segunda-feira, 19 de novembro de 2012

AO ABRIR DA JANELA



Da janela do meu quarto vejo canteiros em flor, avisto as nuvens no alto e os riscos, de fumo branco, dos aviões a passar, vejo as árvores com os frutos ou com as folhas de outono, ouço os pássaros a cantar, escuto as vozes do vento e cães, ao longe, a ladrar, e vejo o gato com sono, mas não vejo o seu sonhar, atento-me ao murmúrio da água e às rãs, no seu coaxar, e encanto-me com o voo da garça, na graça do seu planar...

Vejo tudo como vejo, do modo do meu olhar!



(DO AUTOR - DA JANELA DO MEU QUARTO VEJO AS ÁRVORES COM OS FRUTOS, OU COM AS FOLHAS DE OUTONO...)




"...
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. 
Outras vezes encontro nuvens espessas. 
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. 
Borboletas brancas, duas a duas, como reflectidas no espelho do ar.
...
Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, 
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim."

Cecília Meireles, in A Arte De Ser Feliz.












.

domingo, 18 de novembro de 2012

O ARCO-ÍRIS




Apareceu-lhe, assim, diante, saindo do meio das árvores distantes, enorme, gordo, imponente, cheio de cores espampanantes...

À medida que a chuva ia caindo, formando cortinas de água em fio e o sol para o ocaso seguia, descaindo, as cores iam ganhando mais brilho e engrossando aquele feixe colorido.

E por ali se deixou ficar, como um facho olímpico, dando cor àquela tarde prestes a terminar e só, quando o sol por detrás do horizonte desapareceu, quando os raios de luz deixaram de se ver é que as cores do facho multicolor se apagaram, no mesmo instante, deixando no céu um ténue rosa que, também, rapidamente, desfaleceu.

Depois, veio a penumbra, de seguida, a noite escura e o vento, que também apareceu, e veio mais chuva, desta vez mais forte, mais densa, continuada, uma chuva apetecida, uma chuva abençoada!   


(DO AUTOR - O ARCO-ÍRIS A RUMAR AO CÉU)






.




sábado, 17 de novembro de 2012

AS CORES DO OUTONO


Na hora do crepúsculo iniciado,
quando as formas se esbatem
e a penumbra se enche de magia,
quando as cores ondeiam os vermelhos,
os amarelos e o doirado,
quando o silêncio impera na Natureza
e a noite dá lugar ao que era dia,
quando a solidão
e a dor
se transformam em companhia
e a escuridão
se deixa adormecer em sonhos de amor...

As Cores do Outono são beijos de ousadia,
são benção e bálsamo de alegria,
são a paz que tanta falta fazia...


  

(DO AUTOR - AS CORES ESBATIDAS DO OUTONO NA HORA DO CREPÚSCULO DOIRADO, NA QUINTA DA PROSA)
 
"Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio... Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago...


Veludos a ondear... Mistério mago...
Encantamento... A hora não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a benção dum afago...


Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!


Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor..."

Florbela Espanca, in a Charneca em Flor, Outonal.





.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

ONDAS DE PEDRA



Parece que as águas se fossilizaram ou congelaram em pedra deixando este relevo, impressionante, não longe das margens do Guadiana.

Como se, num dia de revolta e de mistério, as águas mansas do rio se tivessem transformado em ondas agitadas, quais corcéis selvagens com suas crinas ao vento, em volteios e viradas bruscas, que, no instante da rebentação, por um toque de magia, se cristalizaram e eternizaram em esculturas em pedra de basalto e a sua espuma se revestiu de um mármore eternamente branco...




(DO AUTOR - NAS MARGENS DO GUADIANA, PERTO DE MOURÃO E ANTES DO ALQUEVA)


"Onde - ondas - mais belos cavalos
Do que estas ondas que vós sois
Onde mais bela curva do pescoço
Onde mais bela crina sacudida
Ou impetuoso arfar no mar imenso
Onde tão ébrio amor em vasta praia?"

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética - Musa, 1º Andamento , Ondas.






.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

EQUILÍBRIO




"No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta
e, sobre ela, o dia inteiro

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta."

Cecília Meireles


(DO AUTOR - O SOL EQUILIBRANDO-SE NO MISTÉRIO DO SEM-FIM)





 .

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

LUA ADVERSA



"Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
Não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu..."

Cecília Meireles, Lua Adversa


(DO AUTOR - A LUA EM FASE CRESCENTE SOBRE O MONTE DA LUA NA SERRA DE SINTRA)









.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

MAR REVOLTO



O dia, cheio de rajadas de vento forte, foi agitando o mar, cavando-lhe a superfície, encrespando as ondas, empurrando as águas inquietas e turbulentas para a praia e atirando-o contra as rochas da costa alcantilada.

Um Mar Revolto que, mesmo contemplado do alto da falésia, atemoriza, impõe respeito, assusta e, ao mesmo tempo, atrai!

Um mar que ruge,
um mar que berra,
um mar que solta,
em bramidos colossais,
a força e o poder
dessa água revolta.

Um mar que canta e murmura,
mar imenso que ressoa,
um mar que é companhia
de ave que sozinha voa.

Um mar
que lembra,
no turbilhão da espuma,
a nuvem espessa no ar...

Um mar que cheira
e que enche
o areal de bons odores.
Mar de lutas, de tragédias,
de saudades e de dores...

Mar salgado, mar espesso,
mar imenso, universal.
Mar feito, também, de lágrimas
choradas em Portugal...



(DO AUTOR - MAR REVOLTO A DESPEDAÇAR-SE NA PRAIA DO MAGOITO)



.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

ESPERO



"Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

As ondas quebravam uma a uma
E eu estava só com a areia e a espuma
Do mar que cantava só para mim."

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Mar - Espero.


(DO AUTOR - A PRAIA DO MAGOITO E O CABO DA ROCA, LÁ AO FUNDO)




.

domingo, 11 de novembro de 2012

SORRISO


Da janela do quarto, olhando o mar e a serra, chamou-lhe a atenção, mesmo junto à praia de areia, na curva onde o rio vira para o mar, uma algazarra de espumas, de saltos e de mergulhos que dois ou três casais de golfinhos ia fazendo... brincadeiras de domingo, ao acordar do dia, ou talvez, e muito mais provavelmente, um cardume de peixes que ao passear mais junto à rebentação foi servindo de pequeno almoço àqueles simpáticos mamíferos aquáticos.

Foram uns quase quinze minutos de agrado e de satisfação que deixaram um sorriso no rosto no iniciar deste domingo de sol, mas de muito vento!


(DO AUTOR - GOLFINHOS NO SADO, JUNTO À PRAIA)


.

sábado, 10 de novembro de 2012

PÔR DO SOL


A tarde choveu forte e o vento, que a batia, andou a soprar as folhas pelo chão e ajudou a despir, ainda mais, as árvores.

Mas, com o dia a acabar, com a tarde a despedir-se, tudo se acalmou e o outono, quase em vésperas de São Martinho, pintou de oiro o céu por cima do mar frente à Serra-Mãe da Arrábida.

As espessas nuvens, de negros e cinzentos escuros feitas, como borrões em folha de papel doirada, lá iam, no seu caminho, sendo empurradas pelo vento ainda apressado que, há bem pouco, tinha passado por ali...




(DO AUTOR - O MAR FRENTE À SERRA DA ARRÁBIDA, COM UM CÉU DE OIRO)






.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

SERRA-MÃE



Ao atravessar o Sado,
ao fim do dia,
e ao ver a Serra-Mãe ali ao lado
num negrume, cheio de melancolia,
quase ouvia
o murmúrio de cantiga
da Serra ora adormecida...

E, no momento,
veio-lhe,
ao pensamento
a Arrábida, a Serra-Mãe, Sebastião da Gama...


"O agoiro do bufo, nos penhascos,
foi o sinal da Paz.
O silêncio baixou do Céu,
mesclou as cores todas o negrume,
o folhado calou o seu perfume,
e a Serra adormeceu.

Depois, apenas uma linha escura
e a nódoa branca de uma fonte amiga;
a fazer-me sedento, de a ouvir,
a água, num murmúrio de cantiga,
ajuda a Serra a dormir.

O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou
e anda agora à procura, pela Serra,
da verdade dos sonhos que na Terra
nunca alcançou.

E outros murmúrios de água escuto, mais além:
os Poetas embalam sua Mãe,
que um dia os embalou.

Na noite calma,
a poesia da Serra adormecida
vem recolher-se em mim.
E o combate magnífico da Cor,
que eu vi de dia;
e o casamento do cheiro a maresia
com o perfume agreste do alecrim;
e os gritos mudos das rochas sequiosas que o Sol castiga
- passam a dar-se em mim.

E todo eu me alevanto e todo eu ardo.
Chego a julgar a Arrábida por Mãe,
quando não serei mais que seu bastardo.

A minha alma sente-se beijada
pela poalha da hora do Sol-pôr
sente-se a vida das seivas e a alegria
que faz cantar as aves na quebrada;
e a solidão augusta que me fala
pela mata cerrada,
aonde o ar no peito se me cala,
desceu a Serra e concentrou-se em mim.

E eu pressinto que a Noite, nesse instante,
se vai ajoelhar...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ai não te cales, água murmurante!
Ai não te cales, voz do Poeta errante!,

- se não a Serra pode despertar."

Sebastião da Gama, Serra-Mãe.

(DO AUTOR - O RIO SADO, O ATLÂNTICO E A SERRA DA ARRÁBIDA)



.


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

CRIANÇA


Foi, ao ver esta fotografia num mural em Angra do Heroísmo que me veio à lembrança este poema da Cecília Meireles, uma açoriana brasileira, cada vez mais actual e verdadeiro.


"Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sozinho,
que sozinho sofre, - e resiste.

Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto se fez pensativo,
e não sabe mais o que sente...

Cabecinha boa de menino mudo
que não teve nada, que não pediu nada,
pelo medo de perder tudo.

Cabecinha boa de menino santo
que do alto se inclina sobre a água do mundo
para mirar seu desencanto.

Para ver passar numa onda lenta e fria
a estrela perdida da felicidade
que soube que não possuiria."

Cecília Meireles, in 'Viagem' - Criança.



(DO AUTOR - FOTOGRAFIA DE MURAL EM ANGRA DO HEROÍSMO - ILHA TERCEIRA - AÇORES)




.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

COMO UMA FLOR...


"Como uma flor incerta entre os teus dedos
Há harmonia de um bailar sem fim,
E tens o silêncio indizível dum jardim
Invadido de luar e de segredos.

Nas tuas mãos trazias o meu mundo
Para mim teus gestos escorriam
Estrelas infinitas, mar sem fundo
E nos teus olhos os mitos principiam.

Em ti eu conheci jardins distantes
E disseste-me a vida dos rochedos
E juntos penetramos nos segredos
Das vozes dos silêncios dos instantes."

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética - Dia do Mar.



(DO AUTOR - FOTOGRAFIA DE UM MURAL EM ANGRA DO HEROÍSMO - ILHA TERCEIRA - AÇORES)





.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O MÁGICO



O MÁGICO fez um gesto e desapareceu a FOME, fez outro e desapareceu a INJUSTIÇA, fez um terceiro, ainda, e desapareceram as GUERRAS...

O POLÍTICO fez um gesto... e desapareceu o MÁGICO!

(Woody Allen)


(DO AUTOR - O MÁGICO - FOTOGRAFIA MURAL EM ANGRA DO HEROÍSMO)








.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

DEVAGAR



(DO AUTOR - NO JARDIM AO ANOITECER)




"Devagar no jardim a noite poisa
E o bailado dos seus passos
Liberta a minha alma dos seus laços,
Como se de novo fosse criada cada coisa."

Sophia de Mello Breyner Andresen - Devagar no jardim - Poemas escolhidos.






.

domingo, 4 de novembro de 2012

CATEDRAL




Juntou um monte de pedras, deu-lhes a forma de uma pirâmide e encimou tudo com duas pedras a apontar o céu e ali se deixou ficar, sozinho, a contemplar a imagem de uma catedral!

"Um monte de pedras deixa de ser um monte de pedras no momento em que um único homem o contempla, nascendo dentro dele a imagem de uma catedral."   
Antoine de Saint-Exupéry


(DO AUTOR - MONTE DE PEDRAS - SERRA DE SÃO MAMEDE - PORTALEGRE)




 .


 

sábado, 3 de novembro de 2012

LAIS DE GUIA


Dá-se uma meia volta fazendo passar por ela a ponta ou chicote do cabo que, depois, passa por baixo do seio, ou seja, a outra parte do cabo e, finalmente, passa-se o chicote, de novo, pela meia volta... puxa-se, e já está!

Simples! Mas eficaz!

É um dos nós mais usados e mais seguros utilizados pelos marinheiros e pescadores. Habitualmente usa-se para encapelar num cabeço e, de forma genérica, para fazer qualquer amarração. E, para desamarrar faz-se o contrário, de maneira simples e rápida!

Atenção que, em termos de marinharia, não há cordas, mas cabos, e um cabo não se ata, amarra-se!

(DO AUTOR - LAIS DE GUIA - TERRA ESTREITA)
Quantas vezes não faria jeito um lais de guia na nossa vida? Amarravamo-nos ao que, ou a quem, queríamos, com a certeza de uma ligação forte e segura e quando, ou se, quiséssemos lá se desfazia a ligação (amarração, por favor!) sem dificuldades, sem desfazeres complicados, sem constrangimentos.

Por um lado deveria ser bom mas, por outro, perdia-se a graça ou a complicação do viver, resumindo as amizades, os afectos, os amores a um simples lais de guia em que se dá uma meia-volta, onde se faz passar a ponta do cabo que, depois, passa por baixo do seio e torna a entrar na meia volta...




.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

EROSÃO



Implacável, progressiva, persistente, a erosão vai mudando as formas, vai tirando daqui e pondo noutro local, vai moldando e aprimorando, continuadamente...

O vento, a água, o sol... vão modificando, com tempo, a superfície do planeta, amaciando o cume das montanhas e picos mais agrestes, alisando pedras, movendo dunas, derrubando arribas, modificando a paisagem...

Também a vida vai causando erosão nas pessoas, enrugando a pele, caiando cabelos, secando as mãos, encurvando o tronco, mudando a forma de olhar a vida, modificando os pensares, encurtando perspectivas...

É assim, determinante e final!

(Ou fatal?).


(DO AUTOR - A EROSÃO)






.


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

COM O TEMPO





"Com o tempo, você vai percebendo que,
para ser feliz com uma outra pessoa você precisa,
em primeiro lugar,
não precisar dela...

Você aprende a gostar de você,
a cuidar de você, principalmente,
a gostar de quem também gosta de você.

O segredo é não correr atrás de borboletas...
é cuidar do jardim
para que elas venham até você.

No final de contas, você vai achar
não quem você estava procurando...
mas quem estava procurando por você... "

 Mário Quintana





(DO AUTOR - AMPULHETA)























.




quarta-feira, 31 de outubro de 2012

CARNE VIVA




Ficam assim, em carne viva, os troncos destas árvores nobres e nacionais.
 
Faz parte do seu ritual de vida!
 
Cada nove anos chegam os homens e, como num cerimonial cirúrgico, vão dispondo os instrumentos de corte, encostando os escadotes ao tronco, calçando luvas de pele, colocando os capacetes de protecção e, às ordens do responsável, começam a cortar, selectivamente, a cortiça daqueles troncos erectos, imponentes, senhoriais!
 
Tiram-lhes a casca - a cortiça -, um dos materiais mais nobres da natureza arborícola, e as árvores vão ficando despidas, de tronco sangrante, em carne viva. 
 
Ao olhar as árvores, assim nuas, despidas da sua cortiça, com o tronco da cor do sangue vivo, lembrou-se do país, da governação, da troyka, dos políticos que, cada dia, vão arrancando a pele às pessoas, delapidando os contribuintes, numa atitude cirúrgica, bem escalpelizada e radical, deixando as feridas, bem à mostra, como carne viva, não perdoando nem um bocadinho de pele para se fazer qualquer enxerto.
 
Os sobreiros, esses, vão regenerando nova pele, cortiça nova, fresca e de boa qualidade. Isto porque os homens, os que sabem tratar das árvores, apenas lhes tiram parte da casca,  para não a matarem, nem mexem nas raízes, não alterando a seiva e, por isso, apesar de ficarem com o tronco em carne viva, os sobreiros recuperam rápido...
 
Mas os outros homens, os da economia, das finanças, da governação e da política arrancam-nos a pele quase toda, cortam-nos os alimentos do corpo e da alma, roubam-nos a esperança, aquilo que ainda resta da seiva que nos alimenta, considerando-nos como árvores condenadas, árvores das quais aproveitarão até a sombra, enquanto tiverem folhas.

Mas este povo lusitano, como estes sobreiros nobres e lusos, nunca se irá vergar a esta gente e, se tiver que morrer, será de pé, como as árvores!
 


(DO AUTOR - NA SERRA DE SÃO MAMEDE - SOBREIROS ACABADOS DE SEREM DESCORTIÇADOS)






.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

SIMETRIAS



Eram quase perfeitas, as simetrias conseguidas!

A água quieta servia de espelho e as plantas - que emergiam de dentro dela e se prolongavam para o céu ou mergulhavam, de novo, naquela água parada - eram os riscos daquele desenho simples que se repetia, ao invés, como uma verdadeira simetria.

Um palíndromo de riscos e rabiscos e não de letras, ou palavras!

E só,
Quando a água começar a secar,
Ou o charco voltar,
De novo,
A se inundar,
Ou a chuva, então, salpicar
Aquela superfície brilhante e molhada,
É que a simetria desaparece
Perdendo o encanto
Que salta à vista enquanto é,
Assim,
Olhada!





(DO AUTOR - AS SIMETRIAS NUM CHARCO DA SERRA DE SÃO MAMEDE)




.



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

AMORAS





Nos muitos caminhos da Serra, quase abandonada, as silvas vão cobrindo os muros velhos, em ruínas, formando sebes intransponíveis, entrelaçando os ramos cobertos de espinhos afiados, agressivos e tecendo rendas que guardam, no interior da sua malha, defendidos, cachos de amoras negras e cor de rubi.

Ferem-se as mãos, picam-se os dedos, risca-se a pele... mas vale a pena a mão cheia daqueles frutos delicados e aromáticos!

E, ao deixarem-se derreter na boca, lentamente, uma a uma, vão libertando densos sabores que lembram a marmelada, as compotas e os doces, o lume da lareira, o chiar da panela de ferro, as castanhas assadas, a jeropiga e a água pé dos outonos que começam a chegar trazendo os frios, tornando os dias mais curtos, antecipando o anoitecer, pedindo mantas e a envolvência de uma música, mansa e morna, que nos deixe, suavemente, adormecer... 


 
(DO AUTOR - AS AMORAS DE SÃO BENTO PRISIONEIRAS DAS SILVAS AGRESSIVAS)





.

domingo, 28 de outubro de 2012

EFÉMERO



"A ÁGUA da chuva desce a ladeira.
É uma água ansiosa.
Faz lagos e rios pequenos, e cheira
A terra ditosa.

Há muitos que contam a dor e o pranto
De o amor os não qu'rer...
Mas eu, que também não os tenho, o que canto
É outra coisa qualquer."

Fernando Pessoa, A Chuva Desce a Ladeira.


(DO AUTOR - A ÁGUA DA CHUVA A DESCER A LADEIRA DA SERRA DE SÃO MAMEDE)






.



sábado, 27 de outubro de 2012

SE DESTE OUTONO



"Se deste outono uma folha,
apenas uma, se desprendesse
da sua cabeleira ruiva,
sonolenta,
e sobre ela a mão
com o azul do ar escrevesse
um nome, somente um nome,
seria o mais aéreo de quantos tem a terra,
a terra quente e tão avara
de alegria."

Eugénio de Andrade, in Obra Poética - Se Deste Outono...



(DO AUTOR - AS CORES DO OUTONO A ENCHEREM A PAISAGEM DE NOSTALGIA - SERRA DE SÃO MAMEDE)




.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

NUVENS E AVES



(DO AUTOR - NUVENS E AVES SACUDIDAS PELO VENTO NA SERRA DE SÃO MAMEDE)



"Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar."


Sophia de Mello Breyner Andresen, SACODE AS NUVENS.



.