terça-feira, 10 de abril de 2012

ASAS LEVES

LANGUIDEZ

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar...

E a minha boca tem uns beijos mudos...
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar...



(do autor - em Ghent - 2011)


Languidez - de Florbela Espanca

segunda-feira, 9 de abril de 2012

NESTE DIA

Neste dia de mar e de nevoeiro
É tão próximo o teu rosto.

São os longos horizontes
Os ritmos soltos dos ventos
E aquelas aves
Que desde o princípio das estações
Fizeram ninhos e emigraram
Para que num dia inverso tu as visses.

Aquelas aves que tinham
Uma memória eterna do teu rosto
E voam sempre dentro do teu sonho
Como se o teu olhar as sustentasse.


(do autor - Caminha)


Sophia de Mello Breyner Andresen - Obra poética.


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domingo, 8 de abril de 2012

PÁSCOA

O dia amanheceu cor de rosa e azul. Um dia que, hoje, acordou suave nas cores, ameno na temperatura e a espelhar os seus sentires nas águas mansas da lagoa.

Um dia que se foi enchendo de sol, de luz e de calor. 

Um dia a mostrar-se agradável, doce, terno e sorridente. 



(do autor)

Um dia que, hoje, se aprimorou para celebrar a Páscoa!


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sábado, 7 de abril de 2012

ALELUIA

Quando ali chegou já lá estavam dois, em cima do muro, de passos irrequietos, saltitantes. De vez em quando paravam, tornavam-se estáticos, mas por muito pouco tempo, e, de novo, voltavam àquele saltitar em dueto..

Passaram, assim, uma parte daquele tempo juntos nos saltitos e em trinados dialogantes, em canto de pássaros que ele não entendia.

(do autor - Porto Pim -Faial)
A pouco e pouco outros pássaros foram chegando e, à medida que iam poisando em cima do parapeito da amurada que dava sobre o mar, os pios, os chilreios, os gorjeios iam dominando o silêncio daquela baía cheia de sol, como se aquela assembleia de pássaros, em musicalidades cruzadas, numa harmonia de sons, mais parecesse um orfeão a cantar Aleluias ao dia e ao sol que enchia de calor e de cor aquele lugar!


sexta-feira, 6 de abril de 2012

ECCE HOMO

EIS O HOMEM... foram as palavras de Pôncio Pilatos quando apresentou Jesus de Nazaré, flagelado, de mãos atadas, com uma cana na mão direita (a fazer de ceptro) e uma coroa de espinhos, à multidão para ser tomada uma decisão sobre o destino a dar-Lhe.

Ele, Pôncio Pilatos, não Lhe encontrou nenhum mal mas a multidão não soube dizer outra coisa que: Crucifica-O! Crucifica-O!
(Ecce Homo - Caravaggio - 1571-1610)

(Ecce Homo, de Antonio Ciseri - 1821 - 1891)





Ao fim de mais de 2000 anos as multidões continuam a ter o mesmo comportamento carneiro, de rebanho obediente às vozes de comando das minorias...


Os homens a esquecerem e a não aprenderem!



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quinta-feira, 5 de abril de 2012

MELGA

Pode ser A MELGA ou O MELGA.


A MELGA é um insecto voador, tem duas asas e uma tromba habilitada para picar a pele e sugar o sangue provocando, quando pica, uma baba bem vermelha que produz uma comichão tremenda, transmite doenças e, quando voa, faz aquele bzzz chato que nos impede de dormir. É um insecto tramado, não se sabendo se serve para alguma coisa ou se faz alguma coisa de útil.

(do autor)
O MELGA, esse, não voa porque não tem asas, mas tem, também, uma tromba, só que façanhuda, e, por isso, não pica mas, como A MELGA, chateia, é um intrometido, aparece sem aviso, instala-se, espia, intromete-se, vigia, questiona, oprime, incomoda, pressiona, acusa, sufoca, inferniza, faz marcação cerrada, também não serve para nada e é um inútil porque não sabe fazer nada de útil.

A sua primeira noite no Hotel du Lac foi incomodada por uma MELGA horrível que zuniu toda a noite sobre a sua cabeça e lhe encheu os braços e as mãos de babas comichosas.

Apesar de tudo, mal por mal, sempre é preferível ser incomodado por uma MELGA zunidora e picadora, a ser perturbado ou chateadado por um MELGA horrível e intrometido que não sabe fazer mais nada que chatear os outros.




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quarta-feira, 4 de abril de 2012

O GRASNAR

O chá amornava na chávena enquanto esperava pela torrada e, também, olhava a tranquilidade do lago que ia reflectindo o azul límpido do céu e o verde das montanhas que, do outro lado da margem ainda distante, se projectavam naquelas águas aprisionadas no meio dos Alpes.

Foi assim que deu por ele a vogar, solitário, vindo dos lados do Hotel du Lac em direcção ao cais dos barcos de recreio. Passou e, algum tempo passado, voltou; por várias vezes isso aconteceu, num vai e vem e num vem e vai, como se andasse a passear, sem hora e sem destino. De vez em quando soltava um grasnar - ansioso?, chamativo?, de aviso? - e lá continuava no seu ir e no seu voltar.

À medida que o tempo passava, à medida que o chá também ia ficando mais frio, reparou que ele olhava para todos os lados, especialmente para aquele céu azul, como procurando algo, como se andasse, ou nadasse, agora ansioso, à espera de um encontro que tardava.

(do autor)
Pediu outra chávena e encheu-a do mesmo chá que se conservava, ainda quente, no bule de porcelana amarela. E, enquanto a enchia daquele chá fumegante, lhe adicionava uma gota de leite evaporado, e se preparava para mordiscar a torrada que, entretanto, o empregado lhe trouxera, ela chegou num vôo rasante que se continuou num deslizar exuberante e atrapalhado, num chapinhar de água a salpicá-lo, acabando, ambos, por se embrulharem num bater de asas amistoso, a provocarem espumas naquela água, agora agitada, e a emitirem grasnares fortes e aparentemente divertidos. Depois, como num bailado de coreografia bem estudada, correram sobre as águas, lado a lado, nos dois sentidos, tocaram os bicos, como se beijassem e, de novo, voltaram a grasnar de satisfação. Durou algum tempo este espectáculo gratuito, este dueto de primavera, este encontro bem celebrado, este namoro exuberante!

Depois, sem mais... partiram num levantar rápido daquelas águas azuis e verdes e subiram nos céus, num vôo nupcial que o fim de tarde quis esconder dos olhares que, daquela esplanada sobre o lago, os tinham acompanhado com curiosidade e agrado.

terça-feira, 3 de abril de 2012

TROMBETAS

(do autor)
Quando era mais novo e ainda andava na escola primária, a rua que dava acesso ao colégio onde estudava tinha um muro totalmente revestido de uma trepadeira de abundante folhagem verde de onde, nesta altura do ano, emergiam estas flores azuis de pé comprido, a lembrar uma corneta, com os estames encimados por anteras compridas no seu interior, que lacrimejavam um líquido, adocicado e xaroposo, que era uma delícia. 

O nome que lhes dávamos era trombetas, porque o faziam e fazem lembrar as trombetas dos arautos. A net já me esclareceu: o nome científico é Ipomoea purpurea L. e são denominadas Glória da Manhã ou Cordas de Viola e as flores têm mesmo, conforme diz a Wikipédia, a forma de trombeta.

Como a parede, quase de um dia para o outro, ficava cheia destas flores azuis nós, os miúdos, íamos arrancando, do cálice, a flor e sorvendo o suco da parte inferior, como que sugando de uma teta... reminiscências do aleitamento da infância?

E era uma razia... dávamos cabo das flores até onde chegavam os nossos braços esticados! Para cima lá continuava todo o colorido azul das flores, o verde das folhas e os pontos amarelos saltitantes das muitas abelhas que, de flor em flor, competiam connosco na disputa daquele xarope doce e saboroso.

Quase uma selecção natural: até onde chegavam os nossos dedos esticados as flores desapareciam, ao mesmo tempo que iam, lá mais para cima, as abelhas que, assim, não nos picavam evitando os inchaços e o mal-estar causado pelo ferrão.

A Natureza a proteger-nos e a oferecer-nos, durante um curto período do ano, uma guloseima que, naqueles tempos de Quaresma, de abstinência e de jejum, em que nos sentíamos coibidos de comer doces, nos compensava dos rebuçados e das amêndoas que só voltaríamos a comer depois do sábado de aleluia!

Trombetas, também, a anunciar um novo ciclo de vida, o acabar de um período de sofrimento, de desagrados, para uma ressurreição, para um novo viver, para uma Páscoa a celebrar!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

ODE À ALEGRIA

Hoje, por ser 2 de Abril, o dia a seguir ao dia das mentiras, apetece cantar e gritar à vida, à alegria, ao contentamento... ao começo do mês da primavera, ao Abril das águas mil, à Páscoa e à Ressurreição da vida, apetece sorrir e dar as mãos, para sempre...






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domingo, 1 de abril de 2012

TÁGIDES

(do autor - junto ao Tejo, às Tágides e à Torre de Belém)
"E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Porque de vossas águas, Febo ordene
Que não tenham inveja às de Hipocrene.
Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo
Se tão sublime preço cabe em verso."

Luís Vaz de Camões - Os Lusíadas na invocação às Tagides, Canto I , estrofes 4 e 5.





sábado, 31 de março de 2012

DESPERTAR

Acordou cedo como, aliás, era o seu costume.

Nesta história do deitar e do erguer apenas cumpria com uma parte do ditado: "Deitar cedo e cedo erguer... " porque, habitualmente, deitava-se tarde mas, quanto ao erguer cumpria-o na risca. E, como não era muito alto, e os ditados habitualmente são certos no que contêm - "... dá saúde e faz crescer", se não cresceu muito tinha, pelo contrário, muita saúde. Pelo menos não tinha dores, não se queixava de nada e nem comprimidos tomava.

Naquele dia, talvez por dormir em cama estranha, num lugar que não era habitualmente o seu, a verdade é que acordou ainda mais cedo e, sem ter nada que fazer, estar farto daquela cama macia de mais e daqueles almofadões que lhe faziam dor no pescoço, resolveu levantar-se e aproveitar o fresco da manhã para ir dar uma volta a pé.

A manhã estava ainda fria, o dia ainda não tinha acordado o suficiente para que o sol o iluminasse e aquecesse como conviria, mas deu para apreciar o despertar da natureza, o murmurejar das águas da ribeira, o acordar das aves, o latir dos cães das quintas, o badalar dos pequenos rebanhos de ovelhas e de cabras que, cedo na manhã, ia partindo, sozinhos, à procura de pastos ali por perto, o sacudir dos ramos das árvores ajudadas pelo vento de sudoeste a libertarem-se das gotas do orvalho da noite...

(do autor - a ribeira de Nisa, em São Bento)

À medida que ia percorrendo os caminhos da serra, com o capote vestido e apoiado num cajado, como se fora um caminhante, ou um romeiro no seu percurso à procura da fé, ia-se deixando envolver em pensamentos, em imaginares, construindo castelos de sonhos, abstraindo-se do ambiente.

E, só quando as irregularidades do terreno ou as pedras do caminho o faziam, quase, tropeçar é que acordava para a realidade do momento e lá voltava, de novo, ao murmurejo das águas, ao embalo dos badalos, aos agudos dos chilreios, ao rouco dos latires, ao pingar dos orvalhos...


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sexta-feira, 30 de março de 2012

O CORAÇÃO

"Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que não se pode fechar de cheio..."

(Álvaro de Campos - A passagem das horas).

... um mundo de esperança, cheio de tudo...
(do autor)


... de sofrimento e de desesperode angústias e de interrogações, de lágrimas e de saudades, de dores e de apertos, de ternura e de amor, de olhares e de desejos, de sorrisos e de alegria, de entendimentos e de cumplicidade, de esperança e de confiança, de certezas...


... está cheio, este coração!


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quinta-feira, 29 de março de 2012

O VENTO

Quase Suão, a deixar a terra ainda mais seca, a inclinar árvores, a partir ramos, a lançar longe as pétalas de flores frágeis, a soprar secura, a uivar rajadas...

(O VENTO NA SERRA DE SÃO MAMEDE)
Ainda não é quente nem esfarela os ossos mas angustia e preocupa... a seca, esta seca, esta secura de tempo, este pó que queima, que faz chorar!

E quando o vento traz as núvens, quando pinga e faz que chove, traz uma chuva de águas brancas, leitosas, um pó de água ou uma água em pó, que não lava, que não molha, que só suja...

Será que Abril trará as águas mil?

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quarta-feira, 28 de março de 2012

DE PEDRA E CAL

(MARVÃO - GOOGLE Images)


"De pedra e cal é a cidade
Com campanários brancos
De pedra e cal é a cidade
Com algumas figueiras


De pedra e cal são
Os labirintos brancos
E a brancura do sal
Sobe pelas escadas


De pedra e cal a cidade
Toda quadriculada
Como xadrez jogado
Só com pedras brancas


Um xadrez só de torres
E cavalos-marinhos
Que sacodem as crinas
Sob os olhos das moiras


Caminha devagar
Porque o chão é caiado"

Sophia de Mello Breyner Andresen - Obra Poética - De Perda e Cal.

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terça-feira, 27 de março de 2012

DIA MUNDIAL DO TEATRO

Passa hoje mais um Dia Mundial. Este dedicado ao TEATRO.

Por coincidência, ou não - haverá coincidências? - tive, também hoje, o grato prazer de uma visita e de uma conversa tranquila com uma grande figura do nosso Teatro, o actor Sinde Filipe. Ao conversarmos sobre teatro, sobre novelas portuguesas e brasileiras, sobre José Régio, sobre Villaret, ao ouvir histórias deliciosas do seu percurso pelo mundo e ao receber o livro com poemas do Alexandre O'Neill, ditos por ele próprio Sinde Filipe, e com música do seu filho Laurent, certamente que enriqueci o meu dia.

Foi a melhor maneira de comemorar este Dia Mundial do Teatro.

(Google images)

Transcrevo a MENSAGEM OFICIAL DO DIA MUNDIAL DO TEATRO - 2012
(Google images)



Escrita por John Malkovich

Fico honrado por o IIT - Instituto Internacional do Teatro - me ter pedido para fazer este discurso comemorativo do 50º aniversário do Dia Mundial do Teatro. Vou então dirigir estes breves comentários aos meus companheiros de teatro, meus pares e meus camaradas. Que o vosso trabalho possa ser apaixonante e original. Que ele possa ser profundo, comovente, contemplativo e único. Que ele nos ajude a reflectir sobre a questão do que significa ser humano, e que esta reflexão seja guiada pelo coração, sinceridade, candura e charme. Que consigam ultrapassar a adversidade, a censura, a pobreza, o niilismo, que muitos de entre vós serão obrigados a enfrentar. Que sejam abençoados com o talento e rigor para nos ensinar sobre o batimento do coração humano, em toda a sua complexidade, e com a humildade e curiosidade que faça disto o trabalho da vossa vida. E que o melhor de vós próprios - porque só poderá ser o melhor de vós próprios, e mesmo assim apenas em raros e breves momentos -  consiga definir a mais fundamental questão "como vivemos nós"?
Desejo sinceramente que o consigam.



segunda-feira, 26 de março de 2012

IL GATTOPARDO

(Leopardo - do autor)


"... depois será diferente, mas pior. Nós fomos os Leopardos, os Leões; os que nos hão-de substituir serão os chacais, as hienas; e todos nós, os Leopardos, chacais e carneiros, continuaremos as julgar que somos o sal da terra."

Il Gattopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa.


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domingo, 25 de março de 2012

RODOVALHO OU PREGADO?

São ambos peixes chatos, não porque aborrecem os outros, ou são chatos de pescar, mas porque são achatados na forma, como um disco que se adapta ao fundo do mar.

Pertencem, ambos, à Classe dos peixes ósseos, à mesma Família dos Scophtalmidae, e diferem no Género e Espécie: Psetta maxima no caso do pregado e Scophtalmus rhombus, no caso do rodovalho. Há quem considere que o Género é o mesmo - Scophtalmus - mas as espécies são, mesmo, diferentes.

Tal como acontece com os restantes peixes chatos, como o linguado ou a solha, as larvas destes peixes são iguais à dos outros e vivem durante 6 meses no meio da água, até sofrerem uma metamorfose. Depois deixam de viver no meio da água corrente e começam a viver nos fundos e, para isso, o olho direito passa para o lado esquerdo, a boca migra também para o lado esquerdo e o corpo sofre uma compressão lateral acentuada até ficar plano. Estas modificações resultam numa extraordinária adaptação à vida de fundo, onde vivem junto à costa, semi-enterrados, com o lado esquerdo virado para cima, seja em fundos de areia ou rochosos, e desenvolvem, também, neste processo de metamorfose, a capacidade de camuflagem por mimetismo, ficando fora do alcance dos predadores.

O que distingue um do outro é o tamanho: o pregado é mais pequeno (51 - 100 cm), ao passo que o rodovalho anda pelos 100 a 200 cm.

(O Pregado)
O pregado é mais saboroso que o rodovalho porque vive junto à costa, na rebentação, em águas mais oxigenadas e revoltosas, donde resulta uma carne mais firme e com sabor.

Hoje não sei se comi pregado ou rodovalho, mas o que comi era bom, bem grelhado e muito saboroso. Pelo tamanho e pelo sabor devia ser, quase de certeza, um pregado que me deixou pregado à mesa, de papilas gustativas bem despertas e a salivar de prazer.


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sábado, 24 de março de 2012

ANIKI BÓBÓ

Faz agora 70 anos. Foi realizado pelo Manoel de Oliveira e produzido pelo António Lopes Ribeiro, em 1942.

O filme é baseado num livro de  João Rodrigues de Freitas, Os Meninos Milionários.

Aniki Bóbó era uma lenga-lenga que os miúdos cantavam nas suas brincadeiras de grupo, para saber quem ficava de polícia e quem ficava de ladrão.

O filme passa-se entre a Ribeira do Porto e Vila Nova de  Gaia, com o rio Douro de permeio, e conta a história de dois miúdos, em idade escolar, o Carlitos e o Eduardo, que gostam da mesma menina, a Terezinha. O Eduardo é galifão, atrevidote, ousado e brigão, o Carlitos é um menino de olhar doce, educado, tímido e sossegado. Por causa da menina do sorriso de encanto, a Terezinha, vai-se estabelecendo uma rivalidade séria entre o Carlitos e o Eduardo a tal ponto que, para lhe mostrar o seu grande amor, o Carlitos rouba uma boneca da montra de uma loja - A Loja das Tentações - conseguindo, assim, os favores e a preferência da Terezinha.

Tal simpatia valeu, ao Carlitos, um olho bem negro provocado por um soco bem aplicado pelo Eduardo. E o romance continuou até ao dia em que, do alto de um talude sobre a linha do comboio a vapor, o Eduardo escorrega e cai mesmo ao lado de um comboio que passava naquele momento.

Todos ficam a pensar que foi o Carlitos que o empurrou e todos se afastam dele, enquanto o pobre Eduardinho sofre na cama dum hospital. Ele bem o negava, mas ninguém acreditava, e até a Terezinha se afastou dele.

O desgraçado do Carlitos até pensou em fugir num barco que estava atracado no cais de Massarelos, mas, finalmente, tudo se esclarece porque o dono da Loja das Tentações, que andava a espiar o grupo a tentar descobrir quem lhe tinha roubado a boneca, assistiu à queda involuntária do Eduardinho, ilibando o Carlitos da acusação.

E tudo acaba em bem e os miúdos voltam, todos amigos, a jogar aos polícias e aos ladrões, iniciando sempre o jogo com a lenga-lenga do Aniki Bóbó...

      Aniki Bébé
      Aniki Bóbó
      Passarinho Tótó
      Berimbau
      Cavaquinho
      Salomão
      Sacristão
      Tu és polícia
      Tu és ladrão
      Eu não quero ser ladrão
      Berimbau-tau-tau
      Tenho medo da prisão
      Aniki Bébé
      Aniki Bóbó
      Passarinho Tótó
      Berimbau
      Cavaquinho
      Salomão
      Sacristão
      Tu és polícia
      Eu sou ladrão.








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sexta-feira, 23 de março de 2012

OLHAR O PASSADO

Se queremos construir o futuro temos de saber olhar o passado. Confúcio dizia: "Se queres prever o futuro, olha o passado".

E devemos olhar o passado para não cairmos nos mesmo erros, para sabermos extrair, com aquilo que aprendemos de bom e de mau, os conhecimentos que nos podem levar ao desenvolvimento, ao avanço, à construção de um futuro que seja melhor.

Olhar o passado para entender o amanhã. Olhar o passado para procurar a grandeza. Olhar o passado para saber da História, para explicar o porquê do presente, para preparar o futuro.

Olhar o passado sem saudosismos, sem procuras daquilo que não chegámos ou não conseguimos ser,  sem recriminações por causa do presente, sem tentativas de o levar para o futuro. 

"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.", escreveu Pessoa





quinta-feira, 22 de março de 2012

REBUÇADOS PEITORAIS

Andava há dias com aquela tosse irritante, a sentir uma impressão na garganta, quase um ardor, com a necessidade imperiosa de tossir. Não tinha alternativa... se não tossisse ficava com aquele picar na garganta, que rapidamente se transformava num bloqueio, que nem o deixava falar nem respirar.

Tinha percorrido o calvário dos sintomas: primeiro apareceu com o nariz congestionado, a espirrar e com corrimento, depois a dor de cabeça, bem sobre os olhos, a seguir veio a irritação na garganta com dor e um pouco de febre, depois a descarga nasal abundante e, quando já tudo estava quase no finalmente, apareceu a tossícula que foi aumentando até chegar a este extremo de profunda irritação na garganta, com dor no peito e nas costelas e cansaço de tanto tossir.

Também percorreu a via sacra dos medicamentos: o antihistamínico, o antipirético, o antibiótico, o descongestionante, o anti-inflamatório, o expectorante e, por último, o antitússico. Mas, sem sucesso! 

Parece que, desta vez, a tosse era ainda mais irritante, obrigando-o a tossir estridentemente, quase com um timbre metálico e com a sensação que a garganta se iria romper se tivesse que tossir, assim, mais duas ou três vezes.

Para além dos medicamentos de farmácia ainda chupou pastilhas de mentol, esgotou o xarope cor-de-rosa da ervanária que tinha sobrado da última vez, tomou o chá de limão com gengibre e mel, gargarejou com água morna salgada, aplicou o colutório em nebulização, besuntou-se na garganta com o Vick's e aplicou  a flanela quente por cima... e, quando tudo parecia estar a acalmar, a tosse, de novo, a aparecer com força.

Agora só lhe faltavam os rebuçados peitorais, aqueles que lhe compravam quando se constipava! Nem sabe se ainda havia, por aí, à venda. Resolveu dar uma volta pelas velhas mercearias do bairro e lá os descobriu, quase todos, os do Dr. Bayard, os de Santo Onofre, os de São Braz e os de Seiva de Pinheiro. A mesma embalagem, o mesmo papel a embrulhar cada rebuçado, as mesmas cores... Nem sabia por qual deles começar, todos diziam o mesmo: todos eram os melhores para a tosse, rouquidão, catarro, bronquite e outras afecções do aparelho respiratório. E, à medida que ia saboreando cada um, foi recordando os sabores do alcaçuz, da menta, da seiva de pinheiro, do anis, do açúcar queimado... sabores que, faz tempo, tinha quase esquecido mas que hoje, devido a esta tosse persistente e irritante, voltou a descobrir e a apreciar.



A verdade é que a tosse continua a tossir mas agora já não liga muito... cada vez que tosse, abre a lata dos rebuçados e escolhe um deles: seiva de pinheiro? Santo Onofre?

 

quarta-feira, 21 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA

Porque hoje passa o Dia Mundial da Poesia, pedi ao Torga um poema:


Aos Poetas


Somos nós
As humanas cigarras.
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos...
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.


Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar...


Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.


Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu
Mas sim do mosto que a beleza traz.


E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
De uma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.


Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.


Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pé no chão,
Que se calcem de sonho e poesia
Pela graça infinita da vossa mão.


(Sublime!)
  

terça-feira, 20 de março de 2012

PRIMAVERA

Começa hoje. De calendário e de Borda d'Água. Oficialmente!

Mas, na verdade, o que acontece é que o calendário assinala, os astros conjugam-se, o Borda d'Água tem impressa a data, e a Primavera quer lá saber de calendários, da astronomia, de Almanaques, de registos ou de ofícios e apenas vem quando bem lhe apetece, interrompe-se quando muito bem entende, sem ligar ao que o homem julga que determina, ao que os astros "equinociam", ao que os registos anunciam. E tudo por culpa do anti-ciclone, dizem!

Este ano (lectivo, entenda-se) tivemos o Verão esticado até ao fim de Outubro, depois, um arremedo de Inverno sem grandes ousadias e, desde há meses, um tempo seco, com sol de verão e frio de inverno. Uma baralhação! Um descontrolo!

As árvores a florirem precocemente, mas a não terem seiva capaz de originar rebentos fortes e saudáveis, os pólenes arredios, sem insectos para ajudar a polinização, quase incapazes de causarem espirros ou comichões.

Mas data é data e, como nas inaugurações, é preciso assinalar e cortar a fita!

Aqui em Lisboa a Orquestra Sinfónica Portuguesa tocou, em pleno Parque Eduardo VII, a Sagração da Primavera de Igor Stravinsky.

A minha Primavera, aquela de barro, feita pelas manas Flores de Estremoz, resolveu sair do escaparate onde costuma estar e veio, para o meio da sala, festejar o seu dia.

Está no seu direito! E eu festejo com ela!

(Primavera)

segunda-feira, 19 de março de 2012

DIA DO PAI





Porque hoje é o DIA DO PAI, porque não lembrar a oração que Cristo nos ensinou?


PAI NOSSO
QUE ESTAIS NO CÉU
SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME
VENHA A NÓS O VOSSO REINO
SEJA FEITA A VOSSA VONTADE
ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU


O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DAI HOJE
PERDOAI AS NOSSAS OFENSAS
ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS A QUEM NOS TEM OFENDIDO
NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO
LIVRAI-NOS DO MAL
AMÉN.

domingo, 18 de março de 2012

SABER PELA VIDA

Acordou ainda o sol não tinha despertado o dia.

Deixou-se ficar na cama à espera que o silêncio da noite fosse sendo, a pouco e pouco, substituído pelo acordar da natureza, pelo canto do rouxinol, pelo assobiar entre-cortado do melro, pelo ladrar dos cães à passagem das ovelhas, pelo miado faminto do Ouriço a lembrar que era a hora da ração...

Timidamente, o sol foi-lhe enchendo o quarto de luz e de cor, tornando o despertar da manhã em mais um dia de quase magia, um dia que, tinha a certeza, lhe iria saber pela vida!
(DO AUTOR)  

 .



sábado, 17 de março de 2012

SOL DE MUITA DURA

As nuvens ameaçaram, o vento refrescou e a humidade do ar subiu apenas um pouco mais de quase nada.

Sol, sim, de muita dura!

(do autor - Serra de São Mamede - Portalegre)

Lá longe, para os lados de Alegrete, dois chuveirinhos de água mansa, iluminados pelo sol do fim da tarde, deixaram-se apanhar em dois arco-íris, como riscados por lápis de todas as cores, um mais perto, outro mais distante, que gravitaram no ar durante algum tempo.

Desta vez, nem chuva, que tarda, nem duendes com potes de ouro, apenas um deslumbramento colorido a dar um pouco mais de alegria às terras secas de Alegrete.

Lembrou-se da história do menino, do velho e do pote de ouro, quando o menino pergunta ao velho da existência de um pote de ouro no fim do arco-íris e este respondeu-lhe "que sim, que havia, até, um de cada lado, e um deles maior e com mais ouro que o outro".

E perguntou ao menino com qual ficava, sabendo que o maior lhe iria dar "felicidade, riqueza e poder".

E o menino, prontamente, respondeu "o menor"!

E o velho, admirado, perguntou-lhe "porquê"?

E o menino disse: "Eu só quero a Felicidade".