sábado, 20 de outubro de 2012

AFIRMAÇÃO

Foi encontrá-lo, quase perdido no meio de nada, no profundo do Alentejo, depois de um longo caminho a pé, difícil de percorrer.

Forte, erecto, rígido, determinado, a apontar o céu, a mostrar pujança, a mostrar aos homens que, naqueles tempos da pré-história, a afirmação não precisava de subterfúgios, de comprimidos azuis, ou de outra coisa qualquer.

Testemunho solitário de uma virilidade que quase parece esquecida!

(DO AUTOR - MENIR DOS ALMENDRES - ÉVORA)


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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

ATHANÁSIO

Fica na rua da Sé, em Angra do Heroísmo, a Pastelaria Athanásio.

É um estabelecimento com mais de cem anos de história, mas só a partir de 1945 adquiriu o nome de Pastelaria Athanásio.

Primitivamente era um café, o "Café Matezinho", da propriedade de um tal Mateus da Rosa Júnior que deu o nome à pastelaria e café que, naquela época, era muito frequentado pela sociedade Angrense, sendo ponto de encontro "obrigatório" de artistas que vinham de visita a Angra, bem como dos terceirenses aficcionados pela festa brava. O próprio senhor "Matezinho" era um exímio cavaleiro amador e um excelente adestrador de cavalos.

Foi o Sr. Francisco Ávila de Vasconcelos, que tinha um estabelecimento "A Havaneza", quem fundou a   pastelaria que, por sua morte, passou ao seu filho Athanásio, com o nome de PASTELARIA ATHANÁSIO. Este, após a morte do tal senhor de Matezinho, foi ocupar o espaço do café, aumentando, assim, a área da pastelaria. Esta casa sempre se dedicou ao fabrico de bolos e doçarias regionais - os doces do Athanásio - cuja fama é reconhecida desde longa data. E não só os doces como o café e os chás e tisanas de todo o mundo.

(DO AUTOR - A PASTELARIA ATHANÁSIO, NA RUA DA SÉ, EM ANGRA DO HEROÍSMO - ILHA TERCEIRA - AÇORES)

Actualmente, o espaço é propriedade de um antigo empregado e gerente José Gaspar de Lima que mantém a tradição da pastelaria não só pela qualidade e diversidade dos doces regionais, mas nas cores originais do espaço.



quinta-feira, 18 de outubro de 2012

OLHA

Fez-lhe lembrar o "Pára, Escuta e Olha" das passagens de nível sem guarda, aquele "OLHA".

Um OLHA de chamada de atenção, um OLHA de prevenção, um OLHA de cuidado!

Mas ele preferia, mil vezes, o OLHA o mar à tua frente, o OLHA a vida que deves saborear, o OLHA para ti mas, sobretudo também, o OLHA para os outros, o OLHA para a frente e para os lados e não para o umbigo, um OLHA atento, como o do pássaro que OLHA a objectiva da câmara fotográfica com toda a atenção!


(DO AUTOR - TERRA ESTREITA - ALGARVE)




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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

MAR VERDE



Mar de chumbo, mar cinzento,
Mar opaco.
Mar presente,
Mar jovem, adolescente...


Mar tão verde, verde mar,
Mar tão cheio
E tão profundo.
Mar profano, vagabundo...


Mar verde, de esmeralda.
Bailam ondas,
Dança morna.
Mar que vai e não retorna...

Mar de sonho, mar que fala,
Mar que ruge,
Mar que canta,
Mar que chora e s'aquebranta...

Mar traidor, inesperado,
Mar amigo, mar sem fim,
Mar eterno, mar amado,
Meu mar de mim... 



(DO AUTOR - O MAR DA ANTÁRCTIDA)





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terça-feira, 16 de outubro de 2012

LIBERDADE


"- Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

- Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
- Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome."


Miguel Torga, in Diário XII - Liberdade.


(DO AUTOR - VOANDO EM LIBERDADE SOBRE OS MARES DA ANTÁRTIDA)













segunda-feira, 15 de outubro de 2012

VISITA


"Fui ver o mar.
Homem de pólo a pólo, vou
De vez em quando olhá-lo, enraizar
Em água este Marão que sou.

De penedia triste
Pus-me a olhar aquele fundo
Dentro do qual existe
O coração do mundo.

E vi, horas a fio,
A sua angústia ser
Uma espécie de rio
Que não sabe correr."

Miguel Torga, in Antologia Poética, Visita.



(DO AUTOR - O MAR MEDITERRÂNEO)





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domingo, 14 de outubro de 2012

MAR SOLITÁRIO

SOLIDÃO

"Estás todo em ti, mar, e, todavia,
como sem ti estás, que solitário,
que distante, sempre, de ti mesmo!

Aberto em mil feridas, cada instante,
qual minha fronte,
tuas ondas, como os meus pensamentos,
vão e vêm, vão e vêm,
beijando-se, afastando-se,
num eterno conhecer-se,
mar, e desconhecer-se.

És tu e não o sabes,
pulsa-te o coração e não o sente...
Que plenitude de solidão, mar solitário!"

Poema SOLIDÃO, de Juan Ramón Jiménez , in "Diário de Un Poeta Reciencasado"



(DO AUTOR - O ATLÂNTICO VISTO DA COSTA OCIDENTAL PORTUGUESA)




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sábado, 13 de outubro de 2012

QUEIMADA

Juntam-se ramos de árvores já secos, folhas de carvalho que se apanharam do chão, muita caruma de pinheiro, silvas acabadas de cortar (algumas ainda com amoras), ervas do mato secas, fetos, ramos de medronheiro, algumas pinhas, ouriços já castanhos, faz-se um amontoado de tudo e, com um fósforo, chega-se-lhe o fogo...  Demora a pegar mas, ao fim de algum tempo, e ajudado pela brisa suave vinda do poente, o fogo começa a mostrar as labaredas que se insinuam por entre as folhas e a erva aparecendo, quase ao mesmo tempo, aquele fumo forte, que brota em rolos, cheio de cinzas e de aromas...

(DO AUTOR - A QUEIMADA NA QUINTA DA PROSA, HOJE)

É o outono a dar cheiro aos campos, o fumo a purificar a mata, o chão a libertar-se dos restos secos do verão, a terra a preparar-se para a hibernação dos frios que hão-de vir.




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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

VAZIO

Ainda há pouco tempo transbordava vida e, agora, está vazio, sem vida...

(DO AUTOR - NINHO DE CEGONHA - ORTIGA)

... a sugerir o Portugal daqui a uns tempos, vazio de tudo, de ideias, de pessoas... e morto, ou antes, assassinado por esta corja de gente que nos vai atrofiando e definhando cada dia.



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

DESTROÇOS



"O MUNDO JÁ CAIU, SÓ ME RESTA DANÇAR SOBRE OS DESTROÇOS"

Clarice Lispector


(DO AUTOR - CAMÉLIA DESTROÇADA)




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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

CHAPARRO



Abriu os ramos como se estivesse a espreguiçar-se, ao acordar de mais um dia deste outono, ainda cheio de verão...


(DO AUTOR - NO ALENTEJO AO NASCER DO SOL)




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terça-feira, 9 de outubro de 2012

BEIJO





"Trocaria a memória de todos os beijos que me deste por um único beijo teu. E trocaria até esse beijo pela suspeita de uma saudade tua, de um único beijo que te dei."

Miguel Esteves Cardoso



(DO AUTOR - O BEIJO DE GUSTAV KLIMT NUMA TAPEÇARIA GOBELIN, EM GHENT - BÉLGICA)






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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

PÁLIDAS SOMBRAS, AS ROSAS





(DO AUTOR - UMA NOITE, EM CAMINHA)





"Elas são vaporosas,
Pálidas sombras, as rosas
Nadas da hora lunar...

Vêm, aéreas, dançar
Com perfumes soltos
Entre os canteiros e os buxos...
Chora no som dos repuxos
O ritmo que há nos seus vultos...

Passam e agitam a brisa...
Pálida, a pompa indecisa
Da sua flébil demora
Paira em auréola à hora...

Passam nos ritmos da sombra...
Ora é uma folha que tomba,
Ora uma brisa que treme
Sua leveza solene...

E assim vão indo, delindo
Seu perfil único e lindo,
Seu vulto feito de todas,
Nas alamedas, em rodas,
No jardim lívido e frio...

Passam sozinhas, a fio,
Como um fumo indo, a rarear,
Pelo ar longínquo e vazio,
Sob o, disperso pelo ar,
Pálido pálio lunar..." 

Fernando Pessoa, in Cancioneiro - Minuete invisível














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domingo, 7 de outubro de 2012

PUDESSE EU




"Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes".

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia, Antologia - Pudesse eu.





(DO AUTOR - PERFIL DA SERRA DA ESTRELA AO ENTARDECER)




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sábado, 6 de outubro de 2012

O 5 DE OUTUBRO DA VERGONHA

Hoje falo na primeira pessoa e é por vergonha que o faço:

Vergonha de ter uns dirigentes como aqueles que tenho.

Vergonha por, esses dirigentes, terem impedido que o povo se pudesse manifestar no seu apoio à causa da República, como sempre foi feito, na sua sala de visitas que é a Praça do Município onde, no dia 5 de Outubro de 1910, foi declarada a República. Certamente que foi por medo deste povo, o mesmo povo que o ministro das Finanças, ainda há poucas horas, tinha denominado como "o melhor povo do mundo". Foram expressivas as imagens, nas televisões, das barreiras policiais, e de polícias com metralhadoras nos telhados dos edifícios... Apenas duas mulheres conseguiram furar o cordão policial, no Pátio da Galé, quando o Cavaco Silva fazia o seu discurso, quase em privado, para uma assistência seleccionada: uma mulher, de 57 anos, que gritou do fundo da sala, desesperada, porque não sabe o que fazer com a "choruda" pensão de 227 euros que recebe cada mês; a outra, uma cantora lírica, que se pôs a cantar, com a música "Firmeza" de Fernando Lopes-Graça, um poema de Cochofel - "Não seja o travor das lágrimas / capaz de embargar-te a voz; / que a boca a sorrir não mate / nos lábios o brado de combate. / Olha que a vida nos acena para além da luta. / Canta os sonhos com que esperas, / que o espelho da vida nos escuta."

Vergonha pela forma como o Cavaco Silva abandonou, prontamente, a sala saindo às escondidas por uma porta lateral.
(TIRADA DA NET)

Vergonha por ter um governo que resolve eliminar um feriado tão importante para a República, como o do seu próprio dia.

Vergonha por ter um primeiro-ministro do governo desta República que, na comemoração do seu 102º aniversário, vai para fora do país.

Vergonha pela vergonha que sinto por tudo isto e pelo que ainda nos vai acontecer.



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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

PRISIONEIROS

É assim que nos sentimos todos - trabalhadores, pensionistas que trabalharam toda a vida, idosos, desempregados, jovens sem futuro... - prisioneiros, sem possibilidade de fuga, numa imensa prisão que se chama Portugal.



(DO AUTOR - ARQUEOLOGIA INDUSTRIAL - ILHA DO FAIAL, AÇORES)




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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

NÃO SEI O QUE DISSE... MAS CALCULO!

 Deve ter sido, mais ou menos, assim:

(O MINISTRO DAS FINANÇAS, VÍTOR GASPAR - IMAGEM DO GOOGLE MODIFICADA PELO AUTOR)

...

Provavelcertamente foi dizer que temos que fazer mais sacrifícios.

Provavelcertamente foi dizer que vai ter que aumentar os impostos.

Provavelcertamente foi dizer que vai continuar a haver mais desemprego.

Provavelcertamente foi dizer que vamos ter, ainda, mais dificuldades para mantermos a nossa dignidade.

Provavelcertamente foi dizer que nos vai meter, ainda mais, a mão nos bolsos.

Provavelcertamente foi dizer que não vai mexer nos milhões que são canalizados para as fundações que continuam a exaurir o dinheiro que é de todos e que todos pagamos.

Provavelcertamente foi dizer que não mexe nas reformas chorudas dos deputados, dos ex-governantes, dos ex-políticos, nem dos gestores da banca, nem dos pluri-ex-administradores de empresas do estado, que todos pagamos.

Provavelcertamente foi dizer, de forma velada, lenta, pausada e subreptícia que o povo que pague a crise porque os ricos, coitados, precisam do dinheiro para alimentarem as suas fortunas.

Provavelcertamente foi dizer...

                                                                                                   ... Por favor, não diga mais! 


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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

OUTONAL



Outonal


"Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio... Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País Vago...

Veludos a ondear... Mistério mago...
Encantamento... A hora que não esquece,
A luz que pouco a pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago...

Outono de crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes de terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que soluço a delirar de amor..."

Florbela Espanca, Charneca em Flor, in Poesia Completa



(DO AUTOR - QUINTA DA PROSA NO OUTONO)





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terça-feira, 2 de outubro de 2012

NÃO FORA O SOL


Quase ia tropeçando naquela planta, ou passando-lhe com o pé, bem por cima, pisando-a. Uma planta bem viva, ainda pequenina, a rebentar de um chão feito de pedras inanimadas.

Não fora o sol do fim da tarde a prolongar-lhe a sombra, a inclinação da luz a acentuar-lhe o verde, tornando-a mais visível e, certamente, aquela planta teria morrido esmagada sob a sola das botas rudes e pesadas que levava nos pés.

Estranho, nascer nesta época de fim de ciclo, na altura da queda das folhas, do desembaraçar dos ramos das árvores, do murchar do mundo vegetal.

De certeza que a semente estava já a aquietar-se para o inverno frio, que costuma ser, a esconder-se da luz, sob a protecção daquelas pedras, à espera de uma primavera prometida para mais tarde... Mas não foi assim que aconteceu!

Depois daqueles dias de chuvas e do fresco a anunciar o outono, o tempo quente voltou a aparecer enganando a semente que, ao sentir o calor das pedras protectoras, começou a germinar com força, iludida pela falsa primavera acontecida.

Por enquanto não deu pelo engano e lá vai crescendo, destemida e ousada, no meio daquele deserto de pedras soltas, a afirmar-se oásis de vida e de verdura.

Veremos até quando...


(DO AUTOR - ALGURES EM SINTRA)





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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

IGNORANTES

Estava ali! 

No meio do barulho, do desconforto provocado por aquela gente toda, das conversas que o incomodavam, dos comentários que não gostava de ouvir, dos atropelos ao bom-senso, da sobranceria, da mediania de opiniões, de frases lapidares...

E não podia fugir! 

Bastava abrir um jornal, ouvir as notícias na rádio, ligar a televisão na hora dos telejornais ou assistir a um confronto de ideias qualquer...

Estava farto!

De ouvir catedráticos a chamar ignorantes aos empresários, de ouvir empresários a dizer que não queriam nas suas empresas catedráticos daqueles, de assistir a debates feitos de teorias nunca experimentadas...

Saturado!

De medidas para isto, de aumentos de aquilo, de mentiras quase sempre, de conversas de muita treta, de desmentidos desconvictos, do "diz que disse mas não disse"...

Furioso!

Com as fundações, as parcerias, os assessores, os sugadores, os paraísos fiscais...

(DO AUTOR - NO TEJO, FRENTE À BAÍA DE CASCAIS, NUMA TARDE DE VERÃO - 2012)
Se pudesse!

Fugia, partia por aí fora, ia embora, arrumava as saudades numa caixa de sapatos, deixava que o vento o levasse e, num porto qualquer, o deixasse, longe daqui, longe disto, longe destes ignorantes...



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domingo, 30 de setembro de 2012

QUASE UM POEMA DE AMOR





(DO AUTOR - VARIAÇÕES SOBRE ÁGUA - AÇORES - SÃO MIGUEL - FURNAS - 2006)



"Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
- Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor."

Miguel Torga, in Diário V, Quase um poema de amor.


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sábado, 29 de setembro de 2012

GRAÇAS



"De quantas graças tinha, a Natureza
Fez um belo e riquíssimo tesouro,
E com rubis e rosas, neve e ouro,
Formou sublime e angélica beleza.

Pôs na boca os rubis, e na pureza
Do belo rosto as rosas, por quem mouro;
No cabelo o valor do metal louro;
No peito a neve em que a alma tenho acesa.

Mas nos olhos mostrou quanto podia,
E fez um sol, onde se apura
A luz mais clara que a do claro dia.

Enfim, Senhora, em vossa compostura
Ela a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rubis, neve e luz pura".


Luís de Camões - Sonetos


(DO AUTOR - VARIAÇÕES SOBRE ÁGUA - AÇORES - SÃO MIGUEL - PARQUE DAS FURNAS - 2006)




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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

JOANINHA VOA VOA

E vieram à memória as lenga-lengas sobre a Joaninha:



(DO AUTOR)
Joaninha voa voa
Que o teu pai foi a Lisboa
Com um saco de dinheiro
P'ra pagar ao sapateiro

Joaninha voa voa
Que o teu pai foi para Lisboa
Com um saco de farinha
Para ti, ó Joaninha.

Ou, então:

Joaninha voa voa
Que o teu pai está em Lisboa
A tua mãe no moinho
A comer pão com toucinho.

Joaninha voa voa
Que o teu pai está em Lisboa
Com um rabinho de sardinha
Para comer, que mais não tinha...

Joaninha voa voa
Que o teu pai foi p'ra Lisboa
Voa, Joaninha voa
Qu'eu te darei pão e broa
Voa voa, Joaninha
Leva cartas p'ra Lisboa
Enfiadas numa linha.

Ou, numa versão do Eduardo Olímpio e Paco Bandeira:

Joaninha avoa avoa, que o teu pai foi para Lisboa
Joaninha avoa avoa, a trabalhar
Joaninha avoa avoa, que o teu pai foi para Lisboa
com os teus olhos no olhar.

Levou o saco de linho
com a rosa que bordaste
uma enxada e um ancinho
e o farnel que lhe amanhaste

Joaninha avoa avoa, que o teu pai está em Lisboa
Joaninha avoa avoa, a trabalhar
cava tuneis, avenidas
ergue casas coloridas para a cidade morar

Para a cidade morar
nele já moram saudades
da tua cara gaiata
do sol que há no teu voar

Joaninha avoa avoa, que o teu pai foi para Lisboa
Joaninha avoa avoa, a trabalhar
Joaninha avoa avoa, que o teu pai está em Lisboa
em Lisboa a emigrar

Não enxerga o que se fala
cada grito é uma bala
dentro do peito a queimar.

Joaninha avoa avoa, que o teu pai morre em Lisboa
devagar.

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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A FLOR MURCHA



Nasceu de um gomo, de um parto quase violento, que libertou uma quantidade imensa de pétalas brancas, compridas, como dedos finos e delicados, que ficaram a coroar a haste verde durante todo o verão.

Linda que era, a flor...

E reinou, no meio do jardim, bem acima de tudo, a mostrar a sua coroa, a afirmar a sua nobreza, a chamar a atenção das abelhas, a cativar olhares, a despertar cobiças nas outras flores, mais rasteiras, mais modestas mas, também, flores.

Reinou enquanto pode, afirmou-se enquanto conseguiu, chamou a atenção das abelhas enquanto teve pólen, cativou enquanto deslumbrou até que, chegada a altura, começou a perder os dedos brancos, que foram amarelecendo, tornando-se grossos e encurvados, caindo no chão, atapetado de humildes florinhas cheias de cor...

E a flor, agora, em fim de estação, sem graça, a murchar no dia-a-dia, recolhe-se no anonimato e no quase desespero de se sentir ignorada e não olhada por ninguém, a fazer lembrar gente que se foi enchendo de importância, de balofice, encostada a um oportunismo de momento, frágil, inconsistente e inconsequente e que, por terem acontecido mudanças, por se terem alterado circunstâncias ou mudado apoios, voltam a ser as lesmas, invertebrados rastejantes, que lhe estão na massa do próprio sangue; não no carácter porque o não têm! 



(DO AUTOR - AGAPANTO (OU COROA DE HENRIQUE) EM FIM DE ESTAÇÃO)




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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

AS FLORES




(DO AUTOR - AS FLORES PURAS DE UMA MANHÃ FUTURA)
"Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura."


Sophia de Mello Breyner Andresen - in, Obra Poética - No Tempo Dividido - As Flores.




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