quinta-feira, 19 de julho de 2012

OS PALONÇOS

Passam o dia a olhar para o ar... a ver os céus... Ali, no redondo de uma praça, estes, estáticos e empedernidos estão a ver os aviões... os que levantam, os que aterram ou, simplesmente, os que passam...

(imagem do Google)


Parecem uns palonços, estes bonecos de pedra, da escultora Teresa Paulino, a imitarem a atitude de tanta gente... de gente de carne e de osso, como as pessoas, mas que se deixam ficar, assim, quietos, parados, expectantes, imbecilmente à espera da vida, parvamente aguardando alguma coisa, ou alguém, mas não fazendo nada para a atingirem...

Não vivem, mas vegetam, não têm trabalho, nem profissão (ser deputado, ser ministro, ser político, também não é profissão)... mas sabem viver de subsídios, ou viver à custa dos outros, ou sabem procurar expedientes...

Ou palonços serão os outros, os que trabalham, os que não têm tempo  para olhar para o ar, nem (quantos?) dinheiro para andar nos aviões, os que pagam impostos para alimentar os outros palonços, os de cima?


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quarta-feira, 18 de julho de 2012

ELEVADOR DA GLÓRIA

(DO AUTOR - ELEVADOR DA GLÓRIA - LISBOA)


À noite o elevador, quando sobe no seu vagar a ladeira da Glória, traz, lá de baixo, um mundo de gente ansiosa por mergulhar nas ruelas estreitas do Bairro Alto...

Sobe lento, com um ruído feito pelo chiar das rodas nos carris, a meio do percurso cruza-se, invariavelmente, com o seu gémeo que lhe serve de contra-peso e, ao chegar ao topo, parece que vai beijar os degraus gastos daquela íngreme calçada.

Anda, assim, neste sobe e desce constante a transportar pessoas, desde 1885.

Os "Rádio Macau", em 1988, levaram-o até ao mundo das canções:

O Elevador da Glória:

" Daquilo que está por baixo
Até ao que fica no alto
Vão dois carris de metal
Na calçada de basalto
Desde este lugar sem história
Até um lugar na história
Vão apenas dois minutos
No elevador da glória

Duma existência banal
Até às luzes da ribalta
Há dois carris de metal
Desde a baixa à vida alta
Desde o triste anonimato
Desde a ralé e escória
Até à fama e ao estrelato
Há o elevador da glória"

terça-feira, 17 de julho de 2012

PELA MAGIA DUM RISCO


(DO AUTOR - O MAR AO ENTARDECER)


No fim da tarde
Que morre
A cor do oiro percorre
As águas quase quietas
Deste mar
Onde uma brisa
Em breves sopros desliza.


E quando as águas
Se ondulam
- Pela magia dum risco -
Soltam-se os tons que azulam
As espumas inquietas
Que na pressa de chegar
Se esgotam na beira do mar.

 


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segunda-feira, 16 de julho de 2012

ROSA TARDIA

(DO AUTOR - COVADONGA - PICOS DA EUROPA - ESPANHA)


"Como uma rosa jovem, a minha amada...
Morena, linda, esgalga, penumbrosa
Parece a flor colhida, ainda orvalhada
Justo no instante de tornar-se rosa.

Ah, porque não a deixas intocada
Poeta, tu que és pai, na misteriosa
Fragância do seu ser, feito de cada
Coisa tão frágil que perfaz a rosa...

Mas (diz-me a Voz) por que deixá-la em haste
agora que ela é rosa comovida
De ser na tua vida o que buscaste

Tão dolorosamente pela vida?
Ela é rosa, poeta... assim se chama...
Sente bem seu perfume... Ela te ama..."


Vinícius de Moraes, in Soneto da Rosa Tardia



domingo, 15 de julho de 2012

CAMINHANDO SOBRE FACES

O projecto começou por uma série de fotografias de rostos de voluntários, 1870 mais precisamente, aos quais era pedido que imitassem uma de três expressões propostas, todas com os olhos fechados.

Fizerem-se outras tantas fotografias a preto e branco, impressas em quadrados de madeira, que ficaram dispostos no chão da Sala Gótica.

Caminhando sobre Faces é um trabalho artístico, reflectivo, cheio de força, em que o autor - Bernardi Roig - pretende dar uma visão horizontal, neste caso de cabeça baixa, num espaço enorme, de uma sala gótica, onde o que domina é uma visão vertical feita de colunas, janelas e portas e que, quase imperativamente, obriga as pessoas a olharem para cima.

O desafio proposto era, precisamente, modificar a forma de olhar, ou seja, ao entrar naquele local, em vez de se olhar para cima - para as colunas, para o tecto, para as portas e janelas -, sugestionar a visão a dirigir-se para baixo, de modo a olhar o chão e caminhar sobre aquelas caras, fazendo caretas, de olhos fechados...

(DO AUTOR - LA LLOTJA - WALKING ON FACES - BERNARDI ROIG)
(DO AUTOR - LA LLOTJA - WALKING ON FACES - BERNARDI ROIG)
 Não são mais do que uns que olham de cima para baixo, como se olhassem os seus próprios pés, de olhos bem abertos, num olhar horizontal, que olha caras de olhos fechados que, por não verem, não podem olhar...

O desafio foi conseguido!

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sábado, 14 de julho de 2012

VENDE-SE

Nem soube bem o que lhe chamou mais a atenção, se o "VENDE-SE" escrito em maiúsculas grandes, de cor azul, na parede branca sem janelas daquela casa, se o "graffiti"  criativo que preenchia a fachada de todo o prédio ao lado.

Um chamou-lhe a atenção pela pluralidade e frequência com que o "VENDE-SE", agora, se vê por todo o lado seja, assim, escrito nas paredes de uma casa ou de um muro, seja em cartazes pendurados nas janelas, geralmente associados ao nome de uma firma de compra, venda e arrendamento de imóveis ou, então, um simples papel branco com um VENDE ou TRATA e um número de telefone, por baixo, apostado por detrás do vidro de uma janela. Tudo isto é, certamente, fruto destes tempos de crise geral.

O outro despertou-lhe o interesse pela originalidade e qualidade do desenho pintado em toda a superfície do prédio. Uma casa comercial com o negócio a parar-se cada vez mais, as vendas a anularem-se e com poucas perspectivas de melhorar o negócio. Também isto, certamente, fruto destes tempos de crise que toca a todos, ou a quase todos.

(DO AUTOR - PONTA DELGADA - ILHA DE SÃO MIGUEL - AÇORES)
Enquanto uns, para resolverem o problema, não encontram outra solução que entregarem o bem a um outro que trata de vender ou arrendar, dentro de valores pré-estabelecidos, e condicionados pelo mercado da altura, outros, vão imaginando e descobrindo maneiras originais e ardilosas de não perderem o negócio e despertarem o interesse de potenciais clientes: as pessoas que passam param, olham, tiram fotografias, interrogam-se sobre o significado de tal desenho,  e vão entrando pela porta aberta, movidos por uma curiosidade quase infantil.

Ambos vendem, ou tentam vender: mas, enquanto uns escarrapacham o VENDE-SE, sem mais nada,  numa parede branca, e ficam à espera que alguém diga alguma coisa, outros, sem colocarem o VENDE-SE em lado nenhum, vão enchendo a loja de curiosos e vendendo, de forma regular, os seus produtos, e a tornarem o negócio num sucesso. 

Uns a fazer pela vida, outros a deixar que a vida lhes aconteça... 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

ROUPA LAVADA

(DO AUTOR - ROUPA A SECAR - PONTA DELGADA)

Depois da festa arruma-se tudo, limpa-se a casa, coloca-se o que está fora do sítio no local certo e, por fim, lava-se a roupa que se foi sujando no meio daquela confusão toda.

E nada melhor que fazer uma  boa barrela, daquelas à moda antiga, com uma boa saponária e  esfregando-se o sabão em cada peça de roupa, até ficarem desencardidas, passando-se, depois, por várias águas até estas sairem límpidas. 


Se a roupa é de cor convém que a lavagem seja feita em separado, permitindo que cada peça tenha a possibilidade de ficar, além de bem lavada, sem as cores e as influências das outras.


Depois é pôr a roupa a corar e a secar ao sol, deixando-a, como nova, sem manchas e sem nódoas.


Sem reminiscências de dias antigos, sem lembrar  máculas passadas, esquecendo o sujo que ficou para trás e olhando o brilho e a cor de uma roupa que acabou de ser lavada.


Será sempre melhor dar uma passagem com o ferro de brunir. É que, assim, a roupa fica sem as rugas e sem os vincos da roupa acabada de lavar. E, quando voltar a ser usada, vai ser vestida com outro gosto, como se fosse roupa nova, acabada de estrear!







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quinta-feira, 12 de julho de 2012

RASGÃO



(DO AUTOR)

Foi-se rasgando com o correr do tempo, com o sol que a foi queimando, com o vento que, um dia, a abanou com mais força, com o passar de alguém, com a idade...

E, também, à medida que foi passando do verde forte para este amarelo e castanho, foi perdendo a elasticidade, foi ficando mais rígida e, ao mesmo tempo, mais frágil.

De cores, foi ficando significativamente mais bonita!

Anteontem, foi um golpe e uma fractura, ontem, um rasgo maior com afastamento dos bordos e, hoje, o rasgão definitivo, a libertar a folha daquele berço do ramo que a prendia, a agarrava, deixando-a solta ao vento, e à liberdade de vida que ansiava e desejava...     




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quarta-feira, 11 de julho de 2012

ESPERA

(DO AUTOR - À ESPERA EM GHENT, NA BÉLGICA)


"Ai quem me dera, terminasse a espera
E retornasse o canto simples e sem fim...
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim


Ai quem me dera percorrer estrelas
Ter nascido anjo e ver brotar a flor
Ai quem me dera uma manhã feliz
Ai quem me dera uma estação de amor


Ah! Se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais


Ai quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afins
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim


Ai quem me dera ouvir o nunca mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E finda a espera ouvir na primavera
Alguém chamar por mim..."


Vinícius de Moraes - Ai quem me dera





terça-feira, 10 de julho de 2012

OU ISTO OU AQUILO


(DO AUTOR - VULCÃO DOS CAPELINHOS - ILHA DO FAIAL - AÇORES)
"Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

(DO AUTOR - NOS CÉUS DE CORUCHE)

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

(DO AUTOR - GHENT - BÉLGICA)
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
vivo escolhendo o dia inteiro!

(DO AUTOR - ESCULTURA DE GIGANTE)


Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo."



Cecília Meireles - Ou isto ou aquilo.





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segunda-feira, 9 de julho de 2012

O QUE AMAMOS ESTÁ SEMPRE LONGE DE NÓS

(DO AUTOR - PONTA DELGADA - SÃO MIGUEL)
 

"O que amamos está sempre longe de nós:
e longe mesmo do que amamos - que não sabe
de onde vem, aonde vai nosso impulso de amor.

O que amamos está como a flor na semente,
entendido com medo e inquietude, talvez
só para em nossa morte estar durando sempre.

Como as ervas do chão, como as ondas do mar,
os acasos se vão cumprindo e vão cessando.
Mas, sem acaso, o amor límpido e exacto jaz.

Não necessita de nada o que em si tudo ordena:
que tristeza unicamente pode ser
o equívoco do tempo, os jogos da cegueira
com setas negras na escuridão."



Cecília Meireles - O que amamos está sempre longe de nós, in "Solombra"

domingo, 8 de julho de 2012

O CORTEJO

O ruído que domina é o chiar monótono e prolongado dos carros de bois. Como um lamento profundo, um gemer agudo e angustiante... Mas não passa disso!

(DO AUTOR - O CORTEJO)

O que se vê é um povo a sorrir, a oferecer o que tem: as sopas, a carne, as couves, o milho cozido nas furnas vulcânicas, o vinho, a água, a massa sovada, o arroz doce... Tudo!  Numa imensa alegria e satisfação de partilhar...

(DO AUTOR - A DÁDIVA)
Nesta Festa da Partilha, da dádiva, da entrega, aconteceu o Cortejo dos Carros Alegóricos das 24 Freguesias de Ponta Delgada. Um Cortejo imenso, que demorou horas a passar, ao longo de toda a avenida que olha o Atlântico, cheio de cor, de alegria, de gente a dar e de gente a receber, de muita música, de cantares, de trajes típicos, das Folias do Espírito Santo, de grupos de bailação...

(DO AUTOR - O VINHO DE CHEIRO)


(DO AUTOR - A MASSA SOVADA)

(DO AUTOR - AS FOLIAS DO ESPÍRITO SANTO)
(DO AUTOR - O CAPOTE AÇORIANO)


(DO AUTOR - DIÁLOGO MÚUUUDO)

(DO AUTOR - A RABECA)

 Desta vez só não se viu dançar a Chamarrita!


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sábado, 7 de julho de 2012

A COROA

Estamos em plenas Festas do Espírito Santo!


E a coroa, esta noite, vai brilhar no seu esplendor... 

(DO AUTOR - COROA DO ESPÍRITO SANTO - PONTA DELGADA)
... a Charanga dos Bombeiros já desfila no Centro Histórico, a Bandeira do Divino Espírito Santo parte, em procissão, do Centro de Cultura para os Paços do Concelho, onde vai ficar em exposição juntamente com os pendões e as coroas das diferentes freguesias...


(DO AUTOR - BANDEIRA DO ESPÍRITO SANTO - PAÇOS DO CONCELHO DE PONTA DELGADA)
... a Massa Sovada vai a concurso, para se eleger a melhor e ser leiloada ao melhor preço, as mostras de artesanato, em pequenas barraquinhas, estão espalhadas pela Cidade, e no Coreto da Praça são apresentadas as Folias do Espírito Santo; sim, que este Espírito Santo não é banqueiro, este, tem humor... sabe sorrir e é folião!

(DO AUTOR - FILARMÓNICA MINERVA)
Depois, será a Partilha Popular das Sopas do Espírito Santo no Campo de São Francisco, mesmo ao lado onde está o Senhor Santo Cristo e, logo a seguir, partirá o Cortejo Etnográfico pela avenida que olha o Atlântico...

É um povo em festa, numa cidade que brilha e regozija.

E, por favor, por aqui, nestes dias, ninguém fale da crise, de coelhos, de relvas, de troykas, do BES ou de outras quejandices porque aqui, este Espírito Santo não cobra juros, não aniquila famílias, não rouba ordenados, não tira subsídios...


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sexta-feira, 6 de julho de 2012

CONCERTO

Foi na Igreja de São Sebastião - a Matriz -, naquele templo com cinco séculos de história, mesclado de estilos, mas de porta Manuelina, única, que combina o seu branco, de um imaculado calcário, com o negro do basalto vulcânico das outras duas portas, que a ladeiam, que se realizou o Concerto da Orquestra de Câmara de Ponta Delgada.

(DO AUTOR - A IGREJA MATRIZ DE PONTA DELGADA - DE SÃO SEBASTIÃO)
Lá dentro a luz e a cor fascinavam e acentuavam a grandeza daquele espaço; o silêncio impunha-se naturalmente, e o São Sebastião, de setas  de prata cravejado e túnica bem vermelha, da cor do sangue por ele jorrado, numa atitude e pose bem estudadas,  quase de espavento, resplandecia no alto do seu pedestal presidindo, como um Maestro, a todo aquele acontecimento. 

(DO AUTOR - SÃO SEBASTIÃO - IGREJA DA MATRIZ)

E cá em baixo, humilde, a Orquestra, quase mimetizada pela assistência atenta e entusiasmada, com os seus acordes de música e de magia, nuníssono e harmonia do vibrar tímido das cordas dos violinos e do gemer rugoso do enorme contrabaixo, encheu, durante longos momentos, aquele lugar de uma intensa e imensa melodia!


(DO AUTOR - NA IGREJA MATRIZ DE PONTE DELGADA)




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quinta-feira, 5 de julho de 2012

AÇORES SEM CORES

O dia, hoje, acordou, total e definitivamente, cinzento!

Amanheceu na hora certa. E lá no alto dos céus, acima das nuvens, o sol brilhava e encantava.


Mas, assim que o avião iniciou a descida, começou a penetrar, de forma suave, num capacete feito de nuvens cinzentas que resolveram não abandonar esta parte sul da Ilha. Do outro lado, a norte, chovia, para o nordeste, ameaçava, e só na zona dos Mosteiros e das Sete Cidades é que o sol, dizem, ia brincando às escondidas com o colorido das lagoas e com o azul do mar bravio, que se ia desfazendo em espumas brancas nas suas investidas contra os pilares de rochas.

De nada valeu a prece ao Arcanjo protector da Ilha... nem ao Espírito Santo, muito provavelmente distraído na preparação das suas festas.


A verdade é que o dia não quis saber do sol, nem  de mais nada, e embicou naquela bruma cinza, negando a cor ao dia, e o calor que lhe devia!

(DO AUTOR - SANTA BÁRBARA, ESCONDIDA)

E só mesmo no fim da tarde, quando o dia já quase se despedia, é que o Sol conseguiu, quase num último esforço, romper o manto cinzento, que tudo envolvia, e permitir a visão, a cores, de um pachorrento mar azul e a acabar com aquela cor cinza da monotonia.

(DO AUTOR - AO LARGO DE PONTA DELGADA)



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quarta-feira, 4 de julho de 2012

LIVRARIA

(O Sítio da Prosa)
Livro a livro, tema a tema, autor a autor, mas sempre por ordem alfabética:

De A a Z!

Tudo numa sequência, numa lógica de arrumação e de procura...

E há temas e livros para todas as letras, autores, talvez, também! 

E, assim, os foi arrumando:

as enciclopédias e os dicionários no mesmo sector;

as edições especiais dos Lusíadas, do Dom Quixote, da Peregrinaçam, os Fac-Simile, e os livros antigos, também acantonados em local próprio;

os livros de poesia, separando os poetas portugueses dos outros;

os romances de autores estrangeiros pela ordem alfabética dos títulos;

os que têm grande obra, esses, ficam à parte: Eça, Florbela, Pessoa, Sophia, Torga...

As fotobiografias, quase dos mesmos, também separados: Ary, Eça, Florbela, Natália, Pessoa, Sophia, Vitorino...

Os livros ligados à profissão, os de pedagogia, os de literatura, os das formações...

Não esqueceu os livros de cozinha, nem os das viagens e, muito menos, os da fotografia...

E nem só os livros!

A mesma coisa em relação aos CDs, separados por temas: fado, jazz, música clássica... os solistas separados dos conjuntos, os nacionais dos estrangeiros, tudo por ordem alfabética, seguindo a regra do abecedário...

Deixou uma prateleira só de músicas para dançar: foxtrote, as kizombas, as polcas, a salsa, os tangos, as valsas, ... 

O mesmo para os DVDs: os de música, dos concertos da Diana Krall, separados dos de cinema, nacionais e os outros mas, desta vez, pela ordem alfabética do nome dos filmes...

Sempre por ordem alfabética... A, depois B, depois C ... assim por diante... 

O Sítio da Prosa a ganhar vida, a instalar-se, e os livros e a leitura, a terem espaço... em ordem.

À espera!

De A a Z!



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terça-feira, 3 de julho de 2012

LUA CHEIA


(DO AUTOR - A LUA CHEIA HOJE)




"Amor! Anda o luar, todo bondade
Beijando a Terra, desfazendo-se em luz...

..."


(Florbela Espanca - Nocturno)



"Sou eu, Florbela! Aquele que buscaste.
Falam de mim Teus versos de Menina.
Tua boca p'ra mim se abriu, divina,
mas foi só o Luar que Tu beijaste.

..."

[Sebastião da Gama - Florbela (Em sua memória)] 




"...
 Poisa as mãos nos meus olhos, com carinho,
Fecha-os num beijo dolorido e vago...
E deixa-me chorar devagarinho..."

(Florbela Espanca - Nocturno)




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segunda-feira, 2 de julho de 2012

AO LONGE O MAR

(DO AUTOR - ALGARVE)



Porto calmo de abrigo
De um futuro maior
Inda não está perdido
No presente temor

Não faz muito sentido
Já não esperar o melhor
Vem da névoa saindo
A promessa anterior

Quando avistei
Ao longe o mar
Ali fiquei
Parad(o) a olhar

Sim eu canto a vontade
Canto o teu despertar
E abraçando a saudade
Canto o tempo a passar

Quando avistei
Ao longe o mar
Ali fiquei
Parad(o) a olhar

Quando avistei
Ao longe o mar
Sem querer deixei-me
Ali ficar


Madre de Deus - Ao longe o mar





http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=hCUOQYruotI


domingo, 1 de julho de 2012

LISBOA E O TEJO

"Digo:
'Lisboa'
Quando atravesso- vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com o seu nome de ser e de não-ser
Com os seus meandros de espanto insónia e lata
E o seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver."


Sophia de Mello Breyner Andresen - Lisboa.



(DO AUTOR - LISBOA VISTA DO TEJO)








sábado, 30 de junho de 2012

TARDE NO MAR



(DO AUTOR - NOS MARES DO ALGARVE)

"A tarde é de oiro rútilo: esbraseia.
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,


Poisa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue o seu destino!
E o sol, nas casa brancas que incendeia,
Desenha mãos sangrentas de assassino!


Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...


E sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes..."


Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"




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sexta-feira, 29 de junho de 2012

VI

(DO AUTOR - DESFILADEIRO DE LOS BEYOS - RIO SELLA - ASTÚRIAS)









"Vi países de pedras e de rios
Onde nuvens escuras como aranhas
Roem o perfil roxo das montanhas
Entre poentes cor-de-rosa e frios.




Transbordante passei entre as imagens
Excessivas de terras e dos céus
Mergulhando no corpo desse deus
Que se oferece, como um beijo, nas paisagens".






Sophia de Mello Breyner Andresen, in Vi - Dia do Mar - Obra Poética.




quinta-feira, 28 de junho de 2012

HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM

(DO AUTOR - CANGAS DE ONIS - ASTÚRIAS)



"Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte."


Alexandre O'Neill, in "No reino da Dinamarca".



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quarta-feira, 27 de junho de 2012

GROSELHAS

Tardaram um pouco.

É o costume!

É que ali, naquela dobra da serra, quase escondida pelo arvoredo denso dos carvalhos, dos sobreiros e dos castanheiros, o sol tarda sempre a chegar e parte mais cedo do que devia.

Por isso as groselhas demoram mais tempo a aparecer, maduram mais lentamente, mas, por isso também, vão tendo mais tempo para se encherem, para ganharem cor e para irem acumulando algum açúcar...

Agora, que estão cheias, que já estão bem vermelhas, daquele vermelho capaz de fazer nódoas que não saem, agora que os bagos estão firmes e consistentes, está na altura de as colher... delicadamente... manhã cedo, podadas com um tesoura pequena, em pequenos cachos, e colocadas em caixas de tamanho adequado,  para que não fiquem esmagadas.

Este ano há muitas... capazes de encherem muitas caixas e o olhar guloso daqueles que as vão comer...

(DO AUTOR - AS GROSELHAS DA QUINTA DA PROSA)


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terça-feira, 26 de junho de 2012

SOMBRAS CHINESAS

Não são, mas parecem!

(DO AUTOR - NA CIDADE DA HORTA, ILHA DO FAIAL, AÇORES)

São apenas dois desenhos na parede de um muro velho: uma açoriana, com o seu capote e capelo, e uma vaca desenhados como se fossem sombras projectadas numa qualquer parede rosa e velha da Ilha Azul!

Um traje que caiu em desuso nesta ilha açoriana do Faial, mas que, pelos anos vinte do século passado, era um traje  bastante comum.

Raul Brandão fez um relato cuidado sobre o uso deste traje no seu livro "As Ilhas Desconhecidas - Notas e paisagens":

"...

O que dá um grande carácter a esta terra é o capote. A gente segue pelas ruas desertas e, de quando em quando, irrompe de uma porta um fantasma negro e disforme, de grande capuz pela cabeça. São quase sempre as velhas que o usam, mas as raparigas, metidas na concha deste vestuário, que pouco varia de ilha para ilha, chegam a comunicar encanto ao capote monstruoso. É um ser delicado e loiro e o contraste realça a figurinha que saltita em passo de ave condenada àquele pesadelo, como certos bichos de aspecto estranho que trazem a carapaça às costas.

... Também me explicam que é uma coisa ao mesmo tempo monstruosa e cómoda: vai-se com ele pela manhã à missa, usam-no as velhas aferradas aos seus hábitos, e uma rapariga pode visitar uma amiga na intimidade, porque está sempre vestida: basta lançá-lo sobre os ombros. Envolve todo o corpo, e, puxando o capuz para a frente, ninguém a conhece. O que uma mulher que use o capote precisa é de andar muito bem calçada, porque tapada, defendida e inexpugnável, só pelos pés se distingue;  pelo sapato e pela meia é que se sabe se é bonita a mulher que vai no capote. O capote herda-se, deixa-se em testamento e passa de mães para filhas. O capote numa casa serve às vezes para toda a família. Mulher que precisa de ir à rua de repente, pega nele e sai como está.  - Este já foi da minha avó - diz-me uma rapariga. - Era dum pano inglês escuro, dum pano magnífico que dura vidas.

..."
(Raul Brandão, in As Ilhas Desconhecidas - Notas e paisagens - A Ilha Azul).


O capote, em lã ou merino, era em preto ou em azul ferrete e levava uns bons metros de pano. O capelo, também ele entretelado e armado com cartão e barbas de baleia, era cosido ao colarinho do capote e abria na frente lembrando o corpo de uma raia.
(Parágrafo retirado do Blog Virtual Memories - 15 de Maio de 2010).

O capote - que foi um símbolo do arquipélago - já quase se não vê, mas as vacas, essas, continuam a proliferar e a transformarem-se, cada vez mais, no ícone daquelas ilhas.

Agora o que parece é que, na realidade, a única sombra chinesa, naquela fotografia, é a do fotógrafo, com um típico chapéu de palha faialense na cabeça, e que se deixou apanhar pelo sol, àquela hora já meio levantado do horizonte, e que ia projectando a sua sombra no chão daquela terra que acorda, todos os dias, a olhar o Pico!


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segunda-feira, 25 de junho de 2012

SERRA DA ARRÁBIDA



"...


Na noite calma
a poesia da Serra adormecid
vem recolher-se em mim. 
E o combate magnífico da Cor, 
que eu vi de dia
e o casamento do cheiro a maresi
com o perfume agreste do alecrim; 
e os gritos mudos das rochas sequiosas que o Sol castig
—passam a dar-se em mim. 

E todo eu me alevanto e todo eu ardo. 
Chego a julgar a Arrábida por Mãe, 
quando não serei mais que seu bastardo. 

A minha alma sente-se beijad
pela poalha da hora do Sol-pôr 
sente-se a vida das seivas e a alegri
que faz cantar as aves na quebrada
e a solidão augusta que me fal
pela mata cerrada
aonde o ar no peito se me cala
desceu da Serra e concentrou-se em mim. 

E eu pressinto que a Noite, nesse instante, 
se vai ajoelhar... 

… … … … … … …. … … … … … … …
… … … … … … …. … … … … … … …


Ai não te cales, água murmurante! 
Ai não te cales, voz do Poeta errante!, 

- se não a Serra pode despertar."



Sebastião da Gama - Serra-Mãe.

(DO AUTOR - O CABO ESPICHEL,  A PONTA MAIS OCIDENTAL DA SERRA DA ARRÁBIDA NO SEU MERGULHO MARÍTIMO, O MERGULHÃO NO SEU VOO RASANTE E O CRISTO-REI, AO FUNDO, A ABRAÇAR O MUNDO)