quinta-feira, 8 de abril de 2010

VARIÁVEL

O tempo anda meio louco, ora chove e faz frio, ora aparece um sol mentiroso que promete calor e luz mas, passado pouco tempo, se deixa esconder por nuvens escuras e friorentas.
A agulha do meu barómetro anda num vai e volta alucinante entre o Chuva-Vento e o VARIÁVEL. E não passa dali.

Nunca mais chega ao Bom Tempo!

Aliás, penso que este barómetro, que já é bastante antigo, está bem de acordo com os tempos de agora: é que dá toda a ênfase ao tempo VARIÁVEL, escreve-o em maiúsculas e o Bom Tempo, ali ao seu lado, parece meio esquecido.


Adaptou-se bem ao estilo de vida deste país, uma espécie de cata-vento que ora vira para um lado, ora gira para o outro, sem rumo definido, sem planos a médio ou longo prazo, sem programas educativos sérios e consistentes, com a saúde quase moribunda, sem médicos e poucos enfermeiros, e uma economia com os fundilhos todos rotos.

Eu acho que seria muito mais correcto substituir a palavra VARIÁVEL por outra parecida e que seria ainda melhor adaptada à situação, quer do tempo-clima, quer deste país:

- AVARIADO -

E, já agora, porque não pôr, por baixo, o seguinte letreiro:

- FECHADO PARA REPARAÇÃO E SEM TEMPO PREVISÍVEL PARA A REABERTURA -.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O 500

É pequenino, tem duas portas e quatro lugares, o motor é de dois cilindros e está situado atrás.
Está pintado de azul e, por dentro, os painéis das portas e os estofos são vermelhos com um debrum de creme.
É uma graça de carrinho, o 500. Desperta sorrisos, provoca olhares complacentes e curiosos, faz apontar dedos na sua direcção e voltares de pescoço, quer de peões como de motoristas.
Percorre a cidade com todo o à vontade e quase não há o perigo de ultrapassar os limites de velocidade, pois não passa dos 100 Km/hora.
Não tem uma série de coisas que os carros actuais têm: não tem fecho centralizado das portas, nem tem vidros eléctricos, não tem direcção assistida, não tem computador de bordo, nem GPS, não tem airbags, nem travões de disco, nem, sequer, indicador do nível de combustível: apenas acende uma luzinha vermelha no tablier quando entra na reserva de combustível. Também, os cintos de segurança não são de enrolar.
Agora, que o tempo começa a sorrir, nesta primavera ainda envergonhada, é altura de o trazer para a rua, fazer os curtos trajectos do dia a dia, abrir o tecto para deixar entrar mais um pouco deste sol hesitante, desfrutando, ao máximo, este carrinho, quase de brincar.
Mas este ar jovial e irreverente, e esta juventude que o carro demonstra, não dizem da sua idade: 41 anos, sem uma ruga, um cabelo branco, uma dor na coluna, nada... E tem outra vantagem: como não tem nada de equipamentos electrónicos, pega logo à primeira, mesmo que esteja parado bastante tempo.
Já o tenho há, talvez, uns doze anos. Desde há muito que sonhava ter um 500, desta cor e com os acabamentos que este possui. Não por qualquer fetiche ou mania, mas apenas porque foi num carro, como este, que aprendi a conduzir, tinha os meus 12 ou 13 anos. Era no tempo em que as estradas tinham poucos carros, as velocidades não eram estonteantes e os acidentes ainda não faziam estatística em lado nenhum. 
Apesar de guardar as melhores recordações desses tempos, não quero ser saudosista e, por isso, não vou falar das férias de verão em que, com os meus primos Fernando e José, percorríamos as festas de aldeia à volta de Mangualde, íamos até à Canameira, perto da Muxagata e Meda, à caça das perdizes, por aqueles montes e vales perdidos na transição da Beira Alta interior com o Douro ou, simplesmente, programávamos passeios agradáveis, sempre com a companhia do 500.
É por isso que, cada vez que entro dentro do carrinho, entro dentro de um mundo de recordares que me fazem manter as lembranças vivas... Acho que o 500 é muito melhor do que aqueles comprimidos ou gotas que se tomam para reavivar a memória.
 

terça-feira, 6 de abril de 2010

SEM TÍTULO

Não tem título, mas cada um pode dar-lhe o que mais gostar:
"Mulheres olhando o mar",
"Fim de tarde",
"Esperando",
"Contemplações",
"Saudades"...

Eu próprio ainda não o baptizei!


Dos quadros que tenho no meu consultório, este é o que mais gosto: Pelas cores quentes do verão e do azul forte do mar a fazer o contraste entre a terra e o oceano? Pelo tema em si, as mulheres (mãe e filha?) olhando o infinito, esperando alguém? Pela força serena e contemplativa que evoca? Pela intimidade cúmplice que desperta?
Não sei mesmo. Só sei que gosto muito dele.


Comprei-o há alguns anos, na Praça de Espanha em Madrid, a um daqueles pintores de rua, um homem simpático, ainda jovem, entroncado, de voz rouca de muito tabaco fumado. Nessa altura ainda não se falava da crise.

Fiquei impressionado por este quadro e por um outro, que retratava  uma tourada à espanhola. Neste, o vermelho era a cor mais forte, a dominante, e que sobressaía do capote, do sangue provocado pelos picadores, e que escorria pelo lombo do negro touro, e do vindo das bandarilhas espetadas, para além do "trace de luces", que era cor de rubi. Tratava-se de uma cena de toureio a pé, em que o matador ensaiava um natural que quase obrigava o touro a ajoelhar-se diante dele. Um quadro cheio de força, de movimento, rico em pormenores e de evocações marcantes das touradas em Espanha.

Comprei os dois. O do mar tenho-o aqui, diante de mim, e contemplo-o quase todos os dias. Do outro, guardo a recordação de o ver pendurado numa parede branca. Ofereci-o a uma pessoa que é amante de touros e que ficou impressionada pela força que aquela cena lhe transmitia. Penso que ainda está na mesma parede.


Voltei recentemente a Madrid e, claro, fui à procura do "meu" pintor, no mesmo canto da Praça de Espanha; as telas encostadas na parede e na coluna que sustenta o ângulo das arcadas, o cheiro forte a Ducados e a voz rouca castelhana afirmaram-me a sua presença. Falei-lhe dos quadros comprados anos atrás, e ele mostrou-me outros, muitos, mas nenhum me agradou. Largou os touros, fugiu ao mar e dedica-se, agora, a naturezas mortas, aquelas dos frutos, das framboesas e morangos numa taça, do naco de presunto e do queijo em cima de uma tábua de madeira, do jarro de vinho e do pão aberto, das peças de caça, a perdiz e o faisão, dispostas em cima da mesa...

É que, com a crise, contemplações do mar distante, sonhos, saudades e esperas não levam a nada, não se vendem! Também o preço dos bilhetes para as touradas está pela hora da morte, e sempre se vão vendo na televisão, além de que há muita gente, agora, que é contra a "fiesta" ou pertence à liga protectora dos animais.
E, com as peças de fruta apetitosa, com o presunto e o vinho, com o pão e o queijo, ali pintados, sempre se vai comendo com os olhos e se saciam os prazeres da vida e ele, deste modo, lá vai vendendo mais alguns quadros. 

E olé!




 

segunda-feira, 5 de abril de 2010

MORCEGOS BELTRAMES

Devo ter uma colónia de morcegos aqui por perto. Mal o lusco-fusco começa a anunciar-se ei-los que surgem, esparsos de início, depois em bandos, prontos a iniciar o festim da ceia nocturna. O tempo aqueceu e os insectos alados começaram a surgir: são mosquitos, mosquinhas, moscas, abelhas, vespas e tudo aquilo que é insecto e voador é rapidamente consumido por estes mamíferos com asas.
Outro dia entrou-me um dentro de casa. Gritaria, sustos, medos infundados de mordedelas no pescoço. É que estas séries tipo Lua Vermelha e os filmes crepusculares que por aí andam, mais as noites de sexta-feira e de lua cheia, enchem a cabeça das pessoas de muita imaginação. Outros aproveitam para fazer as suas "raves" nos cemitérios às sexta-feiras, com cerimoniais de sangue ou de qualquer bebida vermelha. O certo é que me vi aflito para o tirar dali para fora: janelas abertas, obstáculos e enxotamentos para o guiar para a melhor saída. Demorou. O mamífero andou ali às voltas quase uma eternidade, mas acabou por sair debaixo de uma catadupa de aplausos assustados.

Há uns anos atrás andei pela Roménia, pelas terras do Conde de Drácula, e tive a oportunidade de visitar aqueles locais onde a fantasia tenta tornar-se realidade. São museus de horrores, de instrumentos de torturas, de morcegos e vampiros, de frascos de "sangue" coagulado para impressionar quem procura emoções. Acho que naquela altura em que visitei a Roménia nem era preciso nenhum Conde de Drácula para impressionar, pois quem governava aquele país era aquele homúnculo de má memória - o Nicolas Ceausescu - que aterrorizava, prendia, torturava, mordia, batia, maltratava, chupava o sangue e o resto ao povo... Um verdadeiro Vampiro!

Eu até acho os morcegos simpáticos. Há uma família de morcegos, os "Beltrames", que são mesmo uma simpatia: segundo me disseram têm origem italiana, com várias colónias no Brasil, e que, talvez trazidos na bagagem de algum português, vieram fazer ninho aqui em Portugal. Em vez daquele grito agudo, estes emitem uma sonoridade grossa e parecem que cantam ao "falarem" entre eles. São sociais, simpáticos e, quando fazem amizade, são fiéis a quem lhes é amigo. Eu tenho uma família de Beltrames que são meus amigos... que bom!

domingo, 4 de abril de 2010

DOMINGO DE PÁSCOA

PÁSCOA é a PASSAGEM.

É a festa anual dos Judeus e que se celebra no 14º dia da primeira lua do seu ano religioso, em memória da saída deles do Egipto. A festa da Páscoa foi estabelecida pelos Judeus em memória da PASSAGEM ou travessia do mar Vermelho e também da PASSAGEM do anjo exterminador, que, na noite em que os Judeus partiram do Egipto, matou todos os primogénitos dos egípcios mas sem tocar nas casas dos israelitas, marcadas com o sangue do cordeiro.

Entre os Cristãos, esta festa celebra-se em comemoração da Ressurreição de Jesus Cristo, isto é, da sua PASSAGEM da morte para a vida. Tal como a Páscoa dos Judeus é uma festa móvel pois celebra-se no domingo após o 14º dia de lua cheia, que se segue ao equinócio da primavera, caindo sempre entre os dias 21 de Março e 26 de Abril.

Os gregos ortodoxos também comemoram a Páscoa, como PASSAGEM morte para a vida, mas as datas umas vezes coincidem com a dos latinos, outras vezes cai uma, duas ou três semanas depois.

A PÁSCOA E OS OVOS

A tradição de oferecer ovos vem da China, como celebração da Festa da Primavera. Os ovos eram cozinhados com beterraba e previamente embrulhados com cascas de cebolas. O resultado final eram uns ovos coloridos e mosqueados na casca.

Este costume foi percorrendo o mundo e chegou ao Egipto e foi, também, aproveitado para a comemoração da nova estação e, tal como na China, distribuídos como presentes.
 
Depois da morte de Jesus Cristo, os cristãos consagraram esse hábito como lembrança da Ressurreição e no século XVIII a Igreja adoptou-o oficialmente, como símbolo da Páscoa. Desde então trocam-se os ovos enfeitados no domingo após a Semana Santa.
 
Com o desenvolvimento da indústria de chocolate os ovos deixaram praticamente de ser verdadeiros e passaram a ser quase todos de chocolate. 

São os folares, ainda, os únicos a manter a tradição do ovo cozinhado.

Uma Santa Páscoa!

sábado, 3 de abril de 2010

ENGRENAGENS


Li, há tempos, um texto do António Lobo Antunes em que ele falava sobre um relógio, que já vinha do seu bisavô, um relógio de mesa, trabalhado, e cuja decoração estava ligado a cavalos, ferraduras e freios. E ao olhar e tocar aquele relógio veio-lhe à memória o seu bisavô, o avô e o pai e aproveitou esta ocasião para reflectir sobre os tempos, as mudanças, as sensibilidades...

Não sei muito bem o porquê do meu fascínio por mecanismos, por motores, por relógios, pelo tempo e pelo rigor nos horários. Como que vivendo no meio de um imenso mecanismo, cujo tic-tac me envolve. Esta quase paixão levou-me à procura do modo de funcionamento das máquinas, à descoberta das engrenagens, das rodas dentadas, das desmultiplicações...

E tudo isto trouxe-me à memória a fábrica de Lanifícios de meu avô Manoel, em Vila  Cova à Coelheira, perto de Seia. Um edifício grande, rasgado de janelas largas para que a luz pudesse entrar em grande quantidade, pintado de um branco imaculado, com uma enorme roda exterior, uma nora gigante, que girava pela força das águas vindas de um açude do rio Alva.

Sempre que chegava à Fábrica, habitualmente na companhia do meu tio Francisco, o encanto era infindável. A tal nora gigante a girar e a transmitir rotação ao eixo de ferro, que atravessava o edifício, e ao qual estavam ligadas rodas de vários tamanhos, umas em ferro, outras em madeira em forma de tambor, as correias de couro que transmitiam o movimento dessas rodas aos teares, às caneleiras, à dobadeiras... as rodas dentadas que continuavam o movimento a tudo o que fosse máquina. Tudo isto com um ruído de fundo como se fosse um matraquear ritmado, engrenado, quase como o tic-tac de relógio apressado, ampliado e reverberado por toda aquela maquinaria.

Também o cheiro da lã virgem, o aroma das tintas que iam dar cor ao fio da lã já dobada, o odor acre do ácido sulfúrico usado para a fixação das cores e o do óleo e da massa consistente necessários para lubrificar aquelas engrenagens todas, impregnavam-me as narinas como se fosse perfume dos deuses.

E, lá em baixo, o rio Alva!

E, cá em cima, o açude, que guardava a água que, depois de canalizada, ia fazer girar a roda gigante. Era um local mágico, um paraíso isolado de um mundo de casas e de fábricas, quase irreal, mas magnífico, um ambiente feito de sombras cúmplices, de matizes de cor criadas pela luz filtrada através das folhas, de murmurejares que o correr das águas deixava escapar, de espumas leves que rapidamente se desfaziam... Quantas horas ali fiquei esquecido a encantar os meus sonhos, a mergulhar nas ondas da imaginação, a sentir o fresco das sombras, a escutar a natureza e a voar com os pássaros abrindo as asas em aventuras fantasiosas. Momento únicos que deixei fixado na película das minhas memórias.

Ao mesmo tempo tudo isto parece um contra-senso! Por um lado, a precisão das engrenagens, as rodas dentadas, o rigor das formas, o risco certo dos desenhos executados pelo debuxador e os tecidos geometricamente feitos nos teares e, por outro lado, a fluidez das águas, as sombras que se vão modificando com o caminhar do sol, o voo irrequieto das aves, a assimetria dos movimentos...

É como a vida! Um mundo e um viver de contrastes que se interpenetram, que se bebem e mesclam de forma cúmplice fazendo, assim, o sal da vida!  

sexta-feira, 2 de abril de 2010

SEXTA-FEIRA SANTA

A Sexta-Feira Santa para mim traz-me sempre recordações de infância.
Traz-me à memória as Páscoas passadas em casa dos meus avós, com a família toda reunida.
Lembra-me as orações de joelhos na sala de estar, as idas à Igreja Matriz, as procissões do Senhor dos Passos e a do Cristo já morto no ataúde, o ter de rezar a via sacra feita pelos caminhos entre as duas igrejas (Misericórdia e Matriz), lembra-me o jejum forçado (sem doces ou rebuçados) e a abstinência da carne, o ter de pôr uma gravata preta (tinha de pôr casaco e calça de flanela), da sirene dos bombeiros às três horas da tarde, e do ter de ficar em casa sem poder ir à rua passear e brincar com os amigos.
Apesar desse tempo de recolhimento, também havia azáfama lá por casa: era o momento de se preparar o almoço do Domingo, pois tudo tinha de ser feito com tempo; e também tinha de se preparar a vinda do senhor padre com o Cristo Ressuscitado na sua Visita Pascal, o que acontecia no Domingo.

Felizmente, no sábado tudo mudava... cantava-se o ALELUIA a antever o ressuscitar do Senhor e já a vida retornava ao seu normal. Altura para desenferrujar as pernas em longos passeios de bicicleta juntamente com os primos que se juntavam nessa altura do ano.

Também é a altura de desejar uma Boa Páscoa! e Aleluia!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O AVENTAL DA MINHA AVÓ


O avental, mais do que uma peça de roupa é um utensílio.


O avental sempre acompanhou a história das mulheres e dos homens, desde o da nossa Rainha Santa Isabel que soube transformar o pão para os pobres, que escondia no seu regaço, em rosas vermelhas e brancas... até ao mais célebre avental masculino, o da maçonaria.

Claro que poderia passar horas a falar de muitos aventais, ou de histórias de aventais, mas não foi isso que me veio ao pensar.

Hoje vou falar do avental da minha avó. Era de sarja azul, com bolinhas ou pintinhas  brancas, debruado por um folho azul mais escuro e com dois bolsos grandes, um de cada lado. Cabia uma mão inteira em cada um dos bolsos e, neles havia sempre um mundo de coisas: o lápis e o papel onde apontava o que precisava de fazer, as chaves de tudo o que tivesse fechadura e, também, aqueles rebuçados de açúcar, aqueles de tostão, embrulhados em papel encerado, e que estava sempre pronta a tirar quando um dos netos lhe aparecia e a ia cumprimentar.

A finalidade primeira do avental era a de proteger o vestido que ficava por baixo. Mas, se servisse só para isso, a história ficava curta, sem história, porque acabava agora mesmo. Fim e ponto de exclamação!

A verdade é que o avental da minha avó, e certamente o de todas as avós, servia para uma infinidade de coisas:
        Servia de rodilha para retirar o assado do forno, era o melhor lenço que havia para enxugar as lágrimas das crianças e até para secar ou  limpar um prato antes de ir para a mesa.
        Quando íamos à horta e passávamos pelo galinheiro, era no avental que a minha avó transportava os ovos que nós íamos retirar, às vezes até, debaixo da galinha.
        Quando chegavam visitas desconhecidas era no avental da minha avó que abrigávamos a nossa timidez.
        Também, no tempo frio, o avental da minha avó era a manta onde enrolávamos os braços e as mãos para ganharem um pouco mais de calor.
        Se a braseira começava a esmorecer, era o avental da minha avó o abano certo para reanimar aquelas brasas meio adormecidas.
        Também transportava as batatas da tulha para a cozinha ou as cavacas para aquele enorme fogão de lenha onde preparava os melhores pitéus do meu mundo.
        Era no avental que acolhia as ervilhas e as favas que ia descascando e depois deitava na panela de água fervente.
        No fim do Verão, era no avental que recolhia os marmelos das árvores para, depois, preparar a marmelada que só ela sabia fazer.
        Era com o avental que a minha avó retirava a tarte de limão ou o pão de ló, feito com ovos de gemas bem amarelas, do forno de lenha e colocava depois no parapeito da janela a arrefecer.
       Até o pó ela, às vezes, limpava com o avental. Era certo que se apareciam visitas de surpresa, antes de retirar o avental para as receber, ia dar sempre uma passagem na sala das visitas para ver se estava tudo limpo e deixar a sala com bom aspecto.

Parece-me que hoje, o avental deixou de ter metade dessas funções. Os ovos já não se vão buscar ao galinheiro, pois são comprados e vêm arrumados em caixas de cartão apropriadas; as tartes já não se põem à janela a arrefecer, agora vão é para o microondas para descongelar; os rebuçados dos bolsos não são aconselhados, porque engordam e contribuem para o grande número de crianças obesas; as lágrimas devem ser enxugadas com um lenço de papel quase asséptico; também as visitas já não aparecem de surpresa!

Não sei quem o inventou, mas sei que vão ser precisos muitos anos até alguém aparecer com um objecto que tenha tanta utilidade como o avental, porque as avós, mesmo sem o avental, continuam a preencher a nossa realidade, apesar do microondas (e das Bimby!).

quarta-feira, 31 de março de 2010

FACE OCULTA (DA LUA)

Ela: Sabias que quando um pinguim encontra sua companheira, eles vivem juntos para sempre? Queres ser o meu pinguim?

Você é um homem surpreendente. Em consequência disso eu estou presa a ti em pensamentos... o primeiro e o último do dia é  sobre você. Não desse pouco que se deixa saber, pois, como já disse, há coisas que podemos revelar sobre nós que nada diz quem somos em essência, sendo apenas referências muito superficiais e que poderão não ser o que nos chama a atenção de alguém.

O que for necessário saber, tu irás me dizer, e eu não sei desejar saber mais do que isso.

Pensando bem, mais interessante do que segredos, são os mistérios do ser, por serem irreditíveis.

Ele: É curioso e quero que saibas que meu último apagar de ideias e o meu primeiro abrir de pensamentos vão, também, para ti. Depois anseio ler as tuas mensagens nesta escrita feita de virtualidades mas que são a realidade dos nossos diálogos, dos nossos encontros.

Quando alguém se sente aprisionado de alguma coisa, de alguma pessoa, mesmo que apenas esteja materializada numa escrita é sinal que os sentires estão despertos e orientados para quem está do outro lado.

Como a Lua, sempre a Lua, que tem duas faces: a visível e a oculta; sabemos que ela existe mas não a conhecemos e o homem que já foi à Lua não foi lá verificar o que ela nos esconde: por temor? por falta de curiosidade? ou, simplesmente, expectativa e forma sábia de aguardar?

Dos segredos e coscuvilhice da Lua o tempo vai permitindo a descoberta, tal como o embrulho do presente: primeiro retira-se o laço, depois a fita gomada, em seguida o papel de embrulho, lustroso e colorido, a caixa fica a descoberto e, lá no fundo, o ambicionado presente.

ELA: Lindo! Tens a razão ao muito que já foi dito, mas, no fundo, todas as coisas são desnudas, apesar de toda a protecção de que se possam cercar... é o caso da nossa LUA... "sempre a Lua"...

Nós não sabíamos, mas houve alguém que observando (antes mesmo dos pretensiosos americanos irem até lá pôr aquela bandeira cheia de glória, etc e tal, e pouco nos dizer) soube essa dessa verdade de que tudo está diante dos nossos olhos.

Assim não há mistérios sobre essa face oculta da nossa Lua. O que acontece é o movimento do planeta Terra, girando ora em volta do Sol e da Lua, ora girando em volta de si mesmo... Claro que eu sei que tu sabes de tudo o que acabei de dizer... Eu disse para estar aqui a falar contigo.

Solidão... Eu precisaria escrever um bocado para estar a falar desse tema tão presente nos dias de hoje, Mas, por enquanto digo apenas que solidão, solidão mesmo no duro, é quando nos perdemos de nós mesmo e procuramos, em vão, pela nossa alma.

À tarde tentarei encostar o meu tempo ao teu. Um beijo em teu coração.

ELE: Outro.


terça-feira, 30 de março de 2010

A LENA

Hoje voltei à Lena, na Ortiga, perto da barragem de Belver.
A especialidade de "A Lena" é a lampreia. E, desde já digo que não vou dizer que é a melhor lampreia do mundo.
Isto porque, cada apreciador de lampreia, ou de cabeça de garoupa, ou de leitão sabe sempre de um tal restaurante onde essa iguaria é a melhor do mundo.
A cada cabeça seu paladar e, depois, o paladar varia com o humor daquele dia, com a companhia, com o que cada um está a pensar e, claro também, e imenso, com o talento do cozinheiro.
O restaurante "A Lena" é, por assim dizer, uma tasca; fica num apeadeiro do caminho de ferro, muito perto da barragem e do rio Tejo e é ladeado por um braço de água dessa barragem que forma, ali, uma praia fluvial. É uma casa sem nada de atractivo em termos de arquitectura ou de conforto mas que, nesta época da lampreia, fica  cheia como um ovo. Aos fins de semana, a partir de sexta feira, nem vale a pena lá ir, tal a romaria de lampreiófilos.
Cumpro esta tradição há mais de vinte anos. Fui lá pela mão de um grande amigo e fiquei fiel desde essa altura. Como disse, não vou dizer que é a melhor lampreia do mundo porque não sei se há outra melhor. A de hoje estava divinal, cheia de ovas, de bom tamanho, macia, a lascar-se com o tocar do garfo e com um molho de pedir pão para ensopar. O arroz, cozinhado naquele molho, estava perfeito. O vinho até era bom, apesar de não ser do verde tinto mas, como dizia um poeta que conheço:
 "Copos de bom vinho tinto,
   pelo menos, serão três!
   manda a regra, e eu não minto:
   beber um de cada vez!"
 O café e o bagaço completaram esta refeição quase sublime.

Hoje saí dali satisfeito, pela companhia de bons amigos, pelas conversas boas havidas e pelo renovar de sabores que a Lena sempre sabe pôr no meu paladar! 

segunda-feira, 29 de março de 2010

DA MINHA JANELA

 

Estou aqui, no Hospital, no meu gabinete de consulta.

O gabinete tem uma janela que dá para as traseiras do edifício e, dessa janela vejo as traseiras dos outros prédios, antigos a maior parte. São daqueles edifícios ainda com varandas, escadas e estendais de roupa, tudo em ferro pintado
Um prédio, o mais antigo, tem uma escada de emergência em caracol e outros três prédios, da correnteza, têm as escadas em zigue-zague.
Mesmo de frente para a janela, do outro lado, são as traseiras de um hotel abandonado. Edifício sem história, sem arquitectura marcante e sem ninguém lá dentro.
O espaço das traseiras é enorme e é bem aproveitado. Tem três casinhotas com telhados de lusalite, tem, também,  árvores de fruto: uma  nespereira a florir, um limoeiro carregadinho de limões, uma ameixoeira atapetada de flores brancas, que mais parecem flocos de neve gigantes e uma laranjeira que faz lembrar uma árvore de Natal cheia de bolas cor de laranja. No meio deste pequeno bosque de frutíferas, sobressai uma enorme roseira, de rosas amarelas, lindas! 
E tem gatos, tem melros, tem pombos e pardais; acontece aparecerem, por ali, um ou dois bandos de mulatas, aquela espécie de papagaios todos verdes e de bico preto, vindas não se sabe de onde. Uma vez por outra recebe, também, a visita de gaivotas, daquelas que sobrevoam a cidade à procura de alimento nos caixotes do lixo.
E  tem, também, uma antena parabólica enorme, a olhar o céu.
E hoje tinha, ainda, uma senhora loura, à janela, a estender roupa. É que hoje é segunda feira, dia de grandes lavagens, pelos vistos, e a roupa estendida é muita, naqueles estendais de ferro e arame, principalmente roupa de cama, lençóis e fronhas, e toalhas de banho; também há muitos panos de cozinha pendurados, multicolores, como se fossem bandeiras de coloridos países.
As varandas estão cheias de muitos vasos. Mas poucos são os que têm flores, pois ainda não é o tempo.
Depois há aquela vizinha que, sempre à hora certa das 11, atira para cima dos telhados de lusalite daquelas casinhotas, pedaços de pão velho para os pássaros, enquanto outra cuida da água e da ração dos gatos, meio vadios, que por ali andam e que, neste momento, aproveitam o raro sol que nos tem visitado e se deixam ficar quietos, mas atentos, quais lagartos, a aquecer-se bem enroscados.
Muitas vezes fico ali, a olhar a vida daquele ecossistema urbano, mas nunca é por muito tempo. É que, quando dou por ela, já tenho sentada na cadeira do paciente, a impaciente dona Julieta que, do alto dos seus 85 anos, dá um tossir mais forte, a marcar presença.

domingo, 28 de março de 2010

O REGRESSO





O dia de sol prometia, a brisa suave, mas constante, convidava, o desejo de regressar, de voltar àquele mar, era imenso.
Amarras soltas, defensas arrumadas e a saída da marina com o auxílio do motor.

O mar estava calmo, com uma vaga suave, regular, com cerca de um metro. A vela grande aberta, o motor desligado e a genoa a abrir-se, bem insuflada, e o ir, naquela bolina, quase umas dez milhas para fora da costa.

Foi o regresso, este ano, ao mar, com a promessa de muitas vindas e de muitas viagens.

Mas, mais do que as viagens, as distâncias, ou os portos desejados, é o prazer inebriante que o mar provoca; o estar ali a sentir o vento, a escutar o sulcar das águas, a afinar velas, a puxar cabos, mas, também, a deixar o tempo passar, a ver as aves no seu percurso, na procura do alimento... É o comungar o mar. É o contacto com a natureza.

Cada vez mais esta paixão. A partida e o regresso. E, entre o ir o vir, o Navegar!

Navegar é preciso. Viver não é preciso. E o Pessoa, o poeta sempre, no meio de nós!

sábado, 27 de março de 2010

VOAR

"O céu é o lugar onde o ar é gelado onde respiras e vives, onde desejas poder flutuar, sonhar, correr e brincar todos os dias  da tua vida.
O céu existe para todos, mas só alguns ousam buscá-lo". (Estranho à Terra).

Não sei se não ousam ou se não são capazes.

O "céu" é o local da nossa plenitude, o local ou o momento onde nos encontramos com nós próprios, onde os nossos sonhos são as realidades da nossa imaginação, onde somos a criança que está sempre dentro de nós.

O céu é o nosso jardim privado, o éden dos nossos pensares, onde brincamos a vida, voamos os sonhos, buscamos a felicidade.
 
Quem ambiciona o céu não se fecha em si mesmo, como a ostra que guarda a preciosidade da pérola para si mesma, apesar de a pérola não ser mais do que uma excrescência dela própria.

A cada um o seu "céu"!


sexta-feira, 26 de março de 2010

LIBERDADE

"Ao amanhecer havia cerca de mil pássaros escutando e tentando compreender Fernão Capelo Gaivota.
Ele disse-lhe coisas muito simples: que uma gaivota nasceu para voar, que a liberdade é a essência do seu ser e que todo o obstáculo a essa liberdade deve ser evitado.
 
Podemos ser livres!

Podemos aprender a voar!"

A liberdade é a nossa alma solta, é um conjunto de sentimentos não constrangidos, é um respirar sem opressões, é um olhar sem fronteiras. Liberdade implica, acima de tudo, respeito pelos outros, tolerância.

Qual o valor da liberdade?

quinta-feira, 25 de março de 2010

FERNÃO CAPELO GAIVOTA

"Fernão Capelo Gaivota passou o resto dos seus dias sozinho, mas voou muito além dos longínquos telhados.
A sua única mágoa não era a solidão - era perceber que as outras gaivotas se negavam a acreditar na glória de voar, que se recusavam a abrir os olhos e ver".

Quantos de nós não estamos sozinhos porque não acreditamos? Porque não queremos voar mais além? Porque não vemos para lá daquilo que os nossos olhos nos mostram? Porque não damos mais do que aquilo que temos para dar? Porque é que se perdeu o significado das palavras honra, dedicação, empenho, entrega? Porque é que a mentira é a verdade oficial?

Porquê?

 

quarta-feira, 24 de março de 2010

ALMA DE POETA











O vento era forte
Despenteava as cabeleiras das ondas
E estas, num acesso de raiva incontida,
com uma fúria embravecida
e ajudadas pelo vento norte
castigavam, com força,
aquela rocha,
ali adormecida.

E desfaziam-se em mil espumas
brancas,
leves,
inofensivas.

Até parecia
que aquela rocha,
ali quieta
transformava
a ira em calma,
a violência em brandura,
o azul em alvura.

Quem isto via,
de certeza
tinha alma de poeta!

terça-feira, 23 de março de 2010

O SORRISO DO OLHAR

Gostei de a ver assim contente, como uma criança a quem oferecem prendas, muitas prendas...
Os olhos sorriram, o sorriso brilhou e o coração bateu mais rápido à medida que ia desembrulhando cada um dos presentes. Adivinhei um humedecer especial nos seus olhos lindos.
Depois embrulhou tudo rápido, meteu o tudo no saco e foi trabalhar.
O dia passou-o a pensar no momento de chegar a casa.
E agora imagino-a sentada na borda da cama com as prendas todas espalhadas por cima do edredão e a examinar, uma de cada vez, com atenção, com minúcia, a apreciar os pormenores, a sentir o toque aconchegante da seda, o cheiro da pele...
Que bom ver alguém a sentir-se assim feliz e contente!

segunda-feira, 22 de março de 2010

A MANTA DOS INVISÍVEIS

Acabei de ler num jornal que foi inventado um processo de tornar invisíveis os objectos. Tipo uma espécie de manta reflectora que desvia o olhar e impede de ver o objecto mas dando a sensação de que se vê através dele.
Acho que vai ser comprado por muita gente, muita gente que gosta de se esconder sob a capa da invisibilidade, do pseudónimo, para incomodar os outros, lançar boatos, chatear quem quer tranquilidade. São muitos esses anónimos, toda a gente sabe que existem, têm nome, são joões, manuelas, renatos, teresas, todos assumidamente cobardes. Andam pelos blogues a falar mal deste e desta, a imaginar conversas, a injuriar, a boatar. Chegam mesmo a conseguir a "password" das pessoas e introduzem-se nos seus mails.
Sei de dois casos em que isso aconteceu. Foi feita a denúncia na polícia... até agora só ficou pela denúncia. Espero que, brevemente, essa gente vil possa ser identificada e denunciada.

domingo, 21 de março de 2010

LISBOA FLOR



Os corvos e a caravela
Bandeira desta cidade
Lisboa!
Pintura de aguarela
Feita de sons e claridade.


Os bairros e as colinas,
O Fado e os poetas,
Os Pregões e as varinas,
Lisboa!
Cidade de portas abertas!

O Tejo, ali, mesmo ao lado,
Passeia seu espreguiçar
E o velho Castelo,
Lisboa!
No alto, aprumado
Alcança longe com seu olhar!

Lisboa, menina-moça, bela
Cidade-Luz, feita de cor.
Lisboa!
Quando te vejo da minha janela
Vejo-me num jardim, vejo-te uma flor!

sábado, 20 de março de 2010

CORAÇÃO DE BATER RÁPIDO


Beatrice sonhava. Sonhava um grande amor. Um amor daqueles que arrebatam o coração, a alma, os sentires, os desejos, a vida…
A lua preenchia a noite com a sua luz. Uma luz suave, coada por um céu levemente enublado, que transmitia paz, aconselhava tranquilidade e amolecia aquele coração ansioso e de bater rápido.
A vida passada tinha-lhe legado lembranças que, não raras vezes, deixavam um misto de saudade e de raiva, como um sim e um não, que se equilibram nas proporções mas agitam a alma e aceleram esse bater do coração.

Daniello estava tranquilo, sentado na areia daquela praia vazia, com um livro na mão, mas a olhar longe o mar que rumorejava o bater das ondas pequenas de maré vazia. A lua fazia um carreiro de prata que ondulava ligeiramente sobre as águas quase tranquilas.

“Lindo, este luar!” Foi a única coisa que ela disse para aquele homem bonito, ali sentado. Ficou sem resposta. Será que não ouviu ou prefere ficar calado? De pé descalço foi-se aproximando daquela suave rebentação deixando que as águas quase mornas lhe viessem beijar os pés. Caminhou um pouco ao longo da praia e, quando voltou para cima ele já não estava lá.

Naquela noite Daniello teve dificuldade em adormecer. Aquele “lindo, este luar” dito por aquela mulher de voz grossa, mas quase cantada, com um sotaque italiano, ficou gravado nos seus ouvidos, atravessou-lhe o pensamento e não o deixou dormir. "Lindo, este luar"… a persegui-lo como um encantamento! Não dormiu, mas sonhou, muito!

Beatrice, naquela noite, teve dificuldade em adormecer. Aquele homem bonito sentado na areia, abandonado no olhar e desligado do mundo que o rodeava - e ela que era, naquele momento, o mundo que o rodeava, pois não havia mais ninguém na praia – deixou-a intrigada e de coração mais agitado. Tinham-lhe dito que, quando começasse a sentir o coração a bater mais desencontrado subisse e descesse umas escadas em ritmo apressado e tudo passava. Mas, desta vez, o bater descompassado era outro. Sentia calor no corpo, as mãos ficaram humedecidas de um suor fino, os lábios avermelharam e as emoções da sua juventude pareciam regressar. Não dormiu, mas sonhou muito!

Para Daniello o dia acordou de sol, límpido e de cores lavadas. Decidiu ir à cidade comprar uns livros. A paragem do autocarro ficava relativamente perto e o percurso até ao centro demorava cerca de vinte minutos.

Para Beatrice o dia acordou radioso, luminoso e a sorrir para ela. Tinha aula de saxofone das dez horas até às onze e meia. Praticava há três anos e faltava um ano para terminar o curso. Jazz era o que mais gostava de tocar. A paragem do autocarro distava uns cem metros da sua porta e o percurso até ao centro da cidade demorava cerca de vinte minutos.

Chegaram à paragem quase ao mesmo tempo. Olharam-se com surpresa disfarçada. Ele, por uma questão de cortesia, deu uns bons-dias tímidos. Ela, com uma ansiedade atrapalhada, respondeu com voz baixa ao cumprimento.
Desta vez foi ele que disse: “Temos um bonito dia de sol”. Com a voz grossa, mas titubeante, ela concordou e acrescentou: “Pena ter que ir para a aula de saxofone, apetecia muito mais praia”. “Com uma boa companhia”, respondeu Daniello, ao mesmo tempo que acenava à motorista do autocarro para que parasse ali.

Deixou-a entrar, cortesmente, e sentaram-se ambos ao lado um do outro. Não havia mais passageiros. A motorista, bem negra, cantarolava uma lengalenga monótona…”que raio de vida a minha, ninguém me leva deste lugar, queria de alguém ser rainha, queria contigo casar”… Sorriram um para o outro, com troca de olhares quase cúmplices e deixaram a viagem seguir.

A meio do percurso, perto do miradouro de Santana, Daniello sentiu que as mãos de ambos se tocaram, também os bancos não davam muito espaço e era natural que isso acontecesse. A sensação foi boa, apetecia segurar-lhe a mão, deixar que os dedos se entrelaçassem e sentir o corpo dela encostado ao seu. Beatrice apercebeu-se, também, que as mãos se tocaram, mas não fez qualquer gesto para afastar, pelo contrário, a sensação foi boa, apetecia-lhe segurar a mão, entrelaçar os seus dedos nos dele e sentir o corpo dele encostado ao seu.

“O luar, ontem, estava lindo” disse ela com a sua voz grossa. Desta vez ele respondeu: “Sim estava lindo, e mais encantador ficou quando você apareceu. O meu nome é Daniello, posso saber o seu?” “Beatrice”, respondeu ela acrescentado ambos, logo de seguida, um “muito prazer”.

Desta vez os olhos olharam-se fundo, como que se estudando mutuamente, as mãos foram-se apertando fortes, os dedos começaram a entrelaçar-se e os corpos a encostarem-se com firme determinação. Um sorriso imenso saiu daqueles olhares e um beijo longo confirmou o desejo de ambos.
Passou mais um tempo e eles continuaram, de mãos dadas, com os dedos bem entrelaçados e os corpos assumidamente bem colados. Num momento, ele afastou-se um pouco, olhou-a bem de frente, pegou-lhe de novo nas mãos e, em tom solene e com voz que se ouvisse, perguntou-lhe: “Queres casar comigo, queres ser a minha rainha?”
“Estava a ver que nunca mais perguntavas” sorriu ela com a satisfação a saltar-lhe do peito.

A viagem chegou ao destino e, de mão dada, saíram do autocarro sorrindo no momento em que a negra cantarolava …”deu sorte na vida minha, vou sair deste lugar, vou ser de alguém a rainha, e vou com ele casar”… ao mesmo tempo que lhes piscava o olho, com um sorriso cúmplice.

sexta-feira, 19 de março de 2010

GALILEO GALILEI



Pisa continua com a Torre inclinada. Cada vez mais! Mas está de cara lavada. Branca como nunca tinha sido vista assim, mas ainda de andaimes no quarto andar. Cá em baixo, uma barreira de protecção impede que os milhares de turistas, que a admiram e fotografam, se aproximem demais, não aconteça a queda de algum objecto do local onde ainda as obras decorrem.
Rafaello, com o seu fato-macaco branco imaculado, limpava uma roseta em calcário com uma esponja apropriada, previamente mergulhada em água saponificada com pó de esmeril. Era como uma lixa muito fina que ia retirando o negro da poluição daquelas pedras expostas a um ambiente cada vez mais poluído e corrosivo e, ao mesmo tempo que branqueava a pedra, deixava na sua superfície, ao secar, uma película protectora que atrasava o desgaste da mesma, pelos agentes poluentes. Especializou-se na recuperação de imagens e figuras em relevo feitas em pedra mármore. Já trabalha nesta arte há mais de 20 anos e é considerado um perito na matéria.
O dia tinha acordado risonho de sol, os turistas e estudantes começaram, cedo, a visita ao Campo dei Miracoli: o Baptistério, o Duomo e o cemitério do Campo Santo, juntamente com a mais famosa torre do mundo, constituem o conjunto arquitectónico daquele local. Um conjunto admirável de mistura de elementos mouriscos, como os embutidos de mármore em arabescos geométricos, com delicadas colunas românicas e esguios nichos e pináculos góticos.
As pessoas aglomeravam-se à volta da Torre, os guias com as bandeirinhas, os girassóis de plástico ou outro objecto apelativo, lá iam arrebanhando os seus turistas e explicando o que interessa saber sobre a história da construção da Torre e da sua inclinação. Uma senhora, de alguma idade, mais afoita, passa a barreira frágil que impede o aproximar da Torre e tenta a fotografia única e espectacular, não só pela proximidade mas pela perspectiva de inclinação que aquele local lhe podia proporcionar. Não se apercebeu de qualquer protesto ou aviso para que se afastasse do local. Mas, lá no alto, Rafaello, bem gritava e gesticulava cá para baixo para que a senhora saísse daquele sítio, bem na perpendicular dos seus objectos de trabalho e que repousavam no parapeito da varanda, tão inclinado como a Torre. A altura a que se encontrava e o barulho lá em baixo, não deixavam que a sua voz se fizesse ouvir. Então, num gesticular mais exuberante de desânimo, ou não fosse italiano este Rafaello, bate com a mão esquerda no balde cheio daquela água com esmeril ao mesmo tempo que larga a esponja que tinha na sua mão direita. Ambos os objectos chegaram ao chão exactamente ao mesmo tempo, a fazer lembrar a experiência realizada por Galileo Galilei, no Século XVII, sobre a queda de corpos de pesos diferente, numa clara demonstração que a lei da gravidade (ainda desconhecida naquela época) é imutável.
A senhora, que já estava do lado de fora da cerca junto do seu grupo excursionista, não se apercebeu nada do que se passou e, muito menos, desta original demonstração acidental da lei da gravidade.

quinta-feira, 18 de março de 2010

APAIXONADAMENTE DADAS...



Florença é uma cidade plana, passear a pé não se torna cansativo e as bicicletas e as duas rodas motorizadas são presença constante nas suas ruas estreitas.
Mas, para Bella o dia tinha sido muito cansativo. Acabava de deixar, no hotel Villa de Médici, um grupo de japoneses a quem tinha servido de guia. Eram 17 horas. Tinha começado às 9 horas a visita turística que a agência lhe solicitara. Volta a pé pelo centro da cidade, visita à Galleria dell’ Accademia para ver a estátua de David, passagem pelo Battistero de San Giovanni e pelo Duomo de Santa Maria del Fiore, depois a Piazza della Signoria e um atravessar da Ponte Vecchio sobre o Arno. Do outro lado do rio, um autocarro levou aquele grupo a Siena: uma cidade medieval de ruas íngremes que se dirigem, como os raios de uma estrela, para a Piazza del Campo onde decorre, cada 2 de Julho, o festival mais célebre da Toscana – o Pálio de Siena - uma corrida de 17 cavalos em pêlo, à volta da Piazza, representando, cada um, o seu Contrade (distrito). O vencedor ganha um palio (estandarte). Uma hora de almoço que aproveita para descansar daqueles japoneses cansativos. Depois, a visita ao Duomo de Siena e, em seguida, o regresso apressado por causa das horas - é que o horário tinha de ser cumprido ao minuto e a chegada estava mesmo marcada para as 17 horas.
Despedidas feitas, dirige-se para a bicicleta e, num pedalar apressado, atravessa a cidade em ziguezagueares constantes, numa espécie de gincana, para evitar os turistas que ainda enchiam as ruas da cidade. Quando passou por mim os olhos já brilhavam de alegria e o cansaço, que certamente teria quando pegou na bicicleta, deu lugar a um sorriso satisfeito e apaixonado. Giorgio esperava-a ali, um pouco mais à frente, junto à Piazza della Repubblica. Quando voltei a olhar para os dois, já iam longe, de mãos dadas, apaixonadamente dadas…

quarta-feira, 17 de março de 2010

O CÓDIGO



Desta vez Leonardo intrigou os seus discípulos.
Pegou no carvão, no bloco de apontamentos e pôs-se a escrevinhar com ímpeto, de um lado para outro, agitado.
As cabeças, expectantes, acompanhavam esse movimento, como se assistissem a uma partida de ténis – bola cá, bola lá -...
De súbito a agitação cessou. As cabeças pararam o seu vai e vem.
Leonardo sorriu brevemente.
Pousou o carvão sobre a mesa e abandonou o bloco em cima de um banco, saindo para o jardim.
Todos se precipitaram para ver... apenas umas siglas indecifráveis.
Talvez seja o tal Código de Da Vinci, disse Melzi, seu discípulo favorito.

GÉNIO


A tarde escoava-se rapidamente. O sol apressava-se a desaparecer no horizonte e Catarina, mãe de Leonardo, atarefava-se na preparação do jantar. Accatabriga del Vacca, um afamado pasteleiro de Vinci, ia cear e propor-lhe casamento. Desde que o pai de Leonardo a abandonou, a vida ficara difícil e o casamento com o pasteleiro podia proporcionar-lhe algum desafogo.
E, quem sabe! Talvez Leonardo se tornasse, também, um mestre pasteleiro!
O problema é que as peças de maçapão que Leonardo modelava e deixava a secar ao sol da Toscana não apeteciam ser comidas, antes admiradas como esculturas originais.
Daí mandá-lo para o pai, em Florença, que o entregou a mestre Verrochio.
Assim se perdeu um pasteleiro e se ganhou um génio.

terça-feira, 16 de março de 2010

AEROPORTO



Local de partidas e de chegadas, de encontros, de matar de saudades, de malas perdidas, de lágrimas de despedidas, de risos de alegrias, de compras, de esperas, de desesperos pelos atrasos, de filas, de quase tudo do tudo.
Agora está mais espaçoso, renovado, mais atraente, também muito mais comercial, com muitas lojas novas e muitos restaurantes, a apelar ao consumo, ao gastar do dinheiro vivo, ao utilizar dos cartões do dinheiro plastificado.
Parece mesmo um Centro Comercial com a diferença que, em vez de se regressar ao parque de estacionamento no fim das compras, se toma o avião. Muito mais fino, mais selecto, mais extravagante. O destino não interessa muito: pode ser para o Porto ou Faro, como para Xangai ou Sidney. Eu fico-me timidamente pela Europa, num voo saltitão entre Lisboa, Paris e Florença.
Vou visitar, outra vez, o "meu" David, a ponte Vecchio, passear pelas ruas estreitas e cheias de História feita de muitas histórias, embrenhar-me novamente no espírito dos Médici, olhar as portas do Baptistério, sentar-me numa esplanada na Piazza dela Signora, percorrer, com calma, as bancas do Mercado da Palha, tentar visitar a galeria dos auto-retratos, aquele túnel imenso, por cima da ponte Vecchio, que liga as Gallerias degli Uffizi ao Palácio Pitti, almoçar uma saborosa Ribollita e, claro, comer o melhor gelado do mundo...
Uns dias de folga, de ausência, de afastamento, que vão fazer bem. Estou certo. A paz agitada desta cidade tranquiliza o espírito, revigora a alma e renova a alegria.