terça-feira, 24 de agosto de 2010

MALMEQUER

É uma homenagem ao Raul Solnado
o maior humorista sério da minha geração.
Fazia rir e fazia pensar.
Deixou muitas histórias, muitos filmes, muitos programas de televisão.
Fez revista, teatro e deixou-nos um teatro - o Villaret.
Tinha uma voz inconfundível, cantava mal mas deixou uma canção, um hino, uma ode, na Revista "Prá frente Lisboa", em 1972, em plena época de censura.

MALMEQUER

Apropriada para a época de então e para a de hoje.

Atentem na letra.         Totalmente contemporânea.

 
   Refrão
 
P
ortuguês, ó malmequer
Em que terra foste semeado?
Português, ó malmequer
Cada vez andas mais desfolhado

Malmequer é branco branco
Que outra cor querem que escolha
Se te querem ver bonito
Por que te arrancam as folhas?
Por muito humilde que sejas
Malmequer ó meu amigo
Lá vem o dia da espiga
Que tens honras de trigo

   Refrão

Malmequer tens pouca flor
Mesmo assim és um valente
Antes ser dez réis de flor
Do que ser dez réis de gente
És uma flor do povo
Vem do povo a tua força
Estás bem agarrado à terra
Não há vento que te torça

   Refrão

Malmequer ou bem-me-quer
És a flor mais desprezada
Uns com muito, outros com pouco
E a maioria sem nada
És branco da cor da paz
Mas seja lá por que for
Há para aí uns malmequeres
Que andam a mudar de cor

   Refrão

Regam-te a seiva com esperança
Mesmo assim não és feliz
Há muitas ervas daninhas
Que te atacam a raíz
Malmequer se fores regado
Num dia de muito Sol
Cresce, cresce, cresce, cresce
Para seres um girassol


   Refrão








OBRIGADO RAUL

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A CAÇADA


Estava tudo combinado!
Encontro às cinco e trinta. O carro, já com o motor a trabalhar, parecia aguardar, com impaciência, a chegada dos caçadores, mais o cesto do pequeno almoço, os bancos de armar, os sacos com os costilos e as costelas, e os frascos com as agúdias. 
Partida na hora, viagem curta.
À chegada é noite ainda, mas tudo tem de estar pronto antes do sol aparecer. É tempo de colocar as armadilhas. Os sítios são os do costume, os que vão receber os primeiros raios rasteiros do sol. Limpa-se o local, arma-se a costela, ou o costilo, prende-se a agúdia, escondem-se as armadilhas com folhas secas e terra, e passa-se ao local seguinte.
As madrugadas, na serra, começam a esfriar e apetece bem, depois de dada a volta, sentar no banco ao calor das brasas que aquecem a água para um café.  A cafeteira chia, a água começa a borbulhar e deitam-se cinco ou seis colheradas de pó cheiroso de café, duas mexedelas, já com a cafeteira fora do lume, uma espera de meio minuto e, depois, o colocar da brasa incandescente para que as borras assentem bem no fundo. Cada um, entretanto, foi colocando o pão em cima das brasas, e preparando as suas torradas, bem barradas de manteiga. Café servido sem pressas, mas a olhar o horizonte, à espera dos primeiros raios de sol.
 Seis horas e vinte minutos e eis o sol, vermelho laranja, a despontar, a saudar e a prometer um dia quente. A tranquilidade do bosque, feito de pinheiros e de carvalhos, agita-se. Piados, trinados, chilreios, assobios, enchem de melodias aquele lugar. A cada estalo de armadilha que se fecha, um silêncio significativo mas, logo de seguida, a sinfonia recomeça.
É altura de ir dar a volta, recolher os pássaros apanhados e rearmar as armadilhas. 
O sol já subiu suficientemente alto e é altura da segunda e última volta.
A contabilidade final não foi má. Promessa de um bom arroz.
Regresso de uma alvorada sempre emocionante e sempre esperada em cada fim de Agosto de férias.

domingo, 22 de agosto de 2010

O QUE ME DÓI

"  O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão..."
  - Fernando Pessoa, 5/9/1933




O que me dói é
Tudo aquilo que não conheço,
A dor que sinto é
Por tudo o que não chegarei a conhecer
Por tudo a que não saberei dar apreço
Por tudo o que não sei se vive,
Ou se vai morrer.

O que me dói é
A dor que sinto e não entendo,
A dor de ver sem perceber,
A vida que vivo sem ir vivendo,
E tudo aquilo que não quero esquecer...

sábado, 21 de agosto de 2010

INTEMPORALIDADE


"... 
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz."
- Fernando Pessoa - O guardador de rebanhos.

Deitou-se ao comprido,
Ficou quieto,
Imóvel,
Parado,
E, assim deitado,
Pôs-se a pensar que,
Às vezes,
Faz bem ficar assim:
Quieto,
Imóvel,
Parado,
Deitado a pensar...
A pensar verdade,
A pensar felicidade.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

FOI NUMA DAS MINHAS VIAGENS...

"... Ah, quando nos fazemos ao mar
Quando largamos terra, quando a vamos perdendo de vista,
Quando tudo se vai enchendo de vento puramente marítimo,
Quando a costa se torna uma linha sombria,
Nessa linha cada vez mais vaga no anoitecer..." Álvaro de Campos

Então a vida muda,
Deixam-se de lado as razões,
Acabam-se os amores, as fúrias, as mágoas,
As ilusões,
Entra-se no Mundo Abstracto
Do movimento das águas,
Das ondas causando um balancear desencontrado,
Das brisas perfumadas por diferentes oceanos,
Das brumas surgindo como que do nada,
Das noites escuras, dos dias claros,
Dos ventos enchendo velas
Que nos empurram para longe, para longe...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

AO VOLANTE...

"Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo..." (Álvaro de Campos)

E ao volante do Chevrolet lá ia,
Conduzindo com calma, sem parar,
Escolhendo um trajecto que lhe permitisse,
Sem pressas,
Levar os seus sonhos a passear.

E sem ninguém que os visse,
Escolheu a estrada
Que atravessava, na serra, o Monte da Lua,
Um cabeço, quase sem árvores,
De paisagem nua,
Só ele, sem mais alguém,
Imaginando que seguia outro caminho,
Percorrendo outro mundo,
Tentando levar os sonhos mais além...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

PASSAGEM DAS HORAS

"...
Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesado
Os corpos de todas as filosofias, os trapos de todos os poemas,
Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstracto nos ares, ..." (Álvaro de Campos).

Vertiginosamente corria,
com a pressa de quem corre atrás de alguém.
Nas mãos, o volante pesado
dava-lhe um correr desajeitado
mas ia correndo sempre
atrás dos corpos de todas as filosofias,
tentando apanhá-los,
esmagá-los,
soltando os pensares
e atirando-os aos ares
assim  como aos trapos dos poemas,
esfragalhando-os em tiras 
libertando fonemas,
libertando-os das algemas,
ficando só,
aquela roda,
abstracta,
a girar,
a girar,
pelo ar...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

PASSAGEM DAS HORAS

"Ver as coisas até ao fundo...
E se as coisas não tiverem fundo?" (Álvaro de Campos)

Ele bem olhava,
deitou-se mesmo na borda daquele poço,
esteve ali horas,
a olhar e sem ver nada,
sem ver o fundo,
só o escuro, só o breu.

Mas tinha,
tinha fundo,
estava lá,
só que ele não o via.
Esqueceu-se,
ou não sabia,
que se houvesse luz,
ou se fosse de dia,
o fundo aparecia.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O CARRO

Precisava desesperadamente de um.

O outro, avariara, o conserto era caro, não tinha dinheiro para o pagar. E decidiu vendê-lo.  Encontrou quem o comprasse, mesmo com defeito, e sempre ficava com algum dinheiro para as despesas mais curtas.

Podia ser que ainda sobrasse algum dinheiro para o imposto, aquela anormalidade que tinha que pagar todos os anos e que sempre lhe custara, não só pelo dinheiro, mas pela injustiça que  se achava estar a ser vítima.

Agora andava mais a pé, não tinha outro remédio! Fazia o seu "footing" obrigatório e começou a notar que o peso ia diminuindo, as roupas a ficarem folgadas, as calças a terem espaço na cintura, o cinto a ter que ser apertado um ou dois furos abaixo, com mais roupa e menos corpo.

Para quem andara durante anos a tentar perder peso, a comer menos mas mal, a fazer caminhadas inglórias por não regulares ou não persistentes, a comprar todos os tipos de dietas que prometiam perder este peso e o outro, a tomar chás verdes, brancos, oolongs, agora, apenas pelo facto de ter ficado sem carro, a perda de peso tornou-se consistente, a alimentação passou a fazer-se de maneira mais racional, o humor melhorou, voltou a alegria, deixou de ter depressões e até voltou a usar roupa que colocara de lado porque  tinha deixado de caber lá dentro.

E pôs-se a fazer contas: não mais gastos com combustível, nada de seguros, fim às revisões e reparações, sem suplementos dietéticos caríssimos, sem ter que comprar roupa nova, talvez que tudo poupado desse para pagar o que devia. 

Agora anda mais confortável na vida, sem aflições, com menos peso e com mais auto-estima.

Afinal para que precisava de um carro? 

  

domingo, 15 de agosto de 2010

SENHORA DOS NAVEGANTES

Hoje vais andar a passear de barco, em tudo que é comunidade piscatória. 
Tudo começou no século XV, com as descobertas dos portugueses. Eles pediam-te a protecção das tempestades e de todos os perigos que o mar encerra. Pediam também ajuda para regressarem à casa que os viu partir.

O próprio Pedro Álvares Cabral andava sempre com uma imagem para proteger e ajudar na sua navegação.

Hoje vai haver festa, procissões no mar. Uma tradição associada ao feriado de 15 de Agosto, dia dedicado à Mãe de Cristo.

Um bom dia, para ti, Senhora!



sábado, 14 de agosto de 2010

DIÁRIO DE BORDO (6)

"... Quero nos cais me deixar e me repartir
Se nesse mar me criei, eu sei de voltar...
Quantas as amarras desfiz, para me ver partir
Em quantos pontos deitei
E sonhei demais
Foram momentos de paz
E outros que eu não quis
Sei que esse mar me ensinou,
Tudo que aprendi..."   (Sonekka e Caito Spina).

Ei-lo, senhor de um mundo que não é dele. 

Espreitando horizontes, desconhecendo o fim ou o começo, escutando silêncios negando razões, julgando saber do destino, do amanhã.

Desfazendo nós, criando amarras, partindo longe e ficando aqui, sempre indo e sempre voltando, como  marés que se enchem e que se vão.

Aprendendo sempre, esquecendo logo, coerente e  inconstante, ardendo calmo como  fogo lento, arrastando tudo como tsunami de paixão.

Procurando paz no encontro da guerra, soltando âncoras agarrado ao cais.

Nesse o mar que o ensinou, nesse mar que aprendeu, o balançar da vida, o sobe e desce da ondulação, o vai e volta da maré...


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

DIÁRIO DE BORDO (5)

"Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...
" (Antero de Quental - Sonetos).

De repente, ainda com o nevoeiro persistente, a tristeza apareceu e ele, tristemente, sentou-se na amurada, perscrutando a vida, interrogando a alma, ouvindo um lamento que parecia vir daquele céu cinzento e nevoento, um lamento surdo, quase imperceptível, vago, mas que lhe fazia dor no peito, no coração, na alma?

Seria a solidão? O sentir-se só no meio dos outros? O querer isolar-se porque assim sentia a sua própria companhia?

E ao escutar o céu pesado e nevoento que via de diferente? A visão de um grito ou o escutar de um lamento? Um grito forte, arrasador, perturbante, qual raio de tempestade alucinante? Ou um lamento que vagamente lhe aparecia, saindo das coisas, saindo do nada?

Escutava também o tempo que ia passando lento, vagaroso, agarrado a si a aconselhar a sabedoria da espera, da paciência. O tempo que lhe aconselhava paz, que lhe dizia: espera! porque sempre alcança!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

DIÁRIO DE BORDO (4)

"Neste dia de mar e nevoeiro... são os longos horizontes, os ritmos soltos dos ventos e aquelas aves... voam sempre dentro do teu sonho como se o teu olhar as sustentasse"  (Sophia, 1950).

E veio um nevoeiro inesperado, súbito e manso, silencioso, como é sempre o nevoeiro; os horizontes perderam-se  do limite do mar - mais perto? mais longe? -, mas na certeza de que estão lá, sem distância, sem tempo, mas ao dará que ele concede.

O vento, esse, acomodou-se, parou de correr e começou a cirandar, a passar na peneira do nevoeiro, a soltar-se em ritmos dispersos, em brisas momentâneas, inconstantes, flanantes.

E as aves a voarem, em círculos, para dentro da imensidão  dos sonhos feitos de bruma, de olhares distantes, e a sustentarem-se nessa visão inquieta de certezas inconcretas de que são feitos esses mesmos sonhos.



quarta-feira, 11 de agosto de 2010

DIÁRIO DE BORDO (3)

"Oh mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?" (Fernando Pessoa).

Não sabia quanto, mas sabia que tem bastante... sal e lágrimas... de dor, de sofrimento, de saudades, de morte, mas também de alegria, de risos saudáveis, de desejos de ambição, de consolo de metas atingidas.

Mais umas horas, depende do vento, e a meta está quase à vista.

O brinde ao sucesso, ao destino, ao finalmente de um sonho, dos quatro.

Lágrimas de esperança, lágrimas de alegria, lágrimas de satisfação, lágrimas de emoção!

Valeu a pena?

Sim, tudo vale a pena.

Depende, sempre, do tamanho da alma!

E ela é grande!



terça-feira, 10 de agosto de 2010

DIÁRIO DE BORDO (2)

A noite foi tranquila, um ou outro barco de pesca, ao longe, e o amanhecer amaciado por um véu de nuvens rubras, cheias de poeira do deserto, que despejaram uma chuva branda rica de um pó avermelhado que ficou agarrado na superfície do barco e das velas, que se tingiram de rosa!

Onda larga, cavada, a permitir uma viagem "soft". Pequeno almoço substancial a tornar-se na principal refeição do dia. O resto do dia perdeu-se no afinar das velas, sem necessidade de mudança de rumo, em apanhar sol, dormir, ler, e muita conversa. O banho de mar, a mais de 50 milhas da costa foi espectacular. Uma sensação estranha de solidão e companhia, de poder sobre as águas e de fragilidade frente à enormidade do oceano.

A pesca ao corrico não deu nada. O peixe deve ter fugido destas águas tranquilas e quentes.

Preparação para a noite, com distribuição dos quartos, de 2 horas cada. 

Ligação ao satélite para ler os mails, enviar correspondência imprescindível e esta crónica.

A noite arrefece sempre bastante.

É a máxima: o mar é frio, húmido e salgado!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

DIÁRIO DE BORDO (1)

Estava tudo preparado.

O barco abastecido de água e gasóleo, as baterias totalmente operacionais, os instrumentos de bordo a funcionar - radar, GPS, piloto automático, VHF, comunicação via satélite. Coletes salva-vidas, arneses, luvas, casacões impermeáveis, botas de borracha, barretes, tudo em ordem.

O frigorífico abastecido, a geleira cheia de comida pronta a passar pelo forno ou pelo microondas, e uma despensa cheia de bolachas, pão, café em pó, e todo um etc. feito de tudo.

Aproveitando a maré,  saída prevista para as 4h 30m, sem atrasos, tirados os cabos, defensas arrumadas, partida e, mal a barra saída, aproveitar o vento constante que se tem feito sentir, vela grande aberta, genoa desfraldada tomando o rumo certo para as próximas 72 horas, de mar aberto, com previsão de bom tempo para os próximos três dias.

A equipa constituída por quatro amigos, de longa data e muita marinhagem à vela, com promessa de viagem tranquila.

E o mar alguma vez foi tranquilo?

domingo, 8 de agosto de 2010

O FOGO

Quase lhe rondou a porta.

De início era aquele cheiro no ar, a atmosfera um pouco embaciada e o céu a acordar com um vermelho alaranjado intenso. Depois, à medida que o lusco-fusco ia embora e o dia clareando,  que o vento ia crescendo e o calor começava a aumentar, começou a aperceber-se de um fumo ao longe, que subia por detrás do monte na direcção das antenas. Depois  cheiro a lenha queimada, o estalar próximo dos pinheiros e as aves a passarem na mesma direcção, a fugir à nuvem de fumo que se ia aproximando.

Meteu-se na moto e foi tentar aperceber-se do que se estava a passar. Quando chegou ao cruzamento com a estrada nacional, não foi preciso olhar... as chamas lambiam o restolho dos campos a menos de 100 metros, o vento espalhava as labaredas, como se estivesse a pôr manteiga no pão.

Voltou para trás e accionou os mecanismos. Os bombeiros já estavam avisados e esperavam que o dia raiasse com mais luz para que o helicóptero pudesse levantar.

Ligou a rega, colocou as mangueiras em ordem e começou a molhar tudo em volta da casa, a deixar que a aquela chuva tivesse tempo de aguar bem os terrenos, as árvores, as sebes e o pedaço de mato que religiosamente conservava na sua estrutura original.

As chamas apareceram ao fim de pouco tempo, empurradas pelo vento que se fazia sentir, mais forte agora, e a incendiarem as copas dos pinheiros.

Como do nada o helicóptero apareceu e largou aquele balde enorme de calda retardante, no sítio exacto, no momento oportuno.

As chamas não passaram e aquele bloco de mato, humedecido, serviu de barreira ao evoluir das chamas.

Não passou do susto. Grande, um susto de impotência e medo.

Os bombeiros por lá ficaram, no rescaldo.

Arrumou as mangueiras e, pelo sim pelo não, deixou a rega a funcionar o resto da manhã.

Ficou o cheiro a fumo, a lenha ardida.

Os pássaros voltaram e ficaram por ali, a banquetearem-se de figos, de ameixas e das groselhas que ainda restavam.

O chilrear de boa disposição quase fez esquecer o acordar emocionante daquele dia.

sábado, 7 de agosto de 2010

SIMPLICIDADE

"... corta o tomate em pedaços de tamanho médio, junta-se ao azeite e à cebola cortada às rodelas, que já estão a refogar na panela e deixa, assim, o estrugido uns dois a três minutos, com a tampa, para que o tomate sue convenientemente.

Nessa altura, junta a água que, entretanto tinha a ferver, assim como uma pitada de sal e pimenta acabada de moer.

Deixa tudo novamente a ferver, lentamente, uns cinco a seis minutos.

Está na altura de adicionar os ovos. Pode colocá-los inteiros ou levemente batidos com uma varinha que depois adiciona, em fio, no caldo fervente, mexendo com uma colher de pau.

Veja se está bom de sal e pimenta.

Depois, é só servir em pratos fundo, nos quais coloca uma fatia de pão duro..."

Foi assim que lhe ensinaram a receita.

Resolveu, alterar um pouco e, em vez do pão e do ovo, meio escalfado, colocou no prato figos, previamente descascados, já cortados aos quartos. 

A sopa estava deliciosa. O quente daquele caldo balanceava com o frio do figo, que tinha estado umas horas no frigorífico, o acídulo do tomate era anulado pelo adocicado do figo, tudo num equilíbrio de sabores, de texturas, de aromas muito agradável ao paladar.

Ficou bem! Já não precisou de comer mais nada.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A BARRAGEM

Saiu cedo da quinta, de carro, porque ela não queria que ele andasse na moto. Tinha muito medo da moto e achava que era um meio de transporte perigoso e aquilo da obrigatoriedade de usar capacete com o calor, neste Verão quente, era insuportável. Depois as quedas... Tinha mesmo medo que algo acontecesse!

Para que ela ficasse tranquila ele lá foi de carro. E tinha razão, era mais confortável, tinha ar condicionado e era, seguramente, mais "seguro".

Tinha decidido ir à barragem. Havia lá um local bom para tomar banho, quase uma praia feita de um relvado natural até junto àquela água muito transparente, com boa temperatura e com a vantagem de, raramente, haver alguém.

Por um lado era bom, gostava de se sentir só naqueles locais que pediam sossego, por outro, não havendo ninguém, poderia ser perigoso se houvesse um acidente. O telemóvel não valia de nada porque ali não havia rede.

Mas os azares só acontecem aos outros e o Euromilhões também nunca lhe ia sair. Era uma boa máxima: azar aos jogos, quem sabe!, sorte ao amor?

Onze horas. Tinha levado uma cadeira de praia, mais uma vantagem de levar o carro, uma boa leitura, a garrafa de água e mais nada. Todos os ingredientes para uma manhã tranquila e uma boa natação até à outra margem. Precisava de fazer exercício e a piscina que tinha na quinta não era mais do que um tanque.

Um carro que se aproxima, um casal com duas crianças, barulhentas, gritantes e jogadoras de bola a esbarrar quase sempre no jornal que, ostensivamente, tinha aberto, bem de frente, para aquela família incomodativa.

Sem paciência para mais, arruma a trouxa, regressa a casa, toma um banho de piscina, e resolve ir almoçar uma sopa de peixe, junto ao rio.

Para enganar a sorte, desta vez, levou a moto...

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

DA VARANDA

... e arranjou uma daquelas cadeiras que quase se deitam, e deixou-se ficar.

Tinha levado consigo os jornais, um livro e o MP 4, com a esperança de passar uma manhã tranquila, com boa leitura, boa música, a deixar-se espreguiçar no dia que se adivinhava quente.

A piscina, logo ali em baixo, limpa de um azul transparente, com uma boa temperatura de água, uma sombra de medronheiro a garantir a protecção do sol, proporcionava-lhe um arrefecer de corpo sempre que o calor apertasse.

Os cães, aquietados pelo calor de Agosto, faziam-lhe companhia, eram-lhe fiéis e gostavam da sua presença.

As horas foram passando, lentas, porque não havia pressa para nada. Não tinha planos para o dia. Nem fazia tenção de sair. Já fora beber a bica, já comprara os jornais e a revista dos clássicos.

O calor não lhe dava fome. Sede sim! Mas tinha-se prevenido com uma garrafa de água do Luso.

Precisava daquele tempo. Precisava de pensar na vida. Precisava de tomar decisões ou, pelo menos, pensar o que decidir. 

De vez em quando um pássaro de voz roufenha saltava de ramo em ramo e, ao longe, escutava o bater ritmado de um pica-pau. 

Pouco mais. 

O silêncio emoldurava o ambiente. O cenário ideal para a procura de paz, de descanso e de tranquilidade.

Uma forma de carregar baterias e as suas estavam mesmo por baixo...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A SARDINHADA

Ela disse que ia telefonar, que tratava de tudo, que ficassem descansados.

Todos os anos, por esta altura, o grupo costumava reunir. Amigos de longa data, tinham este encontro todos os anos. No mesmo restaurante, a mesma mesa, quase os mesmos lugares.

A sardinha assada era o motivo. Todos gostavam de sardinha. Todos menos ela. Todos gozavam com isso mas ela não se importava. Ficava-se pelas lulas grelhadas, bem cortadinhas, em anéis, com aquele molho de manteiga e alho a cheirar a delícia. Os outros lambuzavam os dedos nas sardinhas assadas e ela, de faca e garfo lá se ia deliciando. E os outros a meterem-se com ela, por não gostar daquelas deliciosas sardinhas, bem assadas com a pele a saltar, regadas com um fio de azeite, acompanhadas de pimentos verdes assados e daquelas batatas com azeite e alho... Havias de gostar, diziam. Também nunca provaste!

Chegaram a horas, a mesa não era a mesma, a do costume, arrumada a um canto, sem vistas, o empregado não era o habitual.

Que já não havia ameijoas de entrada, tinham acabado.

Sardinhas? Acabaram de servir as últimas, para a mesa ao lado (a deles, a do costume!).

O que havia? Só frango assado, com batatas fritas e uma salada montanheira... é tudo o que há.

Desilusão!

Sem solução e que venha o frango. 

Há ainda quatro sardinhas. Vou experimentar, disse ela. Estavam uma delícia!
E o frango estava bom?

terça-feira, 3 de agosto de 2010

PORTO SEGURO

O vento era de leste, um levante forte, de força 4 a 5, a carneirar a superfície de um mar azul carregado, com ondas cavas, que obrigavam a um "surfar" prolongado e perigoso. Às vezes, o barco atravessava-se naquele baile de vento e água e comprometia a navegação e o rumo determinado. As velas aproveitavam bem o vento quente e retesavam os cabos, sentindo-se uma tensão enorme em toda a estrutura.

Ao longe, um veleiro, numa bolina afirmada, quase deitado, afrontava o vento, as ondas e os carneiros deste mar forte e poderoso.

Não havia momentos para descanso, a atenção ao leme era constante, aos panos, sempre a corrigir, e o barco a ondular ao sabor dos movimentos das águas e do fragor do vento.

A tarde a fugir, as luzes de costa a adivinharem-se ao longe, o farol do cabo, na sua intermitência ritmada, dizia faltarem cerca de 15 milhas para chegar.

Mais uma hora e meia, por aí.

O aproximar difícil, o retirar do pano, o enrolar das velas, a noite escura e uivante, e as luzes da entrada a confundirem-se com as da marina, logo por trás. 

O motor em potência máxima a tentar equilibrar o barco num mar todo desequilibrado, desorientado, com ondas de mar e de ricochete a fazerem parecer estar-se numa casca de noz, qual caravela em pleno Cabo das Tormentas. Só faltava o Adamastor!

Depois a entrada e, quase por milagre, o vento abrandou, a água alisou, e o "rom rom" do motor a dizer, como um gato,  que se chegou a porto seguro!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

ZÉ MANEL

Partiste, como querias, sem despedidas, sem sofrimento, sem dares maçadas. 

Apenas um discreto  mal estar no peito, quase um ai, e foste.

Não querias incomodar, nem incomodar-te e  conseguiste.

Discreto neste teu fim de vida.

Emotivo e exagerado nas histórias e aventuras que gostavas de contar, principalmente as acontecidas em Moçambique, dos percursos em automóvel, das praias imensamente bonitas.

Foste sempre um homem prático, amigo do amigo.

A pêra branca, a exagerar o queixo, tornava-te inconfundível, a voz arrastada era só tua, os gestos traíam-te, eras único, Zé Manel.

Agora deixas a saudade, deixas as boas recordações da tua  vida e dos bons momentos que passámos juntos.

Até sempre!

MAR CHÃO

O mar estava liso, completamente horizontal, o vento parado e o silêncio preenchia a solidão em que ele se encontrava.

No meio de um mar imenso, só. Não perdido mas desencontrado da vida, com a alma cheia de pesares carregados, com o coração a bater lento, descompassado, e o pensamento calado.

Assim ficou, quieto, imóvel.

Ao fim da tarde, quando o sol a começou a esconder-se por de trás daquele mar chão, a brisa suave, vinda não se sabe donde, empurrou-o lentamente, traçou-lhe uma rota inesperada e o barco foi, tranquilamente, sem horas nem esperas, a navegar... por aí!

domingo, 1 de agosto de 2010

SÃO HORAS, QUERIDO

Horas de ires embora, de partires para fora da minha vida.

Horas de ternura que tivémos, de encontros que realizámos, de amor que amámos.

Mas agora é hora!

Hora do adeus, hora de despedida, hora de separação.

Eu quero ter, agora, a minha hora, as minhas horas, sem pressas de respostas, sem pressões ou interrogações.

Quero orar para que a hora seja boa, seja reflectida, seja amadurecida.

Mas também quero a hora para rir, para me divertir, para gozar e, quem sabe, amar!

Por isso, quero a minha hora.

Querido, são horas...