domingo, 25 de dezembro de 2011

OS SONHOS

Desta vez também eram de calda de açúcar e de abóbora!

Neste dia de Natal os sonhos tomaram conta da noite e do dia.

Para além dos sonhos de verdade, daqueles de sonhar deitado, ou acordado, também há sonhos de Natal.

São os sonhos de comer, feitos de massa frita, com a forma de bolas ocas cobertas de açúcar e canela, ou mergulhados numa calda de açúcar, ou, ainda, maciços, com abóbora na massa, também polvilhados de açúcar e canela.

Sabem bem, mas fazem mal... mas compensa o mal que fazem pelo bem que sabem e "pecar" por comer um sonho no dia de Natal não deve, mesmo, ser pecado.

Por isso, hoje, este dia de Natal, vai ser um dia de sonhos!

Mas não apenas por isto!


sábado, 24 de dezembro de 2011

UM NATAL FELIZ

No meio de tantas vicissitudes, de tanta interrogação, de incertezas, de, até, angústias estes dias de Natal, da família, da cristandade, do nascimento e da renovação que sejam bem passados, que sejam alegres, que tragam sorrisos, que se acompanhem de paz, de amor e de coisas boas e doces.

Um Santo e Feliz Natal para todos!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

OS MAQUINISTAS

Resolveram fazer greve na altura do Natal!

Com ar de Administradores de Empresa, os privilegiados maquinistas da CP, resolveram não ir trabalhar por causa de uns processos disciplinares que a Administração lhes levantou por não terem cumprido os serviços mínimos numa greve anterior. Ou seja, não cumprem o que devem e recusam, agora, os processos disciplinares que lhes são devidos. E como não querem ser admoestados, não fazem mais nada: declaram, prepotentemente, uma greve nestes dias de Natal e nos de Ano Novo.

Vão prejudicar milhares de pessoas que, nesta época do ano, costumam utilizar o comboio para irem ter com a família distante, independentemente do prejuízo causado aos outros trabalhadores que usam o comboio no dia a dia para o seu trabalho. Os prejuízos para a companhia, para Portugal, são avultados. Mas eles não querem saber: ganham bem, a família viaja de borla nos comboios e têm uma data de regalias.

É mais um daqueles sindicatos comandados por chefes intelectualmente anquilosados, agarrados ao poder, que não querem largar o tacho, submetidos às ordens de um partido que se recusou a prestar homenagem a um grande defensor das liberdades democráticas, Vaclav Hável, que chorou a morte do querido líder tirano da Coreia do Norte, e está apostado em afundar, ainda mais, este país em má situação.

Mas a desgraça não acaba aqui: o Governo disse que não ia dar tolerância de ponto no Natal! O país está na penúria, é preciso trabalhar e cada dia de paragem de trabalho representa uma perda de mais uns milhões euros.

E, como é preciso trabalhar, o que fazem algumas câmaras Municipais, nomeadamente a de Lisboa? Concedem, à revelia das indicações do Governo, a tarde de tolerância. E o Parlamento? Mete férias até ao próximo ano, porque os funcionários e os senhores deputados estão muito cansados! E os Tribunais? Metem, do mesmo modo, férias judiciais até ao próximo ano e os processos atrasados de anos vão ficando cada vez mais atrasados!

E a classe média o que faz? Não tem outro remédio: trabalha sem tolerâncias, paga os impostos sem atrasos e subsidia as tolerâncias, as férias e as greves desta gentinha que se está marimbando para um país chamado Portugal.

Para estes, para os grevistas, para os "tolerantistas", para os "ferialistas", só para eles, desejo um infeliz Natal!

Para os outros, para os que trabalham, para os que lutam por um país melhor, os votos de Feliz Natal!

E viva esta democracia!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

PÁLIDO INVERNO

"Um pálido inverno escorria nos quartos
Brancos de silêncio como a névoa
Um frio tão azul brilhava no vidro das janelas
As coisas povoavam os meus dias
Secretas graves nomeadas"

Um pálido inverno - Sophia de Mello Breyner Andresen - Obra poética.

O frio é muito na serra húmida e escorregadia. O fino manto de geada que cobre o mato rasteiro e o vento que desce da encosta arrefecem, ainda mais, o ambiente.

As paredes do quarto, escurecidas pelo tempo, ressumam a humidade entranhada e os vidros das janelas, frios como a serra, parecem chorar lágrimas geladas e cristalinas que vão escorregando silenciosamente.

A enxerga fria obriga-o a enroscar-se em si próprio tentando aquecer, com a manta de quadrados castanhos em que se embrulhou, o corpo gelado e as mãos frias, quase insensíveis.

Sem sono, mas cansado, vai deixando passar, silenciosamente, as horas, demoradas e longas, esperando que a claridade pálida do alvorecer o acordem de um dormitar breve e solto. 

E, enquanto ali está, deitado e tremendo de frio, vai desenrolando o filme da sua vida, libertando o passado, revendo os Natais da sua infância, pensando na família e nos amigos que foi perdendo, olhando a vida que foi deixando escapar e que agora, na solidão e tristeza do seu viver, não passam apenas de recordações e de memórias esgotadas...


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

NEM SEMPRE TUDO

Nem sempre tudo o que desejamos, conquistamos.

Nem sempre tudo o que queremos, conseguimos.

Nem sempre tudo o que temos à mão, agarramos.

Nem sempre tudo o que cobiçamos, alcançamos.

Nem sempre tudo o que olhamos, vemos direito.

Nem sempre tudo o que escutamos, ouvimos.

Nem sempre tudo o que prometemos, cumprimos.

Nem sempre tudo se diz, embora tudo se pense.

E, se nem sempre tudo é muito, quantas vezes o nada é tudo ou o tudo é nada?
 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

FICOU CALADO

Ouviu-a silenciosamente do outro lado do telefone enquanto ela descarregava lamentos irritados.

Ouviu-a e não disse nada.

Não sabia, nem interessava, de quem eram as razões, se razões houvesse, mas sabia que, ao ficar calado, ao não retorquir, não ia macular nem acabar com os afectos, a ligação, a cumplicidade e a amizade entre os dois.

Sabia que, muitas vezes, mais vale calar que falar! 

Por isso se calou. Só por isso...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

CASA BRANCA

"Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei"

Sophia de Mello Breyner Andresen - Em nome - A casa
- Obra poética.

Em nome da tua ausência
Te recordei.
Em nome da saudade
Te chorei.
E, por agora estares sempre ausente,
Embora me estejas sempre presente,
Construí,
Para ti,
Uma casa grande, uma casa branca
com risca ocre, larga, amarela,
Onde, agora, me vagueio sem destino
Onde, por lá, sem ti, me durmo
Onde passo, hora a hora, cada hora
Dum tempo sem tempo, num desatino,
Passando as mãos nas paredes nuas,
Na cama branca e fria
E espreitando,
Através da janela grande,
Virada a poente,
Ansiando
A tua chegada
Num fim de tarde
Resplandecente...



domingo, 18 de dezembro de 2011

O PERÚ

Tem estado, desde que nasceu, a crescer e a engordar para ser morto esta semana.

Um destino pouco simpático, mas é o seu destino.

Cresceu com os irmãos e, assim que atingiu o tamanho e o peso certos, foi afastado e colocado no terreno das traseiras para que, com a liberdade condicionada à sua área, fosse alimentado com milho, com farelo, com couves e com tudo o que conseguisse debicar naquele chão cheio de ervas e plantas rasteiras.

(Google images)
Agora está cheio, luzidio, glu-glu-gla com força, de vez em quando passeia-se com as penas todas abertas, imaginando peruas à sua espera mas, provavelmente, vai morrer virgem.

E vai morrer bêbedo, vão enchê-lo de aguardente até quase não se aguentar nas pernas, agitando as asas com a sensação que é capaz de voar longe e alto. 

Assim a carne fica mais macia e saborosa, dizem...

É este o destino deste perú de Natal!



sábado, 17 de dezembro de 2011

PASSADEIRA VERMELHA

O caminho parecia preparado para uma procissão: o chão atapetado de folhas, quase todas de um castanho outonal, e no meio, entre o rodado dos carros, uma passadeira vermelha, de um vermelho bem vivo, de um vermelho feito de medronhos maduros caídos dos arbustos, carregados de frutos, que ladeiam o caminho.



É a natureza, cada ano, a preparar-se para a época festiva, a enfeitar as árvores, a decorar os caminhos, a colocar passadeiras bem vermelhas, a criar trilhos, a indicar os caminhos do Natal!


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

QUE DIA!

Parece que hoje os ventos, as águas, os desconfortos, os desagradáveis se juntaram e, vai daí, cozinharam um dia horrível.

Um dia que até nem acordou mal mas que, com o correr das horas, se foi invernizando e, agora, se transformou num fim de tarde horroroso.

O vento já não uiva, brame, a chuva já não pinga, molha mesmo, as árvores partem-se pelos galhos, as folhas secas do outono cirandam pelo ar, a casa estremece e ecoa barulhos, as janelas abanam e dão estalos, a televisão perdeu a imagem e o pio, as luzes tremelicam e a lareira nem se deixa acender por causa do vento que lhe sopra da chaminé.

Lá fora, os gatos, por causa do cio de uma gata amarela, lutam bravamente e gritam de forma desalmada.

A tarde escureceu mais cedo e a noite promete do mesmo.

Enrolado numa manta quente deixo-me estar quieto a esperar que o sono me obrigue a ir para a cama! 


Entretanto, e enquanto tiver luz, vou lendo um livro.

Felizmente que hoje não é uma sexta-feira-13 porque, dizem, costumam ser dias azarados!



quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

PUBLICIDADE

Nunca vi tanta!

São os jornais com páginas inteiras de publicidade e agora até já trazem, muitas vezes, uma capa extra a anunciar produtos de grande consumo; é a rádio a ter cada vez mais intervalos para meter anúncios que, tal como acontece na televisão, elevam o som para que os produtos anunciados se façam ouvir bem; é a televisão a meter "buchas" publicitárias em tudo o que pode, como no começo das novelas e dos programas de grande audiência, sob a capa do patrocínio, são as próprias novelas a mostrarem que o azeite é "oliveira", que o refrigerante é o "sumol", que os carros são todos da mesma marca, a mostrarem bem o logotipo "H" da marca, quando arrancam ou estacionam...

Um entrar pela casa dentro, através da caixa do correio, de milhares de folhetos de publicidade, seja de supermercados, seja de lojas de electrodomésticos, computadores, telemóveis, máquinas fotográficas, "tablets", ou viagens de sonho...

Tudo a pedir consumo, a pedir comprem, a pedir gastem dinheiro, a pedir usem o cartão de crédito.

(Google images)

Como se a crise não existisse, como se o dinheiro abundasse, como se vivêssemos num mar de rosas.

Como se tudo fosse verdade!

Paradoxos...


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

MAR

"De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua."

Sophia de Mello Breyner Andresen - Obra poética - Mar.

(Google images)

Sabe bem parar o carro e ficar assim, tempos parados, a sentir a quietude da maré vazia, a cheirar o aroma fresco da maresia, trazido por leve brisa, e a olhar o disco amarelo de uma lua plena, límpida e tranquila...



terça-feira, 13 de dezembro de 2011

FRUTO VERMELHO

A romãzeira está cheia de frutos prontos a serem colhidos.

(foto do autor)

Bolas coroadas, frutos dos réis, as romãs vão-se abrindo à medida que amadurecem e ali ficam, penduradas nos ramos, a oferecerem as sementes de rubi às mãos de quem as quiser pegar e provar.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

ENTROU-LHE EM CASA

Entrou-lhe em casa de mala cheia, dois sacos de viagem, um ar ansioso, chorado, cansado, desesperado...

Saíra de casa, largara a vida que tinha, o sofrer constante, as agressões verbais, o esconder de conversas, as variações de humores, as justificações, a angústia do viver assim.

(Google images)
Entrou-lhe em casa a pedir-lhe apoio, suporte, encosto. Precisava de um local, de um abrigo, também de um ombro mas, sobretudo, de sair daquele mundo, daquela vida...

Saíra de casa com a sua roupa, alguns livros, o computador e um atestado médico, passado na véspera, para justificar as ausências próximas ao trabalho.

Entrou-lhe em casa à procura de paz, da paz que ela tanto tem procurado, a paz que, finalmente, ali ia encontrar...

 


domingo, 11 de dezembro de 2011

ENFEITES DE NATAL

Este ano não há iluminações de Natal. Ou melhor, quase não há!

Também não são muito precisas. Estão associadas ao Natal, não pela Festa da Natividade, não por causa do nascimento de Jesus, mas por questões puramente comerciais. 

Pensar em Natal, pelo menos aqui em Portugal, é pensar em prendas. 

Os nossos vizinhos espanhóis entendem a quadra natalícia de uma forma mais acertada: guardam a noite de Natal para a celebrar em família, da forma mais cristã possível, e fazem a entrega das prendas na data correcta, o dia de Reis, que corresponde à altura em que os Reis Magos ofereceram as prendas ao Menino: o ouro, o incenso e a mirra.

Mas o comércio do Natal é muito forte e, por isso, as decorações e as iluminações de Natal: as luzes a piscar, o efeito de neve, os pinheirinhos, os trenós, as renas, o Pai Natal - agora há uns horríveis que trepam pelas paredes e entram pelas chaminés quase a confundir-se com os assaltantes que, cada vez mais,  há  por aí -. 

O topo das decorações de Natal são, ou têm sido, as árvores gigantes feitas em estruturas enormes e muito altas com uns bons milhares de luzinhas das mais diversas cores, que apagam e acendem, sob a batuta de um programa de computador. E cada terra quer reivindicar, para si, o estatuto da árvore mais alta, da mais luminosa, da mais original... como se o Natal, o verdadeiro Natal tivesse alguma coisa a ver com isto.



(foto do autor - Ponta Delgada)

De qualquer modo esta árvore, associando-se a esta resignação natalícia, resolveu prescindir das luzes, das bolas, dos sinos e outros berloques, do algodão a imitar neve e cobriu-se de um vermelho brilhante e intenso para festejar a quadra festiva que agora se aproxima.



sábado, 10 de dezembro de 2011

EQUILÍBRIO

Está ali há anos!

No entanto, parece que vai cair a qualquer momento, que vai inclinar-se pela força dos ventos e da água das  chuvas e escorregar por aquele telhado abaixo.

(foto do autor)

Cada ano que vai, cada ano que vem, o casal volta ao ninho, repara-o dos estragos do inverno, ajeita-o, traz mais uns galhos para o reforçar e ali continua naquele equilíbrio aparentemente instável, mas firme como uma rocha, determinado, seguro de si, como a querer desafiar as leis da natureza.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O FILÓSOFO

Deixou este país de rastos, deixou uma dívida imensa a pagar, deixou esta e as futuras gerações com um encargo enorme do qual não se vão libertar tão cedo, deixou a esperança da juventude à porta do inferno...

Depois de meses de silêncio abriu a boca para dizer que as dívidas não são para serem pagas e que pagar a dívida é ideia de criança... que foi assim que aprendeu na universidade onde andou a estudar.

Curiosamente, no país onde nasci, na minha universidade da vida, aprendi, ensinaram-me, que os compromissos são para serem honrados e que, quem deve, deve pagar!

Estou errado? Ou devo ir para Paris aprender esta nova filosofia, não de vida, mas de dívida? 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

CINZENTOS...

Acordou com a cidade envolta em mistério. 

O nevoeiro intenso, da manhã ainda a acordar, esbateu o colorido dos prédios da avenida, transformou os poucos carros que circulavam em pontos de luzes brancas e vermelhas, abafou os sons metálicos da cidade e trouxe frio, um frio húmido que, rapidamente, se entranhou nos ossos. 

Gosto destas manhãs misteriosas, de pouca gente nas ruas, de cores atenuadas pela névoa, de frio que pede agasalhos e uma bica quente e amarga que nos aquece as mãos e deixa um travo áspero por dentro do peito.

Manhã de cinza, de tons cinzentos, mas já com cheiro a Natal!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

CHONG FUNG CHA

Encheu a cafeteira com a água do garrafão de vidro. Pôs ao lume brando do fogão, para que a água fosse aquecendo de forma suave, sem grande convulsão das suas moléculas, proporcionando uma subida gradual da temperatura até estabilizar uns graus abaixo do ponto de ebulição. Não a podia deixar ferver, era sagrado!

Aquele chá, vindo das montanhas verdes de Chintochao, de plantações situadas a meio da encosta virada a sul, era único.

As folhas verdes, ainda enroladas, eram colhidas às primeiras horas do dia, depois de terem repousado em noite de lua cheia, uma a uma, as primeiras das pontas dos ramos dos arbustos, por mãos pequenas, delicadas, e depositadas em pequenos cestos forrados a seda. Sofriam uma maturação especial, quase secreta no modo de a fazer, e era apresentado como o chá de Chong Fung Cha.

Tinha de ser importado directamente, a quantidade produzida cada ano não passava de algumas centenas de quilos, e o preço, quase astronómico. E vinham, com as folhas do chá, a água daquelas montanhas e, da primeira vez que se comprava e que se fazia o registo como comprador-apreciador, também o material para preparar e beber aquela preciosidade.

Por isso o cuidado na sua preparação, o material apropriado, a água exclusiva, os cuidados com o calor para a aquecer, os tempos de infusão, a temperatura da sala, o ambiente, as cores, até a música (também, da primeira vez, veio um CD de músicas que ele chamava de Zen).

O chá, aquele chá, necessitava de uma preparação, quase espiritual, para ser bebido: um ritual próprio de gestos, de respiração própria, de relaxamento, como se tratasse de uma sessão de yoga. 

Por isso não era um chá que se bebesse todos os dias, não era um chá para acompanhar com bolinhos ou scones, não era um "five o' clock tea", era um chá que não queria conversa, apenas acordes de música oriental, introspecção, sossego e tempo... E tempo, também, para preparar tudo,  o ambiente, a cabeça e o próprio chá.

Quase tinha reservado a tarde toda para o cerimonial! É que, depois de ter sido bebido, e quase que não é bebido, mas apreciado, olhado, cheirado, sentido, aquele chá pede tempo para ser verdadeiramente degustado e poder transmitir a paz, a tranquilidade e o zénite de bem estar.

Momentos raros de felicidade. 

Do tudo só não gosta do nome: CHONG FUNG CHA!

É um nome cuja onomatopeia lhe faz lembrar um caminhar em terrenos lamacentos, um caminhar feito com botas grossas e andar pesado, um nome que nada tem a ver com a delicadeza, graciosidade e quase feminilidade daquele chá!


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

MÃOS

MÃOS

"Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender"

Sophia de Mello Breyner Andresen - Obra Poética - Intervalo III


(imagem da net)


Naquela tarde em que surgiste
As mãos,
Ávidas de dar consolo,
Tocaram inquietas 
O teu corpo
Que se abandonou,
Em desejos,
Às ternuras frescas e longas
Guardadas na concavidade 
Das minhas mãos.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

VESTIDA DE NOIVA

A Gabriela trabalhava para uma empresa de limpezas.

Era romena, tinha 21 anos, veio para Portugal com 19 anos e fazia a limpeza diária da clínica.

A empresa que a contratou cobrava, por cada hora de serviço, 7 euros, e a Gabriela recebia apenas 2 euros. Cinco euros que ficavam, bem guardados, nas mãos de quem sabe bem explorar estes trabalhadores vindos de longe e que aparecem sem mais nada do que uma mão vazia à frente e outra atrás das costas. Tinha-nos dito tudo isto há poucos dias e, por causa, queria despedir-se e ir procurar trabalho noutra empresa onde não se sentisse tão explorada.

A Gabriela era uma pessoa, quase uma menina, delicada, cuidadosa, preocupada com o seu trabalho e, porque era asmática, era seguida pelos médicos da clínica.

A Gabriela tinha cá família, um irmão casado, com quem vivia. E tinha um namorado, o Pedro, de 26   anos, com quem passava os fins de semana. A Gabriela dizia que o Pedro era o homem da vida dela.

Mas tudo é passado. A Gabriela já não tem presente e, muito menos, futuro... Nem a Gabriela, nem o Pedro!

Morreram ambos, intoxicados, num incêndio provocado por um aquecedor, aceso, que estava no quarto onde ambos dormiam.

O sonho da Gabriela era casar e ter filhos.

Agora a Gabriela vai para a Roménia onde vai ser enterrada.

Há-de ir vestida de noiva, como é a tradição romena das meninas que se foram antes do tempo... 



VOLUNTARIADO

Cada vez se torna mais necessário o voluntariado.

É uma questão de solidariedade, de entrega, de dádiva, de disponibilidade, de amor ao próximo.

O voluntariado é mais uma forma de evidenciar a importância dos valores, os mesmos valores que, tantas vezes, estão ausentes nos actos e nas atitudes das pessoas. Os valores que, tantas vezes, são lembrados pela sua falta...

Agora que, daqui para a frente, a vida vai doer para muitos, que vai deixar de haver dinheiro para pagar as dívidas e os créditos feitos ao desbarato, que vai deixar de haver dinheiro para comprar comida, que vai haver mais desemprego, o voluntariado vai ser um dos bens mais importantes e necessários.

Hoje houve muitos apelos, até do próprio Presidente da República, para o despertar do voluntariado nas pessoas...

Acho que ninguém, que sabe o que são os valores morais e do espírito, fica indiferente ao apelo e à realidade.

Só não vejo, nem imagino, os Limas, os Loureiros, os Varas, os Isaltinos e outros tantos, que tão hábil e influentemente souberam desviar para as suas contas bastantes milhões de valores materiais a, voluntariamente, exercerem essa forma de voluntariado.

Pode ser que um dia, brevemente quem dera!, a justiça se faça e esses milhões que andam por aí nas mãos desses indivíduos ou em nome de sociedades duvidosas, em "offshores" e paraísos fiscais, voltem para os cofres do Estado e se faça uma melhor distribuição da riqueza.

sábado, 3 de dezembro de 2011

CHOCOLATE

Acordou com o sabor na ideia e passou o resto do dia a pensar no chocolate que tinha comprado na véspera.

Um chocolate preto com amêndoas crocantes. Cento e cinquenta gramas a prometerem sabor, muitos gramas e muitos quadradinhos para degustar com tempo; pedacinhos que iria  deixar derreter lentamente na boca, saturando as papilas gustativas daquele sabor forte, untuoso e amargo, ao mesmo tempo que iria mordiscando os bocados de amêndoa tostada e caramelizada, dispersos pelo seu interior, para contrabalançar a adstringência final.

A embalagem de papel vermelho escuro, apelativo, convidava a um consumo imediato mas preferiu guardá-lo para mais tarde. Para quando, sentado no sofá, acabando a leitura de "Os Imperfeccionistas", e acompanhado por Mozart e pelo copo de malte da Macallan, o pudesse saborear nas condições ideais.

Deixou-se ir atrás da leitura, do piano da Maria João Pires, do "single malt" e dos quadradinhos negros.

Só se levantou quando acabou a leitura do livro, quando o piano se calou, quando o fundo do copo ficou vazio, quando o papel vermelho e a prata deixaram de servir de capa ao chocolate que já não havia... 


 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

91 anos

Hoje, como há um ano atrás, quero deixar uma homenagem à minha mãe no dia dos seus 91 anos.

Uma idade que merece festejo, que merece parabéns!

Uma mãe que merece tudo, uma mãe que nunca regateou nada dos filhos e da família.

Uma mãe que continua a ser mãe e, também, avó e bisavó. 

Uma mãe que reúne e congrega o amor, a admiração e o respeito de toda a família.

Que Deus a conserve lúcida, independente e com o sorriso e o olhar que mais ninguém tem!

Um beijo, Mãe!


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

FERIADO

Parece que vai acabar!

Comemora o dia da Restauração da Independência, o dia da saída dos espanhóis do Terreiro do Paço representados, nessa ocasião, pela Duquesa de Mântua e o seu secretário de estado Miguel de Vasconcelos.

Foi no dia 1 de Dezembro de 1640.

Um grupo de nobres, os Conjurados, liderado por Dom Antão de Almada, convenceu Dom João, Duque de Bragança, que vivia no  palácio de Vila Viçosa,  a liderar esta revolta, que foi bem sucedida, e se concretizou com a prisão da Duquesa, a morte do traidor Miguel de Vasconcelos e a expulsão das tropas espanholas. Dom João foi aclamado Rei de Portugal dando origem à dinastia de Bragança como o nome de D. João IV.

A situação em Portugal, nessa altura, era de verdadeira miséria, o dinheiro prometido pelos espanhóis, 60 anos antes, nunca chegou, tendo ficado pelos caminhos ínvios de uma administração mal gerida e corrupta.

Os campos mais férteis estavam cobertos de urze e ervas daninhas, o país decrépito e decadente e à beira da ruína.

A verdade é que, contra todas as expectativas, contra muitas previsões e contra toda a lógica, o país resistiu sem muito se conseguir entender, ainda hoje, como o conseguiu fazer.

Mesmo numa verdadeira miséria, esfomeado e decadente, o país conseguiu reunir forças para enfrentar a própria desgraça e sobreviver.

Hoje, no dia 1 de Dezembro de 2011, 371 anos depois, parece que voltámos à estaca zero.