quarta-feira, 21 de abril de 2010

O MOLESKINE

Ando sempre com um.

Os meus primeiros eram do tamanho de uma folha A5. Eram práticos para fazer desenhos, croquis, diagramas (os célebres flow-chart), e para escrever ao correr da pena. Úteis nas reuniões, quase a funcionar como um livro de actas.

Têm um inconveniente: são um pouco grandes, não cabem no bolso do casaco ou das calças e, quando não levamos a nossa pasta de trabalho, temos de andar com ele na mão. E nem sempre é cómodo e prático andar de Moleskine todo o dia na mão. Dá para esquecer em cima da mesa do almoço, ou em cima da secretária, ou  noutro local qualquer.

Já perdi o rasto a dois e, por isso, desde há algum tempo adoptei o Moleskine mais pequeno, o de bolso. É menos prático por causa da área de escrita, mas tem a enorme vantagem de o poder meter no bolso e andar sempre com ele.

O Moleskine, é o meu diário, o meu caderno de apontamentos, o meu guardador de ideias, o meu caderno de desenhos e esboços. Anda sempre comigo.

É um bom companheiro e uma boa companhia.

Quantos Moleskines não foram os confidentes dos milhares de passageiros retidos, ultimamente, nos aeroportos?

Quantos não aguentaram a raiva e o desespero dos inconvenientes daqueles dias de espera? 

Quantos desenhos não foram feitos naquelas páginas brancas guardadas por uma capa grossa e aconchegadas por um elástico? Vá-se lá saber.

O Moleskine é um daqueles inventos úteis, que a electrónica e os IPADS nunca irão tornar obsoletos. Tal e qual como os livros!

 

terça-feira, 20 de abril de 2010

FINALMENTE

Há dias encurralado no espaço de um aeroporto de uma cidade de pouca importância, sem possibilidade de fuga, sem comboios, sem carros de aluguer, com os hotéis da zona sobrelotados, eis que, finalmente surge, no écran das partidas, o tão desejado anúncio da hora de saída. 
Mais uma fila quase interminável para o check in, pois não era possível fazê-lo de forma electrónica, e ei-lo, finalmente,  com o desejado e ansiado cartão de embarque na mão.
Agora, as três horas que ainda faltam para a partida já quase parecem minutos. O arrumar definitivo da bagagem de mão, a compra do último jornal, para um actualizar de notícias, e a ida, finalmente, para a porta de embarque.
Finalmente o anúncio da partida. Ordeiramente as pessoas a respeitarem as instruções e o avião a encher-se. E a partida definitiva!
Três horas e quarenta e cinco minutos depois a chegada, com bom tempo, sem nuvens ameaçadoras, sem cinzas, com um sol avermelhado de fim do dia.
Finalmente em casa. 
Sabe bem chegar a casa. Finalmente!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

ARCO ÍRIS

O Arco Íris que apareceu no fim da tarde de domingo em Lisboa quase abrangia a cidade toda.

Visto do Marquês de Pombal parecia ter início no Saldanha e ia cair no Tejo para o lado do Cais das Colunas.
Um arco enorme, bem desenhado, com as cores bem visíveis, espessas e constantes.


Tinha acabado de sair de uma Missa de Acção de Graças, com muitas crianças, algumas mesmo muito pequeninas que, no final da mesma, se reuniram à volta do celebrante - no estilo de um "deixai vir a mim as criancinhas ..." - sentadas pelo chão do altar, para escutarem uma passagem do Evangelho, contada de modo a que crianças entendessem, sobre um pacto que Jesus Cristo estabeleceu com Simão Pedro, à margem do lago de Tiberíades, sobre o Amor e  Dedicação.

E este arco, que assim me surgiu pela frente, fez-me lembrar o Arco da Aliança, aquele que apareceu logo após o dilúvio, no momento em que a Arca de Noé se quedou no Monte Ararat. Nessa altura, Deus fez um pacto com Noé e prometeu-lhe que nunca mais tornaria a inundar a Terra daquela maneira. Mais, disse que, sempre que chovesse, o Seu arco iria aparecer entre as nuvens para lembrar este pacto estabelecido entre Deus e os viventes da terra.

De facto a Terra nunca mais ficou inundada daquela maneira, mas a verdade é que tem havido muitas inundações por todo o lado, com muito sofrimento, muitas mortes, muito desespero. E, se não é a chuva, são os tremores de terra, são os vulcões a cuspirem lava pulverizada pelos céus da terra criando nuvens avassaladoras de negritude, de tapares de sol, de impedimentos de voos.

Uma forma de avisar o homem que o Deus-Natureza é quem comanda os destinos? Ou que os homens na afã da ganância, do dinheiro e do poder esqueceram a importância do Amor e de valores como a Amizade, a Verdade e a Dedicação às causas?
A Natureza vai deixando avisos. Estamos preparados para os entender?

domingo, 18 de abril de 2010

TANGO

Lembra a Argentina, Buenos Aires, Carlos Gardel, o bandoneón, Ástor Piazzolla, o Caminhito...


É uma música, uma dança a dois, que mistura a tristeza intrínseca com paixão, drama, sensualidade, agressividade e machismo. O machismo manifesta-se no tipo da dança, dura, sem meneios femininos, com o homem a comandar a mulher submissa.

A letra conta, quase invariavelmente, a história de um homem que sofre por amor, mas em que a culpa é sempre da mulher.

Enrique Santos Discépolo, poeta portenho dos anos 20, compositor e autor de letras de tango, dizia que "o tango é um pensamento triste que se pode dançar".


Não se sabe muito bem como apareceu, apenas que a sua origem se situa na zona do Rio de la Plata, sendo os pais o Uruguai e a Argentina, um verdadeiro "affaire" de vizinhança. E conta a lenda que a dança teria começado nas prisões onde era dançada entre os prisioneiros masculinos que, uma vez livres, teriam ido viver para os bairros mais pobres de Buenos Aires, onde continuava a ser dançada por dois homens, daí o facto de os rostos virados, sem se fitarem.

A música pensa-se que tenha uma influência cubana, da Habanera, uma música afro-latino-americana, levada dos salões da Europa para Cuba, por volta do século XVII. Depois de várias alterações dadas por músicos europeus retornou às Américas através dos emigrantes portugueses e espanhóis. O Tango, assim, não é mais do que um ritmo da habanera.
Bizet tornou esta habanera popular em erudita através da ópera Carmen.


O bandoneón, que é o instrumento por excelência do tango, veio nas malas dos emigrantes alemães. Ástor Piazzolla, que tive o privilégio de ouvir tocar no Coliseu dos Recreios de Lisboa, foi, para mim, o seu melhor intérprete.


De início, o Tango, apenas era uma dança rio-platense, mais tarde, pelos anos 20, com o aparecimento da discografia, começou a difundir-se, principalmente veiculado pelas vozes de Carlos Gardel, Azucena Maizani, entre outros. Os anos 40 marcam os anos de ouro do Tango, principalmente com as interpretações de Ástor Piazzolla e Juan D'Arienzo.

Hoje, toca-se, canta-se e dança-se em qualquer lugar do mundo é Universal. Por isso, em Setembro de 2009 foi considerado, pela Unesco, Património Cultural da Humanidade.

Hoje, ao folhear um álbum de fotografias, foram recordações de Buenos Aires, que me fizeram virar para o Tango.
Não amores perdidos, nem machismo, nem submissão feminina.
Talvez uma leve tristeza, uma saudade nostálgica dos dias bons aí passados, do bom café do Ortoni, do Puerto Madero e da excelente carne e, seguramente, das longas e boas noites de Tango vivido... 

 

sábado, 17 de abril de 2010

AS LARANJAS DO ESPANHOL

Depois de uma suave aterragem na pista das Lajes, na Ilha Terceira, Açores, um pouco como compensação feita pelo comandante do avião da SATA à sacudida viagem desde Ponta Delgada, meti-me num táxi e segui rumo a Angra do Heroísmo, a capital, do outro lado da Ilha. Ia-me encontrar com um grupo de amigos, um dos quais um simpático espanhol, residente em Portugal há muitos anos, possuidor de grandes laranjais na zona de Benavente, a norte de Lisboa.
O táxi era um Mercedes, já antigo, e o seu motorista e dono ficou ao serviço do grupo durante os três dias que passámos na Ilha. Figura simpática, de pronúncia carregada e fechada, típica do falar terceirense, o senhor Hermínio, assim se chamava o homem, cedo se revelou um infindável conversador e contador de histórias. À medida que a conversa se desenrolava, fui adaptando o meu ouvir àquele dialecto difícil de perceber e entender às primeiras vezes.
O senhor Hermínio era um grande defensor da sua Ilha! Para ele era a ilha mais bonita das nove ilhas dos Açores, as paisagens as de maior encanto, o mar o mais azul e o mais rico em peixe, o Algar do Carvão o mais espectacular, e patatí e patapá... e, assim foi, até chegar ao hotel, no centro da cidade.
No outro dia foi a visita à ilha e o "nosso" Hermínio a debitar "... e a cidade da Praia da Vitória, e a bravura dos ilhéus, e a corrida de touros à corda, única em Portugal, e os Impérios do Divino Espírito Santo, os mais bonitos, e as pastagens com as vacas que produzem o melhor leite do mundo, e o queijo flamengo, melhor que o original, e a alcatra comida ao almoço, nos Biscoitos, sem comparação com qualquer outra, e o vinho das curraletas, muito superior aos vinhos do continente... ".
No terceiro dia, a partida para outra Ilha e o fiel e dedicado Hermínio lá nos foi levar ao aeroporto. O trajecto de regresso foi mais o desfiar de uma ladainha de louvores à Ilha e aos terceirenses, sempre melhores que os naturais de São Miguel (japoneses e coriscos) ou os do continente.
 
Já dentro do aeroporto, com o "check in" feito e as malas despachadas para a Ilha do Faial, o meu amigo espanhol resolveu pôr o nosso Hermínio à prova. Do bolso do casaco tira a carteira, dentro desta retira uma fotografia que mostrava um dos seus laranjais, com as árvores carregadas de laranjas muito grandes, de aspecto suculento e mostra-a ao Hermínio ao mesmo tempo que lhe perguntava: "E vocês têm cá laranjais e laranjas assim como estas?"

Durante 30 longos segundos a verborreia do Hermínio transformou-se num sepulcral silêncio acompanhado de um ar de espanto e surpresa mas, sem demoras de maior, com um sorriso de vitória a aflorar-lhe a face, um brilho estimulante no olhar e o teclado dos dentes a mostrar-se no seu esplendor, num rasgo de génio intelectual e de bairrismo, sai-se com esta frase lapidar: "As nossas são mais doces..."

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A NUVEM

Nem sempre traz chuva. Mas, de certeza que faz uma coisa: tapa o sol!

Faz-me lembrar aquela história de alguém que dizia ao Sol que ele era todo poderoso, ao que o Sol replicava que qualquer nuvem o tapava, e a nuvem, por sua vez, dizia que o vento a desfazia, e o vento também concordava pois qualquer obstáculo o desviava, e assim por diante numa clara tentativa para dizer que ninguém é mais importante que o outro. E que o mundo, o viver, é feito das importâncias de todos e, também, das fraquezas de cada um.

Mas hoje a nuvem que faz notícia é a do vulcão da Islândia, que impede os aviões de voar, que não deixa as pessoas saírem de casa, que não deixa os carros andarem por aí. As cinzas vulcânicas entopem tudo, os motores, os filtros de ar, os narizes e os brônquios, e depois depositam-se serenamente deixando um manto pesado e cinzento como se fosse uma fotografia, em negativo, de uma paisagem de neve.
Aí está a natureza a substituir-se ao homem: como um forte agente de poluição, superior à que é produzida por quase toda a indústria a nível mundial; como um sindicato laboral que pára quase tudo - transportes, aeroportos, as mais diversas actividades - mais do que uma greve geral era capaz de o fazer; como uma epidemia capaz de complicar a saúde respiratória de muitos milhares de pessoas, principalmente os mais fragilizados...

E contra isto nada podemos fazer, não há políticas, não há dinheiros, não há poderes, nem há peneiras que tapem tão bem o sol, como esta nuvem!

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quinta-feira, 15 de abril de 2010

VOAR E PLANAR

Voar faz pensar em liberdade, em percorrer distâncias sem obstáculos, em rapidez.
Habitualmente é assim que vemos os pássaros: apressados, com bateres de asas frenéticos, em voos irrequietos, de uma árvore para outra ou para um beiral de telhado; ou o mergulhão, do alto do seu voar a picar, em velocidade estonteante, sobre o peixe que se esconde dentro de água, mergulhando certeiro sobre o alvo...
Também os aviões a jacto, se avistam como um ponto brilhante rapidamente se deslocando no céu claro, deixando um trajecto de riscas brancas, como um fumo que se vai diluído no azul do infinito.
Voar é uma palavra curta e rápida que sugere velocidade -"vou num vôo",  num instante -, mas voar pode não ser só pressa, voar pode querer dizer, também, ter tempo, olhar com cuidado e atenção, admirar longamente no tempo. E, para voar com tempo, é necessário encontrar a palavra mais adequada, que sugira, precisamente, esse vagar... daí o planar.
As rapaces, como as águias, os milhafres, o açor, planam na procura do alimento vivo que se esconde no restolho da planície, assim com plana o condor nas suas horas de tranquilidade, quase sem um bater de asas, nas arribas alcantiladas dos Andes, ora subindo, ora descendo, num aproveitar sereno das correntes de ar junto às montanhas.

Tanto do alto de Monsaraz, como de Marvão, tanto do Pão da Açúcar, como do alto da Pedra da Gávea, em São Conrado, é possível ver as aves de cima, ver o seu dorso e o seu planar tranquilo: sejam águias, gaivotas, milhafres ou corvos, é um encanto observá-las no deleite do seu passeio aéreo.
Quanto eu não gostaria de possuir asas que me deixassem ir assim? Não como as do Ícaro, mal concebidas, não pela ambição de voar alto, apenas pela sensação boa que é de vaguear por ali, horas quase esquecidas, a contemplar a floresta, os cumes, as casas a pontearem no verde das planícies, os caminhos que unem vidas.


Claro que, para se sentir, é preciso experimentar pormos-nos na pele ou nas penas do pássaro e afrontar o abismo que, aparentemente, está à nossa frente. Quem diria que me ia dar a mania de voar assim!



Nada como tentar... Barra da Tijuca e São Conrado, Pedra da Gávea,  Praia do Pepino, favela da Rocinha, o partir e o voar em liberdade, desafiando  a gravidade, e depois planar olhando a terra, de cima, como pássaro errante, sem ruídos, apenas uma suave brisa tropical acariciando o rosto enquanto se flutua cercado por cenários fantásticos: floresta tropical, picos rochosos como a Pedra Bonita, a Pedra da Gávea e os Dois Irmãos a emoldurar o Oceano. Depois o suave pousar nas areias quentes e convidativas da Praia do Pepino.

Voar é bom, leva-nos aos destinos que escolhemos, transporta-nos para longe, com rapidez.

Planar é diferente, é viciante, é tranquilo. Planar  é apaixonante, sempre!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

BEIJO

Não sei se será o beijo mais conhecido e divulgado mas é um dos que eu mais gosto: gosto pelo quadro em si, gosto das cores, gosto da expressão e da força intensa que emana daquele beijo.
Na minha última deslocação a Viena, na comemoração dos 250 anos do Mozart, fui vê-lo, mais uma vez, no Belvedere Superior, este quadro de Gustav Klimt, em que ele se auto-retrata a beijar a sua amante (e amada) Émilie.

É a minha homenagem ao Dia Mundial do Beijo que passou ontem, dia 13.

Passou-me ao lado, também, porque só hoje me apercebi de tal celebração.

Mas acho que as pessoas, de um modo geral, não ligaram muito: não vi ninguém nas ruas aos beijos, nem vi os bancos de jardim com pares de namorados dando beijos, nem nos transportes públicos me apercebi dos casais a se beijarem aproveitando a hora de ponta e das enchentes para ficarem mais juntos e apertados.

Estou de acordo que o beijo tenha direito a um Dia Mundial. Porque beijar não é o mesmo que comer sopa, ou lavar os dentes, embora haja muita gente que beije apenas como uma rotina.

O beijo é qualquer coisa de importante. O fado "O Embuçado" termina com um "beija-mão real", significando que o beijar é quase uma coisa de Reis, mas não é bem assim.
O beijo é Universal, tanto interessa rico como pobre, novo como velho, e beijo não é coisa de agora.
O beijo é antigo, quase tão antigo como o homem. Há quem defenda que o beijo não é mais do que uma evolução das lambidas que o homem das cavernas dava no rosto dos outros companheiros , como forma de absorver e suprir a sua necessidade de sal. 
Na antiga Mesopotâmia, as pessoas costumavam enviar beijos aos deuses, uma forma muito mais agradável de orar do que ficar ajoelhado de mãos postas a murmurar ladainhas infindas.
Os Gregos também não se perderam com os beijos: eles adoravam beijar e beijavam-se para selar acordos, e demonstrar respeito social.
Mas foram os Romanos que difundiram a prática do beijo: começaram por beijar os guerreiros no retorno dos combates. Os imperadores permitiam vários tipos de beijo: o beijo nos lábios para os nobres mais influentes, o beijo na mão para os menos influentes e ao povo só era permitido o beija-pé. Até tinham três categorias para o beijo:
    Osculum: era um beijo na bochecha;
    Basium: era um beijo nos lábios;
    Savolium: era um beijo profundo.

Imagino que este Savolium deveria ser um beijo cheio de imensos Savores. Também aquela história do noivo beijar a noiva no fim da cerimónia do casamento vem do tempo dos Romanos.
Na Escócia a coisa ainda era mais interessante porque a noiva, além de ser beijada pelo padre no fim da cerimónia (não era um Osculum, era um Basium mesmo), ia beijar os todos os homens na boca, tipo mistura de Basium e Savolium, em troca de dinheiro.
Até os católicos adoptaram o beijo como cumprimento entre eles, mais púdico, como conviria, e era chamado o Osculum pacis.
Em França, no século XVII, os franceses começaram a praticar uma forma voluptuosa de beijo, o beijo de língua, tão afamado que ficou conhecido pelo nome de Beijo Francês.

Claro que nem sempre o beijo é meio de cumprimento, de saudação, de troca de afectos, de felicidade. Há beijos perigosos ou mortais como o do Romeu e Julieta. Outros beijos são de traição, como o célebre Beijo de Judas usado para trair Jesus Cristo antes de ser crucificado.

Mas também o beijo pode ser fonte de doenças, a mais frequente é a Mononucleose infecciosa, mais conhecida como a Doença do Beijo.

Não há dúvida que o beijo e o beijar fazem parte do nosso dia a dia, da nossa rotina, dos nossos afectos, dos nossos sentimentos, dos nossos amores, dos nossos prazeres, das nossas paixões, dos nossos encontros, das nossas despedidas... é um acto totalmente transversal nas nossas vidas.

Beijar é bom quando nos sabe bem beijar, por isso só tem uma coisa a fazer: beije muito!




terça-feira, 13 de abril de 2010

O DARRACQ E A CURVA DO COSTA LIMA

Tive um tio-bisavô que viveu em Trancoso, terra de onde era também natural. Conhecido por Costa Lima, Francisco de primeiro nome.
 
Começou a vida como serralheiro, foi para África onde trabalhou muito, fez fortuna, e regressou às suas origens.
 
Homem de bens e de posses, cedo se tornou um benemérito daquela vila arranjando dinheiro para reconstruir duas Igrejas, fazer o Hospital e foi o principal responsável pela electrificação de Trancoso.
 
Daí a ser o Comendador Costa Lima foi um instante.
 
Devia ser um bom coração. Mas com mau feitio, dizem! Ia aos arames com facilidade, por tudo e por nada se zangava e, se fosse preciso, puxava da sua pistola pronto a dar um ou dois tiros para o ar, só para assustar.
 
Estamos no início do século XX, altura em que os veículos a motor começam a surgir por todo o lado, como cogumelos. Os construtores eram às dezenas, principalmente franceses, ingleses e alemães, quase todos apresentando um chassis e um motor, sendo depois escolhida a carroçaria, habitualmente em madeira, e feita ao gosto ou às necessidades do comprador.
 
Trancoso não possuía nenhuma destas quase carroças, sem animal a puxar.
 
Como este meu tio tinha muitos negócios em Lisboa e tinha de se deslocar com alguma frequência à capital achou, por bem, que deveria comprar um carro que lhe desse a autonomia suficiente para as suas idas e vindas, sem depender da mala-posta, das mudas de cavalos e das estalagens ou hospedarias de estrada, para além do perigo dos assaltos naqueles trajectos através dos pinhais da Beira Alta e da zona de Leiria.
 
Homem de decisões rápidas, mas acertadas, se assim o pensou, melhor o fez e tratou de encomendar uma dessas viaturas sem cavalos.
 
 Depois de muitos assédios por parte dos representantes das diversas marcas, decidiu-se pelo DARRACQ, modelo de 1903/1904, de caixa aberta e 4/6 lugares, conforme fossem mais à larga ou mais apertados, nos dois bancos corridos que os catálogos, profusamente ilustrados, mostravam.

 
(DARRACQ DE 1903 - FOTO DA NET)
Feita encomenda era preciso esperar uns meses até o carro ser fabricado e despachado, por via marítima, desde Suresnes, nos arredores de Paris.
 
Finalmente o anúncio da chegada do vapor a Lisboa e a ida do Costa Lima e de mais dois amigos, um deles o Juiz da Comarca, para irem buscar o veículo e fazerem o trajecto de Lisboa a Trancoso e a promessa de uma entrada triunfal na vila, com  banda e fogo de artifício.
 
A viagem foi acidentada pois, perto de Tábua, bem depois de Coimbra, o veículo caiu por uma ribanceira, felizmente sem qualquer ferimento importante para os ocupantes, e teve de voltar a Coimbra para ser reparado. Um atraso de mais umas quantas semanas! Até que, finalmente, o carro entra em Trancoso. Não a rugir, ou a "relinchar" a força dos cavalos/vapor, mas placidamente puxado por uma parelha de muares, uma vez que o motor tinha feito uma birra e resolveu não trabalhar, "malgré" as inúmeras tentativas para o pôr a funcionar.
 
Não foi uma recepção em glória, mas foi gloriosa, pois a banda e o fogo de artifício fizeram esquecer, um pouco, aquele percalço mecânico.
 
E por lá andou com o seu carro, com aqueles barulhos de motor, a tossir e a rugir, e mais o da buzina de trompete accionada manualmente a fazer um barulho de corneta de cana rachada, afugentando tudo o que fosse vivo da sua frente.
 
Parece não haver dúvida que o motor, tal como o dono, também tinha mau feitio: era muito temperamental! De vez em quando resolvia parar e não havia manivela, empurrão ou desembraiar da caixa de velocidades que o fizessem pôr, de novo, em rotação.
 
Um dia, não sei em que altura do ano, na ocasião de mais um regresso a Trancoso, ao fazer uma das curvas apertadas e a subir que dão acesso à vila, mesmo no meio duma delas, o motor resolve parar. De novo as manobras costumeiras: a manivela a girar, empurrão do povo que, entretanto se juntou, mas nada. Silêncio de morte!
 
Foi um duelo de temperamentos, de teimosias, de um lado o motor que se quedou e se recusou a trabalhar, ficando no seu silêncio desafiador, do outro o meu tio Costa Lima a irritar-se, a perder as estribeiras, até que chegou ao ponto de sacar da pistola e descarregar a sua ira e frustração naquele motor tecnicamente morto. Um, dois, três, quatro tiros e nada. A única centelha de vida era a do ricochete das balas que faiscavam ao bater no ferro do bloco do motor. Ainda tinha duas balas no tambor do revólver.
 
Guardava sempre a última para uma ocasião mais desesperada, por isso, apenas lhe restava mais um tiro, de raiva, de ira, de destempero. Pum! E, subitamente... o rom-rom do motor a fazer-se anunciar, sem tossidelas, sem rugires, sem altercações... como um gato manso, obediente, a ronronar, e o carro subiu o resto da rampa  de curvas e contra curvas que dão acesso a Trancoso, sem hesitações, como se fosse empurrado por uma força invisível. Parece que a bala acertou na "mouche" e terá feito deslocar alguma peça que estava fora do lugar, não sei. O que sei é que o caso foi muito comentado, muito falado até bastante fora dos limites do Concelho, quase virando uma lenda...
 
E a verdade é que, ainda hoje, passados mais de cem anos, aquela curva (que vai desaparecer dentro em breve, por construção de uma nova estrada), aquela curva, dizia, ainda é conhecida pelo nome da "CURVA DO COSTA LIMA".
 
 
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segunda-feira, 12 de abril de 2010

SAPO

O SAPO é um animal, um anfíbio, daqueles sem cauda. 

Existem muitas espécies e a maioria vive perto de água. 

É parecido com a rã, mas tem uma pele mais rugosa e mais seca, para além de não ter, tão desenvolvidas, as membranas interdigitais. 

Põem os ovos na água dos quais saem os girinos que mais se parecem com peixes - têm cauda e não têm pernas. À medida que se desenvolvem, a cauda vai atrofiando e os membros aparecendo (ainda lembram as metamorfoses da rã e do sapo?). 

Alimentam-se dos mais variados insectos e capturam as presas lançando a língua mucosa, longa e pegajosa.

Mas SAPO não é só o animal, o Bufo bufo, a sua designação científica.

SAPO pode ser um espectador, que não toma parte num jogo.

SAPO pode ser bem o contrário: uma pessoa intrometida, que se mete na vida dos outros.

SAPO é, também, no Brasil, o fiscal de transportes públicos que anda disfarçado, no meio dos passageiros.



Há, também, os SAPOS DE PELUCHE que fazem parte das recordações de qualquer um de nós. E eu guardo sempre as boas recordações!



(DO AUTOR - O MEU SAPO DE PELUCHE)





A palavra SAPO está associada a uma série de histórias, fábulas, expressões, magias, bruxedos, a um mundo de coisas e até, ao mundo automóvel.

Corre agora a versão moderna de "A PRINCESA E O SAPO",  a história de Tiana e do Príncipe SAPO Naveen que desespera em voltar a ser humano até surgir o tal beijo fatídico dado por Tiana; nesta história, em vez de casarem, terem muitos filhos e serem felizes para sempre, ela sempre realiza o seu sonho de abrir um restaurante na Louisiana.

Também tem a da fábula do "SAPO E O BOI", em que aquele, ao ver passar um boi imponente, fica cheio de inveja e começa a estufar..., a estufar..., a estufar..., a estufar... até que estoira, e cuja moral é: nada de inveja, seja sempre você mesmo.

Ainda ligado aos livros, aos contos e às histórias quem esquece o SAPO-CURURU do Zézé do "Meu pé de laranja Lima" e "Vamos aquecer o Sol" (do José Mauro de Vasconcelos)? E a cantilena como acaba o livro:
"Sapo-cururu
Na beira do rio.
Quando o sapo canta, maninha
Diz que está frio...
Diz que está frio...
Diz que está frio...
Diz que está frio..."

Depois há as múltiplas expressões:

   "ENGOLIR SAPOS" - que significa passar por uma situação desagradável ou constrangedora, fazer uma coisa contrariado. Em política engolem-se muitos sapos.
   "PAGAR SAPO" - quase o mesmo que o engolir sapos.
   "SAPO DE FORA" -  aquele que entrou num lugar ou festa sem ser convidado. O borlista.
   "MÃOS DE SAPO" - as mãos gordas, rechonchudas, como as das crianças pequeninas. Também se chamam mãos sapudas.

E as bruxas, magias e superstições?

Há sempre um SAPO por lá, com verrugas, pele com peçonha e visco, unguentos feitos de gordura de sapo... 

Ainda me lembro da Madame Min a preparar um encantamento para atrair um dos Metralhas: colocava no caldeirão unhas de gato preto e vesgo, asas de morcego, pele e baba de sapo... um horror!

Não acabava este texto pois são tantas referências ao SAPO.

Fico-me por aqui!

Vou acabar, fazendo a referência final à ligação do SAPO com a indústria automóvel: o Citroën DS, um carro mítico, a Deusa das viaturas (DS é a onomatopeia de Déesse = Deusa em francês). Aqui é Portugal era conhecido por BOCA DE SAPO.

Não é um amor de SAPO? Eu tenho um!

(DO AUTOR - O CITROËN DS - O BOCA DE SAPO)

domingo, 11 de abril de 2010

O LENÇOL

Há dois: o de cima e o de baixo.
Antigamente acho que só havia em branco, de popelina, de flanela, de linho, de seda... de pobre ou de rico, mas brancos! Depois vieram os de cores lisas, em tons suaves, sem grandes exageros. Hoje, nem sei! Tem de reproduções de pinturas abstractas, de mesclas de cores vivas, com o pato Donald e a Margarida, cores fortes, garridas, com barras fazendo contraste... Sei lá!

Para que o lençol de baixo fique sempre esticado, inventaram de colocar nos cantos uns elásticos que os mantêm firmes e sem rugas. Os de cima podem ser duplos e colocar no meio um edredão.

Os lençóis ajudam-nos no sono, aconchegam-nos, protegem-nos das picadas dos insectos nocturnos, daquelas melgas que fazem zum-zum ou bzz-bzz, e nós prudentemente puxamos a volta que o lençol de cima faz, e colocamos por cima da cabeça.

O Ney Matogrosso tem uma canção que se chama "Por debaixo dos pano" e diz ele:

O que a gente faz
É por debaixo dos pano
Prá ninguém saber...

É debaixo dos pano
Que a gente não tem medo
Pode guardar segredo...

É debaixo dos pano
Que eu me afogo
Que eu me dano
sem perder o bem...

É debaixo dos pano
Que a gente fala de fulano
E diz o que convém...

Nessa letra de música ele bem que resume muitas das funções do lençol: coisas de dormir, coisas de sexo, coisas de amor, coisas de temor, coisas de mágoa, coisas de confidência, coisas de inconfidências e coscuvilhice, coisas de tudo.

Por isso os lençóis são importantes. Neles, dizem, passamos um terço das nossas vidas, aqueles que têm lençol, claro!

Depois há, ainda, outros lençóis, mas esses ficam longe, lá para os lados do Maranhão, em São Luís, no Brasil. São brancos, extensos, têm dunas e água pelo meio. Não são bons de dormir, mas são bons para muitas outras coisas. Querem saber?

sábado, 10 de abril de 2010

CHOCOLATE NEGRO


Dizem que está cheio de antioxidantes; que a massa de cacau, formada pelas sementes, é um verdadeiro concentrado deles. São chamados flavonóides e têm uma acção muito importante na circulação sanguínea: activam a produção de um ácido, o ácido nítrico o qual, por sua vez, leva ao relaxamento dos vasos sanguíneos e, consequentemente, a uma diminuição da pressão arterial. Também reduz a oxidação das LDL (o mau colesterol que se vai depositar nas paredes das artérias).


Claro que, para ter estes efeitos benéficos, o chocolate negro deve ter uma percentagem elevada de cacau, nunca menos de 70%, caso contrário vamos comer mais açúcares e massa de chocolate do que os tais antioxidantes.

Também se sabe que o chocolate cria uma certa dependência psíquica e que há pessoas que são mais sensíveis, que outras, aos compostos presentes no chocolate. A substância que provoca estes efeitos - a Anandamina - é muito semelhante ao Cannabis e é mesmo, dela, um derivado. Exerce a mesma acção no cérebro que a Marijuana que dizem ter uma acção positiva para mitigar os amores desenganados (será por isso que anda por aí tanta gente a devorar chocolate negro?).

Mas tem mais coisas: a feniletilamina, a cafeína, a teobromina, substâncias causadoras de melhoria de humor e responsáveis pela sensação de felicidade. A feniletilamina é produzida, em grandes quantidades, pelo cérebro dos apaixonados.

Por isso, o meu conselho de se comer chocolate negro.

Melhor ainda se for saboreado com morangos.

É que estes estão também cheios de boas propriedades antioxidantes, em particular as do ácido elágico que tem um muito importante efeito fotoprotector sobre a pele  prevenindo o seu envelhecimento e o aparecimento das rugas. Além disso são essenciais para se manter a linha e a juventude.

Morangos com chocolate... sugerem coisas boas, hummmmm!

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sexta-feira, 9 de abril de 2010

A CADEIRA DO DENTISTA

É sempre um stress ir ao dentista.
Primeiro pelo motivo que nos leva lá: habitualmente a dor de dentes incómoda, a gengiva vermelha e inchada, aquela sensação desagradável do metal quando toca no dente, ou a prótese que se descolou, ou o dente que se partiu...
Depois a espera: angustiante pelo tempo que demora, pelos queixumes ouvidos, pelos berros estridentes das crianças ou pelas caras sofridas que se vêem quando saem, habitualmente com uma das mãos a segurar a queixada.

Em seguida a entrada no gabinete: o médico ou médica de máscara na cara, com a broca na mão, a fazer lembrar os filmes de cowboys com o bandido de lenço a tapar o rosto e de colt 45 na mão, pronto a disparar, e nós de mãos no ar!
Segue-se o sentar na cadeira: um sentar quase empurrado e imediatamente reclinado para impedir qualquer movimento mais brusco, desde o soco ou o pontapé no dentista, quando ele, com a broca maldita de alta rotação, toca naquela raiz hipersensível, que nos faz doer no alto da cabeça, parecendo que a dor nos quer furar o crânio.
Depois é o enquanto: ou seja, aquele tempo infinito que ali estamos com a luz dirigida nos nossos olhos, quais bandidos a ser interrogados pelo FBI ou CIA, e a ouvirmos palavras estranhas e arrepiantes -  "prepara a broca n.º 3", "faz a amálgama para a obturação" (quando mais que amolgados estamos nós, naquela posição de inferioridade) - a agarrar crispada e intensamente os braços da cadeira com a boca escancarada num sofrimento de condenado à morte na cadeira eléctrica.
A parte melhor é quando nos concedem aqueles vinte segundos de intervalo para bochechar e lavar a boca com a água meio amornada daquele copinho minúsculo que nos dão para a mão. São vinte segundos, nem mais um, já contabilizei! Naquela curta fracção de tempo dá para recuperar e ganhar coragem para a fase seguinte.
A parte pior quando tem de arrancar o molar, velho, empedernido de anos naquele local, e o dentista com alicates, martelos e escopro, pronto, a cada martelada vigorosa, a fazer os olhos saltar das órbitas, o cérebro empancar contra os ossos do crânio, os sentidos a degradarem-se... e o desmaio quase a surgir.
Mas, como para tudo, há sempre um final: bom quando acaba bem e por ali, pior quando chega ao orçamento para o implante, para a prótese, ou para o aparelho de correcção, mas que sempre pode pagar em prestações suaves.

Eu vou muito ao consultório dos dentistas, quase todas as semanas. É muito agradável, conversamos, bebemos café, falamos de futebol e da política e, quando chega a hora de trabalhar, a hora da verdade,  cada um vai para seu gabinete: eles vão tratar dos seus doentes e eu vou tratar dos meus.

Agora que estamos no tempo de primavera, os meus doentes entram quase todos de boca aberta, mas não é por engano de gabinete ou porque estão mal dos dentes, é porque têm o nariz entupido e não têm outro remédio senão respirar pela boca.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

VARIÁVEL

O tempo anda meio louco, ora chove e faz frio, ora aparece um sol mentiroso que promete calor e luz mas, passado pouco tempo, se deixa esconder por nuvens escuras e friorentas.
A agulha do meu barómetro anda num vai e volta alucinante entre o Chuva-Vento e o VARIÁVEL. E não passa dali.

Nunca mais chega ao Bom Tempo!

Aliás, penso que este barómetro, que já é bastante antigo, está bem de acordo com os tempos de agora: é que dá toda a ênfase ao tempo VARIÁVEL, escreve-o em maiúsculas e o Bom Tempo, ali ao seu lado, parece meio esquecido.


Adaptou-se bem ao estilo de vida deste país, uma espécie de cata-vento que ora vira para um lado, ora gira para o outro, sem rumo definido, sem planos a médio ou longo prazo, sem programas educativos sérios e consistentes, com a saúde quase moribunda, sem médicos e poucos enfermeiros, e uma economia com os fundilhos todos rotos.

Eu acho que seria muito mais correcto substituir a palavra VARIÁVEL por outra parecida e que seria ainda melhor adaptada à situação, quer do tempo-clima, quer deste país:

- AVARIADO -

E, já agora, porque não pôr, por baixo, o seguinte letreiro:

- FECHADO PARA REPARAÇÃO E SEM TEMPO PREVISÍVEL PARA A REABERTURA -.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O 500

É pequenino, tem duas portas e quatro lugares, o motor é de dois cilindros e está situado atrás.
Está pintado de azul e, por dentro, os painéis das portas e os estofos são vermelhos com um debrum de creme.
É uma graça de carrinho, o 500. Desperta sorrisos, provoca olhares complacentes e curiosos, faz apontar dedos na sua direcção e voltares de pescoço, quer de peões como de motoristas.
Percorre a cidade com todo o à vontade e quase não há o perigo de ultrapassar os limites de velocidade, pois não passa dos 100 Km/hora.
Não tem uma série de coisas que os carros actuais têm: não tem fecho centralizado das portas, nem tem vidros eléctricos, não tem direcção assistida, não tem computador de bordo, nem GPS, não tem airbags, nem travões de disco, nem, sequer, indicador do nível de combustível: apenas acende uma luzinha vermelha no tablier quando entra na reserva de combustível. Também, os cintos de segurança não são de enrolar.
Agora, que o tempo começa a sorrir, nesta primavera ainda envergonhada, é altura de o trazer para a rua, fazer os curtos trajectos do dia a dia, abrir o tecto para deixar entrar mais um pouco deste sol hesitante, desfrutando, ao máximo, este carrinho, quase de brincar.
Mas este ar jovial e irreverente, e esta juventude que o carro demonstra, não dizem da sua idade: 41 anos, sem uma ruga, um cabelo branco, uma dor na coluna, nada... E tem outra vantagem: como não tem nada de equipamentos electrónicos, pega logo à primeira, mesmo que esteja parado bastante tempo.
Já o tenho há, talvez, uns doze anos. Desde há muito que sonhava ter um 500, desta cor e com os acabamentos que este possui. Não por qualquer fetiche ou mania, mas apenas porque foi num carro, como este, que aprendi a conduzir, tinha os meus 12 ou 13 anos. Era no tempo em que as estradas tinham poucos carros, as velocidades não eram estonteantes e os acidentes ainda não faziam estatística em lado nenhum. 
Apesar de guardar as melhores recordações desses tempos, não quero ser saudosista e, por isso, não vou falar das férias de verão em que, com os meus primos Fernando e José, percorríamos as festas de aldeia à volta de Mangualde, íamos até à Canameira, perto da Muxagata e Meda, à caça das perdizes, por aqueles montes e vales perdidos na transição da Beira Alta interior com o Douro ou, simplesmente, programávamos passeios agradáveis, sempre com a companhia do 500.
É por isso que, cada vez que entro dentro do carrinho, entro dentro de um mundo de recordares que me fazem manter as lembranças vivas... Acho que o 500 é muito melhor do que aqueles comprimidos ou gotas que se tomam para reavivar a memória.
 

terça-feira, 6 de abril de 2010

SEM TÍTULO

Não tem título, mas cada um pode dar-lhe o que mais gostar:
"Mulheres olhando o mar",
"Fim de tarde",
"Esperando",
"Contemplações",
"Saudades"...

Eu próprio ainda não o baptizei!


Dos quadros que tenho no meu consultório, este é o que mais gosto: Pelas cores quentes do verão e do azul forte do mar a fazer o contraste entre a terra e o oceano? Pelo tema em si, as mulheres (mãe e filha?) olhando o infinito, esperando alguém? Pela força serena e contemplativa que evoca? Pela intimidade cúmplice que desperta?
Não sei mesmo. Só sei que gosto muito dele.


Comprei-o há alguns anos, na Praça de Espanha em Madrid, a um daqueles pintores de rua, um homem simpático, ainda jovem, entroncado, de voz rouca de muito tabaco fumado. Nessa altura ainda não se falava da crise.

Fiquei impressionado por este quadro e por um outro, que retratava  uma tourada à espanhola. Neste, o vermelho era a cor mais forte, a dominante, e que sobressaía do capote, do sangue provocado pelos picadores, e que escorria pelo lombo do negro touro, e do vindo das bandarilhas espetadas, para além do "trace de luces", que era cor de rubi. Tratava-se de uma cena de toureio a pé, em que o matador ensaiava um natural que quase obrigava o touro a ajoelhar-se diante dele. Um quadro cheio de força, de movimento, rico em pormenores e de evocações marcantes das touradas em Espanha.

Comprei os dois. O do mar tenho-o aqui, diante de mim, e contemplo-o quase todos os dias. Do outro, guardo a recordação de o ver pendurado numa parede branca. Ofereci-o a uma pessoa que é amante de touros e que ficou impressionada pela força que aquela cena lhe transmitia. Penso que ainda está na mesma parede.


Voltei recentemente a Madrid e, claro, fui à procura do "meu" pintor, no mesmo canto da Praça de Espanha; as telas encostadas na parede e na coluna que sustenta o ângulo das arcadas, o cheiro forte a Ducados e a voz rouca castelhana afirmaram-me a sua presença. Falei-lhe dos quadros comprados anos atrás, e ele mostrou-me outros, muitos, mas nenhum me agradou. Largou os touros, fugiu ao mar e dedica-se, agora, a naturezas mortas, aquelas dos frutos, das framboesas e morangos numa taça, do naco de presunto e do queijo em cima de uma tábua de madeira, do jarro de vinho e do pão aberto, das peças de caça, a perdiz e o faisão, dispostas em cima da mesa...

É que, com a crise, contemplações do mar distante, sonhos, saudades e esperas não levam a nada, não se vendem! Também o preço dos bilhetes para as touradas está pela hora da morte, e sempre se vão vendo na televisão, além de que há muita gente, agora, que é contra a "fiesta" ou pertence à liga protectora dos animais.
E, com as peças de fruta apetitosa, com o presunto e o vinho, com o pão e o queijo, ali pintados, sempre se vai comendo com os olhos e se saciam os prazeres da vida e ele, deste modo, lá vai vendendo mais alguns quadros. 

E olé!




 

segunda-feira, 5 de abril de 2010

MORCEGOS BELTRAMES

Devo ter uma colónia de morcegos aqui por perto. Mal o lusco-fusco começa a anunciar-se ei-los que surgem, esparsos de início, depois em bandos, prontos a iniciar o festim da ceia nocturna. O tempo aqueceu e os insectos alados começaram a surgir: são mosquitos, mosquinhas, moscas, abelhas, vespas e tudo aquilo que é insecto e voador é rapidamente consumido por estes mamíferos com asas.
Outro dia entrou-me um dentro de casa. Gritaria, sustos, medos infundados de mordedelas no pescoço. É que estas séries tipo Lua Vermelha e os filmes crepusculares que por aí andam, mais as noites de sexta-feira e de lua cheia, enchem a cabeça das pessoas de muita imaginação. Outros aproveitam para fazer as suas "raves" nos cemitérios às sexta-feiras, com cerimoniais de sangue ou de qualquer bebida vermelha. O certo é que me vi aflito para o tirar dali para fora: janelas abertas, obstáculos e enxotamentos para o guiar para a melhor saída. Demorou. O mamífero andou ali às voltas quase uma eternidade, mas acabou por sair debaixo de uma catadupa de aplausos assustados.

Há uns anos atrás andei pela Roménia, pelas terras do Conde de Drácula, e tive a oportunidade de visitar aqueles locais onde a fantasia tenta tornar-se realidade. São museus de horrores, de instrumentos de torturas, de morcegos e vampiros, de frascos de "sangue" coagulado para impressionar quem procura emoções. Acho que naquela altura em que visitei a Roménia nem era preciso nenhum Conde de Drácula para impressionar, pois quem governava aquele país era aquele homúnculo de má memória - o Nicolas Ceausescu - que aterrorizava, prendia, torturava, mordia, batia, maltratava, chupava o sangue e o resto ao povo... Um verdadeiro Vampiro!

Eu até acho os morcegos simpáticos. Há uma família de morcegos, os "Beltrames", que são mesmo uma simpatia: segundo me disseram têm origem italiana, com várias colónias no Brasil, e que, talvez trazidos na bagagem de algum português, vieram fazer ninho aqui em Portugal. Em vez daquele grito agudo, estes emitem uma sonoridade grossa e parecem que cantam ao "falarem" entre eles. São sociais, simpáticos e, quando fazem amizade, são fiéis a quem lhes é amigo. Eu tenho uma família de Beltrames que são meus amigos... que bom!

domingo, 4 de abril de 2010

DOMINGO DE PÁSCOA

PÁSCOA é a PASSAGEM.

É a festa anual dos Judeus e que se celebra no 14º dia da primeira lua do seu ano religioso, em memória da saída deles do Egipto. A festa da Páscoa foi estabelecida pelos Judeus em memória da PASSAGEM ou travessia do mar Vermelho e também da PASSAGEM do anjo exterminador, que, na noite em que os Judeus partiram do Egipto, matou todos os primogénitos dos egípcios mas sem tocar nas casas dos israelitas, marcadas com o sangue do cordeiro.

Entre os Cristãos, esta festa celebra-se em comemoração da Ressurreição de Jesus Cristo, isto é, da sua PASSAGEM da morte para a vida. Tal como a Páscoa dos Judeus é uma festa móvel pois celebra-se no domingo após o 14º dia de lua cheia, que se segue ao equinócio da primavera, caindo sempre entre os dias 21 de Março e 26 de Abril.

Os gregos ortodoxos também comemoram a Páscoa, como PASSAGEM morte para a vida, mas as datas umas vezes coincidem com a dos latinos, outras vezes cai uma, duas ou três semanas depois.

A PÁSCOA E OS OVOS

A tradição de oferecer ovos vem da China, como celebração da Festa da Primavera. Os ovos eram cozinhados com beterraba e previamente embrulhados com cascas de cebolas. O resultado final eram uns ovos coloridos e mosqueados na casca.

Este costume foi percorrendo o mundo e chegou ao Egipto e foi, também, aproveitado para a comemoração da nova estação e, tal como na China, distribuídos como presentes.
 
Depois da morte de Jesus Cristo, os cristãos consagraram esse hábito como lembrança da Ressurreição e no século XVIII a Igreja adoptou-o oficialmente, como símbolo da Páscoa. Desde então trocam-se os ovos enfeitados no domingo após a Semana Santa.
 
Com o desenvolvimento da indústria de chocolate os ovos deixaram praticamente de ser verdadeiros e passaram a ser quase todos de chocolate. 

São os folares, ainda, os únicos a manter a tradição do ovo cozinhado.

Uma Santa Páscoa!

sábado, 3 de abril de 2010

ENGRENAGENS


Li, há tempos, um texto do António Lobo Antunes em que ele falava sobre um relógio, que já vinha do seu bisavô, um relógio de mesa, trabalhado, e cuja decoração estava ligado a cavalos, ferraduras e freios. E ao olhar e tocar aquele relógio veio-lhe à memória o seu bisavô, o avô e o pai e aproveitou esta ocasião para reflectir sobre os tempos, as mudanças, as sensibilidades...

Não sei muito bem o porquê do meu fascínio por mecanismos, por motores, por relógios, pelo tempo e pelo rigor nos horários. Como que vivendo no meio de um imenso mecanismo, cujo tic-tac me envolve. Esta quase paixão levou-me à procura do modo de funcionamento das máquinas, à descoberta das engrenagens, das rodas dentadas, das desmultiplicações...

E tudo isto trouxe-me à memória a fábrica de Lanifícios de meu avô Manoel, em Vila  Cova à Coelheira, perto de Seia. Um edifício grande, rasgado de janelas largas para que a luz pudesse entrar em grande quantidade, pintado de um branco imaculado, com uma enorme roda exterior, uma nora gigante, que girava pela força das águas vindas de um açude do rio Alva.

Sempre que chegava à Fábrica, habitualmente na companhia do meu tio Francisco, o encanto era infindável. A tal nora gigante a girar e a transmitir rotação ao eixo de ferro, que atravessava o edifício, e ao qual estavam ligadas rodas de vários tamanhos, umas em ferro, outras em madeira em forma de tambor, as correias de couro que transmitiam o movimento dessas rodas aos teares, às caneleiras, à dobadeiras... as rodas dentadas que continuavam o movimento a tudo o que fosse máquina. Tudo isto com um ruído de fundo como se fosse um matraquear ritmado, engrenado, quase como o tic-tac de relógio apressado, ampliado e reverberado por toda aquela maquinaria.

Também o cheiro da lã virgem, o aroma das tintas que iam dar cor ao fio da lã já dobada, o odor acre do ácido sulfúrico usado para a fixação das cores e o do óleo e da massa consistente necessários para lubrificar aquelas engrenagens todas, impregnavam-me as narinas como se fosse perfume dos deuses.

E, lá em baixo, o rio Alva!

E, cá em cima, o açude, que guardava a água que, depois de canalizada, ia fazer girar a roda gigante. Era um local mágico, um paraíso isolado de um mundo de casas e de fábricas, quase irreal, mas magnífico, um ambiente feito de sombras cúmplices, de matizes de cor criadas pela luz filtrada através das folhas, de murmurejares que o correr das águas deixava escapar, de espumas leves que rapidamente se desfaziam... Quantas horas ali fiquei esquecido a encantar os meus sonhos, a mergulhar nas ondas da imaginação, a sentir o fresco das sombras, a escutar a natureza e a voar com os pássaros abrindo as asas em aventuras fantasiosas. Momento únicos que deixei fixado na película das minhas memórias.

Ao mesmo tempo tudo isto parece um contra-senso! Por um lado, a precisão das engrenagens, as rodas dentadas, o rigor das formas, o risco certo dos desenhos executados pelo debuxador e os tecidos geometricamente feitos nos teares e, por outro lado, a fluidez das águas, as sombras que se vão modificando com o caminhar do sol, o voo irrequieto das aves, a assimetria dos movimentos...

É como a vida! Um mundo e um viver de contrastes que se interpenetram, que se bebem e mesclam de forma cúmplice fazendo, assim, o sal da vida!  

sexta-feira, 2 de abril de 2010

SEXTA-FEIRA SANTA

A Sexta-Feira Santa para mim traz-me sempre recordações de infância.
Traz-me à memória as Páscoas passadas em casa dos meus avós, com a família toda reunida.
Lembra-me as orações de joelhos na sala de estar, as idas à Igreja Matriz, as procissões do Senhor dos Passos e a do Cristo já morto no ataúde, o ter de rezar a via sacra feita pelos caminhos entre as duas igrejas (Misericórdia e Matriz), lembra-me o jejum forçado (sem doces ou rebuçados) e a abstinência da carne, o ter de pôr uma gravata preta (tinha de pôr casaco e calça de flanela), da sirene dos bombeiros às três horas da tarde, e do ter de ficar em casa sem poder ir à rua passear e brincar com os amigos.
Apesar desse tempo de recolhimento, também havia azáfama lá por casa: era o momento de se preparar o almoço do Domingo, pois tudo tinha de ser feito com tempo; e também tinha de se preparar a vinda do senhor padre com o Cristo Ressuscitado na sua Visita Pascal, o que acontecia no Domingo.

Felizmente, no sábado tudo mudava... cantava-se o ALELUIA a antever o ressuscitar do Senhor e já a vida retornava ao seu normal. Altura para desenferrujar as pernas em longos passeios de bicicleta juntamente com os primos que se juntavam nessa altura do ano.

Também é a altura de desejar uma Boa Páscoa! e Aleluia!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O AVENTAL DA MINHA AVÓ


O avental, mais do que uma peça de roupa é um utensílio.


O avental sempre acompanhou a história das mulheres e dos homens, desde o da nossa Rainha Santa Isabel que soube transformar o pão para os pobres, que escondia no seu regaço, em rosas vermelhas e brancas... até ao mais célebre avental masculino, o da maçonaria.

Claro que poderia passar horas a falar de muitos aventais, ou de histórias de aventais, mas não foi isso que me veio ao pensar.

Hoje vou falar do avental da minha avó. Era de sarja azul, com bolinhas ou pintinhas  brancas, debruado por um folho azul mais escuro e com dois bolsos grandes, um de cada lado. Cabia uma mão inteira em cada um dos bolsos e, neles havia sempre um mundo de coisas: o lápis e o papel onde apontava o que precisava de fazer, as chaves de tudo o que tivesse fechadura e, também, aqueles rebuçados de açúcar, aqueles de tostão, embrulhados em papel encerado, e que estava sempre pronta a tirar quando um dos netos lhe aparecia e a ia cumprimentar.

A finalidade primeira do avental era a de proteger o vestido que ficava por baixo. Mas, se servisse só para isso, a história ficava curta, sem história, porque acabava agora mesmo. Fim e ponto de exclamação!

A verdade é que o avental da minha avó, e certamente o de todas as avós, servia para uma infinidade de coisas:
        Servia de rodilha para retirar o assado do forno, era o melhor lenço que havia para enxugar as lágrimas das crianças e até para secar ou  limpar um prato antes de ir para a mesa.
        Quando íamos à horta e passávamos pelo galinheiro, era no avental que a minha avó transportava os ovos que nós íamos retirar, às vezes até, debaixo da galinha.
        Quando chegavam visitas desconhecidas era no avental da minha avó que abrigávamos a nossa timidez.
        Também, no tempo frio, o avental da minha avó era a manta onde enrolávamos os braços e as mãos para ganharem um pouco mais de calor.
        Se a braseira começava a esmorecer, era o avental da minha avó o abano certo para reanimar aquelas brasas meio adormecidas.
        Também transportava as batatas da tulha para a cozinha ou as cavacas para aquele enorme fogão de lenha onde preparava os melhores pitéus do meu mundo.
        Era no avental que acolhia as ervilhas e as favas que ia descascando e depois deitava na panela de água fervente.
        No fim do Verão, era no avental que recolhia os marmelos das árvores para, depois, preparar a marmelada que só ela sabia fazer.
        Era com o avental que a minha avó retirava a tarte de limão ou o pão de ló, feito com ovos de gemas bem amarelas, do forno de lenha e colocava depois no parapeito da janela a arrefecer.
       Até o pó ela, às vezes, limpava com o avental. Era certo que se apareciam visitas de surpresa, antes de retirar o avental para as receber, ia dar sempre uma passagem na sala das visitas para ver se estava tudo limpo e deixar a sala com bom aspecto.

Parece-me que hoje, o avental deixou de ter metade dessas funções. Os ovos já não se vão buscar ao galinheiro, pois são comprados e vêm arrumados em caixas de cartão apropriadas; as tartes já não se põem à janela a arrefecer, agora vão é para o microondas para descongelar; os rebuçados dos bolsos não são aconselhados, porque engordam e contribuem para o grande número de crianças obesas; as lágrimas devem ser enxugadas com um lenço de papel quase asséptico; também as visitas já não aparecem de surpresa!

Não sei quem o inventou, mas sei que vão ser precisos muitos anos até alguém aparecer com um objecto que tenha tanta utilidade como o avental, porque as avós, mesmo sem o avental, continuam a preencher a nossa realidade, apesar do microondas (e das Bimby!).