segunda-feira, 6 de maio de 2013

SOSSEGO, SÓ SOSSEGO



"Aqui onde se espera
- Sossego, só sossego -
Isso que outrora era,

Aqui onde, dormindo,
- Sossego, só sossego -
Se sente a noite vindo,

E nada importaria
- Sossego, só sossego -
Que fosse antes o dia,

Aqui, aqui estarei,
- Sossego, só sossego -
Como no exílio um rei,

Gozando da ventura
- Sossego, só sossego -
De não ter a amargura

De reinar, mas guardando
- Sossego, só sossego -
O nome venerando...

Que mais quer quem descansa
- Sossego, só sossego -
Da dor e da esperança,

Que ter a negação
- Sossego, só sossego -
De todo o coração?

Aqui onde se espera, Fernando Pessoa, in "Cancioneiro".

(DO AUTOR - O SOSSEGO, SÓ SOSSEGO, DO FRED)







domingo, 5 de maio de 2013

DE NAMORO



Já começaram os coaxares, os raque-raque, das rãs... 

Veio o sol, o calor apareceu, os dias estão mais longos, as tardes mais compridas, as noites serenas e as rãs já acordaram do seu sono letárgico, a despertarem para a primavera que, não tarda nada, já quase anuncia o verão.

Mas agora é a época do namoro, dos sons ruidosos, meio roucos, de chamamento, de apelo, de chamada de atenção à pretensa namorada... E, macho que se preze, que se afirme e queira conquistar companheira, tem que se exibir, fazer muito barulho e mostrar capacidade...

Agora, os dias são de namoro, naquele charco cheio de nenúfares, de cantos, de saltos, de horas de quietude alternando com horas de barulheira infernal... Sinal que este tempo de namoro vai resultar numa prole imensa?

(DO AUTOR - DE NAMORO SOBRE O NENÚFAR)







sábado, 4 de maio de 2013

AZÁFAMA



Anda tudo numa azáfama!
 
As flores abrem-se, exibem as suas cores, exalam os aromas e os insectos, as abelhas e parecidos, andam numa azáfama a recolher o néctar, a encherem-se de pólen, levando-o a outras flores, a fim de perpetuarem o fenómeno da procriação...
 
Um fenómeno de interajuda entre o reino vegetal e o reino  animal... Um exemplo, bem ilustrativo, de como a Natureza é feita de coisas simples, de simbioses, de dás e de recebes, de tomas lá e dás cá...
 
Porque será que os homens não aprendem com estes exemplos? Porque será que há uns que olham para as flores e querem ficar donos de elas todas? E outros que apenas olham para o mel e querem-no só para eles?
 
Um mundo em que já quase não há meio termo, um mundo em que, cada vez, há menos pessoas que se sentam na beira de um muro a apreciar os milagres da Natureza!
 
(DO AUTOR - A AZÁFAMA DA PRIMAVERA!)
 
 
 
 







sexta-feira, 3 de maio de 2013

COALHADA


Hoje o dia acordou, lá para os lados entre o poente e o sul, com o céu feito de flocos esbranquiçados em fundo azul... como se as nuvens, depois de uma noite bem esfriada, se tivessem juntado e feito uma coalhada
 
De qualquer modo, a prometer um dia quente porque o sol brilhante, do outro lado do quadrante, assim o anunciava.
 
O ar já mais que morno, a luz forte, a pôr mais vivas ainda as cores das florinhas dos campos e das flores dos jardins, e o canto de encanto dos pássaros a encher de melodia a manhã deste dia.
 
Foi assim que o meu dia acordou...
 
(DO AUTOR -  COALHADA DE NUVENS EM MANHÃ RADIOSA)
 
 
 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

POR TODOS OS CAMINHOS DO MUNDO



"A minha poesia é assim como uma vida que vagueia pelo mundo,
por todos os caminhos do mundo,
desencontrados como os ponteiros de um relógio velho,
que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar num jardim nocturno,
ora o deserto que o simum veio modificar,
ora a miragem de se estar perto do oásis,
ora os pés cansados, sem forças para além.

Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe
o rumo e a hora de o atingir,
a tranquilidade de quem tem na mão o profetizado
de que a tempestade não lhe abalará o palácio,
a doçura de quem nada tem a regatear,
o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar.

Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo norte.
Que ninguém me peça nada. Nada.
Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia,
com a minha noite que nem sempre é noite
como a alma quer.

Não sei caminhos de cor."

Por todos os caminhos do mundo - Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"

(DO AUTOR - APONTANDO OS CAMINHOS DO MUNDO)











quarta-feira, 1 de maio de 2013

NEBLINA


"A certeza é fatal.

O que me encanta é a incerteza.

A neblina torna as coisas maravilhosas."

Óscar Wilde


(DO AUTOR - A NEBLINA A TORNAR AS COISAS MARAVILHOSAS)






terça-feira, 30 de abril de 2013

EU ENCHERIA O TEU MUNDO DE FLORES


" Eu encheria o teu mundo de flores
  Eu navegaria contigo por todos os mares
  E conheceria contigo todos os sabores
  Só para colocar em teus lindos olhos
  O brilho de todas as estrelas do Infinito
  Se eu pudesse ter esse teu sorriso sempre por perto
  Se eu pudesse ter você
  Sempre comigo..."

Augusto Branco - Eu Encheria O Teu Mundo De Flores

(DO AUTOR - FLOR DA PRIMAVERA A ENCHER O MUNDO)










segunda-feira, 29 de abril de 2013

ABSTRACTO




Desta vez, o meu céu, aquele que se desenha e pinta cada dia de forma diferente na tela da minha janela, resolveu mudar a forma de se pintar: alterou o estilo, abandonou-se daquele classicismo das nuvens em desenhos imaginados, do sol a esconder-se por detrás delas, da ave no vôo em contra-luz e, mesmo, dos ramos das árvores mais próximas a fazerem de sombras chinesas nas margens da fotografia...

Desta vez, o meu céu, deixou de ser concreto e... tornou-se abstracto!


(DO AUTOR - O CÉU A TORNAR-SE ABSTRACTO)



domingo, 28 de abril de 2013

CAFÉ DAS CINCO




"Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto... A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e fresca é!

Um sifão verde no meio
E, a seu lado, a fosforeira
Diante do meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais.)

Sobre ela posso escrever
Os meus versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...

Sobre ela descanso os braço
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros,
- pois há um ano que fumo -
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.

(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente.)

Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

É o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha ideia persiste
E nunca mais se desloca.

Cinge tais dificuldades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...

(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou...)


Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
- Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.

Passar o tempo é meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.

- Cafés da minha preguiça,
Sois hoje - que galardão! -
Todo o meu campo de acção
E toda a minha cobiça."

Mário de Sá Carneiro - Cinco Horas.


(FOTOGRAFIA DO AUTOR - QUADRO DE RUA - EM SALVADOR DA BAHIA)






sábado, 27 de abril de 2013

Ó LUA QUE VAIS TÃO ALTA


Ó Lua que vais tão alta...


É assim que começam algumas das quadras populares sobre a Lua, cheia ou vazia, crescente ou minguante...

E ontem foi dia de Lua Cheia...

Ó lua que vais tão alta,
redonda que nem um tamanco.
Ó Maria traz cá a escada,
que eu não chego lá c'o banco.

Ó lua que vais tão alto
Alumia cá pr'a baixo
Tenho meu amor à espera
Às escuras não o acho.

Ó lua que vais tão alto
Por essas serras além
Leva-me ao céu onde tenho
A alma da minha mãe.

Ó lua que vais tão alta
esbelta como um chaparro
Esses teus olhos, menina,
são como as rodas dum carro.

Ó Lua que alumias
Lá no mar, os pescadores
Alumia-me, também,
Para ver os meus amores.

A mulher quando se junta,
A falar da vida alheia,
Começa na Lua Nova
Acaba na Lua Cheia.

Ó lua que vais tão alta,
carregada de manchinhas,
és a figura homoteta
da careca do Bolinhas.
(esta quadra cantávamos no Liceu de Camões ao nosso professor de Matemática que tinha uma careca como se fosse uma Lua cheia).

Do cancioneiro açoriano:

Nos altos céus vai a Lua
Brilhando em seu esplendor,
Passam-se as horas da noite
E tu não vens, meu amor! (Ilha das Flores)

Oh! Que lindo luar faz
Para irmos às maçãs,
Na rua da Formosura,
Onde estão as três irmãs. (Ilha de São Jorge)

Oh! Que lua tão clara!
Vem cá meu amor, vem ver:
Não há Sol que chegue à Lua,
Nem ao nosso bem-querer. (Ilha de St.ª Maria)

Olha a Lua enfarinhada,
Lua cheia redondinha.
É como a nossa moleira,
Toda suja de farinha. (Ilha de São Miguel)

Vai ver se a Lua saiu,
Ou se está p'ra sair,
Que o meu bem foi-se embora
E eu também me quero ir. (Ilha de São Miguel)

Ó Lua da madrugada
Não venhas cá, ao serão;
Quem vai ver o seu amor,
Quer escuro, Lua não. (Ilha de São Jorge)

E do autor:

O Luar bem devagar
entrou no quarto... acordou-me,
Disse-me do teu olhar,
Do teu sorriso, falou-me.

O brilho do teu olhar
corou de admiração
Ficou vermelho, o luar,
da cor do meu coração.

A luz do Luar que diria,
se falasse à minha dor:
Esta palavra, Maria,
O nome do meu amor!

O luar brando, brandinho,
entrou no quarto e falou-me:
Pôs-se a dizer-me baixinho
A doçura do teu nome.


(DO AUTOR - A LUA NA SUA PLENITUDE)















sexta-feira, 26 de abril de 2013

JACUZZI MATINAL




Passavam ali uma boa parte da manhã... em mergulhos suaves, lavares de penas cuidados, arrulhos sociais e de intimidade, descontraídos, relaxados...

Sempre que um partia, outro chegava. Também não havia lugar para mais... e a lotação esgotava-se num instante...

Do lado de dentro da janela, sentado à mesa do pequeno almoço, entre uma dentada no scone barrado com doce de amora, um gole no capuccino  a transbordar de espuma polvilhada de chocolate e um olho nas notícias do jornal,  ele olhava através do vidro grosso apreciando aquele original e esvoaçante jacuzzi matinal...


(DO AUTOR - HORA DO BANHO)



















quinta-feira, 25 de abril de 2013

IDEIA


"Qualquer ideia que te agrade,
Por isso mesmo... é tua.
O autor nada mais fez que vestir a verdade
Que dentro em ti se achava inteiramente nua..."

Mário Quintana 

(DO AUTOR - TIVE UMA AGRADÁVEL IDEIA! - JARDIM DA CATEDRAL EM GUILFORD)













quarta-feira, 24 de abril de 2013

ÁGUA CORRENTE



Nasce do fundo da mina, fria, transparente, coada por filtros de granito, passeada em leitos de areia, seguindo por caminhos escuros, tortuosos, até chegar àquela arca de água, cheia de júbilo, forte, abundante...

Depois, prometedora, cai copiosa e límpida da conduta enchendo o tanque da rega...

Água, cristal de rocha, agora temporariamente sossegada, à espera de partir, de novo, para encher o rego aberto pela enxada e correr suja da fértil terra com que se mistura...

E amanhã, quando a água passar a correr com menos força, quando o tanque só estiver meio cheio dessa água transformada em caldo de limos, de rãs e de girinos, a transbordar de vidas, a horta estará cheia dos frutos que a terra deu, terra que a água molhou e que o homem cuidou... 





(DO AUTOR - A ÁGUA DA MINA)



terça-feira, 23 de abril de 2013

O JARRO E A POESIA



"O poeta quer escrever sobre um pássaro:
e o pássaro foge-lhe do verso.

O poeta quer escrever sobre a maçã:
e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.

O poeta quer escrever sobre uma flor:
e a flor murcha no jarro da estrofe.

Então, o poeta faz uma gaiola de palavras
para o pássaro não fugir.

Então, o poeta chama pela serpente
para que ela convença Eva a morder a maçã.

Então o poeta põe água na estrofe
para que a flor não murche.

Mas o pássaro não canta
quando o fecham na gaiola.

A serpente não sai da terra
porque Eva tem medo de serpentes.

E a água que devia manter viva a flor
escorre por entre os versos.

E quando o poeta pousou a caneta,
o pássaro começou a voar,
Eva correu por entre as macieiras
e todas as flores nasceram da terra.

O poeta voltou a pegar na caneta,
escreveu o que tinha visto, 
e o poema ficou feito."

Nuno Júdice, A Matéria do Poema - 2008



(DO AUTOR - JARRO SILVESTRE, DA ESPÉCIE ARUM  maculatum, A NASCER DA TERRA, NA QUINTA DA PROSA)


segunda-feira, 22 de abril de 2013

DIA MUNDIAL DA TERRA


Hoje, 22 de Abril, comemora-se o DIA MUNDIAL DA TERRA.

Um dia contra a poluição e a favor da preservação da Terra e do Ambiente

Um dia que, afinal, deveria ser igual a todos os outros...


(DO AUTOR - AS FLORES E AS CORES)




LÍRIO ROXO



"Viajei por toda a Terra
desde o norte até ao sul;
em toda a parte do mundo
vi mar verde e céu azul.

Em toda a parte vi flores
romperem do pó do chão,
universais, como as dores
do mundo, que em toda a parte se dão.

Vi sempre estrelas serenas
e as ondas morrendo em espuma.
Todo o Sol um Sol apenas,
e a Lua sempre só uma.

Diferente de quando existe
Só a dor que me reparte.
Enquanto em mim morro triste,
nasço alegre em toda a parte."

António Gedeão - Lírio Roxo.


(DO AUTOR - LÍRIO ROXO NA QUINTA DA PROSA)











domingo, 21 de abril de 2013

VOLTOU...


Devem ter-lhe dado as saudades e voltou!

Viu-a através do postigo da porta... e lá estava ela, a olhar o fundo das águas verdes turvas, agora cheias de girinos e pequenos peixes.

As rãs grandes e gordas, da época passada, comera-as ela quase todas, assim como os peixes bem crescidos que povoavam aquelas águas... 

E ela sabia disso... Só que, desta vez, não veio procurar comida... veio observar o seu viveiro, ver da fauna, do seu tamanho, saber quanto tempo ainda falta para voltar aqui, à pesca...


(DO AUTOR - A GARÇA VISITANTE)



sábado, 20 de abril de 2013

FLORES


"Agora, o cheiro áspero das flores
leva-me os olhos por dentro das suas pétalas.

Eram assim teus cabelos;
tuas pestanas eram assim, finas e curvas.

As pedras limosas, por onde a tarde ia aderindo,
tinham a mesma exaltação de água secreta,
de talos molhados, de pólen,
de sepulcro e de ressurreição.

E as borboletas sem voz
dançavam assim veludosamente.

Restitui-te na minha memória, por dentro das flores!
Deixa virem teus olhos, como besouros de ónix,
tua boca de malmequer orvalhado,
e aquelas tuas mãos dos inconsoláveis mistérios,
com as suas estrelas e cruzes,
e muitas coisas tão estranhamente escritas
nas suas nervuras nítidas de folha,
- e incompreensíveis, incompreensíveis."

Cecília Meireles -  Recordação

(DO AUTOR -  FLORES NÃO SEI DE QUÊ, MAS LINDAS E SUAVES)









sexta-feira, 19 de abril de 2013

DENTE DE LEÃO



Tem nome forte, que contrasta com a delicadeza da sua forma e da sua beleza...

É uma flor, amarela, cheia de raios, como um sol pavão, bem aberto e bem peludo, imitando a juba de um leão. E as folhas serradas, bem dentadas, como as presas do felino... 

Depois de as pétalas caírem, uma a uma, as sementes abrem-se, construindo-se numa esfera leve, como um tule frágil, como espuma que o sopro de uma criança ou o murmúrio do vento desfazem, desmanchando-se a construção e libertando milhares de pequenos chapéus de chuva que voam pelo mundo, como aves, num vôo extensamente definitivo... 


(DO AUTOR - DENTE DE LEÃO PRONTO PARA O VÔO FINAL)


quinta-feira, 18 de abril de 2013

PEQUENA FLOR


"Como uma pequena flor que recebeu uma chuva enorme
e se esforça por sustentar o oscilante cristal das gotas
na seda frágil, e preservar o perfume que aí dorme,

e vê passarem as leves borboletas livremente,
e ouve cantarem os pássaros acordados sem angústia,
e o sol claro do dia às claras estátuas beijando sente,

e espera que se desprenda o excessivo, úmido orvalho
pousado, trémulo, e sabe que talvez o vento
a libertasse, porém a desprenderia do galho,

e nesse tremor e esperança aguarda o mistério transida
- assim repleto de acasos e todo coberto de lágrimas
há um coração nas lânguidas tardes que envolvem a vida".

Cecília Meireles - Pequena Flor

(DO AUTOR - PEQUENA FLOR)



quarta-feira, 17 de abril de 2013

GATO ESPREGUIÇA



"Que imensa preguiça!
Um gato se estica
longo, de pelica,
de pluma e peliça.

A noite é de tubos
de rodas e cubos
borracha e aço curvos
em subsolos turvos.

Que noite! Uma poça
de sombra na boca.
Cega, se alvoroça
e infla, a pupila oca.

Luminosos manda
seus olhos; verde anda
em luz; anda e nada
e é dono do nada.

A noite postiça!
E o gato se estica
em sua pelica,
em sua peliça."

Cecília Meireles - Gato na garagem.


(DO AUTOR - O OURIÇO A ESPREGUIÇAR-SE À PORTA DA GARAGEM)











terça-feira, 16 de abril de 2013

GERAÇÕES


Nos humanos, as gerações demoram o seu tempo a aparecer. Podem coexistir duas, três, quatro, cinco ou mesmo seis, simultaneamente... dos avós, pais, filhos, aos netos, bisnetos, trinetos...

Mas, para que cada geração apareça é preciso um intervalo de 15 anos, no mínimo, ou por aí... E é bom ver, na mesma casa, na casa dos avós velhinhos, toda uma safra de descendentes da mesma cepa... 

Costuma ser assim, no Natal, na Páscoa, na ocasião de um aniversário importante, ou nas férias grandes de verão... Todos, debaixo do mesmo tecto, mas juntos, juntos, só quando sentados na mesma mesa, na hora da refeição... velhos e novos, graúdos e pequenos, convivendo...

Como no galho de uma árvore, agora, na primavera que desponta... cheio de folhas que nascem, meio esbranquiçadas, de outras, verdes, cheias de viço, até às bem vermelhas, no fim de vida, próximas do adeus que se aproxima... as mesmas gerações, no mesmo ramo, dos rebentos brancos às folhas que vão fenecendo, num vermelho de sangue...


(DO AUTOR - GERAÇÕES DE FOLHAS NO MESMO GALHO)














segunda-feira, 15 de abril de 2013

CARACOL



Aproveitou o sol e veio passear...

Desgrudou-se da folha verde onde estava semi-escondido, desceu pelo caule, depois pelo ramo e estirou-se, placidamente, na ponta de um tronco velho, quase todo saído da casca que é a sua casa ambulante.

Os olhos bem abertos, na ponta dos pauzinhos,  sob aquele sol magnífico, "olhavam" como periscópios, de um lado para o outro, de cima para baixo, curiosos e interrogativos...

Veio-lhe à memória uma lenga-lenga da sua infância:

Caracol, caracol
Caracol, caracol
Põe os pauzinhos ao sol

Caracol, caracolinho
Caracol, caracolinho
Sai de dentro do moinho
Mostra a ponta do focinho
  
E a lenga-lenga, parece, cumpriu-se...



(DO AUTOR - O CARACOL COM OS PAUZINHOS AO SOL!)









domingo, 14 de abril de 2013

FORMIGAS



Já chegaram... Começaram a sair dos buracos dos formigueiros, a fazerem carreirinhos nos campos, a subirem às árvores, a chegarem perto das casas, a entrarem e a saírem por qualquer fresta...

Por enquanto são só das pequenas, numa azáfama feita de imensas filas indianas, a cruzarem-se, a trocarem informações, a dizerem, talvez, que na cozinha está um açucareiro cheio de pedrinhas doces...

(DO AUTOR - AS PRIMEIRAS FORMIGAS)



sábado, 13 de abril de 2013

HORTÊNSIAS SINGELAS



São hortênsias ou hidrângias... estas são as singelas, simplesmente porque não florescem da mesma maneira que as outras... umas flores abrem, outras apenas se ficam por flores pequeninas e outras não chegam a abrir...

Dão uma composição invulgar... não aquelas bolas floridas de uma só cor - ou brancas, azuis ou para tons avermelhados - mas este aglomerado de flores pequeninas - também nas mesmas cores - com a saliência de flores brancas e com o centro da cor do conjunto...

São simples, ou singelas - como lhes chamam, nos Açores - e gosto delas...





(DO AUTOR - HIDRÂNGIAS OU HORTÊNSIAS SINGELAS - ILHA DE SÃO MIGUEL - AÇORES)