sábado, 6 de novembro de 2010

A FLAUTA

Era magro, alto, vestia de preto! A flauta cromada sobressaía elegantemente do escuro que ele vestia,  do escuro do piano, que estava logo ali atrás, e do escuro do palco. 

Apenas dois focos de luz, sobre o flautista e o pianista.

Tocou-se Mozart, Haendel, Fauré, J. S. Bach e Taffanel.

O som saía perfeito, sem hesitações, sem desmaios, naquele arrastar de sons que a flauta tão bem sabe transmitir. O piano, um Steinway & Sons, de cauda, meio aberta, suportava e acompanhava maravilhosamente bem o som da flauta.

Um concerto, digno de um Ramo Grande!

É a cultura a aproximar-se das periferias, é a cultura a democratizar-se, a ser acessível, a tentar ser banal.

E a sala aplaudiu de pé...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O QUARTO 502

O voo estava marcado para as 8h00. Queria dizer que tinha de estar no aeroporto pelas 6h00. Foi o que lhe disseram na agência de viagens: duas horas antes da partida.

A fila para o "check in"  já estava longa e só um balcão a funcionar. Odiava aquelas filas, aquelas esperas. Era sempre a mesma ansiedade da partida, uma espécie de nervosismo que o tornava impaciente.

Ainda conseguiu um lugar junto à janela, lá atrás, quase na cauda do avião, mas ia à janela. Gostava de ver o avião a levantar, de ver as casas a ficarem pequeninas e bem lá em baixo, as ruas e estradas a tornarem-se carreiros, linhas, como se olhasse um mapa de estradas. Depois já só via os montes, os rios, as albufeiras e, a partir de uma certa altura, atravessava um acolchoado de nuvens e ficava acima de tudo. O céu azul, forte, luminoso e por baixo aquele colchão das nuvens, brancas, compactas...

A viagem decorreu sem incidentes, adormeceu a sua ansiedade durante quase todo o voo e, na altura da descida, lá se foi quase debruçar sobre a janela disposto a não perder pitada da aterragem. A descida através das nuvens, o aparecimento das cúpulas dos maciços ainda cobertos de neve, depois os carreiros das estradas a engrossarem, os carros a distinguirem-se, os aglomerados de casas, os campos bem tratados, as luzes do aeroporto, o barulho do trem de aterragem a sair, os flaps para cima e o bater no chão, o chiar dos pneus, o barulho do jacto invertido a frenar aquele enorme pássaro metálico, até à paragem junto ao terminal.

Agora o quase percurso inverso ao da partida, a espera das malas, o táxi para o hotel, de novo o check in, agora mais tranquilo, para receber a chave do quarto.

Número 502, com vista para o mar, um quarto amplo, luminoso, e uma varanda que prometia tranquilidade.

A cama larga e macia pedia um descanso e ele que andava bem cansado, a semana de intenso trabalho, a preparação para a apresentação do trabalho de logo à noite. 

Deitou-se um pouco, só um passar pelas brasas, disse-o para consigo mesmo, depois um banho, o vestir do fato, gravata e o ir para a conferência apresentar o trabalho da sua vida, a sua promoção e a subida a um lugar de importância na empresa.

Assim fez, deitou-se um pouco, deixou os olhos fecharem-se e adormeceu, profunda e longamente... acordou passava do meio dia.  Estremunhado, confundido com a luz forte do dia e, de repente, deu-se conta das horas, da conferência, do trabalho que não apresentou... Levantou-se a correr para a casa de banho. Tinha de arranjar uma desculpa...

Debaixo da porta do quarto já tinha uma carta... da empresa, curta, a rescindir o contrato.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

SUSTO APAVORADO

Tinha apanhado cá um susto... Nem no dia das bruxas ficou tão assustada!

O corpo tremia, o coração batia acelerado, socava-lhe o esterno com força e rápido... quase a querer soltar-se do peito e a sair pela boca. As mãos não conseguiam segurar nada, os dedos fribilavam, como que lhes perdera a força, a capacidade de preensão... queria telefonar mas o telemóvel caiu-lhe ao chão duas vezes, saltou-se a tampa da bateria, teve dificuldade em colocar tudo no sítio, e depois, com o nervoso, digitou mal o código e o telemóvel acabou por ficar bloqueado.

De facto, aquela sombra imensa a correr atrás dela, quase a engoli-la, no túnel mal iluminado da estação de metro causou-lhe pavor... imaginou um drácula, um vampiro, mesmo  o Frankenstein a persegui-la e ela a fugir, a tropeçar num chão cheio de obstáculos inesperados. Até ao momento em que cai, se estatela e fica sem forças para se levantar, tenta gritar mas nada sai da sua boca... a voz ficou prisioneira do seu corpo,  os esforços para se levantar foram infrutíferos e a sombra a ficar maior, a ganhar forma e volume, a chegar-se junto a ela e ela a entrar em pânico, a quase estrebuchar de pavor, e a voz sem sair, os gritos a ficarem mudos, numa sensação de impotência total. 

E, no momento em que ia ser apanhada por aquela sombra imensa, no momento em que ia ser estrangulada pelas mãos daqueles braços negros de sombra, fortes e impiedosas, ao virar-se para tentar fugir delas caiu da cama abaixo... e acordou estremunhada, assustada, apavorada, sem saber o que era sonho e onde estava a realidade.

O candeeiro da mesa de cabeceira projectava, na parede da frente, uma sombra ameaçadora provocada pelo livro que acabara de ler naquela noite: "Sombras de medo".


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

MUDANÇA DA HORA

A hora ainda vai cedo mas o dia já vai longo, escureceu e tornou-se quase noite e o dia ainda falta para acabar.

São os homens a querer mexer no tempo, a trocar as horas, a confundir e a querer uniformizar o que varia continuamente ao longo do ano.



A Terra gira, oscila e orbita à volta do sol. Já Copérnico o sabia e Galileu quase ia morrendo queimado na fogueira por afirmar o mesmo.

Os dias não são iguais, aumentam e encurtam num ciclo magistralmente orientado pelo Universo. Por isso, no Verão, os dias têm mais tempo de sol e no Inverno são, necessariamente, mais curtos.

Ao quererem dar a volta ao tempo os homens tentam enganar esse mesmo tempo e pretendem ganhar tempo ao tempo.

Acorda-se mais tarde para que a luz solar já esteja "acesa" e facilite o despertar do dia mas, pelo contrário, deixam que anoiteça mais cedo e o fim do dia torna-se mais difícil de acabar... é que é já noite e ainda é cedo.

Coisas, não do tempo, mas dos homens... 

terça-feira, 2 de novembro de 2010

FINADOS

É o dia de finados... dia dos fiéis defuntos, foi assim que sempre tinha ouvido chamar àquele dia.

Antigamente, nesse dia, tinha de usar uma gravata preta, em memória e homenagem aos familiares falecidos: o avô paterno, a bisavó da Cunha, uma série de tias e tios que nunca conhecera.

Havia missa, a cerimónia de prece e encomendação das almas e a visita ao cemitério, às campas e ao jazigo da família.

Aprendeu, assim, a respeitar os mortos, ou melhor, a memória dos vivos que foram. Sabia das histórias dalguns desses familiares, do que tinham feito, como tinham vencido na vida, como contribuíram para o desenvolvimento da terra.

Incutiram-lhe esse respeito e soube-o sempre respeitar.

Mas hoje, mais uma vez, ficou triste, triste com este país, com este estado. Um estado que é feito da massa dos seus governantes.

A propósito da data, foi apresentada uma reportagem sobre um cemitério, em Moçambique, onde repousam os restos mortais de muitos soldados mortos em combate, ao serviço de Portugal, durante o período da guerra colonial. O espaço estava completamente coberto de mato, as cruzes e as campas tinham de ser adivinhadas, tal a densidade vegetal.

Dois exemplos, depois de muita catanada para deixar a descoberto as lápides e as cruzes, do que deveria ser um cemitério que honrasse a memória dos que lá estão :




Que país é este que abandona assim aqueles que mandou morrer pelo império? Que estado é este que esquece aqueles que foram mortos sem saber porque morriam?

E o estado democrático, os governos, o que têm feito?
Respeitam os mortos da pátria? Têm cuidado dos restos dos seus soldados?

Nem sabem, nem querem saber... ou melhor, sabem, mas não querem saber.

Falta muita cultura, falta educação, falta respeito... mas com estes governantes, com estes políticos, com esta assembleia do povo que seria de esperar? Pois se eles nem os vivos respeitam...




segunda-feira, 1 de novembro de 2010

OS SANTOS

Encheram-lhe a casa de figos, romãs, castanhas, passas, nozes e avelãs, fora o vinho abafado, a jeropiga, a água-pé e as célebres broas dos santos.

É a tradição! Ainda se mantém. Felizmente.

É a festa de Todos-os Santos. É o dia em que os maus pagadores, quando dizem que só pagam no dia de São Nunca à tarde, vão ter a ocasião e a oportunidade de o fazer...

É também a altura de pedir o "Pão por Deus": crianças que se juntam e andam de porta em porta a pedir o "Pão por Deus", numa tradição parecida com a das Janeiras; entoam cânticos tipo:

"Pão por Deus,
Fiel de Deus,
Bolinho no saco,
Andai com Deus."



Ou então:

“Pão, pão por Deus
à mangarola,
encham-me o saco,
e vou-me embora"


 Ou ainda:

"Bolinhos e bolinhós
Para mim e para vós
Para dar aos finados
Qu'estão mortos, enterrados
À porta daquela cruz

Truz! Truz! Truz!
A senhora que está lá dentro
Assentada num banquinho
Faz favor de s'alevantar
P´ra vir dar um tostãozinho."

Se os donos da casa não dão nada: 

"Esta casa cheira a alho
Aqui mora um espantalho
Esta casa cheira a unto
Aqui mora algum defunto."

E, se dão alguma coisa:

"Esta casa cheira a broa
Aqui mora gente boa.
Esta casa cheira a vinho
Aqui mora algum santinho."

E lá vão enchendo o saco de pano com frutos secos, broas e romãs.  

As tradições que ainda se vão mantendo... um pouco do Portugal que não morre! 

domingo, 31 de outubro de 2010

HALLOWEEN

Decidiu comemorar o dia das bruxas da melhor maneira.

Foi até Salem, a norte de Boston, no Massachusetts. 

Tinha lá estado há uns anos atrás, na mais famosa cidade das bruxas, mas longe do dia 31 de Outubro.

Ficara-lhe a curiosidade e o desejo de viver uma verdadeira noite de bruxas, bruxarias, encantamentos, magias e de medos.


E foi... desta vez decidiu-se.

Recuou à Idade Média, trajou-se de mago Merlin, encarnou o espírito da Távola Redonda, do Rei Artur e da espada Excalibur, acompanhou-se de um livro grosso, de capas duras, onde tinha escritas, e anotava, as magias, as poções, os rituais, os encantamentos... 

Chegou no momento em que o conselho dos magos e das bruxas se reunia numa roda, sob a presidência do mago chefe; no meio da roda o caldeirão, sobre um lume vivo, um vapor arroxeado saindo da fervura da poção, um cheiro a enxofre misturado com mirra, e o mago chefe a falar... em bruxês.

Vozes concordantes, murmúrios discordantes, e o mago chefe, auxiliado pela bruxa Utopia, à medida que falava, ia temperando aquela poção com escamas de víboras, pedaços de pele de sapo, algumas unhas de morcego, dois ou três dentes de caracol babado e Mandrágora, muita Mandrágora.

O tom da discussão ia subindo, as divergências quase ao rubro, os magos a contradizerem as bruxas e estas a entrarem em histeria, a fazerem soltar faíscas das suas varas de azinho, incendiando o ambiente. Raios, coriscos, trovões e uma chuva ácida a cair no meio daquela roda alucinada.

Até que a poção ficou pronta e o mago chefe a foi distribuindo por todos... E teve efeito quase imediato e a discussão acabou com um acordo comum. A roda desfez-se e as bruxas e os magos saíram contentes da roda em alegre cavaqueira.

Enquanto ali estava, naquela roda de bruxas e de magos, lembrou a discussão do orçamento... Será que já tinha  acabado? Será que teriam chegado a algum acordo?



sábado, 30 de outubro de 2010

VENTANIA

Hoje foi um dia assim, de muito vento... vendaval, mesmo. 

Depois veio a chuva, forte, grossa, inundante.

Chuva forte e vento forte dão temporal.

Durou pouco mas o suficiente para arrasar e arrastar tudo o que aparecia à frente.

Devem ser as bruxas, que andam por aí, a descabelarem-se, a desarranjarem-se, a descomporem-se... é que amanhã é o "Halloween" e elas devem estar a preparar-se para a festa.

E Salem, a terra delas, deve estar num virote!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

ROSAS VERMELHAS

Ele oferecera-lhe um "bouquet" de rosas, vermelhas, de um vermelho forte, profundo, a expressar a intensidade e a força dos afectos que ele sentia por ela... Decerto que a reciprocidade dos sentimentos era igual.



Tinham-se conhecido há já alguns anos, em Cracóvia: um encontro casual, de rua, de duas pessoas que se descobriram a falar a mesma língua, em terra estranha.

Estavam ambos, ali, por motivos profissionais, em áreas diferentes de trabalho.

Começaram a encontrar-se, a matar saudades do falar a língua materna e foram-se encantando na estima, dedicando-se um ao outro e, de forma doce, deixaram que amizade se fosse cimentando, que a cumplicidade se estabelecesse naturalmente, que a proximidade dos pensares os unisse de forma única e especial.

Eram como dois gémeos, separados no viver, mas não na dedicação, na cumplicidade, nos afectos e nos sentires.

Conviveram momentos de grande aproximação, de mútuo entendimento, mas sempre sem paixões ou envolvimentos amorosos.

E, se a vida os aproximou, a vida os afastou. A profissão de cada um colocou-os em lugares diferentes, distantes, acabando, de um dia para o outro, aquela presença física, quotidiana, aquele encontro de conversas.

Mas as rosas vermelhas, essas, nunca deixaram de estar presentes. Apareceram logo no segundo encontro: ele levou-lhe três rosas, vermelhas, ela emocionou-se e ele nunca mais deixou de lhas levar.

Ficaram a ser quase que como uma espécie de talismã, um símbolo especial para eles.

Agora, afastados, conceberam um ramo de rosas virtuais, bem vermelhas, que enviavam diariamente um ao outro, através das conversas que tinham na net.

Mas hoje não, hoje, foi ele que recebeu um verdadeiro ramo de rosas, um "bouquet" de rosas vermelhas, de um vermelho forte, profundo, a expressar a intensidade e a força dos afectos que ela sentia por ele...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O SAMOVAR

Trouxera-o de Minsk. Comprou-o num antiquário e  custou-lhe uma pequena fortuna, em rublos.

Em prata, todo desenhado, com motivos florais e arbóreos, de uma minúcia e perfeição que quase diria ter sido feito com a perícia e a paciência de um chinês. De um dos lados, uma plantação de chá, com duas ou três figuras de mulher a colherem as folhas das plantas. Do outro três flores, provavelmente de Camélia sinensis.


Tinha-o comprado porque lhe agradara a peça mas nunca lhe passara na ideia usá-lo para fazer o seu próprio chá. Para isso tinha um bule, antigo, de porcelana, que nunca lavava, e onde preparava, com algum ritual, o seu chá.

Chegava habitualmente cedo a casa. Ocupava parte do dia no escritório, despachava o correio e o expediente e, depois, fazia o trajecto a pé até casa; uma forma de manter a sua actividade física neste passeio diário de cerca de 30 minutos. 

E chegava quase ansioso pelo seu chá.

O seu chá Oolong, com sabor entre o chá preto e o chá verde, num balanço de aroma e paladares, mas forte na intensidade com o amargo deixando um resquício de sabor adocicado. Preferia o cultivado nas Montanhas de Wuyi enrolado em longas folhas curvas. Encomendava-o na mesma casa de chás e cafés, já há muitos anos, sempre com a mesma qualidade.

Depois de feito, sentava-se na varanda, com vista para o mar, e ali ficava, escutando Mozart, Beethoven, Bach, os seus favoritos, bebendo o seu chá e imaginando cenários para a sua próxima peça...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

EM PESSOA

Aproveitou uma ida ao Bairro da Bica e de Santa Catarina e por ali se ficou um pouco. Fazia tempo que não andava por aqueles lados... o miradouro a perder-se de vistas sobre o Tejo e a outra margem, o Adamastor, o elevador da Bica, o Largo de Camões, o Largo do Chiado e, inevitavelmente, a Brasileira do Chiado. 

Veio-lhe a vontade de um café e de um pastel de nata. Mesmo acabados de fazer, a transbordar de canela, com um cheiro, um aroma, irresistíveis.

Procurou uma mesa desocupada naquela esplanada soalheira, repleta de gente: turistas de câmara fotográfica em punho, com plantas da cidade abertas sobre as mesas, um ou outro cidadão pacato na leitura do jornal diário, mas nada mesas nem de cadeiras livres.

E a bica a arrefecer e o pastel de nata a esmorecer...

Uma cadeira livre, estranho ser de bronze, uma mesa, metade livre, com um tipo estranho, do outro lado, sentado, a ler uns papéis, de chapéu, tão absorto na leitura que nem deu pela pergunta se se poderia sentar naquela parte da mesa.

Como quem cala consente... assim concluiu, e ali se sentou a saborear o seu pastel, ainda morno e de massa estaladiça,  a bebericar a bica, também já morna, e a olhar quem passava; não viu a menina das tranças pretas, nem o Chiado, do alto do pedestal, a declamar.

Mas, o que se deu conta, de repente, foi que estava ali, sentado, ao lado do seu poeta, o dos heterónimos, o fingidor... nunca lhe tinha acontecido isto: estar a beber a bica com o Pessoa, em pessoa.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

CHUVA MIUDINHA

O dia tinha alvorado com chuva, não daquela grossa e pesada, mas da outra, da miudinha, pegajosa, molhada, insistente, apesar de tudo, pouco convincente.

Foi chuva de pouca dura.

O sol, esse, faz lembrar aquele anúncio das pilhas: dura, dura, dura... e lá apareceu, a espreitar por entre as nuvens, a  afastá-las com decisão e a deixar o dia feliz. E ainda bem, porque o sol alegra, ilumina, aquece e dá cor.

Mas o outono não pode ser só sol.

O outono precisa de dois ingredientes: da chuva e do fresco. São as oliveiras a pedi-los para agora, quase em vésperas da apanha da  azeitona, os campos que começam a ficar sequiosos de água, e com necessidade de se prepararem para a semeadura, a água que é precisa para infiltrar bem a terra e criar as suas reservas subterrâneas.

E a manhã foi assim: acordou com chuva e acabou em sol.

É também esse um dos encantos desta época: a imprevisibilidade do tempo, sem rotinas, ausente de estereótipos, livre de regras e de determinações.

Como um livre pensador, descomprometido, aberto... de  verdadeiro "free mind".


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

PASSEIO DOMINICAL

O dia acordou lindo, cheio de sol, fresco como seria de esperar numa manhã de outono.

A bica habitual na Versailles, um ritual de domingo, desta vez foi alterada. Meteu-se na moto, atravessou a ponte, e foi até Sesimbra.

Ver o mar de perto, naquela praia de areia estreita,  junto às arribas, a sentir-lhe o cheiro a sal, a conversar com as ondas e segredar à espuma.

Ao sair reparou nas marcas das suas pegadas deixadas na areia daquela maré vazia e pensou que, dali a pouco, iriam desaparecer assim que as primeiras águas da maré a encher ali chegassem.

Fáceis da apagar, estas marcas de areia; assim outras, as da vida, às vezes se pudessem desfazer com a mesma facilidade.

A bica, essa, foi tomada num café de pescadores, acompanhada de uma broa de Alfarim, apenas levemente perfumada a anis e tostada, como ele gostava.

domingo, 24 de outubro de 2010

CASTANHAS

Quentes e boas!, como diz o pregão!

Quentes, quase sempre, mas  boas são as assadas naqueles assadores de barro, com o carvão em brasa por baixo, preparadas e vendidas no meio da rua, naqueles triciclos ou em pequenos quiosques.

São um dos ícones do outono e do inverno!

 
Os castanheiros estão no seu pleno, os ouriços, bem espinhados, começam a soltar-se da árvore e a libertar as castanhas.

Têm um sabor único, lembram o frio, as mãos geladas a aquecerem-se no cone, feito de folhas de papel de jornal ou das páginas amarelas, cheio de castanhas quentes, o comê-las na rua, a caminho de casa, à dúzia, que ficam mais baratas.

No dia de São Martinho, que está quase a chegar, a celebração do Santo é feita com jeropiga ou água-pé e as imprescindíveis  castanhas.

As castanhas fazem parte da tradição, da época, dos sabores e dos cheiros da infância, assim como aquele fumo, quase ecológico, dos assadores.

Quentes e boas!, como diz o pregão.

sábado, 23 de outubro de 2010

LUA CHEIA

É sempre assim, cada vinte e oito dias, mais alguns minutos ou horas, lá aparece este círculo redondo. A Lua Cheia, claro. Sem luz própria, a pedi-la emprestada ao sol. 
Em cada ciclo mingua e desaparece, e depois volta a crescer até ficar de cara redonda. Sempre assim, mês  a mês, ciclo a ciclo. 


Fica particularmente bonita quando aparece por detrás da serra, a emergir da encosta cheia de árvores, criando efeitos de sombras chinesas, pontiagudas. Tem noites especiais em que brilha intensamente, tão límpida e luminosa que quase parece um sol, o sol da noite!

Dizem que tem buracos, duendes, um São Jorge a cavalo, um homem com um molho de silvas às costas, que tem bruxas, que à sexta-feira liberta os vampiros e os lobisomens, que a roupa posta a secar ao luar da lua cheia, depois de vestida, deixa manchas no corpo.

Não há dúvida que a lua desperta magia e encanta. Será por ser mulher? Ou porque reflecte a energia que lhe vem do seu homem-sol que lhe faz abrilhantar, nesta altura, os encantos que ela esconde durante o resto do seu ciclo lunar?

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

SEM SONO

Custou-lhe adormecer naquela noite.

Não sentia remorsos de nada, nada lhe pesava na consciência, não andava stressado, nem com problemas para, nem por, resolver.

De ansiedade nunca se queixou, tirando nas alturas em que tinha exames ou provas de qualificação.

Também não estava apaixonado e os seus amores estavam perfeitamente estabilizados.

Só se fosse daquele café forte que tinha bebido depois do jantar. Estava a sentir-se com sono e tinha de aguentar aquela conversa de circunstância com os convidados e achou que a melhor maneira seria pedir um café: duplo, acentuara!

Bebeu-o de um trago, como sempre fizera, e sentiu bem o travo da cafeína... que lhe deu a espertina suficiente para aguentar a conversa que ainda se prolongou por uma hora bastante comprida.

Saiu do restaurante e foi a pé para casa, a sentir o vento fresco da noite. Sabia-lhe bem. Lá dentro, no restaurante, estava calor, abafado, e aquele quase frio da rua ainda lhe veio trazer mais alerta aos sentidos.

E, naquele tempo em que não adormecia, pensou que horrível seria ter insónias como esta, assim, todas as noites, acordado, sem sono, olhando a noite passar, olhando o escuro de olhos abertos,  com o espírito cansado mas acordado...

Pois é, quem lhe mandou tomar aquela bica forte?

Agora não dorme, fica com sono!

Maldita cafeína! 

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

MARVÃO

Aproveitou uma terça-feira de liberdade e foi até às alturas, até um dos seus refúgios. Era sempre que ali ia quando se queria encontrar consigo próprio.

A subida, de curvas e contra-curvas, e o ar fresco da manhã, meio feito de fumos das queimadas e meio de neblinas frescas, eram como um bálsamo que ia sentindo a percorrer-lhe o corpo e os sentires à medida que se aproximava daquele ninho de águias.

Parou o carro lá bem no alto, saiu lento e foi encostar o seu olhar à muralha junto ao jardim. Ficou ali a ver a vastidão do mundo que o olhar permitia, a imaginar-se personagem de um tempo longínquo, de cristãos e de mouros, de conquistas e de lutas...

E o castelo ali ao lado! Faz tempo que lá não ia, ouvir os ecos da cisterna escura, cisterna que nunca o ajudou nas respostas  que procurava porque lhe devolvia sempre as perguntas que lhe fazia, subir às muralhas, entrar naquele quarto sem janelas, mesmo no meio do castelo, e ir ao topo acenar a Castelo de Vide e à Senhora da Penha.


Percorreu todos aqueles lugares, deixou que a memória soltasse recordações, que as vivências se tornassem presentes, que a solidão daquele lugar lhe fizesse a companhia que precisava naquele momento.

Entrou no carro revigorado, sentindo-se castelão do seu castelo de sonhos.


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

ANIVERSÁRIO

Faz 35 anos.
Uma vida... ou quase nada, de uma vida!
Já passou por muito, já andou perto do Além, mas agora está bem, sempre bem, presente. 
Alegre, bem disposto, disponível e a trabalhar.
De família constituída, a completar, quando?
Boa sorte e que a vida te sorria. Não precisa de ser sempre, mas que seja muitas vezes.
Esquecia o mais importante:



PARABÉNS, filho.
À tua saúde!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O TARRO

É o utensílio, por excelência, do pastor alentejano.
Muitas vezes manufacturado pelo próprio, serve para o transporte e conservação dos alimentos. Como se fosse uma marmita "termos" dos tempos mais antigos, não só pela forma cilíndrica, com uma asa para o transporte, mas também pela capacidade que tem em manter a temperatura dos alimentos por um bom par ou pares de horas.
É relativamente fácil de fabricar, quase que exclusivamente com cortiça, um pouco de madeira e uma boa faca ou canivete. Usa-se uma prancha rectangular de cortiça, aparada, que se dobra sobre si própria, formando um cilindro que se encerra e fixa com pregos de madeira. A base é um disco de cortiça que se encaixa por pressão ao cilindro de modo a assegurar um perfeito estancamento. Também este fundo é fixado pelos tais pregos de madeira. Faltam duas coisas: a tampa, de bordos cónicos de modo a facilitar o encerramento e abertura da mesma, e uma asa para o transporte, feita de uma faixa de carvalho ou castanho, fixada lateralmente por pregos maiores, também de madeira, e que permitem o oscilar da mesma.


Hoje, que se fala tanto no aproveitamento dos recursos naturais, que se fala tanto em reciclagem, em desperdício, não será o tarro um bom exemplo do aproveitamento dos recursos naturais?  A cortiça isola do calor e do ruído, é impermeável, é resistente ao uso. E o custo é insignificante.

Além do mais, se for bem cuidado, não se estraga e pode durar uma vida. E, se se estragar, devolve-se à terra que esta se encarrega de o reciclar.

Há alturas, quando estamos cercados por angústias,  quando  os mal-estares nos envolvem o viver, quando as tristezas nos roubam a alegria, quando as desilusões cortam todas as esperanças, que apetece ter um tarro à mão para guardar os sorrisos, as alegrias, as esperanças, as aspirações ao bem-estar.  Certamente que, dentro do tarro, estarão abrigados, isolados e conservados, e, em qualquer momento, podem ser devolvidos, ao próprio, com a pureza inicial.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O CONTADOR

Comprara-o num leilão. Há uns anos já. 

Sempre sonhara ter um, para guardar as jóias e os segredos, dizia.

E lá o conseguiu arrematar, mas quase o ia perdendo. No meio da licitação, quando o pregoeiro já estava para bater o martelo pela segunda vez, apareceu uma outra interessada naquele contador,  uma coleccionadora de contadores, dizia-se. E o que era para ter custado 100, passou a 170, mas conseguiu-o.

Escolheu o sítio mais nobre da casa para o colocar. Ficava à vista de quem entrasse, era gabado por quem o via pela primeira vez e ela não se cansava de contar a história-quase-aventura da sua aquisição. Naquele sítio, longe do quarto, não era prático para guardar as jóias, mas sempre deu para guardar os seus segredos.

Não era fácil de abrir... porque também tinha um segredo: uma peça de madeira que se enfiava entre os dois painéis da frente, que se abriam como portas e deixavam soltar uma espécie de botão que permitia abrir apenas uma gaveta. A chave da fechadura da porta apenas era elemento decorativo, para enganar quem o queria abrir sem lhe conhecer o segredo. Depois, puxava-se a gaveta e premia-se num outro botão que deixava abrir uma  porta interior. Dessa porta tirava-se uma outra peça que se fazia deslizar por um buraco junto à dobradiça e, assim, de segredo em segredo, ia abrindo aquele contador que, ao ser aberto na totalidade, deixava à vista um segundo conjunto de gavetas onde ela podia ir guardando os seus segredos.



Uma semana depois do dia em que partiu, uma semana depois de ela ter deixado a casa para sempre, a filha tentou abrir o contador, mas não conhecia o segredo; tentou de várias formas, usou lâminas de facas, chaves de fendas, até tentou desaparafusar as dobradiças, mas não conseguiu. Não podia estragar aquela preciosidade e deixou-o ficar, assim, fechado, como um sacrário em lugar de destaque.

Foi a melhor maneira de recordar a memória da mãe e a preservação dos seus segredos...

domingo, 17 de outubro de 2010

E AGORA?

Já saiu, um parto difícil, prolongado, com ventosas, cesariana e saiu um perfeito aborto. Uma lástima, uma desgraça, um aperto, um sufoco... este orçamento. 

E agora?

Como vai ser daqui para a frente? Como vai o povo subsistir? Como vamos viver com dignidade?

Porque é que os responsáveis de tudo isto, os que andaram durante anos a enganar o povo, a dizer mentiras, a encobrir realidades, a esbanjar dinheiro em empresas públicas, a dar tachos à clientela, a pintar o negro de cor de rosa, porque é que não vão presos?  Porque é que não vão para a cadeia como delinquentes? Porque é que o responsável, não é expulso daqui p'ra fora?

Será que a política perdoa tudo? Será que a democracia, esta democracia, premeia? 

E os outros? A classe trabalhadora? Vai ter de pagar os fatos Armani do sócrates?, as viagens de avião dos ministros apressados?, os ordenados dos gestores que  ganham milhões?, os carros do estado ao serviço sabe-se lá de quem?, os prejuízos dos institutos das estradas de Portugal, das águas e de todos essas empresas públicas?, da Refer?, o gasóleo verde para a Mota-Engil?, os mini-impostos da banca?

Acho que chega. Basta. Acabem com a corja, acabemos com a corja!

Gosto do nome, corja... tem muito de asco, de nojo, de vómito... 

Por isso CORJO-ME para este governo de M...



sábado, 16 de outubro de 2010

O SIM

Prometo sim, disse ele.

Prometo sim, disse ela.

E prometeram-se em amor, em cumplicidade, em vida comum. 

Prometeram companheirismo, prometeram amizade, prometeram afectos, prometeram respeito.

Sonharam, conquistaram, uniram.

Hoje sorriem, olham um para o outro com ar juvenil, apaixonado, terno.

No outono da vida descobriram a primavera de mãos dadas, procuraram beijos floridos, trocaram abraços de ternura, olharam-se de encantamento, segredaram intimidades.

Sim, disseram os dois, a sorrir ao dia, a sorrir à vida, a sorrir ao amor!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

FOLHA

Diante da janela tinha um plátano, uma árvore velha, de tronco gordo, ramos fartos e bem distribuídos, com a sua pele característica, como se fosse malhada.

Era inverno e a árvore estava totalmente despida, feita nudez quase obscena de tanta ostentação de corpo. Assim que os primeiros sóis de fim de inverno apareceram, assim que os dias começaram a clarear de mais luz, assim que os frios começaram a ir embora para outros lados, a árvore começou a ganhar consciência da sua nudez, do seu atrevimento ostensivo e começou a brotar  em cada ponta ou curva dos ramos um gomo verde que foi crescendo quase a ver-se de dia para dia: ontem uma protuberância de um verde desmaiado, hoje já um broto a querer parir-se da casca tenra, daqui a pouco um esboço de folha bem verde a abrir-se no ar. A árvore como que a vestir-se sorrateiramente, de forma delicada.

Fixou-se no ramo que ficava mais perto da sua janela e foi, ao longo do tempo, da primavera, do verão e do outono, apreciando o desenvolvimento e crescimento daquela folha. De início de um verde tenro e frágil, muito maleável, de bordos macios e suave ao toque, mais tarde, já com a sua forma de quase estrela de cinco pontas, grande, maior que a palma da sua mão, a textura tornou-se mais consistente, os bordos mais ásperos e quase cortantes, a pele a criar veios que lhe tiravam bastante daquela maleabilidade juvenil, o verde mais forte e mais adulto. Com o verão a folha começou a mudar, a ficar com um verde mais esmorecido, a ficar mais rija, a ondular-se no bordo, a criar manchas que amareleciam, acastanhavam ligeiramente, ou começavam a avermelhar... tudo feito de um continuado quase imperceptível para quem se dedicou à observação quotidiana daquela folha. 

Entrou o outono e a folha a ficar toda amarela, de um tom forte a transformar-se depois em castanho e, rapidamente, a tornar-se quase um fogo de vermelho.



A folha a enrugar-se, a perder flexibilidade, a quebrar as pontas por força das rabanadas de vento, pelo choque com as outras irmãs de árvore, pelos pingos fortes das primeiras chuvas de Setembro...

Ela olhou as suas mãos e imaginou-as folhas, comparou-as na sua evolução, no seu percurso de vida. Viu umas mãos velhas, de 84 anos, manchadas, de pele áspera e endurecida, com os dedos a entortarem, os nós das articulações a deformarem... 


O que numa folha muda num ano, demora mais tempo, substancialmente mais tempo a mudar nas suas mãos... 

As suas mãos, como folhas presas aos ramos, que são os seus braços, de uma árvore, também velha, mas de raízes móveis, raízes que lhe dão a liberdade de passear a vida, deambular no mundo e não se quedar ali, como aquela árvore, todo o tempo, diante da sua janela...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O JARDIM

Aproveitou a hora do almoço e foi passear no jardim.

Nessa dia não tinha fome, o pequeno-almoço ainda mantinha o seu efeito de saciedade, e, por isso, dispensava a refeição. Se fosse preciso, pela tarde, tomava um iogurte, comia uma bolacha integral e, de certeza que se aguentava até à hora do jantar.

Sabia-lhe bem passear ali, tudo  bem arranjado, as árvores do outono com as cores únicas da época, umas mais despidas que outras, os canteiros cheios de flores, água em abundância, a passar de um lago para outro, papiros, canaviais, os cisnes, os patos, tudo bem arrumado numa paz e num sossego que só faziam bem à alma.

Gostava de se sentar num banco de pedra, daqueles baixos, meio escondido por um choupo frondoso, junto à borda de água. Dava para ver o céu e as copas das árvores a reflectirem-se nas águas quietas, para olhar as pessoas a passearem na outra margem: casais enamorados, abraçados, enrolados em beijos, outros de mão dada em conversa tranquila, um ou outro passeante apressado, crianças correndo, carrinhos de bebé empurrados por mães solitárias ou casais jovens, idosos a passear no seu vagar, estudantes à procura de um poiso, para namorar(?), para estudar (?)...

Dali, daquele posto de observação, via uma parte do mundo, uma parte da vida... a parte ajardinada do dia, onde tudo passa tranquilo, onde apetece sorrir, onde a paz domina, as flores cheiram, as árvores titilam as folhas suavemente, os cisnes navegam os silêncios sem esteiras...

Apetecia tanto ir ali, olhar, sentir, fruir, carregar baterias, renascer os sentires! 


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

RECICLAGEM

Já sabia: o azul era para o papel, o amarelo para os plásticos e o verde para o vidro.

E fazia tudo certo: colocava os jornais já lidos no saco azul, as embalagens do iogurte, depois de passadas por água, no amarelo e a garrafa do vinho, também depois de passada por água, no verde.

Simples... a princípio ainda tinha de pensar nas cores e associá-las a cada objecto, mas ao fim de um certo tempo já fazia tudo automaticamente.

Assim que os sacos ficavam cheios, e ao fim de semana, lá ia, aos eco-pontos, levar aquilo tudo para reciclar.

Só não sabia o que fazer ao resto do lixo, só não sabia onde pôr tudo aquilo que lhe entrava pela casa dentro, pela vida dentro: a despesa excessiva do estado, os gastos supérfluos da governação e da administração pública, as obras escusadas e faraónicas adjudicadas, a dívida pública e os seus juros, os milhões a pagar de indemnizações aos "boys" do sócrates, a pouca vergonha que se vê por aí de organismos e empresas públicas, de ordenados, carros do estado, cartões de crédito,  as aposentações milionárias e acumuladas de gente que passou por empresas públicas apenas alguns meses, o que se vai ter que pagar em juros pelo resto da vida, tudo por causa deste primeiro-ministro  socialista que ontem disse e fez uma coisa, hoje diz e faz outra e amanhã irá, certamente, dizer e fazer mais outra, a desdizer-se, a contradizer-se, a aldrabar, a mentir descaradamente com aquele ar de pinóquio  sempre bem apinocado...

Vai ter que se inventar, não um saco, mas um enorme contentor de cor apropriada: CASTANHA. E onde despejá-lo? Na residência do primeiro-ministro? Na assembleia da república? Em manifestações de rua? Ou nas urnas quando for a altura própria?

Será que vamos ter que aguentar e guardar este lixo durante tanto tempo? É que, tanta porcaria junta fede, enoja, causa vómito, causa revolta...