          Amar ! Amar! E não amar ninguém !"

 E quantas vezes não juntou ao amor o erotismo?
 
     " As tuas mãos tacteiam-me a tremer...
          Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço,
          É como um jasmineiro em alvoroço,
          Ébrio de Sol, de aroma, de prazer! "
 ou,
 
   "Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
                  Como se os dois nascêssemos irmãos,
                  Aves, cantando, ao sol, no mesmo ninho...
                  Beija-mas bem!...Que fantasia louca
                  Guardar assim, fechados, nestas mãos,
                  Os beijos que sonhei pra minha boca!..."




A Florbela não morreu... está viva! Como Camões, como Pessoa... como TODOS os grandes... tão grandes... tão grandes... que se tornaram eternos!


A ENCOMENDA

Levava o rótulo de muito frágil, era uma encomenda mais que preciosa... era uma peça única... original... Não tinha jeito de a entregar pessoalmente... não teve outro remédio senão solicitar os serviços de uma firma de entregas... no destino alguém haveria de lha entregar em mão...

Escolheu a melhor, a de mais confiança, a que lhe oferecia mais garantias...

Rapidez, segurança, acondicionamento, e uma série de seguros... caso aconteça algum problema... um atraso, roubo do veículo, colisão, quebra... 

Assim foi... fez questão de a entregar pessoalmente ao motorista do camião... explicou-lhe da preciosidade da encomenda, da sua fragilidade, a quem tinha de ser entregue... viu bem onde ele a colocou... acomodada no meio fardos de algodão... na parte da frente estavam os bidões de aguarrás,  a seguir as paletes dos pisos flutuantes de madeira... de jatobá... depois os fardos de algodão com a sua encomenda bem acondicionada... e lá para trás dois contentores cheios de caixas de velas decorativas...

Saiu à hora certa... rumo ao destino comum de toda a mercadoria... ia chegar na hora acertada... precisava de lhe telefonar...a confirmar a hora da partida... a dizer da hora provável da chegada... 

Ela não sabia o que era... apenas uma prenda... única... preciosa pela originalidade... e, como todas as obras de arte... frágil... muito frágil... acima de tudo não podia suportar temperaturas muito altas... por isso se decidira pela camião frigorífico... os bidões da aguarrás e as velas decorativas.. exigiam temperaturas baixas... o ideal para o transporte da encomenda...

O motorista não se apercebeu... os carros que passavam por ele buzinavam... os dedos indicavam a traseira... e notou, pelos retrovisores, as chamas que saiam... do lado esquerdo...o vento na mesma direcção... em plena ponte... sobre o rio... o rio que  separa as margens... largo... enorme... quase um mar...

Assistiu impotente... ao fogo que tudo consumia... às explosões dos bidões da aguarrás... ao arder da estearina das velas decorativas... aos sacos de algodão a servirem de grandes  tições... a desenvolverem mais calor...

A estrutura a desaparecer... os pneus em fogo a estrondearem... e tudo a transformar-se em fogo...  em brasas... como um imenso tição... um pavor... um calor de queimar... de assar...

E a encomenda, que não podia suportar muito calor... ali, no meio da chamas, das brasas... a volatilizar-se... a desaparecer num ápice...

Mais tarde... veio a saber que só não foi feito um seguro... contra incêndios!..  ..


(Lisboa - Ponte Vasco da Gama - Setembro de 2004)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

CRIANÇA

Sonhava... sonhava viagens... umas perto, outras longínquas... sempre à volta do seu mundo... 

Nas viagens mais perto ia no seu cavalo mágico... cor de rosa... que ela nunca largava... cavalgava pelos ares... mas só em viagens curtas... cansava-se!

Para as viagens mais longas usava um dos múltiplos aviões brancos... que giravam, giravam sempre, ao seu redor... nas visitas ao mundo das suas histórias...

Hoje ia até à terra da Alice...ao País das Maravilhas... de certeza que ia cruzar-se com o Coelho Apressado, que precisava urgentemente de saber as horas... pois estava sempre atrasado...

Ontem tinha passado a tarde em casa da Carochinha... aprendeu a fazer sopa, esteve com ela à janela, mas não viu o João Ratão...

No outro dia quase se perdeu na floresta à procura da Capuchinho Vermelho... ia cheia de medo que o lobo  mau já tivesse comido a avó... mas, finalmente, encontrou-a  com a avó... na casa da floresta... o lobo mau ainda não tinha aparecido...

A mesma coisa aconteceu no dia em que foi a casa dos três porquinhos... brincaram ao eixo, à macaca, e o lobo também não apareceu... provavelmente distraído atrás do Coelho da história da Alice...

E assim se distraía nos sonhos das suas histórias... ela que se deixava levar nos sonhos da sua inocência de vida... 


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

VIDA VIVIDA

Agora é quase um fóssil... um pedaço de madeira...  morta... seca... quase petrificada... dos muitos anos passados... dos muitos frios... gélidos... dos muitos calores... de erupções vulcânicas... de lavas escorrentes... dos gelos quase eternos... dos ventos cortantes...

Agora ali... inútil... pedaço de um barco... navegador de mares... caçador de baleias... transportador de cargas... conduzido por homens... afrontador de tempestades...

Encalhou... no meio de uma tempestade... de ondas gigantes... de icebergues enormes... de ventos assustadores... empurrado... levado... até parar... quase sem homens... na cinza vulcânica... de gelo enrolada... na praia de todas as decepções... sem vida... só sinal de morte... dum inverno de rigor...

Ali ficou... indiferente... ao tempo... aos homens... aos bichos... aos pássaros... resistindo... numa luta quase desigual... mas resistiu e ficou!

(Deception Island - Antártida - Janeiro 2009)

domingo, 5 de dezembro de 2010

MENDIGAR

O emprego que se foi... a família que se desmoronou... a casa que teve de abandonar... a entrada na bebida, no álcool... a droga...

Uma história que se repete... a história de uma vida... igual em tantos lados... parecida em qualquer lugar...

O recurso à esmola... à moedinha do estacionamento... ao pequeno furto... à sopa social... ao vão de uma porta para dormir... ao frio que se sente e faz doer...

Uma vida de solidão... de angústia... de tristeza... de dor da alma...

Um Natal que não vem...


(Praga - Setembro de 2004)

sábado, 4 de dezembro de 2010

BALANCÉ

Conhecera Emília no Sítio; entrara ali por acaso... ia a passar e viu a indicação: SÍTIO DO PICAPAU AMARELO... 

Acuriosou-se, entrou, e deu de caras com a Dona Benta Encerrabodes de Oliveira, a dona do Sítio. Simpática e carinhosa esta dona do Sítio, avó do Pedrinho e de Narizinho e uma boa contadora de histórias... foi assim que se apresentou.

Convidou-o a entrar, pela porta da cozinha, onde a Tia Nastácia, a cozinheira, estava preparando uns bolinhos para o pessoal do Sítio... deu um a provar, ainda quente e envolto em açúcar amarelo, a desfazer-se na boca... com sabor de canela...

Assustadiça, esta Tia Nastácia... com medo de tudo o que não conhece... sempre a benzer-se no seu "Credo! Esconjuro! O mundo está perdido!".

Fora ela, com os trapos velhos e coloridos da uma saia antiga e gasta, que fizera a Emília... a criara pelas suas mãos... esta boneca de trapos tinha o condão de ser falante, divertida, irreverente, com seus olhinhos de retrós de linha preta... olhinhos esses que lhe permitem enxergar mais longe e melhor que as outras pessoas... olhinhos esses que viam coisas que os outros não viam... 

E possuidora, também, de um poder muito especial... o do "Faz de Conta"... capaz de mudar a realidade das coisas que estão acontecendo...

Foi a Tia Nastácia que a apresentou a ele...

Com olhar divertido sentou-se diante dele...botou-lhe um nome  "Seu Simpático" e começou a balançar-se... para trás e para a frente... a sorrir... e, de repente, como num passe de magia... ei-la, a mudar a realidade do momento... ei-la a balançar-se num balancé suspenso por duas cordas brancas, vindas do alto do céu do Sítio... o Picapau a transformar-se em flor... amarela... a querer fugir da trepadeira da parede azul... e ela a avistar coisas do modo que só ela via... no seu mundo de realidade e fantasia... no seu Sítio... onde tinha um Picapau... amarelo!


(Pelourinho - Salvador, em dia de Carnaval - Fevereiro de 2007).






sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

DECIDIDAMENTE E DEFINITIVAMENTE

Chegou a casa... aportou... quase deu a volta ao mundo... andou por fora, longe, distante...

Um ano como que sabático de mareação... de solidão de mar... de aprendizagem das artes e da vida...  de rotas traçadas, de GPS, de radares... de vencer tempestades... de dormir aos socalcos das ondas e ao sabor do tempo e do mar... de comer frio, de racionamentos, da água contada... de pés molhados, de frio e de muito calor... de encontros e de desencontros... de ventos cruzados, de chuvas fortes, de ondas grandes... de velas rasgadas, de genoa ensarilhada, de rizos na vela grande... de bolinas, de popas largas, de muito mar, até de navegação a motor...

De monólogos... de muitas leituras do Pessoa, do Torga... de música clássica de Mozart, de Bach, de cantos gregorianos... da outra música, dos Pink Floyd, dos Beatles, das Américas...

De olhar as estrelas, de apreciar a lua a passar as fases no écran gigante do firmamento, de ver os riscos das estrelas cadentes... 

De nuvens brancas, de nuvens negras, de raios, de tempestades...

De quase desistências, de frustrações, de ânimos e de desânimos, de alegrias e de tristezas, de entendimentos e de desentendimentos, de raivas e de ódios, de interrogações e de dúvidas, de voltares e de retornos, de silêncios e de ruídos...

Até que regressou, de vez, largou tudo, deixou  uma parte do seu mundo atracado ao cais, largou o barco, vestiu umas calças caqui, uma camisa azul e acenou, num regresso decidido e definitivo... de "Free Mind"!


(Free Mind, cais da Marina de Vilamoura - 2009)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

90 ANOS

Feitos hoje!

À mais deliciosa e à mais querida das Mães, à Senhora, à Mulher, à Avó, à Bisavó, à Sogra, à Tia Lourdes...



(de autor)

Não podiam os teus filhos deixar de te agradecer TUDO o que nos deste, TUDO o que nos soubeste transmitir...

Não podiam os teus filhos dizer e anunciar o quanto te queremos, o quanto te amamos!

E porque 90 anos não se fazem todos os dias... aqui ficam os nossos PARABÉNS!

E, certamente, os PARABÉNS de todos os amigos!

RAQUE RAQUE

Deu-lhe para uma de canções, cantilenas e anúncios de nostalgia. Talvez por ser o dia da Restauração da Independência Nacional, do longínquo 1640... 

E tudo começou porque a rã da fotografia começou a fazer um raque raque ao desafio com outra, também pousada na folha de outro nenúfar... 

E veio-lhe a cantilena...

Faz raque raque pelas noites de verão,
Faz raque raque não é ave nem peixão,
Faz raque raque dia e noite até manhã,
Quem é, quem é, quem é, é a madame rã!

(Portalegre - Serra de São Mamede - 2005) 

Era assim a cantilena que tinha aprendido em pequeno... não sabia se era de origem brasileira, dos tempos da Mirita Casimiro, mas era, por aí, da mesma altura da Mala do Hidroavião cantada pela Celeste Rodrigues, a irmã da Amália.

Caiu um hidrovião,
Eu não sei donde é que ele é,
Não trazia ninguém dentro,
Foi parar à Nazaré.

Olha a mala, olha a mala,
Olha a malinha de mão,
Não é tua, nem é minha,
É do nosso hidrovião. (refrão)

O nosso hidrovião,
É da madeira mais fina,
Foi cair à Nazaré,
Por falta de gasolina.

Eu um dia fui à praia,
De manhã, de manhãzinha,
Não vi pescadores, nem peixe,
Eu só vi uma malinha.

De quem é esta malinha,
Que um dia deu à costa,
Se ela veio aqui parar,
Se cá vem é porque gosta.

Atrás de umas vêm outras... como os anúncios cantados do antigo Rádio Clube Português:

Candeeiros bem bonitos,
Modernos originais,
Compre-os na Rádio Vitória,
Não se preocupe mais.

Lá na rua da Vitória,
quarenta e seis, quarenta e oito,
satisfaz-se plenamente
o cliente mais afoito.

Porque na Rádio Vitória
Embaixada do bom gosto
Quem lá vai é bem servido
E sai sempre bem disposto.

E o "jingle" do Formitrol?

O senhor está constipado
E ficou mal de repente
Porque não teve cuidado,
Porque foi imprevidente.

Para o mal cujo motivo,
está na chuva, frio ou sol,
Qual o melhor preventivo?
Formitrol, Formitrol, Formitrol...

Eram umas pastilhas grandes, de um amarelo de cor de enxofre, que  eram de chupar e sabiam a formol... um horror!





quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

ROSAS VERMELHAS

Ele bem tinha dito: rosas vermelhas... tinha insistido, chamado a atenção... que era, mesmo, para serem vermelhas...

De nada valeu...

Trouxeram desta cor... cor de rosa-champagne..., desmaiado, pálido, a atirar para o amarelo...
Será que ela vai gostar? Será que ela vai aceitar? Será que ela vai colocá-las na jarra?

Ou será que ela não vai gostar, nem aceitar e, pura e simplesmente, vai deitá-las no lixo?

Ficou sem saber o que fazer... ir a outra florista? Devolvê-las e pedir o dinheiro de volta?

Hesitou, andou para trás e para diante... E aproximava-se a hora de saída dela... ali, no Chiado, mesmo em frente à Brasileira... e ele na hesitação... e ainda tinha que apanhar o Metro...


Quando chegou já passava da hora... o escritório fechado... o telemóvel desligado... tinha perdido mais uma oportunidade...


Sentou-se ali, na esplanada, mesmo diante do Pessoa... sempre atento aos seus papéis, sem ligar ao que se passava ao seu redor... e lembrou-se que, nesse mesmo dia, ele tinha morrido... há 75 anos... o seu poeta preferido... o seu Campos... o seu Caeiro... o Ricardo... o seu Desassossego... o absurdo... as incongruências...


Veio à lembrança a dualidade do querer e não querer, do ser e não ser, do estar e não estar... 

Por isso hesitou em oferecer-lhe aquele ramo de rosas...


Não Quero Rosas Desde Que Haja Rosas
Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?
Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.

Para quê?... Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?...


(Ricardo Reis)