segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

VIDA VIVIDA

Agora é quase um fóssil... um pedaço de madeira...  morta... seca... quase petrificada... dos muitos anos passados... dos muitos frios... gélidos... dos muitos calores... de erupções vulcânicas... de lavas escorrentes... dos gelos quase eternos... dos ventos cortantes...

Agora ali... inútil... pedaço de um barco... navegador de mares... caçador de baleias... transportador de cargas... conduzido por homens... afrontador de tempestades...

Encalhou... no meio de uma tempestade... de ondas gigantes... de icebergues enormes... de ventos assustadores... empurrado... levado... até parar... quase sem homens... na cinza vulcânica... de gelo enrolada... na praia de todas as decepções... sem vida... só sinal de morte... dum inverno de rigor...

Ali ficou... indiferente... ao tempo... aos homens... aos bichos... aos pássaros... resistindo... numa luta quase desigual... mas resistiu e ficou!

(Deception Island - Antártida - Janeiro 2009)

domingo, 5 de dezembro de 2010

MENDIGAR

O emprego que se foi... a família que se desmoronou... a casa que teve de abandonar... a entrada na bebida, no álcool... a droga...

Uma história que se repete... a história de uma vida... igual em tantos lados... parecida em qualquer lugar...

O recurso à esmola... à moedinha do estacionamento... ao pequeno furto... à sopa social... ao vão de uma porta para dormir... ao frio que se sente e faz doer...

Uma vida de solidão... de angústia... de tristeza... de dor da alma...

Um Natal que não vem...


(Praga - Setembro de 2004)

sábado, 4 de dezembro de 2010

BALANCÉ

Conhecera Emília no Sítio; entrara ali por acaso... ia a passar e viu a indicação: SÍTIO DO PICAPAU AMARELO... 

Acuriosou-se, entrou, e deu de caras com a Dona Benta Encerrabodes de Oliveira, a dona do Sítio. Simpática e carinhosa esta dona do Sítio, avó do Pedrinho e de Narizinho e uma boa contadora de histórias... foi assim que se apresentou.

Convidou-o a entrar, pela porta da cozinha, onde a Tia Nastácia, a cozinheira, estava preparando uns bolinhos para o pessoal do Sítio... deu um a provar, ainda quente e envolto em açúcar amarelo, a desfazer-se na boca... com sabor de canela...

Assustadiça, esta Tia Nastácia... com medo de tudo o que não conhece... sempre a benzer-se no seu "Credo! Esconjuro! O mundo está perdido!".

Fora ela, com os trapos velhos e coloridos da uma saia antiga e gasta, que fizera a Emília... a criara pelas suas mãos... esta boneca de trapos tinha o condão de ser falante, divertida, irreverente, com seus olhinhos de retrós de linha preta... olhinhos esses que lhe permitem enxergar mais longe e melhor que as outras pessoas... olhinhos esses que viam coisas que os outros não viam... 

E possuidora, também, de um poder muito especial... o do "Faz de Conta"... capaz de mudar a realidade das coisas que estão acontecendo...

Foi a Tia Nastácia que a apresentou a ele...

Com olhar divertido sentou-se diante dele...botou-lhe um nome  "Seu Simpático" e começou a balançar-se... para trás e para a frente... a sorrir... e, de repente, como num passe de magia... ei-la, a mudar a realidade do momento... ei-la a balançar-se num balancé suspenso por duas cordas brancas, vindas do alto do céu do Sítio... o Picapau a transformar-se em flor... amarela... a querer fugir da trepadeira da parede azul... e ela a avistar coisas do modo que só ela via... no seu mundo de realidade e fantasia... no seu Sítio... onde tinha um Picapau... amarelo!


(Pelourinho - Salvador, em dia de Carnaval - Fevereiro de 2007).






sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

DECIDIDAMENTE E DEFINITIVAMENTE

Chegou a casa... aportou... quase deu a volta ao mundo... andou por fora, longe, distante...

Um ano como que sabático de mareação... de solidão de mar... de aprendizagem das artes e da vida...  de rotas traçadas, de GPS, de radares... de vencer tempestades... de dormir aos socalcos das ondas e ao sabor do tempo e do mar... de comer frio, de racionamentos, da água contada... de pés molhados, de frio e de muito calor... de encontros e de desencontros... de ventos cruzados, de chuvas fortes, de ondas grandes... de velas rasgadas, de genoa ensarilhada, de rizos na vela grande... de bolinas, de popas largas, de muito mar, até de navegação a motor...

De monólogos... de muitas leituras do Pessoa, do Torga... de música clássica de Mozart, de Bach, de cantos gregorianos... da outra música, dos Pink Floyd, dos Beatles, das Américas...

De olhar as estrelas, de apreciar a lua a passar as fases no écran gigante do firmamento, de ver os riscos das estrelas cadentes... 

De nuvens brancas, de nuvens negras, de raios, de tempestades...

De quase desistências, de frustrações, de ânimos e de desânimos, de alegrias e de tristezas, de entendimentos e de desentendimentos, de raivas e de ódios, de interrogações e de dúvidas, de voltares e de retornos, de silêncios e de ruídos...

Até que regressou, de vez, largou tudo, deixou  uma parte do seu mundo atracado ao cais, largou o barco, vestiu umas calças caqui, uma camisa azul e acenou, num regresso decidido e definitivo... de "Free Mind"!


(Free Mind, cais da Marina de Vilamoura - 2009)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

90 ANOS

Feitos hoje!

À mais deliciosa e à mais querida das Mães, à Senhora, à Mulher, à Avó, à Bisavó, à Sogra, à Tia Lourdes...



(de autor)

Não podiam os teus filhos deixar de te agradecer TUDO o que nos deste, TUDO o que nos soubeste transmitir...

Não podiam os teus filhos dizer e anunciar o quanto te queremos, o quanto te amamos!

E porque 90 anos não se fazem todos os dias... aqui ficam os nossos PARABÉNS!

E, certamente, os PARABÉNS de todos os amigos!

RAQUE RAQUE

Deu-lhe para uma de canções, cantilenas e anúncios de nostalgia. Talvez por ser o dia da Restauração da Independência Nacional, do longínquo 1640... 

E tudo começou porque a rã da fotografia começou a fazer um raque raque ao desafio com outra, também pousada na folha de outro nenúfar... 

E veio-lhe a cantilena...

Faz raque raque pelas noites de verão,
Faz raque raque não é ave nem peixão,
Faz raque raque dia e noite até manhã,
Quem é, quem é, quem é, é a madame rã!

(Portalegre - Serra de São Mamede - 2005) 

Era assim a cantilena que tinha aprendido em pequeno... não sabia se era de origem brasileira, dos tempos da Mirita Casimiro, mas era, por aí, da mesma altura da Mala do Hidroavião cantada pela Celeste Rodrigues, a irmã da Amália.

Caiu um hidrovião,
Eu não sei donde é que ele é,
Não trazia ninguém dentro,
Foi parar à Nazaré.

Olha a mala, olha a mala,
Olha a malinha de mão,
Não é tua, nem é minha,
É do nosso hidrovião. (refrão)

O nosso hidrovião,
É da madeira mais fina,
Foi cair à Nazaré,
Por falta de gasolina.

Eu um dia fui à praia,
De manhã, de manhãzinha,
Não vi pescadores, nem peixe,
Eu só vi uma malinha.

De quem é esta malinha,
Que um dia deu à costa,
Se ela veio aqui parar,
Se cá vem é porque gosta.

Atrás de umas vêm outras... como os anúncios cantados do antigo Rádio Clube Português:

Candeeiros bem bonitos,
Modernos originais,
Compre-os na Rádio Vitória,
Não se preocupe mais.

Lá na rua da Vitória,
quarenta e seis, quarenta e oito,
satisfaz-se plenamente
o cliente mais afoito.

Porque na Rádio Vitória
Embaixada do bom gosto
Quem lá vai é bem servido
E sai sempre bem disposto.

E o "jingle" do Formitrol?

O senhor está constipado
E ficou mal de repente
Porque não teve cuidado,
Porque foi imprevidente.

Para o mal cujo motivo,
está na chuva, frio ou sol,
Qual o melhor preventivo?
Formitrol, Formitrol, Formitrol...

Eram umas pastilhas grandes, de um amarelo de cor de enxofre, que  eram de chupar e sabiam a formol... um horror!





quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

ROSAS VERMELHAS

Ele bem tinha dito: rosas vermelhas... tinha insistido, chamado a atenção... que era, mesmo, para serem vermelhas...

De nada valeu...

Trouxeram desta cor... cor de rosa-champagne..., desmaiado, pálido, a atirar para o amarelo...
Será que ela vai gostar? Será que ela vai aceitar? Será que ela vai colocá-las na jarra?

Ou será que ela não vai gostar, nem aceitar e, pura e simplesmente, vai deitá-las no lixo?

Ficou sem saber o que fazer... ir a outra florista? Devolvê-las e pedir o dinheiro de volta?

Hesitou, andou para trás e para diante... E aproximava-se a hora de saída dela... ali, no Chiado, mesmo em frente à Brasileira... e ele na hesitação... e ainda tinha que apanhar o Metro...


Quando chegou já passava da hora... o escritório fechado... o telemóvel desligado... tinha perdido mais uma oportunidade...


Sentou-se ali, na esplanada, mesmo diante do Pessoa... sempre atento aos seus papéis, sem ligar ao que se passava ao seu redor... e lembrou-se que, nesse mesmo dia, ele tinha morrido... há 75 anos... o seu poeta preferido... o seu Campos... o seu Caeiro... o Ricardo... o seu Desassossego... o absurdo... as incongruências...


Veio à lembrança a dualidade do querer e não querer, do ser e não ser, do estar e não estar... 

Por isso hesitou em oferecer-lhe aquele ramo de rosas...


Não Quero Rosas Desde Que Haja Rosas
Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?
Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.

Para quê?... Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?...


(Ricardo Reis)






terça-feira, 30 de novembro de 2010

O MERGULHO

Tinha vindo à superfície várias vezes... desde manhã cedo que a sua presença tinha sido assinalada.

Enquanto andava lá por baixo, ia deixando as pegadas nas águas daquele mar azul, límpido e tranquilo, o que permitia acompanhar-lhe o passeio.

Mas desta vez veio por mais tempo, ficou ali, à superfície, a brincar aos esguichos, aos sopros, a dar pequenos mergulhos como a convidar a um passeio lá em baixo.

Entretanto chegaram outros, estabeleceram conversas naquele falar feito de gritos abafados, guinchos por vezes inquietantes, brincaram, e por ali ficaram...

À volta, os barcos, as máquinas fotográficas, o encanto do avistamento e da proximidade com estes seres marinhos, gigantes, tranquilos, pacíficos...

Quase apetecia saltar para dentro de água, tocar, passar a mão naquela pele espessa mas frágil, sentir o volume da sua importância, e mergulhar, ir ao fundo... e, ao voltar, tal como eles, soltar um esguicho forte, imenso, possante, aspergindo de água e sal o mundo ao redor... purificando o ambiente, a terra, os homens...

Até que chegou a altura de se ir embora ... tempo da partida... fez uma inspiração mais profunda, levantou bem a cabeça, um piscar de olhos a despedir-se... encurvou o corpo... deixou que o dorso luzidio brilhasse uma vez mais diante dos olhares atentos e ansiosos... levantou a cauda... e, num adeus... mergulhou!
 
 (Mar dos Açores, frente às Ilhas do Pico e Faial - 2008)


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A OUTRA MARGEM

Esperava o barco... queria ir para a outra margem... tinha prometido que ia, que lhe levava o combinado, a que juntava um convite para jantar... ali, na Trafaria, do outro lado da Torre de Belém, mesmo em frente... eram só duas milhas de rio-mar... dez minutos de travessia e logo se encontravam.

A noite estava serena mas fria, sem vento, as águas calmas, quase como um espelho... permitiram um atravessar suave, vibrado apenas pela rotação das máquinas e do hélice, originando uma trepidação que não incomodava, quase dando a sensação de uma vibro-massagem que percorria o corpo encostado naquelas cadeiras de madeira, sem qualquer revestimento...

Se a noite estivesse quente, de luar... seria uma travessia bem agradável, lá fora, no convés... mas hoje, com o frio, a passagem para a outra margem, sem ser penosa era, no mínimo, desconfortável... mas valia pelo encontro...

Quase um ano de ausência, uma distância enorme em tempo e, ao mesmo tempo, tão perto... era só uma questão de atravessar o rio, para a outra margem...

O trabalho... os afazeres... a militância... as reuniões... quase não sobrava tempo... hoje não... amanhã nem pensar... p'rá semana, talvez... e o encontro a distanciar-se... a escapar...

Mas desta vez não... estava tudo combinado... a hora, o local, até mandara reservar mesa.... no Parafuso! A "fondue" de lagosta a abrir apetites... a fazer salivar desejos...

O rio a meio... um petroleiro enorme a passar junto... o barco dos pilotos... e o cais logo ali, bem iluminado...

 (Trafaria - Junho 2009)
 
Um salto para terra... e ela, ali, casaco escuro, apertado... o frio... um gorro de malha cinzento escuro, de luvas e cachecol... ele, com o ramo de rosas, vermelhas... sempre... a abrir os braços na procura do abraço... do abraçar saudades imensas...

Seguiram, juntos, braço dado... encostados... até ao restaurante... ali, quase ao lado do barco... a passar frente à praia fluvial, de areia limpa... pedia um passeio... mas o frio e a hora... prevaleceram... a mesa à espera... a "fondue" preparada... o espumante bem frio... rosé...

O brinde, os olhares, os sorrisos, a partilha da comida, a conversa boa...

Nessa noite ele ficou... ali... na outra margem!

domingo, 28 de novembro de 2010

FRIO

Desta vez veio inesperado, uma frente fria do norte, dizia a meteorologia, com frio e muita neve nas ilhas britânicas e na Escandinávia...

De bater o dente e sentir os ossos enregelados... a manta... a cobrir, a enrolar o frio, a tentar aquecer o corpo, a aconchegar... e ela diante da televisão a ver aquela série que tanto gosta... a neve a pintar de branco os "greens" de Oxford... miss Wilford, com o seu ar áspero, a pedir o chá e os scones... e os dois, Margaret e Alfred, bem resguardados daquele frio intenso, de braço dado, percorriam a alameda da Universidade a caminho da biblioteca...

Esperava por ele... ia chegar naquela tarde, vindo também do frio, trazia saudades... um ramo de rosas... trazia sempre um ramo de rosas... vermelhas... intensas de cor.

Ficavam bem, na jarra de cristal, na mesa do canto, a dar cor ao fundo branco da parede.

O chá esperava abrir... as torradas quentes, escorriam a manteiga acabada de barrar... a compota de morango e a marmelada da quinta, certamente, iam adoçar aquele pão de Salavessa...

Sentaram-se à mesa de camilha com a braseira de picão bem desperta, a transmitir um calor bom. Ficaram ali, sentados, a aquecer os corpos, a conversar, a falar do amanhã...

E eles, os da meteorologia, a prometerem mais frio para os próximos dias...

E eles, os dois, a prometerem mais calor na sua relação...



(Neve em Cambridge, Dezembro de 2009).


sábado, 27 de novembro de 2010

O CAÇADOR

Tinha saído cedo... ainda noite... ia aos pássaros...

Já tinha aberto a época da caça... mas ele não ligava a isso... era anti-convenções, anti-regras, um caçador anarquista...

Saiu sorrateiro, com aquele andar manso, silencioso, felínico... passou por debaixo da sebe das piracantas, atravessou o caminho de terra batida, saltou agilmente o muro de pedra do vizinho e esgueirou-se, lesto, pelo meio da vinha já vindimada e ainda com algumas folhas de outono amarelo e vermelho e chegou ao outro lado...

Ali havia sempre água... um bebedouro quase natural, à saída da mina... agora era uma questão de esperar... quieto, quase imóvel... só com as orelhas atentas e um olho bem aberto...

O sol a começar a sorrir numa tangente ao horizonte... as cores a ganharem vida.... os trinados dos pássaros a acordarem o bosque de carvalhos, medronheiros e sobreiros... a água da mina a raiar lampejos de prata... como que a pedir... ser bebida...

Ele quieto... como um gato-estátua das Ramblas de Barcelona... só não tinha diante, a caixa das moedas...

Dois pardais, um chapim, um melro... ali, a banharem-se... a sacudirem as penas... a beberem... e ele quieto, as orelhas direccionadas, o olho aberto bem fixo no pardal mais gordo...

Um virar de cauda... uma desatenção... um salto de catapulta... quase instantâneo... certeiro... um estrebuchar... no final cuspiu as penas da cauda... foi só o que sobrou!

Agora penteia os bigodes... limpa o focinho... e prepara-se para um descanso... merecido... satisfeito... regalado!



(Foto tirada em Dezembro de 2008- Buenos Aires)


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

ASAS DE UM VOO

Decidira partir... voar longe... ir até onde a noite fosse feita de sonhos... onde o dormir não fosse  insónia de angústias... onde o acordar lhe trouxesse luz de paz... onde o sorriso não fosse o esconder mágoas... onde o trabalho trouxesse  compensações... onde o viver fosse feito de companhia... onde os abraços fossem mantos de ternura... onde as mãos dadas fossem o entrelaçar da cumplicidade... onde os beijos soubessem ao desejo... onde o amor fosse a realidade!


Depois de um breve pouso, de um sentir o mundo amargo,  decidiu-se seguir o rumo, resolveu, de novo, partir...

Voar longe... longe... lá... onde a noite é um adormecer tranquilo... onde o acordar é feito de luz... onde o sorriso é de verdade... onde o trabalho compensa... onde a companhia é vida... onde a ternura é um abraço... onde a cumplicidade dá as mãos... onde o desejo vem num beijo... onde os sonhos são realidade...  onde a realidade é feita de amor...

Voou... voou... longe voou... voou... até que, finalmente, pousou!



(Praia de Moledo do Minho, Março de 2007)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

ERA DIA DE GREVE...

Tentou apanhar o transporte à porta de casa, não havia, era dia de greve...

Foi a pé até ao Centro de Saúde por causa da consulta programada há 4 meses, foi cancelada, era dia de greve...
  
Aproveitou o tempo e tentou ir à Conservatória do Registo Predial, estava fechada, era dia de greve...

Dali, seguiu para os Correios, para enviar a carta registada, estavam encerrados, era dia de greve...

Tentou ir de metro ao Chiado, as estações estavam  fechadas, era dia de greve...

Quis marcar a inspecção à  canalização do gás doméstico, ligou para a Companhia, nem atenderam, era dia de greve...

Passou à porta de escola secundária onde trabalhava a sobrinha, tinha as portas fechadas com aloquete, era dia de greve...

Ligou para o aeroporto a confirmar a chegada do voo TP615 vindo de Bruxelas, não havia voos, era dia de greve...

Antes de ir para casa ainda passou pelo supermercado, de portas corridas, era dia de greve...

E ele que não queria nada com greves, nunca tinha feito uma greve...

Chegou a casa cansado de não ter feito nada, cheio de fome, o frigorífico vazio, nem um pedaço de pão... não teve outro remédio... desta vez teve de fazer greve à comida e não teve outra  solução, entrou em greve de fome!
 

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

GREVE



...MAS EU ESTOU A TRABALHAR, PARA ALIMENTAR ESTE BLOG...

AGENDA

Ganhou uma agenda para o próximo ano.

Era uma agenda especial, não tinha meses, nem semanas, nem dias, nem horas.

Era uma agenda cheia de páginas em branco onde havia, pelo meio, umas páginas com excertos de poemas, outras preenchidas com desenhos ou reproduções de aguarelas, outras, ainda, com pensamentos, mas nada de horas, horários, datas, feriados, nem festas móveis.

Tinha sido uma prenda de aniversário, esta agenda dos descompromissos, das desmarcações, das desreuniões, dos desagendamentos...


Nesta agenda vai poder assinalar os momentos de paz, as horas de amor, as ocasiões de lazer, os dias de felicidade, os tempos de sonhar... de andar de braço dado com a boa disposição, de saltar à corda com a alegria, de se esticar de preguiça, de passar a tarde com um livro, de passear a máquina fotográfica pelo mundo, de arregalar os olhos num museu,  de se sentar na poltrona de um cinema, de se deliciar a ouvir um concerto, de ir jantar com os amigos...

Assim, sempre que lhe surgir uma ideia, um pensar, um sentir,  um desejo, uma necessidade vai poder anotar, escrever, desenhar... mas, sobretudo, descompromissar, desmarcar, desreunir, desagendar, desfrutar, discordar, disfarçar, disparatar, distrair-se, gozar...




terça-feira, 23 de novembro de 2010

SIM! NEM NÃO, NEM TALVEZ.

SIM!!!

Foi um SIM forte, vincado, sonante, afirmativo.

Disse-o com convicção, com o coração a bater forte, com os olhos a brilharem de satisfação, um SIM de certezas, um SIM de esperança, um SIM de tranquilidade.

Estava farta de dizer NÃO de, muitas vezes, dizer TALVEZ, e, raramente, de dizer SIM.

Mas agora, finalmente, disse SIM. Um SIM à vida, um SIM que queria dizer, definitivamente, SIM.

E sorriu, e com o sorriso veio uma lágrima a rolar pela face abaixo...



uma gota de alegria, que depressa limpou com o lenço que tantas vezes secou as lágrimas da tristeza, do desconforto, da solidão.

Bastou, apenas, dizer SIM... tão fácil, tão espantosamente bonito, tão definitivamente feliz...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

NOVO DIA


É tempo de um novo dia. 

Quando o sol desponta, quando aparece por detrás daquelas nuvens e se nos mostra com todo o esplendor, é porque é tempo de um novo dia.

Seja um dia de trabalho ou um dia de lazer, um dia de preocupações ou um dia tranquilo, um dia triste ou um dia de alegrias, um dia solitário ou um dia rodeado de amigos, um dia de paz ou um dia de inferno, um dia de amor ou um dia de rancor, um dia de sol ou um dia de chuva, um dia quente ou um dia de frio, um dia disto ou um dia daquilo... 

 
Seja o que for, sim ou não, branco ou preto, seco ou molhado, alegre ou triste, só ou acompanhado... é sempre  tempo de  um novo dia!


(foto do autor tirada a 10.000 metros de altitude, algures sobre a linha do Equador - 2008)

domingo, 21 de novembro de 2010

LAGO DOS CISNES

O tempo serenara e o jantar especial pedia um passeio.

Tinham que desmoer aquela comida toda: as migas, o costado, o bolo fidalgo, o vinho do Monte da Ravasqueira, ali mesmo, de Arraiolos.

A pousada não ficava distante, era um bom passeio, a pé.

E foram andando por aquelas ruas estreitas e inclinadas, feitas de calçada de pedra, com casas baixas e brancas, todas a desaguar na praça do Município.

Praça grande, com espaço em demasia, vazia àquela hora da noite.

Ela, ele,  sós, e  a música clássica que saía das varandas do edifício da Câmara... reconheceu-a num instante... o Lago dos cisnes... era Tchaikovsky, ali, naquele pedaço do Alentejo,  a encher de sons aquela praça vazia... e, num instante, ele a imaginar-se o príncipe Siegfried a sonhar a sua Odette, de momento enfeitiçada, pelo mago Rothbart,  em cisne branco.

E, enquanto a música tocava, os jogos de água, ao compasso da mesma, saíam em repuxos ritmados do lago, situado no meio da praça, em jogos de água e de luz únicos, surpreendentes, enigmáticos, mágicos.

Sem arco e flecha, mas com a câmara fotográfica, ali estava pronto a disparar sobre um cisne imaginário... e no momento do disparo, do flash saído, surge-lhe assim, num passo de dança, numa inesperada pirueta, a sua Odette... 





... a sua princesa de encantos!
 
(fotografia do autor)

sábado, 20 de novembro de 2010

ENCRUZILHADAS

Parece que o mundo veio desembocar em Lisboa. 

Uma encruzilhada de encontros, de caminhos, de ideias, de opiniões, sobretudo de interesses... muitos interesses.


 São aviões a chegar, comitivas a percorrer a cidade, hotéis por conta, zonas da cidade isoladas, ruas fechadas, impedidas de serem passeadas pelos seus habitantes. 

Presidentes, chefes de estado, primeiros ministros, secretários de estado...

E muita segurança, polícia, tanta polícia... pena não estar presente onde mais falta!

Cimeiras, conversas, decisões, discursos...  para melhorar o mundo? Para trazer paz? Para dar esperança de um futuro melhor?

Conclusões?








sexta-feira, 19 de novembro de 2010

VAN GOGH

Amesterdão enche a alma de quem a visita. 

O casamento dos canais com as ruas, canais que percorrem a cidade como dedos de duas mãos abertas que se tocam, as pontes que  ligam e fazem lembrar as cegonhas dos poços de antigamente, as cores dos barcos-residência definitivamente encostados às margens de pedra, as bicicletas paradas, quase amontoadas, ou a circular por todo o lado, os mercados de flores, as ruas floridas, as casas altas e estreitas, o movimento das pessoas,  os eléctricos com o seu "triiiimmmm......" característico, uma vida quase de encanto, de fascínio, de se estar bem.

Mas Amesterdão é também, e muito, cultura... A Ronda Nocturna de Rembrandt, no Rijksmuseum, esmaga pela grandiosidade, encanta pela história de cada personagem, a figura da menina no meio daqueles homens sérios... 


 Mas é Van Gogh, no seu museu, quem preenche o imaginário, quem faz saltar as cores diante dos olhos, quem mexe com os sentidos, quem desorienta os sentires, quem abana as emoções, que quase permite uma lágrima comovente...




Uma loucura feita arte, uma arte, por vezes, feita loucura na mistura das cores... no calcar do pincel, no efeito do matizar, nos tons fortes, nos azuis, nos amarelos...


nos girassóis, nos seus girassóis... 




O museu Van Gogh merece mesmo uma visita, mas estas fotos não se encontram lá...





quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O TRÂNSITO


É o sol, ao meio dia, sem nuvens, sem obstáculos diante dele, a iluminar-nos o dia no seu esplendor de uma manhã de Dezembro.

Um senão! Um pixel avariado na máquina digital, aquele ponto negro? Aquela pequena mancha ali, entre as cinco e as seis, a atravessar-se diante do sol?

Não. Aquele ponto negro apareceu na imagem solar perto das sete horas e continuou, num movimento ascendente da esquerda para a direita, até desaparecer pelas 3 horas. Demorou umas  6 ou 7 horas nesse trajecto.

Não é um cisco, nem uma mancha solar.

Tão simplesmente o planeta Vénus, a passar, displicentemente, diante do sol no seu chamado "Trânsito de Vénus".

Maravilhas desta natureza astronómica, que nos fazem pensar na nossa pequenez, na nossa insignificância, um infinitamente pequeno num infinitamente grande... na realidade, um cisco!

(Foto foi tirada pelo autor, em plena Lisboa, em 10 de Dezembro de 2004, perto do  meio dia.)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

VIOLENTADO

Não mandei matar ninguém. Não provoquei guerras. Não fabrico nem vendo armas. Não decido de enviar tropas para lado nenhum. Não tenho fábricas de armamento, de aviões de guerra, de submarinos, "destroyers" ou porta-aviões.

Não tenho bancos, nem "off-shores", não sou político, governante ou presidente de nada, muito menos deputado, sub-secretário, secretário de estado, ministro ou primeiro ministro, nem presidente da república.

Não enriqueci do nada, não sou vice-presidente ou presidente de instituições financeiras, nem de bancos, nem de empresas de construção, nem sequer sucateiro.

Não apareço nas televisões a ditar discursos, a mentir das verdades, a enganar, a mandar, a roubar aos pobres para dar aos ricos...

Não sou nada disso, mesmo nada, absolutamente nada.

Trabalho honesto, pago imensos impostos, não devo nada a ninguém.

Então porque é que me vêm revistar a mim, espiolhar o meu carro, ver o forro do meu casaco, ameaçar-me com armas sofisticadas, agredir-me verbalmente por discordar do que me estão a fazer?

Alguém vai ver ou revistar os verdadeiros culpados? Lançar-lhes suspeitas? Ameaçá-los com armas quase letais?

Não, de modo nenhum... estendem-lhe passadeiras vermelhas, fazem continência, adulam, batem palmas, sorriem...

Quase a mesma coisa que fazem aos vigaristas, aos ladrões, aos corruptos, aos ricos da nova geração...

Pelo menos cá, em Portugal, é assim.


terça-feira, 16 de novembro de 2010

DIÁLOGOS DE ACORDAR

Bom dia, disse ele.

Bom dia, disse ela.

Eram assim, quase todos os dias, os DIÁLOGOS DE ACORDAR. Houvesse linha telefónica, que a distância não contava.

Ele, longe, cada dia quase em seu lugar, gestor, enólogo, a tentar colocar os seus vinhos nos melhores mercados.

Ela, em casa, no seu dia a dia de psicóloga, a tentar entender a alma e as ansiedades dos outros.

Assim começavam o dia.

Falavam os dois, do trabalho desse dia, diziam palavras bonitas um ao outro e, assim, o dia ia correr bem!

Ao fim do dia, cansados do dia, ela esperava o toque. De telefone na mão... quase ansiosa.

A voz dele, a contar do dia, das vendas conseguidas, das perspectivas de mais negócios... a voz dela, das novidades da família, do trabalho esgotante nesse dia, do cansaço, da saudade...e tudo acabava com troca de mimos, com palavras doces, com  renovar de promessas.

Esta era sempre a melhor parte do dia, a dos DIÁLOGOS DE ADORMECER.

Mas, quando ele estava em casa, os diálogos adormeciam juntos...

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

AFONIA

Ficou afónico, tinha gritado imenso durante o jogo.

Como costume tinha ido com o grupo habitual ao futebol, sempre juntos, para o terceiro anel, bem no alto do estádio...

Altura para descontrair, para estar com os amigos, quase todos os quinze dias, durante a época do futebol.

Uma tradição desde os tempos da Faculdade.

Almoço de conversa e de vinho, boa disposição, e depois o futebol, a equipa de sempre, a bola a correr, os apupos ao árbitro, as assobiadelas, o agitar dos cachecóis, o desfraldar da bandeira gigante, o escutar, pela telefonia com auscultadores, o relato do jogo no campo do rival, uma cerveja que se bebe... mas naquela tarde ele gritou em demasia, gritaram todos em excesso e beberam mais cervejas, bem geladas.

O almoço, naquele dia, tinha pedido mais álcool, o entusiasmo era maior e o jogo animava as hostes com as avançadas de assalto à baliza do adversário, os passes quase de mágica do número 11 e as bolas ao poste...

A cada bola perdida, a cada passo mal executado, a cada falta, a cada não entrada da bola na baliza era um coro de impropérios, gritados, urrados... e ele a notar a voz a querer faltar, a perder fonia, e tornar-se um rouco de baixo volume e num girar constante do botão do som, até que deixou de sair qualquer som.

Acabou o jogo e ele mudo, afónico, desesperadamente sem som.

Ainda por cima o jogo tinha acabado num nulo, um zero a zero quase a saber a derrota. Dois pontos perdidos, mais dois pontos afastados do rival...

E ele sem poder dizer nada... chatice, agora não podia fazer o comentário na rádio local, ali da Charneca... é que se tinha comprometido. E agora? O que ia dizer?

Resolveram colocar uma música em substituição do comentário de 3 minutos: The sound of silence! 



domingo, 14 de novembro de 2010

A PRIMEIRA SAÍDA

Conhecera-a no início das aulas, tinham entrado, de novo, para aquela faculdade.

Ela, de cabelo ruivo, olhos de um castanho muito claro, um mel de rosmaninho, uma tez quase pálida.

Ele, alto, olhos pretos, cabelo crespo e forte, e tom de pele bem moreno.

Quando se olharam da primeira vez deixaram os olhares presos um no outro, os corações em sobressalto, as emoções a transpirarem... mas não falaram um com o outro, apenas aquela troca de olhares e um assentimento mútuo para ficarem sentados perto um do outro.

Passaram a andar juntos, a trocarem as notas que iam apontando nas aulas, a comerem lado a lado na cantina universitária, mas quando acabavam as aulas ela ia para casa dela e ele seguia o seu caminho. 

Ele ainda não tinha  tido a coragem para a convidar a sair, imaginava convidá-la para jantar, um jantar a dois, com velas, música ambiente, criados de camisa branca e lacinho preto e com copos de pé para o vinho. Tinha receio que o desiludisse com um não!

Mas ela aceitou, sem hesitações. Ele marcou mesa, foi buscá-la a casa e sentiu-se pessoa importante quando chegaram ao restaurante e disse que tinha mesa reservada.

Num canto, discreta, isolada o suficiente para consentir uma certa intimidade de conversa, a mesa, com uma toalha branca, imaculada, esperava-os. Escolheram o mesmo: rósbife, daquele muito fino, bem vermelho, com um molho espesso e bem quente, para contrastar com o frio da carne, acompanhado de esparregado, cebolas glaceadas e batatas fritas, das redondas, muito finas, estaladiças... 

Ela preferiu um vinho rosé, ele um tinto. Brindaram, olharam-se nos olhos, beberam e sorriram um para o outro.

A sobremesa  foi, também, partilhada... bolo de chocolate, a desfazer-se, quase, numa mousse líquida, saborosa. Café com um pau de canela e a refeição a terminar... mas a conversa não.

Pegou-lhe na mão e não disse nada... apenas deixou os olhos sorrirem-se-lhe. Ela anuiu com outro sorriso de olhar...