domingo, 19 de agosto de 2012

PONTARIA

Ainda tinha lá em casa a fisga feita com a bifurcação de um ramo de árvore, com elásticos de borracha de uma velha câmara de ar e uma funda de sola, bem ensebada pelos dedos da tanta utilização que lhe dera.

Era hábil com a fisga e tinha boa pontaria: tivesse a pedra adequada - e andava sempre com uma boa reserva nos bolsos - e nada falhava, fosse o que fosse que surgisse ao seu alcance e ficasse sob a sua mira. Quando via um passarito num galho, uma lagartixa numa parede, uma cobra à sua frente parava, tirava a fisga que andava sempre à cintura, escolhia, pelo tacto, a pedra mais adequada, passava-a pelos lábios, como que a beijá-la, colocava-a na funda e, sem grandes delongas, mas com estilo, atirava certeiro. Se era o pobre de um pássaro, lá o colocava à cintura, como um troféu de caça, e levava-o para casa juntando-o, aos que foi matando, para uma fritada.

Deixara-a, guardada, na arca de madeira onde ia colocando todos os brinquedos e objectos que ia deixando de usar. Um mundo de recordações, uma mostra de como a sua vida foi crescendo, os brinquedos mudando e evoluindo, as escolhas modificando.

Sempre fora um perfeccionista: quer na caligrafia, com a letra bonita e bem desenhada, no desenho, tentando aprimorar os detalhes, nos estudos, sempre atento, a não perder pitada do que ouvia nas aulas e depois estudando em casa, como na profissão que escolhera e abraçara, procurando os pormenores, ouvindo com interesse e observando com meticulosidade...

Também, no desporto procurou uma modalidade exigente em precisão, de mão firme, olho arguto e determinação. E, como a mania e habilidade com a fisga lhe estavam na massa do sangue, escolheu o tiro ao arco.

(DO AUTOR - CASA DAS MUDAS - EXPOSIÇÃO ARTE MODERNA DE JOE BERARDO - ILHA DA MADEIRA)


Agora, com o filho a seu lado, ensina-lhe o modo correcto de pegar no arco, a importância do braço bem esticado e horizontalizado, o olho bem orientado e focado no alvo, a corda bem retesada, a ponta do indicador e do polegar a pegarem, de forma quase subtil, mas firme, a ponta da flecha até ao momento do disparo. 

A pontaria certeira e a maçã a abrir-se em dois pedaços, mesmo ao meio, como a maçã do Guilherme Tell, no dia em que este teve de a acertar sobre a cabeça do filho!


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sábado, 18 de agosto de 2012

TOURADA

Andam para aí uma série de movimentos contra as Touradas.

Até há Câmaras Municipais que, de uma forma draconiana, proibem as touradas, sem mais quê!, sem consultas ao povo, esquecendo-se que as touradas são um espectáculo popular e do mais tradicional que existe no nosso país!

As touradas são uma forma de expressão cultural deste povo luso. Um povo que ama os seus animais, que dignifica o touro e enobrece o cavalo.

As touradas não são mais do que uma representação onde, na arena, são postos frente a frente, o touro, o homem e o cavalo. São um espectáculo de cor, de musicalidade, de ritmo, cheio de coreografia, de virtuosismo, de sensação e de coragem! 

Quem fica indiferente ao bailado  de um cavalo frente a um touro possante? Ou à dança de um toureiro com a muleta tentando iludir o animal? Ou à graciosidade de um bandarilheiro na preparação e no momento da reunião? Ou à coragem e assomo de um forcado olhando e pegando, de caras, aquela força da natureza? 

Quem não gosta de beleza e riqueza da casaca de um cavaleiro, ou de um "traje de luces" de um toureiro ou de um bandarilheiro, ou fica indiferente à simplicidade e garridice do traje de um campino, ou de um forcado?

Os toiros, os cavalos, os toureiros, os cavaleiros, as praças de touros fazem girar,  à sua volta, um sem número de pessoas, de profissionais, de famílias, de tradições, de culturas...

As touradas, além do mais, são uma atracção turística e um emblema de muitas localidades e regiões!

(DO AUTOR - PRAÇA DE TOUROS DE ARRONCHES)


Há música mais genuína que a das bandas e filarmónicas que animam uma tourada? 

E as touradas à corda tão típicas dos Açores, em particular na Ilha Terceira? Só quem não as viveu não sabe o quão emocionantes e divertidas são...

As touradas, certamente, não vão acabar!






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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

LONDRES

Agora, com os Jogos Olímpicos acabados, com o fim do torvelinho e da agitação dos dias gloriosos, das vitórias, dos recordes, das medalhas, dos aplausos, das multidões sorridentes, das bandeirinhas, dos festejos... Londres parece respirar um descanso merecido.

A cidade ganhou uma calma e descanso merecidos, quase se deixando adormecer na quietude das tardes quentes destes dias de verão, como fazendo uma sesta alentejana....



(DO AUTOR - O BIG-BEN VISTO DE UMA DAS CÁPSULAS DO LONDON EYE)


A merecer mais uma visita, depois dos Jogos, esta cidade limpa, colorida, rejubilante e gloriosa!


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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

DEPUTADO

O deputado é um eleito!

Ganha bem, tem subsídios para tudo, privilégios que mais ninguém tem, vive bem e reforma-se melhor!

O deputado é eleito, não pelo voto directo do povo, mas através de listas feitas pelos partidos! Grande parte deles não conhece os eleitores do ciclo por onde foram eleitos e não responde perante os seus eleitores, mas directamente ao directório do partido.

A maior parte deles não abre a boca, nem tem ideias próprias, mas apenas expressa as do partido que o elegeu através das listas.

Tem muitas benesses, muitos subsídios, muitos privilégios... tantos, tantos... Mas é natural, eles é que fazem as leis e, quem parte e reparte (deputado) e não tira a melhor parte... ou é tolo (honesto) ou não tem arte (inteligência)!

Até se conta a história que Deus resolveu, um dia, dar dois atributos aos habitantes de cada país: honesto, trabalhador, inteligente, persistente, político, sabedor, estudioso, sedutor... Ao português atribuiu, por engano (Deus que nunca se engana!), três qualidades: inteligente, honesto e político! Ora, os Anjos que O acompanhavam chamaram-Lhe a atenção para o descuido, que já não podia ser reparado, que punha em vantagem o português em relação aos outros. Como Deus é, também, infinitamente Justo e Sabedor emendou o engano da seguinte forma: só poderia ter dois daqueles atributos ao mesmo tempo e nunca os três juntos; assim, se o português for inteligente e honesto, não pode ser político, se for inteligente e político, não pode ser honesto, se for honesto e político, não pode ser inteligente!

A última das benesses, dos privilégios, para além de se poderem reformar ao fim de 8 anos de legislatura e terem muitas reformas acumuladas e vitalícias, foi a de eles poderem obter, super-rapidamente, as suas reformas.

Esta notícia, do Jornal "i", ilustra bem o que é o pobre deste país em que o podre e o poder se escrevem com as mesmas letras:

"O "jornal i" escreve que afinal há portugueses de primeira e portugueses de segunda. Numa altura em que a Caixa Geral de Aposentações está a levar mais de um ano a despachar as reformas, há um pequeno grupo de políticos que teve as suas reformas despachadas em menos de um mês.
Por exemplo, Jaime Gama, antigo presidente da Assembleia da República, enviou para a CGA o requerimento da sua pensão a 9 de Maio de 2011 e foi despachada a 20 de Junho do mesmo ano.
Maria do Rosário Boléo requereu a reforma a 11 de Outubro de 2010 e viu-a ser despachada a 29 do mês seguinte, Teresa Xardoné, entrou com o pedido a 14 de Agosto de 2009 e viu ser-lhe atribuída a aposentação a 18 de Novembro do mesmo ano, ou Jorge Strecht Ribeiro, que entrou com os papéis a 25 de Maio de 2011 e foi reformado a 15 de Setembro de 2011, são alguns dos exemplos, entre muitos outros, de deputados que conseguiram ver despachados os seus pedidos de reforma em menos de um mês."


Mais palavras para quê? São políticos p o r t u g u e s e s!

Nota: pus a letra, assim pequenina, apenas por VERGONHA!

(DO AUTOR - A BORDO DE UM BARCO DE PASSAGEIROS PORTUGUÊS)



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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

MARIA

(DO AUTOR - IMACULADA CONCEIÇÃO - MADALENA DO PICO - AÇORES)


Hoje comemora-se a Assunção, aos céus, de Nossa Senhora.

Um dia Santo e feriado que, por força da crise e da troyka, vai deixar de ser feriado mas, a santidade ninguém lha tira! As solenidades irão passar, certamente, para o domingo a seguir, para que o dia não passe esquecido

Celebra-se, assim, o nome e a pessoa de Maria, a Mãe de Cristo, a Mulher...

Muitas comunidades estarão em festa, principalmente as ligadas às actividades da pesca porque, também hoje, é o dia da Senhora dos Navegantes!

Uma tradição tão antiga como a dos descobrimentos portugueses!

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terça-feira, 14 de agosto de 2012

ROUBO

(DO AUTOR - ASTÚRIAS)

"Quem me roubou o tempo que era um
quem me roubou o tempo que era meu
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo o poema se escrevia"


Sophia de Mello Breyner Andressen - Poemas dispersos, in Obra Poética em Setembro de 2001.




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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

PRAIA VAZIA

Quase nem se deu conta que a tarde anoitecia, e só quando reparou que era a lua crescente, com a sua luz tranquila e fria, que iluminava a praia, agora vazia, e que ia deixando o rasto de um ténue brilho no mar que, com o escurecer, também se amolecia, é que viu que terminara o dia...

Pegou então na máquina, ajustou a sensibilidade, regulou a abertura, fixou o tripé e, numa explosão de luz de um flash cheio de energia, fez a boa da fotografia!



(DO AUTOR - PRAIA VERDE - ALGARVE)

domingo, 12 de agosto de 2012

PAISAGEM


(DO AUTOR - ALGARVE AO FIM DO DIA)




"Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva, 
E a sua exaltação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre."



Sophia de Mello Breyner Andresen - Paisagem, in Obra Poética I







sábado, 11 de agosto de 2012

A GARÇA

Tinha estado ali, quase toda a manhã. Quieta, como se fosse uma garça-estátua a imitar os homens-estátuas, mas sem o pratinho das moedas. Talvez, se tivesse posto uma rede diante, as pessoas dos barcos, ao passarem, lhe atirassem com um peixe e, assim, teria a sua subsistência garantida. Mas não! Ninguém lhe atirou um peixe sequer, nem ela se deu ao trabalho de mergulhar o bico para apanhar fosse o que fosse. Apenas iam tirando fotografias, à sua elegância e ao seu imobilismo.

Aquelas águas sujas, cheias da poluição dos barcos, de óleo e do gasóleo dos motores, de restos de comida, não convidavam ao petisco. Nem peixes havia, só aquelas taínhas escuras que comem os limos e as cracas dos cascos dos barcos e que bebem e respiram as águas poluídas a saberem a combustível.


(DO AUTOR - BAÍA DE HONG KONG)

Contemplativa, nem sequer olhava para a agitação e ruído do porto, e nem bulia, quando um barco mais ruidoso lhe passava uma tangente, apenas acompanhando o que o cabo de amarração à poita oscilava...

E só quando, do alto da amurada do barco vermelho, com o nome bem evidente em caracteres chineses e dourados, a anunciar um restaurante flutuante, o cozinheiro lhe deu três assobios é que ela levantou a cabeça, abriu as asas e, num voo curto mas gracioso, foi poisar no convés, junto à cozinha, para comer os restos do peixe fresco que ele lhe tinha preparado.

Depois, de papo bem cheio, levantou voo e partiu na certeza de que amanhã, por aquela hora, voltará ao mesmo cabo de amarração, para assegurar a sua sobrevivência. Em troca deixa-se fotografar, no seu imobilismo e graciosidade, para as centenas de turistas frequentadores do restaurante, actuando como chamariz para o mesmo.

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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

LATADA



Foram-se enchendo devagar, os bagos daquelas uvas brancas de mesa, moscatel.

A videira, plantada há muitos anos atrás, foi crescendo em altura, sempre tratada e acarinhada pelo velho avô, e as uvas sempre foram abundantes e gradas. Na altura própria, iam-se colhendo os cachos, que se lavavam, não porque fosse muito preciso, mas mais para os refrescar do calor dos dias de verão. Assim, mais frias, as uvas ganhavam outro sabor e apeteciam muito melhor...

Quando chegavam os netos, nas férias do verão, saltavam para cima do banco de pedra e iam depenicando os cachos, bago a bago, causando, na zona de influência daquele banco, um desgaste prematuro da quantidade de uvas.

Era uma alegria, um contentamento, aquela casa, no verão, cheia de gente, feita de várias gerações...



(DO AUTOR - MONSARAZ)

Agora, que os velhos partiram definitivamente, ficou a casa, de banco vazio, de janela fechada, mas de cortina colocada, impecavelmente branca, como a avó se orgulhava!

E a latada lá continua, com as mesmas uvas doces, agora não tão cheias, nem tão gradas, porque deixou de ser tratada, apenas esperando a visita dos filhos e netos, emigrantes bem longe, que aparecem nesta época para matar as saudades, limpando e caiando a casa, e cuidando da cortina de renda da janela, trabalho das mãos habilidosas da velha avó, no tentar conservar uma vida e uma tradição que, cada vez menos, vai interessando as gerações mais novas... 



gkjg

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

MEDALHA DE PRATA


Fernando Pimenta e Emanuel Silva ficaram em segundo lugar na final de K2 1000 metros na canoagem e conquistaram a primeira medalha para Portugal em Londres 2012. A dupla terminou a apenas 53 milésimos do ouro.

Os portugueses seguiram na luta pelas medalhas durante toda a prova, mas na parte final aproximaram-se mesmo do ouro, tendo terminado a apenas 53 milésimos do primeiro lugar. A dupla portuguesa gastou 3.09,699 minutos e foi apenas batida pelos húngaros Rudolf Dombi e Roland Kokeny (3.09,646). Na terceira posição ficaram os alemães Martin Holstein e Andreas Ihle (3.10,117).

Esta é a notícia!

ESTE O MEU ORGULHO!

(DO AUTOR -  PUERTO DE ANDRATX  - MALLORCA)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

PEIXES VOADORES

O mar de água lá em baixo, o mar do Alqueva, imenso, tranquilamente prisioneiro das margens compridas e recortadas que o contêm, vigiado e guardado por castelos, torres e praças fortes, que se dispõem pelos montes sobranceiros.

Lá, bem no alto, naquele Monsaraz das muralhas, das ruas de pedra, do castelo e da arena, um cardume de peixes voava, armado em catavento plural, com cada peixe fixado ao seu bastão de ferro, voando parados, todos, e apenas girando ao sabor dos ventos que se enrolam e agitam o ar ao passar pelas ameias das muralhas e do castelo.

Ao longe, nas alturas, as cegonhas vão passando tranquilas, olhando os peixes voadores, prisioneiros do seu destino, amarrados àquelas hastes de ferro que os impedem de voar, ansiosos, quem sabe?, por mergulharem nas águas azuis daquele lago que não se esgota com o olhar e que, irresistivelmente, os atrai... 


(DO AUTOR - DE MONSARAZ VOANDO SOBRE O ALQUEVA)




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terça-feira, 7 de agosto de 2012

EVOLUÇÃO



(DO AUTOR - BUSTO DE ANTERO DE QUENTAL - LARGO DOS MÁRTIRES DA PÁTRIA - PONTA DELGADA - SÃO MIGUEL - AÇORES)


"FUI ROCHA EM TEMPO, E FUI NO MUNDO ANTIGO
TRONCO OU RAMO NA INCÓGNITA FLORESTA...
ONDA, ESPUMEI, QUEBRANDO-ME NA ARESTA
DO GRANITO, ANTIQUÍSSIMO INIMIGO...

RUGI, FERA TALVEZ, BUSCANDO ABRIGO
NA CAVERNA QUE ENSOMBRA URZE E GIESTA;
OU, MONSTRO PRIMITIVO, ERGUI A TESTA
NO LIMOSO PAUL, GLAUCO PASCIGO...

HOJE SOU HOMEM, E NA SOMBRA ENORME
VEJO, A MEUS PÉS, A ESCADA MULTIFORME,
QUE DESCE, EM ESPIRAIS, DA IMENSIDADE...

INTERROGO O INFINITO E ÀS VEZES CHORO...
MAS ESTENDENDO AS MÃOS NO VÁCUO, ADORO
E ASPIRO UNICAMENTE À LIBERDADE."

Antero de Quental, in Sonetos - Evolução.




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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

LIBERDADE

Ondas livres e soltas dum mar que toca, lá no fundo do horizonte, o espaço infinito; ondas que parecem lançar-se para o céu azul construindo castelos de nuvens, brancos, informes, que se desfiguram e se deixam levar, pela liberdade dos ventos, na liberdade apaixonada do tempo...

(DO AUTOR - PRAIA DE GUARAJUBA  - BAHIA - BRASIL)
"Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade."

Sophia de Mello Breyner Andresen - Liberdade




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domingo, 5 de agosto de 2012

VOAR LONGE, VOAR ALTO


Voava alto, no ar de um céu rosado, no fim da tarde, voando livremente, voando longe, num voo maior que a ambição das suas asas, cada vez mais distante, à procura do seu destino no infinito do céu... como se fosse encontrar-se com as estrelas que estão para lá da dimensão do  próprio espaço...

(DO AUTOR - NOS CÉUS DA CULATRA - ALGARVE)

"Se teu sonho for maior que ti
Alonga tuas asas
Esgarça os teus medos
Amplia o teu mundo
Dimensiona o infinito
E parte em busca da estrela...

Voa alto!
Voa longe!
Voa livre!
Voa!

E esparrama pelo caminho
A solidão que te roubou
Tantas fantasias
Tantos carinhos
E tanta vida!


Voa alto!
Voa longe!
Voa Livre!
Voa!"


Ivan Lins - VOA












http://www.youtube.com/watch?v=0IrkDhscAMA

sábado, 4 de agosto de 2012

ONDAS APRESSADAS

Passava o dia naquelas águas!

Chegava manhã cedo e só ia embora quando a tarde já estava esquecida. Parecia, quase, um golfinho, sempre entrando e saindo das águas, surfando nas ondas, deixando-se ir embrulhado naquele tubo verde colorido, num equilibrar constante, quase chegando à praia morena... Mas logo lhe voltava costas e lá ia, mar adentro, em cima da prancha, à procura da onda apressada, enrolada e verde que lhe proporcionasse o surf do dia!

(DO AUTOR - NA PRAIA DE SÃO CONRADO - RIO DE JANEIRO)

"Uma após uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento 
E chiam a alva espuma
No moreno das praias.

Uma após uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o espaço
Do ar entre as nuvens escassas.

Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza do dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.

Só uma vaga pena inconsequente
Pára um momento à porta da minha alma
E após fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada."


Ricardo Reis - Uma após uma as ondas apressadas,  in Odes.

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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

FLOR VERMELHA

(DO AUTOR - SANTO ESTÊVÃO)


"À sua passagem a noite é vermelha
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.


Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.


Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha."


Sophia de Mello Breyner Andresen - Como uma flor vermelha

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

PÔR DO SOL

Todos os dias há um pôr-do-sol. 

A verdade é que nem sempre nos damos conta do momento em que acontece, não só porque se dá todos os dias, mas também porque, raramente, estamos disponíveis para observar o acontecimento.

E, se o fenómeno do ocaso é, por si, repetitivo, tem a particularidade de nunca ser igual, mesmo quando é visto do mesmo lugar, da mesma janela e sentado na mesma secretária... Seja porque o céu está limpo ou está com nuvens, seja porque o céu está mais azul ou mais avermelhado, seja porque os olhos que o vêem, naquele momento estão mais alegres ou mais tristes, seja porque seja...

O pôr-do-Sol, desta vez, ficou bem vermelho, da cor do dia quente que esteve, e riscado no ar pelo voo rápido e imprevisível das andorinhas atrás do jantar...

(DO AUTOR - PÔR DO SOL NO ALTO ALENTEJO)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

BALEIAS

É costume vê-las no mar lançando o seu borrifo, bem alto, quando vêm respirar à superfície, deixando ver a bossa quando se passeiam descontraídas, meio submersas, ou atirando a cauda ao ar, antes do seu mergulho em profundidade. Depois, adivinha-se o seu percurso submarino pelas pegadas que vão deixando na superfície...

É emocionante uma ida ao mar para observar as baleias... o colocar do colete salva-vidas, a saída na lancha rápida mar afora, as indicações sobre o seu avistamento feitas pelos observadores na costa, os binóculos assestados, a máquina fotográfica pronta para entrar em acção... e depois as fotos, os repuxos, o dorso a deslizar nas águas, o encher dos pulmões, o levantar da cauda, o mergulho...

(DO AUTOR - MAR DOS AÇORES)
 
Agora em terra, assim, a passear-se na rua, a fazer publicidade em frente à própria empresa que proporciona os passeios para observar as baleias (whale watching), nunca se imaginara tal forma de promoção e angariação de clientes...

(DO AUTOR - PONTA DELGADA - AÇORES)



 Efeitos da crise?


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terça-feira, 31 de julho de 2012

MÁ LÍNGUA

Podia falar-se mal, à vontade, sem segredos, sem mãos em concha nos ouvidos, sem o "não contes nada para ninguém", sem restrições, sem voz baixa, sem cicios...

Podia-se falar mal do governo, do desgoverno, da assembleia, dos autarcas, da vizinha, do colega de trabalho, da chefe, do patrão, da empregada de limpeza, do senhor da loja que quis vender gato por lebre, da comida do restaurante, das medidas de austeridade...

Os ingleses, em Londres, num dos cantos do Hyde Park, em Marble Arch, mesmo junto à Oxford Street, têm um "Speakers Corner" onde as pessoas, abertamente, podem falar do que quiserem, durante um período de tempo considerado razoável, e desde que não sejam ofensivos para a família  real ou o governo. Devem fazer o discurso, ou a conversa, em cima de um caixote ou um tablado para, assim, não estarem em solo inglês e, deste modo, não ficarem sujeitos às leis e tradições britânicas.

(DO AUTOR)

Mas, naquela Sala da Má Língua, bem ao estilo nacional, a conversa é à porta fechada, num diz que se disse, numa conversinha feita com língua de prata, não assumida, escondida, segredada, naquele "dizem para aí para não passar daqui"...


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segunda-feira, 30 de julho de 2012

RENASCER

O fogo tinha devastado quase tudo. O pinheiro quase virara carvão no sufoco daquele incêndio de pavor. Tudo, ou quase tudo, tinha ardido em seu redor.

E só, no meio daquela cor sem cor, daquele uniforme cinza que enchia a paisagem de monotonia, aquele ramo, qual flor feita de uma pincelada colorida, numa atitude erectamente ao céu dirigida, afirmava a sua presença, proclamava vida...


(DO AUTOR - NO CORAÇÃO DO ALENTEJO)
... como uma Fénix, das cinzas renascida! 

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domingo, 29 de julho de 2012

VIDA DE GATO

Deixou-se ficar em cima do muro, pachorrento, naquela modorra que a tarde quente exigia! 

Apenas abriu um olho no momento do disparo da fotografia.

(DO AUTOR - GATO ALENTEJANO)
E por ali ficou o resto do dia, com ar de fidalgo, com ar de quem gosta de olhar de cima, em completa mordomia...

Vida boa, a vida de gato... 

sábado, 28 de julho de 2012

TRINADOS

Acordou, manhã cedo, com um trinado mesmo perto da janela que deixara entreaberta.

Ainda meio estremunhado levantou-se e, com as devidas cautelas, foi-se aproximando daquela fresta que deixava entrar a luz, acordando a manhã, escutando o som melodioso do pássaro, que o despertara para o dia.

(DO AUTOR - NA SERRA ALENTEJANA)

Espreitou e lá estava ele, na ponta do ramo, num equilíbrio estável e seguro, a gorjear ao dia, a saudar o sol, a marcar posição na sua área de influência, a lembrar aos outros pássaros que as moscas, as libelinhas, as larvas e os frutos das árvores ali à volta lhe pertenciam e, por isso, teria a primazia na hora de satisfazer o papo. Cantava, assobiava, parava o cântico, mudava, num pulo quase sem bater as asas, para outro galho, e assim se entretiveram os dois... o pássaro nas suas cantoria e ginástica matinais, e ele no encanto da escuta e da visão!

Apetecia-lhe ficar assim, sossegado, a observar a natureza nos seus acordares... mas tinha que ir trabalhar e não podia estar ali, naquele remanso... o pássaro deve ter entendido as suas lucubruções e, também porque teria ainda muito mais que fazer, depois de mais um gorjeio, de mais um pulo, deu um bater de asas e partiu...


sexta-feira, 27 de julho de 2012

CÉU CARREGADO

Hoje, o dia acordou meio cacimbado, enevoado, quase frio, com um chuveirinho miudinho,  incapaz de molhar o que quer que fosse, mas exigindo um agasalho mais consistente...

Com o correr do dia, o calor foi-se afirmando com mais convicção, mas o céu nunca se libertou das nuvens carregadas e ameaçadoras de chuva e de trovoada...

(DO AUTOR - O CÉU CARREGADO)

Agora, com o dia quase a despedir-se, com o sol a desaparecer lá no fundo do mundo, hoje invisível, as nuvens começaram a despejar as ameaças do dia... caiu a chuva feita de gotas grossas, depois o ribombar longínquo dos trovões e, sem se anunciar, um raio forte, estalado, metálico iniciando a trovoada.


Um céu de Verão português a querer imitar o céu londrino na comemoração deste dia de abertura dos Jogos Olímpicos. 

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A PONTE

Era a única ponte da aldeia! 

Ligava as duas margens de um riacho de águas soltas e rápidas formadas, mais acima, a partir do degelo da muita água, feita de chuva, neve e granizo, solidificada e compactada pelos frios constantes daquelas altitudes.

(DO AUTOR - BULNES LA VILLA - PICOS DA EUROPA - ESPANHA)
Era uma ponte de madeira,  sólida,  secular e romântica. O chão, feito de enormes barrotes, estava coberto por um tapete de cascalho fino trazido pelo rodado dos carros e nos pés dos passantes e que, com o tempo, se foi infiltrando naquele lenho. A largura estava dimensionada à dos carros de bois, permitindo a passagem de um da cada vez... Nas guardas, também de madeira, havia uma placa metálica, mesmo no meio da ponte, a indicar o nome do ribeiro cujas águas ela deixava passar por debaixo.

Nos anos de mais inverno, de mais chuva, ou de mais degelo, as águas engrossavam e, quantas vezes, excediam as margens e cobriam a ponte com a sua impetuosidade... As águas, nessas alturas, vinham cheias de força, volumosas, tormentosas e assustadoras... A aldeia ficava isolada o tempo que as águas, assim, o impunham mas a vida sempre se foi fazendo, as pessoas trabalhando e a aldeia vivendo.

Até ao dia em que, na ânsia de uns votos fáceis, para a conquista de um lugar na câmara de deputados, o candidato prometeu uma ponte nova, mais larga, mais alta, mais sólida, acenando mais progresso com cimento e ferro, com mais trânsito, com mais urbanismo... 

E, à medida que a nova ponte era construída, a velha ia sendo desmantelada a golpes de machado, de serras eléctricas, ferindo de morte e aniquilando aquela velha passagem. E a nova ponte foi inaugurada com pompa e circunstância, com direito a corte de fita e a uma placa.

A pouco e pouco a aldeia foi-se descaracterizando, a sua ruralidade morrendo e arrastando consigo algumas das pessoas que a habitavam, levando outras para outros lugares e agora a aldeia está vazia, uma aldeia feita de casas abandonadas, fria e morta, mas com uma ponte nova, grande, de cimento e ferro, uma ponte que, afinal, abriu o caminho para que as pessoas se fossem embora e permitindo a passagem do enterro da própria aldeia.

O deputado, esse, continua lá, na câmara, dormitando durante as sessões, mas com o seu nome eternizado numa placa de metal na entrada de uma ponte que, agora, não leva a lugar nenhum!