sexta-feira, 6 de julho de 2012

CONCERTO

Foi na Igreja de São Sebastião - a Matriz -, naquele templo com cinco séculos de história, mesclado de estilos, mas de porta Manuelina, única, que combina o seu branco, de um imaculado calcário, com o negro do basalto vulcânico das outras duas portas, que a ladeiam, que se realizou o Concerto da Orquestra de Câmara de Ponta Delgada.

(DO AUTOR - A IGREJA MATRIZ DE PONTA DELGADA - DE SÃO SEBASTIÃO)
Lá dentro a luz e a cor fascinavam e acentuavam a grandeza daquele espaço; o silêncio impunha-se naturalmente, e o São Sebastião, de setas  de prata cravejado e túnica bem vermelha, da cor do sangue por ele jorrado, numa atitude e pose bem estudadas,  quase de espavento, resplandecia no alto do seu pedestal presidindo, como um Maestro, a todo aquele acontecimento. 

(DO AUTOR - SÃO SEBASTIÃO - IGREJA DA MATRIZ)

E cá em baixo, humilde, a Orquestra, quase mimetizada pela assistência atenta e entusiasmada, com os seus acordes de música e de magia, nuníssono e harmonia do vibrar tímido das cordas dos violinos e do gemer rugoso do enorme contrabaixo, encheu, durante longos momentos, aquele lugar de uma intensa e imensa melodia!


(DO AUTOR - NA IGREJA MATRIZ DE PONTE DELGADA)




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quinta-feira, 5 de julho de 2012

AÇORES SEM CORES

O dia, hoje, acordou, total e definitivamente, cinzento!

Amanheceu na hora certa. E lá no alto dos céus, acima das nuvens, o sol brilhava e encantava.


Mas, assim que o avião iniciou a descida, começou a penetrar, de forma suave, num capacete feito de nuvens cinzentas que resolveram não abandonar esta parte sul da Ilha. Do outro lado, a norte, chovia, para o nordeste, ameaçava, e só na zona dos Mosteiros e das Sete Cidades é que o sol, dizem, ia brincando às escondidas com o colorido das lagoas e com o azul do mar bravio, que se ia desfazendo em espumas brancas nas suas investidas contra os pilares de rochas.

De nada valeu a prece ao Arcanjo protector da Ilha... nem ao Espírito Santo, muito provavelmente distraído na preparação das suas festas.


A verdade é que o dia não quis saber do sol, nem  de mais nada, e embicou naquela bruma cinza, negando a cor ao dia, e o calor que lhe devia!

(DO AUTOR - SANTA BÁRBARA, ESCONDIDA)

E só mesmo no fim da tarde, quando o dia já quase se despedia, é que o Sol conseguiu, quase num último esforço, romper o manto cinzento, que tudo envolvia, e permitir a visão, a cores, de um pachorrento mar azul e a acabar com aquela cor cinza da monotonia.

(DO AUTOR - AO LARGO DE PONTA DELGADA)



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quarta-feira, 4 de julho de 2012

LIVRARIA

(O Sítio da Prosa)
Livro a livro, tema a tema, autor a autor, mas sempre por ordem alfabética:

De A a Z!

Tudo numa sequência, numa lógica de arrumação e de procura...

E há temas e livros para todas as letras, autores, talvez, também! 

E, assim, os foi arrumando:

as enciclopédias e os dicionários no mesmo sector;

as edições especiais dos Lusíadas, do Dom Quixote, da Peregrinaçam, os Fac-Simile, e os livros antigos, também acantonados em local próprio;

os livros de poesia, separando os poetas portugueses dos outros;

os romances de autores estrangeiros pela ordem alfabética dos títulos;

os que têm grande obra, esses, ficam à parte: Eça, Florbela, Pessoa, Sophia, Torga...

As fotobiografias, quase dos mesmos, também separados: Ary, Eça, Florbela, Natália, Pessoa, Sophia, Vitorino...

Os livros ligados à profissão, os de pedagogia, os de literatura, os das formações...

Não esqueceu os livros de cozinha, nem os das viagens e, muito menos, os da fotografia...

E nem só os livros!

A mesma coisa em relação aos CDs, separados por temas: fado, jazz, música clássica... os solistas separados dos conjuntos, os nacionais dos estrangeiros, tudo por ordem alfabética, seguindo a regra do abecedário...

Deixou uma prateleira só de músicas para dançar: foxtrote, as kizombas, as polcas, a salsa, os tangos, as valsas, ... 

O mesmo para os DVDs: os de música, dos concertos da Diana Krall, separados dos de cinema, nacionais e os outros mas, desta vez, pela ordem alfabética do nome dos filmes...

Sempre por ordem alfabética... A, depois B, depois C ... assim por diante... 

O Sítio da Prosa a ganhar vida, a instalar-se, e os livros e a leitura, a terem espaço... em ordem.

À espera!

De A a Z!



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terça-feira, 3 de julho de 2012

LUA CHEIA


(DO AUTOR - A LUA CHEIA HOJE)




"Amor! Anda o luar, todo bondade
Beijando a Terra, desfazendo-se em luz...

..."


(Florbela Espanca - Nocturno)



"Sou eu, Florbela! Aquele que buscaste.
Falam de mim Teus versos de Menina.
Tua boca p'ra mim se abriu, divina,
mas foi só o Luar que Tu beijaste.

..."

[Sebastião da Gama - Florbela (Em sua memória)] 




"...
 Poisa as mãos nos meus olhos, com carinho,
Fecha-os num beijo dolorido e vago...
E deixa-me chorar devagarinho..."

(Florbela Espanca - Nocturno)




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segunda-feira, 2 de julho de 2012

AO LONGE O MAR

(DO AUTOR - ALGARVE)



Porto calmo de abrigo
De um futuro maior
Inda não está perdido
No presente temor

Não faz muito sentido
Já não esperar o melhor
Vem da névoa saindo
A promessa anterior

Quando avistei
Ao longe o mar
Ali fiquei
Parad(o) a olhar

Sim eu canto a vontade
Canto o teu despertar
E abraçando a saudade
Canto o tempo a passar

Quando avistei
Ao longe o mar
Ali fiquei
Parad(o) a olhar

Quando avistei
Ao longe o mar
Sem querer deixei-me
Ali ficar


Madre de Deus - Ao longe o mar





http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=hCUOQYruotI


domingo, 1 de julho de 2012

LISBOA E O TEJO

"Digo:
'Lisboa'
Quando atravesso- vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com o seu nome de ser e de não-ser
Com os seus meandros de espanto insónia e lata
E o seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver."


Sophia de Mello Breyner Andresen - Lisboa.



(DO AUTOR - LISBOA VISTA DO TEJO)








sábado, 30 de junho de 2012

TARDE NO MAR



(DO AUTOR - NOS MARES DO ALGARVE)

"A tarde é de oiro rútilo: esbraseia.
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,


Poisa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue o seu destino!
E o sol, nas casa brancas que incendeia,
Desenha mãos sangrentas de assassino!


Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...


E sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes..."


Florbela Espanca, in "Charneca em Flor"




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sexta-feira, 29 de junho de 2012

VI

(DO AUTOR - DESFILADEIRO DE LOS BEYOS - RIO SELLA - ASTÚRIAS)









"Vi países de pedras e de rios
Onde nuvens escuras como aranhas
Roem o perfil roxo das montanhas
Entre poentes cor-de-rosa e frios.




Transbordante passei entre as imagens
Excessivas de terras e dos céus
Mergulhando no corpo desse deus
Que se oferece, como um beijo, nas paisagens".






Sophia de Mello Breyner Andresen, in Vi - Dia do Mar - Obra Poética.




quinta-feira, 28 de junho de 2012

HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM

(DO AUTOR - CANGAS DE ONIS - ASTÚRIAS)



"Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte."


Alexandre O'Neill, in "No reino da Dinamarca".



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quarta-feira, 27 de junho de 2012

GROSELHAS

Tardaram um pouco.

É o costume!

É que ali, naquela dobra da serra, quase escondida pelo arvoredo denso dos carvalhos, dos sobreiros e dos castanheiros, o sol tarda sempre a chegar e parte mais cedo do que devia.

Por isso as groselhas demoram mais tempo a aparecer, maduram mais lentamente, mas, por isso também, vão tendo mais tempo para se encherem, para ganharem cor e para irem acumulando algum açúcar...

Agora, que estão cheias, que já estão bem vermelhas, daquele vermelho capaz de fazer nódoas que não saem, agora que os bagos estão firmes e consistentes, está na altura de as colher... delicadamente... manhã cedo, podadas com um tesoura pequena, em pequenos cachos, e colocadas em caixas de tamanho adequado,  para que não fiquem esmagadas.

Este ano há muitas... capazes de encherem muitas caixas e o olhar guloso daqueles que as vão comer...

(DO AUTOR - AS GROSELHAS DA QUINTA DA PROSA)


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terça-feira, 26 de junho de 2012

SOMBRAS CHINESAS

Não são, mas parecem!

(DO AUTOR - NA CIDADE DA HORTA, ILHA DO FAIAL, AÇORES)

São apenas dois desenhos na parede de um muro velho: uma açoriana, com o seu capote e capelo, e uma vaca desenhados como se fossem sombras projectadas numa qualquer parede rosa e velha da Ilha Azul!

Um traje que caiu em desuso nesta ilha açoriana do Faial, mas que, pelos anos vinte do século passado, era um traje  bastante comum.

Raul Brandão fez um relato cuidado sobre o uso deste traje no seu livro "As Ilhas Desconhecidas - Notas e paisagens":

"...

O que dá um grande carácter a esta terra é o capote. A gente segue pelas ruas desertas e, de quando em quando, irrompe de uma porta um fantasma negro e disforme, de grande capuz pela cabeça. São quase sempre as velhas que o usam, mas as raparigas, metidas na concha deste vestuário, que pouco varia de ilha para ilha, chegam a comunicar encanto ao capote monstruoso. É um ser delicado e loiro e o contraste realça a figurinha que saltita em passo de ave condenada àquele pesadelo, como certos bichos de aspecto estranho que trazem a carapaça às costas.

... Também me explicam que é uma coisa ao mesmo tempo monstruosa e cómoda: vai-se com ele pela manhã à missa, usam-no as velhas aferradas aos seus hábitos, e uma rapariga pode visitar uma amiga na intimidade, porque está sempre vestida: basta lançá-lo sobre os ombros. Envolve todo o corpo, e, puxando o capuz para a frente, ninguém a conhece. O que uma mulher que use o capote precisa é de andar muito bem calçada, porque tapada, defendida e inexpugnável, só pelos pés se distingue;  pelo sapato e pela meia é que se sabe se é bonita a mulher que vai no capote. O capote herda-se, deixa-se em testamento e passa de mães para filhas. O capote numa casa serve às vezes para toda a família. Mulher que precisa de ir à rua de repente, pega nele e sai como está.  - Este já foi da minha avó - diz-me uma rapariga. - Era dum pano inglês escuro, dum pano magnífico que dura vidas.

..."
(Raul Brandão, in As Ilhas Desconhecidas - Notas e paisagens - A Ilha Azul).


O capote, em lã ou merino, era em preto ou em azul ferrete e levava uns bons metros de pano. O capelo, também ele entretelado e armado com cartão e barbas de baleia, era cosido ao colarinho do capote e abria na frente lembrando o corpo de uma raia.
(Parágrafo retirado do Blog Virtual Memories - 15 de Maio de 2010).

O capote - que foi um símbolo do arquipélago - já quase se não vê, mas as vacas, essas, continuam a proliferar e a transformarem-se, cada vez mais, no ícone daquelas ilhas.

Agora o que parece é que, na realidade, a única sombra chinesa, naquela fotografia, é a do fotógrafo, com um típico chapéu de palha faialense na cabeça, e que se deixou apanhar pelo sol, àquela hora já meio levantado do horizonte, e que ia projectando a sua sombra no chão daquela terra que acorda, todos os dias, a olhar o Pico!


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segunda-feira, 25 de junho de 2012

SERRA DA ARRÁBIDA



"...


Na noite calma
a poesia da Serra adormecid
vem recolher-se em mim. 
E o combate magnífico da Cor, 
que eu vi de dia
e o casamento do cheiro a maresi
com o perfume agreste do alecrim; 
e os gritos mudos das rochas sequiosas que o Sol castig
—passam a dar-se em mim. 

E todo eu me alevanto e todo eu ardo. 
Chego a julgar a Arrábida por Mãe, 
quando não serei mais que seu bastardo. 

A minha alma sente-se beijad
pela poalha da hora do Sol-pôr 
sente-se a vida das seivas e a alegri
que faz cantar as aves na quebrada
e a solidão augusta que me fal
pela mata cerrada
aonde o ar no peito se me cala
desceu da Serra e concentrou-se em mim. 

E eu pressinto que a Noite, nesse instante, 
se vai ajoelhar... 

… … … … … … …. … … … … … … …
… … … … … … …. … … … … … … …


Ai não te cales, água murmurante! 
Ai não te cales, voz do Poeta errante!, 

- se não a Serra pode despertar."



Sebastião da Gama - Serra-Mãe.

(DO AUTOR - O CABO ESPICHEL,  A PONTA MAIS OCIDENTAL DA SERRA DA ARRÁBIDA NO SEU MERGULHO MARÍTIMO, O MERGULHÃO NO SEU VOO RASANTE E O CRISTO-REI, AO FUNDO, A ABRAÇAR O MUNDO)



domingo, 24 de junho de 2012

MADRIGAL



"A minha história é simples.
A tua, meu Amor,
é bem mais simples ainda:


'Era uma vez uma flor,
Nasceu à beira de um Poeta...'

Vês como é simples e linda?


(O resto conto depois,
mas tão a sós, tão de manso
que só escutemos os dois)."




Sebastião da Gama - Madrigal.




(DO AUTOR - UM BOTÃO EM FLOR)








sábado, 23 de junho de 2012

PÔR DO SOL

(DO AUTOR - DA MINHA JANELA, O PÔR DO SOL)


"...


Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.


Mas eu fico triste como um pôr do sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria o fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.


Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.


..."

Fernando Pessoa - Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Eu Nunca Guardei Rebanhos".


sexta-feira, 22 de junho de 2012

COMPASSO EM DESCOMPASSO

Cada ave bate as asas ao seu ritmo e ao seu compasso mas o efeito mostra que o bater, de cada ave, está descompassado do bater compassado de cada uma das outras aves. No entanto voam alinhadas, na mesma direcção e no mesmo sentido, mostrando a harmonia de um voo compassado.

Cada torre eólica gira as suas pás ao seu ritmo e ao seu compasso, resultante da força do vento que as faz rodar, mas cada giro, cada passo, de cada hélice, está descompassado do girar compassado de cada uma das outras hélices. No entanto todas giram em simultâneo, e no mesmo sentido, mostrando a harmonia de um girar compassado.

(DO AUTOR - PERTO DA COSTA ALGARVIA JUNTO À SALEMA)

E, no seu voo compassado, feito de bateres descompassados, as livres aves vão-se, irremediavelmente, afastando daquelas torres, definitivamente presas ao lugar, e que vão, compassadamente, girando as hélices de forma descompassada.


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quinta-feira, 21 de junho de 2012

BRISA LEVE

Apetecia-lhe descanso, fora o primeiro dia de verão, e a tarde agitada que tivera, associada ao calor que, àquela hora ainda se sentia, amolecia-o e o corpo pedia-lhe um minuto de sossego, um instante de paz, um momento de confidência e, sobretudo, o deitar-se na pedra refrescante do chafariz redondo da praça...

E, de olhos fechados, deixou que a brisa leve o envolvesse de mansinho, e lhe fosse trazendo, em confidência, o aroma daquele fim de tarde alentejano...

(DO AUTOR - PRAÇA DO GIRALDO - ÉVORA)
"É uma brisa leve
Que o ar um momento teve
E que passa sem ter
Quase por tudo ser.
Quem amo não existe.
Vivo indeciso e triste.
Quem quis ser já me esquece
Quem sou não me conhece.

E em meio disto o aroma
Que a brisa traz me assoma
Um momento à consciência
Como uma confidência."

Fernando Pessoa - É uma brisa leve, Poesias inéditas.


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quarta-feira, 20 de junho de 2012

DE OLHO ABERTO E OLHAR ATENTO

Que forças, que mistérios, que poderes, que convulsões foram capazes de "partir" e "dobrar" aquela falésia perto de Vila Nova de Milfontes, em plena costa alentejana?

Um cataclismo? Um meteorito que se esbarrou e quebrou aquela enorme massa de pedra? Um ajustar de placas tectónicas? Um golfo de magma que partiu a crosta terrestre, como quem quebra ou parte um galho de árvore?


(DO AUTOR - A COSTA VICENTINA, PERTO DE VILA NOVA DE MILFONTES)



Ou foi uma mão imensa e poderosa que a fechou na sua palma e a colocou, ali, para ser vista e apreciada por todos?

O tudo pode ter demorado milhões de anos, ou escassos segundos a acontecer - uma fracção de tempo no infinito tempo do universo - deixando marcas indeléveis que vão ficar a testemunhar a força imensa da Natureza! 

E a chamar a atenção ao homem que nada é perante tal força, que nada pode, apesar do tanto poder e da tanta tecnologia que julga possuir...

(DO AUTOR - PORMENOR)
Aqui, o "braço de ferro" conseguiu dobrar a rocha até esta fazer um ângulo de 75º, numa geometria perfeitamente linear.

Impressiona! 
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terça-feira, 19 de junho de 2012

A PEDRA NEGRA

É talvez a pedra mais fotografada por quem está na serena e acolhedora Praia da Luz.

Uma formação rochosa, de tonalidade muito escura, feita de lava vulcânica, que se originou na serra de Monchique, e que veio, aos atropelões, montanha abaixo, até se solidificar ao arrefecer no contacto com a água do mar.

Da praia distingue-se facilmente a sua silhueta contrastando com o mar azul.

Do mar, adivinha-se bem a sua origem, feita de um rio de lava solidificada que abriu um vale, num sulcar violento da pedra calcária, e que esbarrou, abruptamente, no mar.

À sua volta as rochas de calcário e marga, de cores quentes, erosadas pela acção constante dos ventos e das ondas, exibem restos e fósseis de vida marinha acontecida há milhões de anos atrás, atapetados, junto à rebentação, por mantos de algas verdes.


(DO AUTOR - A CAMINHO DA PONTA DE SAGRES E DO CABO DE SÃO VICENTE)

É assim, a costa marítima, cheia de pormenores, de vestígios, de marcas, de pedras claras, de fósseis e, também, com esta Pedra Negra, cheia de mistério e magia...

Basta estar de olho aberto e olhar atento!





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segunda-feira, 18 de junho de 2012

AS HARLEYS

Do silêncio pacífico de quatro dias de navegação, de mar tranquilo, de vento favorável, de harmonia constante, de companhia excelente, quando tudo se conjugava para se acabar o fim de semana no melhor dos mundos e na melhor das pazes... o atracar do barco ao cais da Marina foi saudado por um troar intenso, cavo, profundo, imenso, de milhares de motos, mesmo muitos milhares, as míticas Harley-Davidson, que resolveram, neste fim de semana, fazer o seu encontro anual em Cascais.

Eram mais de 10.000... todas barulhentas, todas roncantes, todas exibicionistas e atrevidas nos adereços... Um espectáculo único!

De todos os tamanhos, de todas as idades, as motos... de todos os tamanhos de todas as idades, também, os condutores...

(DO AUTOR - NA MARINA DE CASCAIS)


Esta foi uma das mais velhinhas, se não a mais, que por lá passou... o dono é que, ainda, nem tanto!




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domingo, 17 de junho de 2012

NÉVOA

O dia amanheceu cinzento, sem cor, silencioso, de uma humidade leitosa, transformando esta água toda, salgada e imensa, num mar imaterial e mágico, envolto num manto total de névoa doce e branda...

Ontem foi Lagos e o Dom Sebastião... Hoje a névoa a querer fazer cumprir a lenda, a imaginar o cavalo, alado e branco, a vir da ilha longínqua de ali ao lado, confundindo o Encoberto Rei com o Vizir de Odemira, e esperando a hora de voltar...
 
"Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a hora!"

 Fernando Pessoa, in Mensagem: Terceira parte - O Encoberto



(DO AUTOR - AO LARGO DE SINES)

"Névoa... A manhã é névoa e o dia é este...
Que quero eu dele ou ele quer de mim?
Quero que a minha angústia nada ateste
De si, nem de quem quer um fim...


Quero que a manhã seja como é,
Porque o seria sem o eu querer;
E que eu tenha esse resto vil de fé
Que é ainda querer viver..."


Fernando Pessoa in, Poesia 1931 - 1935 e não datada, Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva e outras, 2006.




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sábado, 16 de junho de 2012

A ILHA DO PESSEGUEIRO





"...
Ao largo as águas brilham como prata
E a brisa vai contando velhas lendas
De portos e baías de piratas


Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo."

Rui Veloso, in Porto Côvo.



(DO AUTOR - A ILHA DO PESSEGUEIRO AVISTADA, HOJE, A 2 MILHAS DE TERRA)


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sexta-feira, 15 de junho de 2012

BORRASCA

Surgiu num instante, na fracção de um momento, inesperada, súbita, sem suspeições prévias: o céu escureceu, o vento levantou-se forte, as águas começaram a agitar-se de modo rápido, a ganharem crespo, a encherem-se de rebanhos de carneiros, vindos do nada, como que a pastarem em sobressaltos serenos num campo lavrado de altos e baixos, com salpicos violentos, de ondas altas e rajadas fortes molhadas de água a saber a sal... 


(DO AUTOR)




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quinta-feira, 14 de junho de 2012

SE TU SOUBESSES...

Ah!...
Se tu soubesses...

Como o meu viver é feito
De saudades impossíveis...
Como os meus sonhos se vão construindo
Com realidades tangíveis...
Como a razão se perde
Em paixões desmedidas...
Como o amor se renova
Nas tuas fraquezas vencidas... 

Ah!...
Se tu soubesses...
Se tu imaginasses...
Se tu puderes...
Quando quiseres! 

(DO AUTOR - FERRAGUDO)
Cada dia,
Um novo dia... 

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quarta-feira, 13 de junho de 2012

GAIVOTA

Atravessou-se pela frente e, mudando por completo o seu rumo, circundou o barco três vezes, três vezes o olhou com a força do seu olhar penetrante e, depois, como se esquecendo do seu destino, foi acompanhando o navegar pachorrento do veleiro talvez pensando que este lhe trazia o peixe que não conseguira apanhar durante toda a sua viagem. 

Andou "horas" nisto, a elevar-se no ar, a circundar o barco, a seguir na sua rota até que, ao entrar no porto, foi poisar na amurada do cais, como se ficasse à espera...

O olhar, que agora estava mais perto, era penetrante e perscrutador, certamente na procura do peixe que lhe pudesse matar aquela fome de dias...

(DO AUTOR - EM PORTIMÃO)

... dos dias de uma travessia que tinha sido longa, sempre a voar, porque o vento forte  e  o mar bravio daqueles dias não a tinham deixado poisar e, muito menos, mergulhar.

Por isso, exausta, deixou-se ficar ali, quieta, à espera do peixe morto que um pescador ia tirando da rede.

E foi, quase sem forças para lutar, que assumiu aquela atitude de ameaça agressiva, para defender o seu pedaço de comida e garantir a sua sobrevivência.

(DO AUTOR -  NO FERRAGUDO)


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terça-feira, 12 de junho de 2012

OLHANDO O MAR, SONHO...

Vai ser uma semana, a olhar o mar!

Uma semana de navegação, de rotas traçadas e de vagas largas, de ventos cruzados e bolinas cerradas, de passagens de cabos, de conversas longas, de olhar as estrelas, de nuvens escuras, de chuvas salgadas, de cervejas geladas, de sopas bem quentes e ovos estrelados ou meio mexidos...

(DO AUTOR - A BORDO DO FREE MIND)

... de noites compridas, de manhãs precoces, de vermelhos feitos, ao nascer do sol, de luares pálidos, que sempre se atrasam, de sonos pesados soltos acordares, de zonas de brisa sem ondulação, de ventos com força, de rizar as velas, de sustos, mazelas e muita emoção...

Vai ser uma semana, a viver o mar! 

"Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?

Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou estradas ou sob os ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

..." 

Fernando Pessoa (20/1/1933) - Olhando o mar sonho sem ter de quê.


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