quarta-feira, 5 de junho de 2013

VOAR



"Uma vez que você tenha experimentado voar, você andará pela terra com os seus olhos voltados para o céu, pois lá você esteve e para lá você desejará voltar".

Leonardo da Vinci


(DO AUTOR - VOAR, NO ALTO!)








terça-feira, 4 de junho de 2013

DUENDES


No meu jardim vive um duende.

Sei que vive lá porque já o vi algumas vezes. Ele não se mostra muito, acho que ainda não ganhou confiança suficiente e, sempre que vê gente, esconde-se atrás de uma árvore ou de um arbusto. Por isso, só através da persiana, ou do janelo da porta de madeira é que o consigo observar. É de estatura baixa, aparenta aspecto jovem, de adolescente, mas não faço ideia da sua idade até porque, dizem, os duendes têm uma idade indefinida... podem ser velhos e conservar aquele ar de juventude, aquela irreverência, aquela disposição para brincar e para bailar...

Vive no jardim, mas não sei onde se abriga. Será que adormece debaixo da cameleira onde fica protegido pelas suas folhas grandes e brilhantes, ou se deita junto das alfazemas para se sentir, ao acordar, bem cheiroso? Ou, então, fez a sua casa debaixo do choupo, que está cabeludo até ao chão?

Anda vestido de verde e usa uma touca de folhas da cameleira, talvez para passar mais  despercebido quando brinca no relvado e não deixar que se lhe vejam as orelhas pontiagudas. E ainda não entendi se o que veste é um fato tecido de folhas, de fibras e de musgo verde, ou se é a sua própria pele, coberta de uma fina pelagem verde.

Dá-se bem com os bichos lá quinta... corre e brinca com os gatos, pula para tentar apanhar os pássaros, atira paus para os cães os irem buscar ou apanhar no ar, saltita de flor em flor atrás das borboletas, conversa longamente com os cágados ou, então, deixa-se ficar quieto a observar os peixes vermelhos do tanque, ao mesmo tempo que escuta o coaxar das rãs a aquecerem-se em cima dos nenúfares que estão pousados na água quieta...

Mas, do que mais gosta é de tratar das flores, tirar as folhas secas, guardar e cuidar dos frutos que estão a crescer não deixando que as formigas e os piolhos os ataquem, nem que os pássaros os debiquem, aparar as sebes das piracantas que fazem de muro para o seu mundo exterior e, quando as flores estão prontas para serem cortadas, faz uns ramos lindos que, delicadamente, deixa no parapeito da janela da sala.

Quem sabe, um dia, não nos vamos encontrar junto ao sobreiro que enche de sombras mágicas aquele recanto do jardim onde as rosas se juntam às malvas e os malmequeres  se encostam aos amores perfeitos?


(DO AUTOR - DUENDE NO JARDIM DAS MAGIAS)



segunda-feira, 3 de junho de 2013

BORBOLETAS


Não voam, esvoaçam! Andam pelo ar de uma forma única! Ora aqui, ora ali, sem linhas rectas cumpridas. Preferem o ziguezaguear ligeiro, inconstante, com paragens mais ou menos prolongadas numa flor, num ramo, numa folha ou, simplesmente no solo.

As asas são grandes e são bonitas. Todas com desenhos de uma simetria inigualável, perfeita. As cores, podem ser as mais variadas, sejam só de uma única cor com vários tons e desenhos, sejam multicolores, de beleza incomparável.

Duram pouco tempo, o quase suficiente para acasalarem, porem os ovos e morrerem. Apesar de  não renascerem das cinzas, como a Fénix, são consideradas o símbolo da transformação, do ressurgimento e do renascimento.

E, quando esvoaçam pelos campos, quando saltitam de flor em flor, quando abrem e fecham as asas, em todo o seu esplendor, parecem pétalas coloridas que pairam no ar, levadas por um vento suave que ciranda e gira diante do nosso olhar...

(DO AUTOR - BORBOLETA DO JARDIM)





domingo, 2 de junho de 2013

FORMIGAS


Não sei muito bem para que servem!

De certeza que, no Reino Animal, na grande família dos insectos, terão a sua importância e muita, certamente, pois elas estão por todo o lado. Seja atrás da geleia doce que brota dos ramos da cerejeira, ou do suco cristalino que escorre da ameixeira, seja no prato do Ouriço que guarda sempre alguns restos de comida ou, então, dentro de casa quando o açucareiro fica destapado ou alguém se esquece de algum resto de comida em cima da pedra mármore.

Devem ter o sentido do olfacto muito apurado porque cheiram a quilómetros de distância! Primeiro vêm, uma ou duas, reconhecer o local, cheirar a comida, tomar-lhe o gosto, depois, não sei muito bem como, em menos de nada, lá vem o exército, bem alinhado, a ritmo certo, invadir tudo o que possa servir para ser levado para o formigueiro.

E são incansáveis! Não desistem enquanto houver um grão de açúcar, uma migalha, uma gota da tal geleia da cerejeira... sempre, sempre, em fila indiana, melhor, em duas filas indianas, uma que vem e outra que vai, a cumprimentarem-se a cada encontro.

O ponto de partida, e o de chegada, é o formigueiro. Um buraco aberto no chão ou numa parede velha e, depois, provavelmente, um conjunto infindo de túneis, galerias, grutas onde devem viver em perfeita harmonia.

Agora, que chegou o calor, ei-las! Em pleno! De todos os tamanhos, sempre em movimento, à procura de tudo, a invadir tudo!

Não sei para que servem...

Bem que podem dizer que são um exemplo de diligência, de organização, de trabalho, do poupar e do guardar... 

A verdade é que elas não trabalham, não constroem nada, não produzem, apenas se aproveitam do trabalho dos outros, do que os outros produzem e, simplesmente, surripiam, roubam e levam tudo o que podem, às claras de todos... fazem-me lembrar os políticos e as políticas, as finanças e as governações que temos tido... e não é só de agora, de modo nenhum!

Acho que está na altura de se reinventar a fábula do La Fontaine. 



(DO AUTOR - À PORTA DO FORMIGUEIRO)



sábado, 1 de junho de 2013

PROMESSAS


Prometeram um dia de sol, prometeram calor, prometeram um céu limpo, prometeram um dia radioso, prometeram que as nuvens não iam aparecer e, muito menos, a chuva...
 
Desta vez, cumpriu-se a promessa e o dia não atraiçoou...
 
Para culminar, o sol quis despedir-se em grande... começou a alaranjar-se, a pintar o céu de tons de vermelho, a dourar os rastos dos aviões lá no alto... E se, naquele momento, o horizonte se transformasse num grande mar o ponto verde do sol a desaparecer por detrás das águas teria sido esplendoroso! 
 
 
(DO AUTOR - O ÚLTIMO PÔR-DO-SOL DE MAIO)
 
 
 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

AS MALVAS

 
Estão lindas, de um vermelho, quase Bordeaux, saliente, contrastando com o verde das folhas e da relva ao redor.
 
Foram plantadas há semanas atrás, sofreram das inclemências do tempo - frio, chuva, calor, sol, vento, granizo -, resistiram, fortaleceram e, agora, mostram-se cheias de vida, exuberantes, vitoriosas...
 

(DO AUTOR - AS MALVAS VERMELHAS)



 
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quinta-feira, 30 de maio de 2013

OS CAMPOS...


...Por enquanto ainda estão assim, cheios de verde, de flores, de cores, de alegria...

Mas vai ser por pouco mais tempo... o ciclo das estações não pára e, mesmo, apesar de o tempo não estar de feição, a verdade é que a natureza prossegue no seu caminhar... daqui a nada as flores secam e partem com o vento, o verde da seara transforma-se em cereal amarelo, a dourar os campos e, não tarda, um pouco mais depois, entram as máquinas ceifeiras e as debulhadoras a segarem esse ouro e a transformá-lo numa outra riqueza, em pão...

(DO AUTOR - AS ÚLTIMAS FLORES DA PRIMAVERA)
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quarta-feira, 29 de maio de 2013

GOTAS DE ÁGUA



Eu, quando choro,
não choro eu.
Choro aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.


António Gedeão - Gota de Água


(DO AUTOR - GOTAS DE ÁGUA - SALVADOR DA BAHIA - BRASIL)








terça-feira, 28 de maio de 2013

ENTARDECER


Naquela hora do entardecer,
Quando as sombras se alongam
E se espreguiçam, como um gato
Antes de adormecer,
Quando o Sol começa,
Por detrás do horizonte,
A querer se esconder,
Vem a hora em que tudo se confunde
Em que o que era claro se torna bem escuro,
As cores, por mais vivas e vistosas, se esbatem,
Os pássaros, os seus piares e os seus cantos, emudecem,
O vento, que ciranda e gira, se apazigua docemente,
E as flores, abertas, se vão fechando suavemente...

É o momento dos encantos, da reflexão, da poesia, dos sonhos, da divagação, dos mistérios, do adeus, da despedida...

(DO AUTOR - O ENTARDECER EM MONSARAZ)




segunda-feira, 27 de maio de 2013

MUROS DE FLORES


Nasceram do fundo do mar, feitas de vulcões, de magma e das lavas escorridas...

Pelo fogo, pelo vento e pelas ondas foram sendo esculpidas...

Os campos foram-se, aos poucos, enchendo de ervas, de plantas rasteiras, de arbustos, de árvores e de imensas flores...

Os muros, em vez de serem construídos de pedra, foram pacientemente feitos de hortênsias brancas, azuis e de outras tantas cores...

Até que, por fim, depois da obra feita, colocaram, por lá, as vacas...

Claro, só podiam ser as ilhas dos Açores...


(DO AUTOR - AS HORTÊNSIAS, AS VACAS, A PAISAGEM... OS AÇORES)



domingo, 26 de maio de 2013

ESBORRATICES


Pegou no arco-íris, feito de um arco quase perfeito, com as cores todas bem definidas, e espalhou-o numa folha de papel branco.

Depois, foi à chuva, à mesma que tinha causado aquele arco-íris, roubou meia dúzia de pingos, dos mais gordos, e guardou-os num pequeno frasco de vidro rolhando bem a tampa para que a água se não evaporasse.

Voltou-se, em seguida, para trás, para onde ainda estava o sol, e captou um pouco daquela luz branca e resplandecente escondendo-a numa caixa preta de cartão.

Por fim, foi buscar o pincel, abriu o frasco de vidro, onde estava a água feita das gotas da chuva, molhou o pincel, levantou a tampa da caixa preta, para obter a luz mais conveniente, e foi passando o pincel na folha branca onde estava o arco-íris.

E as cores, uma a uma, foram-se esborratando enchendo a folha de papel de uma infinidade de cores abstractamente dispersas ...

(DO AUTOR - ÁGUA FÉRREA, ÁGUA AZEDA, AS ÁGUAS DAS FURNAS - SÃO MIGUEL, AÇORES)


sábado, 25 de maio de 2013

VENTO SUÃO


Aí vai!
Atira a corda para te salvar?
Atira a corda para te apanhar?

Não seja o vento suão...

"...
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras
Ao vento suão queimada
(Lá vem o vento suão!,
Que enche o sono de pavores,
faz febre, esfarela os ossos,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão...)
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor,
De contar seja a quem fôr.
Na tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela.
Tinha, então,
Por única diversão
Uma pequena varanda
Diante de uma janela
Toda aberta ao sol que abrasa,
Ao frio que gela
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
Derredor da minha casa.
                                 ..."

José Régio  - parte da Toada de Portalegre.

(DO AUTOR - O HOMEM DE VENTO A ATIRAR A CORDA, ALGURES NO CONDADO DO SURREY)









sexta-feira, 24 de maio de 2013

SENTINELA ALERTA


Quieto, atento, perscrutador, no seu posto de vigia, era ali que passava o dia, a ver tudo o que se passava, tanto do lado daqui, como do lado de lá...

Quase lhe apetecia gritar: Sentinela alerta?

E ouvi-lo responder no seu trinar: "Alerta, sim, alerta está!"


(DO AUTOR - DE ALERTA NO POSTO DE VIGIA, EM  MARVÃO)



quinta-feira, 23 de maio de 2013

QUERO UM CAVALO...



"Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir,
Esperam-me os prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva - nimbos e cerros -
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Por onde tendem as catedrais.

Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sozinho
Sem um cavalo de várias cores?"

Reinaldo Ferreira, o poeta (1922 - 1959) - Quero Um Cavalo De Várias Cores.


(DO AUTOR - CAVALO BRANCO DE VÁRIAS CORES - UK)







quarta-feira, 22 de maio de 2013

MAR AGITADO



Naquele fim de tarde, quando o sol começou a dourar as existências, quando os silêncios da terra foram calando os cantares dos pássaros e abafando os sons da natureza, as ondas do mar agitado foram-se amaciando em espumas brancas que vieram, suavemente, adormecer na praia...





(DO AUTOR - O MAR A DOURAR-SE NAQUELE FIM DE TARDE)








terça-feira, 21 de maio de 2013

...CORDA QUE O BARCO PRENDE...


"Tenho sofrido poesia
como quem anda no mar.
Um enjoo.
Uma agonia.
Saber a sal.
Maresia.
Vidro côncavo a boiar.

Dói esta corda vibrante.
A corda que o barco prende
à fria argola do cais.
Se uma onda que a levante
vem logo outra que a distende.
Não tem descanso jamais."

António Gedeão - Vidro Côncavo

(DO AUTOR - ...CORDA QUE O BARCO PRENDE À FRIA ARGOLA DO CAIS...)


























segunda-feira, 20 de maio de 2013

ANDORINHAS


Este ano andam, de novo, por aí... e são muitas!

Chegaram ainda com o frio e a chuva de uma primavera que tardava em aparecer... mas vieram, no tempo habitual delas, à procura do ninho deixado no ano anterior... os que ainda estavam habitáveis.

Chilreiam, esvoaçam, volteiam pelo ar...

Gosto de as ver... são simpáticas e alegres!

(DO AUTOR - AS ANDORINHAS E OS NINHOS)


domingo, 19 de maio de 2013

A COLETA


Não lhe faltavam elegância, garbo, donaire, personalidade...

Passeava-se solitário pelo lago redondo, às voltas, sem pressas, de cabeça bem levantada e olhar atento, sem pestanejos...

Chamou-lhe a atenção pelo tufo de penas atrás da nuca, bem redondo, como um pompom, um carrapito...

E foi, naquele cenário redondo, a lembrar uma arena, que lhe veio à imagem a figura singular de um toureiro, com a sua pose assumida, o modo de se deslocar num ziguezaguear discreto e, sobretudo, aquele pom pom a lembrar a coleta...

Só faltavam o touro, a muleta e a espada....



(DO AUTOR - A COLETA)




sábado, 18 de maio de 2013

OS ARCO-ÍRIS


Não há dúvida que, mesmo quando a adversidade nos envolve, como este tempo cinzento e frio, feito de chuva, granizo e de vento, em pleno Maio, há sempre coisas belas e cheias de cor que nos alegram a alma e nos enchem de satisfação...
 
Como, a contemplação destes dois arco-íris, a emergirem da terra, no sopé da serra, e que são de uma beleza singularmente complexa...

As cores do espectro irisado pelas gotas de chuvas abundantes, em dois locais distintos, iluminadas pelo mesmo sol brilhante que, imperturbável ao temporal, ia descendo para o horizonte...
 
Só faltou mesmo o pote de ouro... mas se ele tivesse aparecido, ou alguém o tivesse encontrado,  este governo, certamente, confiscava-o logo... sempre a bem da crise da nação!
 
 
(DO AUTOR - DOIS ARCO-ÍRIS NO SOPÉ DA SERRA DAS CARREIRAS)
 
 
   

sexta-feira, 17 de maio de 2013

REMAKE


Tinham prometido! E, mesmo, com alguma precisão! Que depois do meio dia, a meio tarde, vinham o vento frio, as nuvens escuras e a chuva!
 
Chegou tudo, na hora certa, sem atrasos, sem hesitações...
 
Agora, resta o sofá, a manta, a lareira acesa, a bebida quente... um remake do inverno passado!
 
(DO AUTOR - FIM DE TARDE EM REMAKE DE INVERNO)
 
 
 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

GAFANHOTO



Sempre bem vestido, casaca vincada, de tom verde-mar, que muda de cor, para se disfarçar. Parece abastado, de olho aberto e sorriso rasgado.

E a perna peluda, qual mola de impulso, empurra-o num salto, d'acolá para aqui. E poisa na flor e muda de cor, sacode a asinha, penteia o bigode, coça a cabecinha...

Depois de comer a folhinha verde, depois do repouso, quase num instante, dá um pulo gigante e com um bater de asas, lá vai pr'a bem longe...


(DO AUTOR - GAFANHOTO VERDE  EM TOM DE FLOR)



quarta-feira, 15 de maio de 2013

ABRIGO


Àquela hora, vazio... sem comida, sem água, sem pássaros, sem chilreios, sem vida...

Àquela hora, assim... com o dia a despedir-se, cheio dos silêncios do fim da tarde, na tranquilidade do quase anoitecer...

Mas, cada manhã, bem cedo, antes de o dia voltar a acordar, antes de a luz da aurora anunciar um novo dia, ela vai, guardando o recolhimento daquela hora da madrugada, espalhar no chão daquele abrigo as sementes de alpista, girassol, linhaça, milho e encher o bebedouro de água fresca, renovada...

E, dali a um quase nada, mesmo antes de os raios de sol inundarem o relvado de luz e de cor, aquele abrigo volta, de novo, a encher-se de pássaros, de chilreios, de vida... 



(DO AUTOR - O VELHO ABRIGO AGORA VAZIO)



terça-feira, 14 de maio de 2013

GATO PRETO



"Com um lindo salto
Leve e seguro
O gato passa 
Do chão ao muro
Logo mudando de opinião
Passa de novo 
Do muro ao chão
E pisa e passa
Cuidadoso, de mansinho
Pega e corre, silencioso
Atrás do pobre passarinho
E logo pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
Se num novelo fica enroscado
Ouriça o pêlo, mal-humorado
Um preguiçoso é o que ele é
E gosta muito de cafuné
...
E quando à noite vem a fadiga
Toma seu banho
Passando a língua pela barriga".

Vinícius de Moraes - O Gato



(DO AUTOR - O  OURIÇO A FAZER POSE)


segunda-feira, 13 de maio de 2013

CINCO SENTIDOS


Do alto do miradouro vejo telhados, igrejas, ruínas; vejo, também, o topo de um elevador, uma palmeira distante e prédios cheios de cor...

Do alto do miradouro ouço, por ali bem perto, as pessoas a falar e o riso de crianças a brincar; ouço o barulho dos carros e o grito, angustiado,  de uma ambulância a apitar...

Do alto do miradouro sinto o cheiro de alecrim, mais o da roupa lavada, que ali está dependurada; e chega-me o cheiro da cidade e o aroma do mar...

Do alto do miradouro quase toco as nuvens brancas e piso as pedras da calçada; envolvo-me na paz da manhã, que ainda guarda consigo o frio da madrugada...

Do alto do miradouro saboreio a torrada quente e  bebo o café matinal; mas deve saber bem melhor o longo beijo de amor dado por aquele casal... 


(DO AUTOR -  MANHÃS DE LISBOA COM A ROUPA A SECAR AO SOL)


domingo, 12 de maio de 2013

O SOPRO



Bastou uma brisa suave feita num breve sopro de vento, quase imperceptível, e a bola-mãe foi-se libertando das sementes-filhas voadoras espalhando novas vidas ao redor...




(DO AUTOR -  UM SOPRO DE NADA A LEVAR VIDAS PELO AR)