domingo, 6 de maio de 2012

LUA CHEIA

Ontem nasceu assim, cheia, redonda, bem amarela, manchada, esplendorosa, poética, cativante, chamativa...

(do autor - a Lua, ontem, no seu esplendor de lua cheia)

É o fascínio da lua!

"Os antigos diriam que o luar é branco, ou é de prata. Mas a brancura falsa do luar é de muitas cores. Se me erguesse da cama, e visse por detrás dos vidros frios, sei bem que, no alto ar isolado, o luar é de branco-cinzento-azulado de amarelo esbatido; que, sobre os telhados vários, em desequilíbrios de negrume de uns para outros, ora doura de branco-preto os prédios submissos, ora alaga de uma cor sem cor o encarnado-castanho das telhas altas. No fundo da rua, abismo plácido, onde as pedras nunca se arredondam irregularmente, não tem cor salvo um azul que vem talvez do cinzento das pedras. Ao fundo do horizonte será quase azul-escuro, diferente do azul-negro do céu ao fundo. Nas janelas onde bate, é de amarelo-negro,"

Bernardo Soares / Fernando Pessoa, Livro do Desassossego.

sábado, 5 de maio de 2012

CANTAR DE GALO

Sempre se sentiu importante, como se dominasse o mundo do alto da haste de ferro, bem por cima da chaminé.

Colocaram-no lá há muitos anos, não sabe quantos, mas atravessou duas guerras, as três gerações de famílias que já passaram por aquela casa, e lá continua, firme, bem no alto.

Não canta, apenas sabe olhar para o sítio de onde vem o vento.

O corpo é negro, da cor da tinta preta fosca com que o pintaram da última vez, mas a cauda começa descascar-se e a ganhar tons de ferrugem provocadas pelas chuvas, com uma das penas calcinada pela força de um raio, que quase o ia desfazendo, numa tarde de trovoada seca de um Setembro distante.

Houve, também, um dia em que, quase, ia morrendo... A bala de uma carabina, numa disputa de tiro ao alvo, perfurou-o mesmo no meio do corpo... Um pouco mais à frente e tinha-lhe atingido o coração... Aí, seria morte certa!

(do autor - Casal - Travancinha)
Quantas vezes, nas manhãs de frio de inverno e nas longas tardes de solidão, se imaginou um galo de verdade, a viver na capoeira lá de baixo, com o harém de galinhas, aconchegando o frio no conforto da palha, protegido da chuva pela cobertura do telhado de zinco, e seguro pela rede que impede a entrada da raposa que muitas vezes, à noite, vem rondar o galinheiro. Nessas alturas, cantava de galo, acordava o dia, cobria qualquer franga que lhe aparecesse pela frente e gostava de inchar as penas, como fazia o perú, dando ares de rei e senhor daquele lugar. Mas era o seu cantar, o seu cantar de galo, que era único, inconfundível!

Até que chegou o dia em que meteram, na capoeira, um galo novo para substituir o velho. E nem sequer lhe deram tempo para disputas, nessa mesma tarde golpearam-lhe o pescoço e serviram-no ao jantar, dentro de uma púcara de barro.

Nunca mais se imaginou a cantar de galo!




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sexta-feira, 4 de maio de 2012

PEDISTE FLORES

Aqui estão elas, cheias de vida, cheias de cor, a pintalgar tudo o que é espaço, tudo o que é recanto, tudo o que é lugar...


Pediste flores e olha bem, que cada pinta, cada mancha de cor é, apenas e tão só, uma flor e são muitas, a estenderem-se até onde se estende o olhar, e cada uma, olha bem, parece estar a sorrir para ti...


Pediste flores e espero que gostes, e que te tornem alegre o dia e, na solidão da noite, te façam a melhor companhia...


Pediste flores e deixo-tas, soltas, com o ramo por fazer, para que o possas compor como mais te der prazer, podes ir juntando por cores, ajeitando as flores, compondo à tua maneira ou, então, se achares melhor, coloca-as todas numa floreira... 


Pediste flores e, para a semana, quem sabe não te trarei mais? Melhor seria se, em vez destas, de fotografia, te trouxesse das verdadeiras, que não sejam como estas, virtuais, mas sejam mesmo, flores de verdade, flores reais...

(todas as fotos do autor - Alto Alentejo)



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quinta-feira, 3 de maio de 2012

PEDRAS NO CAMINHO

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
Mas não esqueço de que minha vida
É a maior empresa do mundo...
E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
Apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
Se tornar um autor da própria história...
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
Um oásis no recôndito da sua alma...
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "Não"!!!
É ter segurança para receber uma crítica,
Mesmo que injusta...

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

Fernando Pessoa - Pedras no caminho


(do autor - malaquites)


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quarta-feira, 2 de maio de 2012

CAMINHOS

Qualquer caminho leva a toda a parte
Qualquer caminho
Em qualquer ponto seu em dois se parte
E um leva aonde indica a estrada
Outro é sozinho.
Um leva ao fim da mera estrada. Pára
Onde acabou.
Outra é abstracta margem
.....
No inútil desfilar das sensações
Chamado a vida.
No cambalear coerente de visões
Do [...]
Ah! os caminhos estão todos em mim.
Qualquer distância ou direcção, ou fim
Pertence-me, sou eu. O resto é a parte
De mim que chamo o mundo exterior.
Mas o caminho Deus eis se biparte
Em o que eu sou e o alheio a mim
[...]

Fernando Pessoa - Inéditos - Qualquer caminho leva a toda a parte - 1921.


(do autor - Monsaraz)


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terça-feira, 1 de maio de 2012

MAIAS e ESTEVAS

Estamos em Maio e hoje é o primeiro dia.

O primeiro de Maio é também chamado o Dia das Maias, uma tradição que, antigamente, se estendia por todo o país.

Actualmente quase que só se celebra de uma forma singular, tal como o dia da espiga que, também, cada vez mais, vai perdendo  o seu significado... 

Neste dia ainda é costume verem-se algumas pessoas com as flores amarelas das maias e as brancas das estevas, nas mãos, ou fazendo uma coroa enfeitando a cabeça ou, então, colocando nas varandas e nas portas das suas casas, com o fim de afastar os maus espíritos. Albergaria-a-Velha é um dos poucos locais onde, por enquanto, se vai celebrando este dia das Maias.

Nalgumas regiões, de Trás-os-Montes ao Algarve, havia a tradição de se vestir uma boneca de palha de centeio e, depois, decorá-la com as flores amarelas das maias e as brancas das estevas...

Tudo tradições que se vão perdendo, tradições que, por unirem o profano ao religioso, foram sendo proibidas ao ponto de que, em Lisboa, no ano de 1402, por Carta Régia de 14 de Agosto, se determinava aos Juízes e à Câmara "que impusessem as maiores penalidades a quem cantasse as Maias..."

A verdade é que estes rituais pagãos, com algum cunho de religiosidade, não eram mais do que celebrações da Primavera, ligadas ao rito da fertilidade, a um novo ciclo da Natureza, com o desejo de boas culturas e boas colheitas...

(As Maias as flores das Giestas)
Mais tarde, e porque a voz do povo é a voz de Deus, a Igreja tentou associar esta festa das Maias a um cunho religioso e, pegando na lenda de Herodes que queria matar o Menino Jesus, encontrou-se a solução: para garantir que conseguiria matar o Menino, Herodes dispunha-se a assassinar todas as crianças da localidade onde o Menino Jesus se encontrava. Perante a possibilidade de tão significativo morticínio, foi informado, por um outro "Judas", que tal poderia ser evitado, bastando para isso, que ele próprio colocasse um ramo de giesta florida na casa onde se encontrava a Sagrada Família, constituindo um sinal para que os soldados a procurassem e consumassem o crime... A proposta do "Judas" foi aceite e Herodes tratou de mandar os seus soldados à procura da tal casa. Qual não foi o espanto dos soldados quando, na manhã seguinte, encontraram todas as casas da aldeia com ramos de giesta florida à porta, gorando-se, assim, a possibilidade do Menino Jesus, ser morto.

Fica a lenda e...



(do autor - Esteva simples - Serra de São Mamede)

(do autor - Esteva com ponto vermelho - Serra de São Mamede)

... ficam, aqui, as flores!
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segunda-feira, 30 de abril de 2012

DIA INTERNACIONAL DO JAZZ

A UNESCO assinala, pela primeira vez, a data dedicada ao estilo musical que "pode derrubar barreiras e simbolizar a paz e a unidade".

 
Fica aqui a magistral interpretação de Sidney Bechet, da Petite Fleur.






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DESCONSTRUÇÃO

"...
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado

(do autor - Castelo de Mourão)
...
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
...
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
..."
Chico Buarque - Construção - 1971


As paredes sólidas, como por um passe de magia, mas, certamente, por força das conjunturas, dos créditos malparados, de muitas parcerias, de muito cimento, de muita estrada e pouco tráfego, de muito paraíso fiscal, de muita corrupção, de muito enriquecimento ilícito, de muito de tudo, transformaram-se em paredes flácidas, abandonadas, a mostrar como se vai desconstruindo, tijolo a tijolo, parede a parede, um país historicamente sólido.

O pássaro voou... 

Mas sempre ficam as ruínas...

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domingo, 29 de abril de 2012

O SORRISO

Hoje é mais um Dia Mundial: este dedicado ao sorriso!

Já tanta coisa foi dita sobre o sorriso, sobre os seus diversos tipos, formas e feitios...

Melhor que um sorriso, uma boa risada, uma boa gargalhada, franca, aberta e leal; é que o sorriso pode esconder muita coisa e o riso, esse, não...

Não sei bem porquê, ou porque sei bem demais, o sorriso que hoje consigo sorrir é, apenas, um sorriso bem amarelo!




NEVOEIRO

O dia hoje acordou cerrado, de um cinza esbranquiçado, quase opaco, a barrar as vistas, a ocultar os olhares, a esconder o horizonte, a deixar que, cada um e cada coisa, perdesse a sua sombra... quase a sua identidade.

Esta manhã, ao abrir as portadas da janela, foi como se deparasse com um vidro fosco em que só a claridade cinza, quase esbranquiçada, dominava e separava do mundo; apenas os ramos das árvores mais próximas deixavam a sua impressão em riscos ténues, como que levemente desenhados; os sons do campo pareciam filtrados por algodão e os badalos, das ovelhas ao lado, ficavam distantes, como se estivessem na outra encosta, lá longe!

Hoje, por ser domingo, soube bem o acordar nesta envolvência de paz, nesta ausência de cor, nesta luminosidade alvacenta, como se o acordar tivesse acontecido na virtualidade das nuvens, como se fosse o acordar dum sonho...

 

sábado, 28 de abril de 2012

CHUVA

Gosto de ver a chuva a bater nos vidros da minha janela.

Bate com força no vidro deixando, depois, escorrer lágrimas  gordas que vão descendo, lentas, como que arrependidas...



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sexta-feira, 27 de abril de 2012

PROMESSAS

A primavera está aí, em plena pujança!

Os campos estão bonitos, as árvores cheias de força e os frutos, depois de uma floração atrasada, estão a nascer, a crescer com alegria, a prometerem abundância.

A cerejeira, essa, está carregadinha de promessas, por enquanto verdes, tal e qual como as da pereira, mesmo ao lado.

(do autor - cerejeira)
Era tão bom que as promessas se tornassem realidade!

E, já que as deste governo parecem ser difíceis ou quase impossíveis de cumprir, ao menos que a Natureza cumpra as suas e transforme estes frutos verdes, duros e amargos que agora são, em fruta boa, bonita à vista, doce e aromática ao paladar.

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quinta-feira, 26 de abril de 2012

AS CEGONHAS

Há muitas que já vão ficando por cá, tornaram-se residentes e deixaram de ser aves migratórias. As que partiram, e foram passar fora o inverno, também já voltaram há algum tempo e regressaram aos seus ninhos tornando, de novo, à sua casa...

Estas têm voltado, todos os anos, ao mesmo ninho, ao lugar onde nasceram, em cima da velha chaminé de um monte abandonado...  Um monte com a casa a ficar em ruínas, com o terreno à volta que, há muito,  deixou de ser tratado, a mostrar que as vidas, que por ali passaram, já partiram faz tempo.

(do autor - no distrito de Portalegre)

Vidas que se foram e não voltaram... que perderam a fidelidade ao lugar onde nasceram e viveram, partindo para outras latitudes, abandonado as raízes, o comprometimento à terra, esquecendo as origens, perdendo a identidade...

Um país a desfazer-se aos bocados...


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quarta-feira, 25 de abril de 2012

CRAVOS

Esta primavera, apesar de muito anómala em questões climáticas, tem tido a virtude de encher os campos, os jardins, os canteiros, os vasos e, até, as bermas das estradas de flores.

Apesar da crise, apesar do mau tempo, da chuva que anda por aí, da seca que por aqui passou, do sol meio escondido que nos vai visitando, do frio da noite, do calor envergonhado que nos começa a aquecer, a verdade é que as flores chegaram e conseguem, malgré tout, dar cor e vida a esta primavera meia invulgar.

(do autor - Cambará - Lanata camara)
No tropeço de uma encosta junto ao mar encontrei estas florinhas, apresentadas em forma de bouquet, com tons que vão passando do branco ao vermelho.

Andei à procura do nome destas flores pequeninas e acho que encontrei: o nome científico da planta é Lantana camara e o nome comum é Cambará, embora tenha muitos outros nomes, conforme o local.

É um arbusto, florífero e lenhoso, de grande efeito ornamental. As inflorescências são compostas por numerosas flores, formando  mini-bouquets de diferentes cores, como amarelo, laranja, rosa, vermelho e branco, podendo encontrar-se, no mesmo raminho, flores com diferentes colorações. Podem-se fazer maciços ou bordaduras com estas plantas que se mantêm, com flor, durante muito tempo.

E não são só bonitas, também são úteis, as folhas, neste caso: são balsâmicas, expectorantes, estimulantes e diuréticas, pelo que são indicadas, no âmbito de uma terapêutica natural, nas infecções e alergias respiratórias, no reumatismo, na febre e nas otites.


E eu que vinha para falar de cravos, da revolução de Abril, da democracia, dos partidos, das liberdades, da corrupção, das folhas dos loureiros, das varas de porcos, dos penedos de granito, das limas do feteira, das prescrições dos isaltinos, de tanta coisa... e, também, da crise a que chegámos pela mão de um aspirante a filósofo, agora parisiense, porque nome de filósofo, isso, ele já tem...

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terça-feira, 24 de abril de 2012

AS CORES

Gosto do Abril porque enche os campos de flores, esborrata a paisagem de coloridos intensos trazendo pinceladas de Van Gogh à tela da natureza.

Esta mescla de brancos e amarelos, de azuis e de lilázes, com o verde da campina, convida ao silêncio e à meditação...

(do autor - Alentejo)

GLÓRIA

Depois do inverno, morte figurada,
A primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e de cores.

Miguel Torga.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DO LIVRO

Mais um dia que se comemora!

Este, acho, vale sempre a pena!

O livro é um companheiro e é uma boa companhia, é um educador, é um ocupador de tempos livres...

O livro distrai-nos, ensina-nos, emociona-nos...

O dia 23 de Abril foi o escolhido porque, neste dia, se comemora o falecimento de dois grandes vultos da literatura: William Shakespeare, em 1616, e Miguel de Cervantes, que morreu no dia anterior.

(Google images)

Começam agora a aparecer os "e-readers", uma espécie de "tablets", adaptados para a leitura de livros. Têm um bom tamanho, são leves, são a preto e branco, como as páginas de um livro, as folhas vão passando ao correr do dedo e usa-se um marcador quando tem de se interromper a leitura. Tem a vantagem de poder armazenar milhares de títulos sem ocupar mais espaço e peso do que o do próprio instrumento de leitura. Grande vantagem para quem viaja muito, para quem tem peso limitado nos voos de "low-cost". Irá substituir o  livro? Não acredito... apenas o completa por esta vantagem do peso e do armazenamento de informação...

Nada melhor que o cheiro e a textura do papel no sossego de um sofá, junto à lareira, numa tarde fria de chuva e vento...

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RECANTO

O dia acordou cedo, como é costume nesta altura do ano. E mais agora,  passado o equinócio e com o aproximar do solstício de Junho, os dias vão sendo mais longos e os acordares, necessariamente, mais prematuros.

Ainda por cima, o dia, ao contrário dos anteriores, banhou-se de sol, ganhou outra luminosidade e encheu-se de cor.
  
E foi ao percorrer a pé os caminhos da serra, num pedaço de campo cheio de verdes frescos e brilhantes, ainda humedecidos da chuva dos dias anteriores, num recanto de uma encosta acabada de florir, a pintalgar-se de margaridas amarelas e de papoilas rubras, que se encontrou no meio da paz e do silêncio que andava à procura. Um silêncio feito de ausências de toques, de campainhas, de telefones, de businadelas, de ruídos do trânsito, de pessoas... sim, principalmente de pessoas!


(do autor - Alentejo - Serra de São Mamede)
Ali, na quietude do lugar, no êxtase da cor, na envolvência da brisa da manhã, deixou os sonhos à solta,  na paz e no silêncio que só aquela serra lhe sabe dar...

Só que aqui, neste recanto, o silêncio era...

"... maior. Era como uma flor que tivesse desabrochado inteiramente e alisasse todas as suas pétalas".

Sophia de Mello Breyner Andresen - O silêncio (contos).

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domingo, 22 de abril de 2012

AS CAMÉLIAS

"Era uma vez um jardim maravilhoso, cheio de grandes tílias, bétulas, carvalhos, magnólias e plátanos.

Havia nele roseirais, jardins de buxo e pomares. E ruas muito compridas, entre muros de camélias talhadas.

E havia nele uma estufa cheia de avencas... "

Sophia de Mello Breyner Andresen - O Rapaz de Bronze  (conto).


(do autor - São Bento)


"E foi no tempo das últimas camélias (vermelhas, pesadas e largas) que nasceu o seu primeiro filho."

Sophia de Mello Breyner Andresen - Saga (conto).


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sábado, 21 de abril de 2012

CONCHA

A minha casa é concha...

(do autor - Ilha da Culatra)


A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio - A Concha.

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sexta-feira, 20 de abril de 2012

APANHADO

Chegou pelo ar em voo rasante ao espelho de água daquela maré vazante. Pousou tranquilamente para não afastar o peixe, bem vermelho, que, desde lá de cima, tinha posto em mira activa.

Durante algum tempo deixou-se ficar quieta, quase imóvel, não fora a leve corrente a afastá-la da margem e, assim que tudo ficou aparentemente tranquilo, começou a girar em círculos amplos e lentos, persistindo na perseguição daquela mancha vermelha que, da amurada do cais, também se via no meio daquela água turva e com algumas algas. 


(do autor - foz do rio Minho)


De vez em quando mergulhava bem fundo a cabeça naquela água que ia escorrendo para o mar, levantava a cauda que ficava quase num pino, e voltava à posição inicial agitando o corpo em sacudidelas de água que salpicava em todas as direcções.

Até que, finalmente, depois de mais um mergulhar da cabeça, de mais um levantar de cauda, de mais um quase pino, traz no bico, bem pinçado, o peixe vermelho que tanto perseguiu, a agitar-se de corpo, a abanar-se de cauda, num desespero quase terminal.

Tudo se passou num instante! Assim que o peixe ficou aparentemente imóvel levantou a cabeça até o bico ficar a apontar o céu, numa vertical aprumada, e, numa fracção de nada, escancara bem a boca para deglutir, de uma só vez, o peixe que lhe iria servir de pequeno-almoço.

Mas, no momento do instante, como que adivinhando o destino fatal, num instinto de sobrevivência, aquele corpo vermelho contorce-se uma vez mais e, de um salto, mergulha rápido nas águas agora agitadas pelo passar de um traineira. 

Não ficou ali muito tempo, com um bater de asas possante levantou voo e foi, certamente, à procura de outros peixes, vermelhos ou não, para outras águas...


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quinta-feira, 19 de abril de 2012

ANDORINHAS

Já chegaram e já andam no arranjo dos ninhos que deixaram do ano anterior. Dizem que a andorinha volta sempre ao mesmo ninho. As do meu lugar, não sei, não sei se são as mesmas do ano passado e se são as que nasceram por aqui. O que sei é que elas voltam, sempre, para anunciar a primavera, ficando-se a gozar o verão e a partirem no outono para fugirem ao inverno mais rigoroso daqui.

Agora os ninhos, esses, vão ficando de uma época para outra. Desde que não haja nada que dê cabo deles, vão ficando, com mais ou menos estragos causados pelas chuvas, pelos ventos e pelo frio do inverno. E, agora, com esta chuva abençoada que lhes fornece a lama fresca, elas andam mais apressadas na reparação e no completar da sua casa que também serve de maternidade e de jardim de infância.

Dá gosto vê-las no currupio do vai e vem, de as ver voar bem alto à procura do alimento, do piar satisfeito quando regressam a casa...

Gosto do preto e branco das suas penas, como se fossem um "cliché" fotográfico do preto e branco de antigamente a sobrepor-se ao colorido da primavera.

 

(do autor)

Deixo alguns provérbios "andorinheiros":

Por morrer uma andorinha não acaba a Primavera.

Uma andorinha não faz a Primavera.

Uma andorinha só não faz Verão.

Nem um dedo faz a mão nem uma andorinha faz o Verão.

Andorinha por fora não tarda a chuva uma hora.

Se as andorinhas partirem em Outubro seca tudo.

Andorinha rasteira, sinal de ventaneira.

Mais come o boi de uma lambida que cem andorinhas.

A andorinha salvou o rei leão.

Andorinha que voa com morcego acaba dormindo de cabeça para baixo.

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quarta-feira, 18 de abril de 2012

NÃO FORA A CHUVA

Não fora a chuva e este campo estaria seco e acastanhado, como o estava na passada semana.

Não veio muita, mas o suficiente para pintalgar, com o amarelo das azedas e margaridas e o vermelho das papoilas, a mancha, agora verde, desta charneca rude a abrir em flor...

(do autor - Porto da Espada - Serra de São Mamede)
"...
E já não sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!"

Florbela Espanca - Charneca em flor.

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terça-feira, 17 de abril de 2012

A TABERNA

Era já um ritual! À mesma hora, mais minuto, menos minuto lá se encontravam, sempre os mesmos, os mesmos amigos de há muitos anos, do tempo da escola, do futebol com a bola de trapos, camaradas de tropa, a viverem na mesma terra, a terra que os viu crescer e a serem homens, na mesma terra em que todos trabalham...

(A Taberna)
Mas, depois do trabalho, ao fim do dia e antes do jantar, é sagrado o encontro na taberna onde, entre um e outro copo de tinto, vão trocando conversas, falando do campo, da falta de pasto para os animais, maldizendo do tempo, barafustando contra o vento, praguejando contra as medidas do governo que lhes leva tudo e que nada dá em troca... E também discutem a bola, o penalti falhado, o golaço do Cristiano, as opções do Jesus...

E só quando o sino da Igreja, que disputa o adro com a taberna, começa a badalar a meia hora é que partem com um até amanhã de volta...

 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A ORLA DO MAR

Junto à rebentação, feita de ondas e espumas, os surfistas com as pranchas, as velas e os papagaios coloridos pintalgavam aquela orla do mar onde tudo começou...

(Do Autor - Praia do Guincho)

"Desde a orla do mar
Onde tudo começou intacto no primeiro dia de mim
Desde a orla do mar
Onde vi na areia as pegadas triangulares das gaivotas
Enquanto o céu cego da luz bebia o ângulo do seu voo
Onde amei com êxtase a cor o peso e a forma necessária das conchas
Onde vi desabar ininterruptamente a arquitectura das ondas
E nadei de olhos abertos na transparência das águas
Para reconhecer a anémona a rocha o búzio a medusa
Para fundar no sal e na pedra o eixo recto
Da construção possível


Desde a sombra do bosque
Onde se ergueu o espanto e o não-nome da primeira noite
E onde aceitei em meu ser o eco e a dança da consciência múltipla


Desde a sombra do bosque desde a orla do mar..."


Sophia de Mello Breyner Andresen, Delphos, Maio de 1970.


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domingo, 15 de abril de 2012

SEM SOPRO

Na vasta praça, centrada pela figura de D. Pedro V, apenas duas personagens ali estavam, naquela esquina: um bronzeado tocador de flauta e um espectador atento.

Mas, a verdade é que não saía da flauta, qualquer som ou qualquer melodia, a não ser a do vento que, cirandando pela praça, e ao passar com diferentes velocidades entre a flauta e os dedos do tocador, emitia sopros de tonalidades variadas, como se o músico estivesse a preparar um solo e fosse assoprando lámirés de afinação.

(do autor - Castelo de Vide)
E por ali ficou, algum tempo, o espectador atento, até que, face ao imobilismo do intérprete e à demora no início do concerto, se foi embora, não sem antes ter colocado uma moedinha junto aos pés daquele músico que nunca mais se decidia a tocar...

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