domingo, 14 de março de 2010

O SORRISO


Brevemente vou, de novo, a caminho de Itália, outra vez a Florença, com passagem por Paris a cidade onde vivi e fiz parte da minha formação médica.
Duas cidades que têm de comum algo que se passa com esta pequeníssima história que escrevi há uns tempos. É que vem a propósito:

O silêncio que reinava naquele lugar, um amplo atelier em Florença, foi, subitamente, interrompido por uma voz feminina, jovial e entusiasmada. Parecia que estava a contar uma história ou alguma inconfidência. À medida que a narração se desenrolava, entusiasmando atentos ouvintes, ia despertando, de quando em vez, “Ahs” de admiração, cochichos, sorrisos ou gargalhadas bem sonoras que enchiam o espaço daquele atelier.
A discreta Gioconda, que posava para Leonardo, esboçou um sorriso leve, subtil, quase enigmático... Da Vinci apercebeu-se daquele quase sorrir e fixou o instantâneo, não com a máquina fotográfica que, até àquele momento não tinha ainda inventado, mas na tela, com o pincel... Nem sei se também inventou a máquina fotográfica!

O que sei é que o Museu do Louvre, em Paris, ficou com o retrato da Mona Lisa, com os direitos de autor e tem, também, as fotografias do enigmático sorriso à venda.

sábado, 13 de março de 2010

PAI

Se fosses vivo, farias hoje 92 anos. Seria uma bonita idade. Imagino-te onde estás a sorrir para nós, a agradecer os parabéns que daqui, todos, te enviamos. Um beijo e muitos PARABÉNS Pai!

sexta-feira, 12 de março de 2010

CARÁSPITA

A minha tia Túlia era uma mulher ríspida, de poucos sorrires e muitos sobrolhos. Era o oposto da tia Lurdes, sempre a sorrir, com cara boa e olhar terno.

A tia Lurdes nunca dizia a palavra chatice, achava pouco conveniente numa senhora, ficava-se pelo aborrecimento, pelo incómodo, ou quando a chatice era mesmo uma chatice dizia "cha cha"...

Já a tia Túlia era pessoa de outros dizeres: chatice, maçada, tédio, maldição, raiva... naquele tempo era inaceitável dizer outras palavras que se dizem agora com todo o à vontade, embora se pensassem ou fossem ditas pelo próprio, mas na sua intimidade.

Mas ela tinha uma expressão que era o máximo: quando estava extremamente irritada com alguma coisa, quando fazíamos alguma asneira mais grossa, se a chateávamos para além do seu aceitável saía-se com o caráspita e, aí, era a altura para pararmos.

Daí para a frente, o mínimo era o quarto escuro, o castigo de ficarmos virados contra a parede, quando não umas palmadas aplicadas com força, com aquela mão seca, de poucos afagos e que nos deixava as nádegas bem vermelhas e doridas.

Nunca ouvi mais alguém que pronunciasse a palavra caráspita, não a encontro nos dicionários, mas acho que a palavra tem muito de onomatopeico; então se dita com o timbre de voz da tia Túlia, com aquele olhar de fúria e com aquela mão seca, levantada e pronta a actuar...

Penso muito na tia Túlia, cada vez mais... Bem, não sei bem se é nela que penso, se no seu, dela, caráspita. É que hoje em dia, face à pouca vergonha que por aí grassa, às trafulhices, às mentiras, às ignomínias que se praticam, vem-me sempre à ideia de gritar, bem alto, CARÁSPITA, para esta gente ordinária, para esta política, para este governo, para esta forma de vida.


quinta-feira, 11 de março de 2010

CIÊNCIA

Na escuridão daquela sala
uma luz de laser, de cor vermelha,
guia o nosso olhar
demonstrando a evidência de um novo marcador,
indo na descoberta duma célula até então desconhecida,
ou na indicação dum sintoma fora do vulgar.

Mas,
oh contradição,
se a ciência é luz,
se a ciência é descoberta
se a ciência representa abertura,
porque temos, então,
de nos fechar sempre numa sala assim escura?

Responde o sábio:
Amigo, é sina humana
sonharmos com a luz
e persegui-la
dentro da sala obscura
a que chamamos Universo.
E, se nos tenta a ânsia
dum momento fugaz de claridade,
há que fazer um verso
e regressar à circunstância
da sábia obscuridade.

quarta-feira, 10 de março de 2010

OS FRAMBÓSIOS


O senhor José é um homem rude, campesino, mas dócil nas atitudes e no modo como fala com as pessoas e, sobretudo, na maneira muito especial como lida e conversa com as plantas que são o seu mundo. É hortelão desde que se conhece e as roseiras, as plantas de cheiro, os tubérculos, os legumes da horta, as árvores de fruto não têm segredos para ele. Gadanha a terra, semeia, planta, arranja, rega, aduba, desparasita, sulfata, poda, colhe na altura certa... é o seu mundo!
Como gosta de falar, e nem sempre tem gente a seu lado, passa horas esquecidas a monologar com as suas "meninas". São monólogos que traduzem o amor que dedica às suas plantas: "eu bem te disse ontem que a geada desta noite ia dar cabo das tuas folhas, olha lá se não tinha razão?" ou "hoje acordaste bem disposta, és a rosa mais bonita deste rosal" e, sempre que encontra alguém para dialogar, perde-se nas conversas, mas sem descurar o que está a fazer: a abrir o sulco na terra para deixar passar a água que vai regar os feijões, a compor os pimentos verdes caídos por causa da ventania da madrugada, a cortar aquele ramo da macieira de bravo de Esmolfe já meio seco...
Há uns anos compraram-lhe umas estacas de framboesas e de mirtilos para ele plantar na horta onde costuma trabalhar. Nunca tinha ouvido falar em tais nomes nem como seriam os frutos desses arbustos; conhecia os morangos silvestres, as groselhas, as amoras, mas aqueles com nomes esquisitos, isso não. E lá dispôs as plantas em linha, orientadas por arames esticados entre paus fortes espetados no chão e tratou daqueles desconhecidos com todo o esmero e dedicação. O entusiasmo foi grande quando começaram a florir e, maior ainda, quando os frutos começaram a despontar. A natureza e os cuidados do senhor José fizeram com que aqueles novos arbustos se carregassem de muitos frutos que iam surgindo, crescendo e amadurecendo em várias etapas.
Da primeira vez que pediu um recipiente para os colher não se percebeu muito bem o que queria e para quê: era para os "frambósios", dizia ele. Aquele nome, assim, fez lembrar os gambusinos que se apanhavam com um saco e ficou-se na dúvida se não estaria a brincar ou a expressar-se mal. Só junto dos frutos se compreendeu: como eram parecidos com os morangos achava que o nome devia ser masculino e tratou de os baptizar de "frambósios". Não valeu de nada dizer que eram framboesas. O certo é que, lá na Quinta já não há framboesas... só frambósios!

terça-feira, 9 de março de 2010

RENEVAR


Mais uma vez as "minhas" Serras de São Mamede e de Marvão acordaram cobertas por um manto branco de muita neve.
Tem sido uma visitadora assídua destas zonas, a neve! A temperatura caiu durante a noite de uma forma significativa; a quinta arrefeceu o suficiente para que o acordar desta manhã enregelasse os ossos e pedisse, por mais um curto tempo, a preguiça da cama.
Mas o espectáculo lá fora era lindo. A Serra, logo ali, ganhou belos tons grisalhos e despertou desejos de uma volta até Marvão, passando pelos caminhos de São Julião, para apreciar a "Suíça" do Alto Alentejo. Máquina fotográfica em punho e a volta dada durante a manhã, com um frio e um vento cortantes. O espectáculo, sempre novo, agora "renevado" por este inesperado nevão, leva-nos em sonhos para outros locais. Quase me apeteceu calçar as botas, colocar uns esquis e deixar-me ir, assim, sem rumo, sem tempo, nas pistas da minha imaginação.

segunda-feira, 8 de março de 2010

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Hoje deixo aqui a minha homenagem a TODAS as mulheres.
Sempre foram para mim um exemplo de vida, de viver e de vivências.
Obrigado

domingo, 7 de março de 2010

SILÊNCIO DE OLHARES

O dia era de Festa! O terreiro, enorme, estava repleto de pessoas. Ele, menino de uns 6 anos, não sabia qual era o Santo da festa, mas devia ser importante: tinham-lhe vestido um fato à homem, com uma comprida gravata às riscas e um chapéu de feltro que devia ter sido do avô. Apesar de assim vestido continuava a ser o mesmo menino de cabeleira farta e olhos, grandes, de cor verde-mar. Por isso, quando o homem dos balões passou junto a ele, os olhos arregalaram-se e não hesitou em pedir ao padrinho, o tio Manuel, que lhe oferecesse um daqueles balões coloridos que, atados no alto de uma cana, baloiçavam ao sabor do vento. A boa disposição do padrinho - sempre era dia de festa!- traduziu-se na oferta de dois balões grandes e vermelhos. E por ali ficou a brincar, a atirar os balões ao ar, o mais alto possível. A brisa suave daquele fim de tarde ia-os empurrando na direcção do sol que, àquela hora, começava a espreguiçar-se e a preparar-se para dar lugar à lua quase cheia que começava a nascer do outro lado.
Num certo momento apercebeu-se que uma menina o olhava fixamente. Também estava vestida à gente grande: um casaco comprido e um lenço de cores garridas, ao pescoço; de certeza que o chapéu também tinha sido da avó dela! Aquelas flores vermelhas, colocadas sobre a aba, davam a cor que sobressaía da palidez do seu rosto.
Foram-se aproximando lentamente um do outro. O olhar dele fixava os olhos dela e reparou que o olhar daquela menina saltitava entre o seu olhar e aqueles balões vermelhos, que ele, agora, segurava firmemente na mão. Não houve troca de palavras.
Instintivamente, ele pegou na mão da menina e colocou nela o cordel que prendia uma daquelas bolas vermelhas, da mesma cor do sol que agora começava a desaparecer.
Ficaram quietos, a olhar um para o outro, calados por um silêncio talvez cheio de dizeres. Os olhares sorriram e, sem qualquer palavra, os lábios pálidos da menina selaram, com um beijo, o silêncio daquele olhar.

sábado, 6 de março de 2010

A FRONTEIRA DA SEGURANÇA



A máquina fotográfica estava preparada e as cegonhas, naquele fim de dia, também se preparavam para o anoitecer. 

O dia tinha sido bom; os campos, de um verde luminoso depois daquela chuva persistente, constituíam um bom manancial de alimentos vivos: sapos, lagartixas, minhocas, ratos... e o papo estava cheio, consolado.

Tinha começado a época do acasalamento e da reprodução. Em cima do ninho, por ambos construído há já alguns anos, deram início à parada nupcial, feita de rituais próprios, com bateres dos bicos compridos, produzindo aquele som repetido e seco, como castanholas, com as cabeças a inclinarem-se acentuadamente para trás, numa dança complexa feita a dois. Os ramos arranjados e entrelaçados de novo, deixaram o ninho pronto a receber os ovos que irão assegurar o continuar da espécie.

O casal tinha chegado há uma semana: a viagem tinha sido longa, depois do inverno passado a sul do deserto do Saara, alguns milhares de quilómetros de voo feito, cada ano, nos dois sentidos e sempre para este mesmo local. Um sítio ermo, no cimo de uma chaminé em ruínas e suficientemente elevada para que, de lá, se tenha uma boa visão que assegure a procura da comida e a defesa de alguns inimigos tradicionais.

O sol começava a baixar no horizonte, hora boa para uma boa fotografia, a luz coada pela neblina do fim do dia atenuava as cores fortes e amaciava os tons contrastantes.

O casal, lá no cimo, continuava o seu ritual de namoro. O enquadramento estava perfeito, o silêncio daquele fim de tarde era o cúmplice que completava este cenário.

No momento do disparo, o ruído de um galope surdo acompanhado de um ladrar forte e rouco atrapalhou a fotografia, as cegonhas interromperam o namoro e, num bater forte de asas, planaram para longe. O rafeiro alentejano aproximou-se, agora com um ladrar mais feroz e a mostrar uns dentes agressivos prontos a rasgar. Felizmente o arame farpado estabeleceu a fronteira da minha segurança.

A foto, essa, fica para a próxima vez!


(DO AUTOR -  MOMENTO DE TERNURA - PORTALEGRE)

sexta-feira, 5 de março de 2010

ESCULPIR VIDAS


Desta vez tinham-lhe encomendado uma cabeça de cavalo.
Diante dele, um bloco disforme de um mármore branco mesclado, aqui e ali, de rosa e de negro. Ele gostava sempre de trabalhar ao ar livre e, nesse dia, uma neblina mais cerrada amaciava as sombras e humedecia, ainda que ligeiramente, a superfície da pedra. A prudência aconselhava o uso de óculos protectores e costumava resguardar as mãos com umas luvas de pele fina de modo a que pudesse sentir, pelo tacto, a superfície da pedra que iria talhar. Pegou no martelo e no escopro e pôs-se a dilacerar aquele pedaço duro de pedra de uma forma violenta mas orientada. As lascas saltavam do mármore a cada golpe do martelo e iam deixando descobrir aquilo que o artista via no seu interior. A pouco e pouco iam emergindo uma orelha, depois um pedaço de crina, as narinas abriam-se ao rodar rápido do escopro e os olhos iam ganhando vida à medida que os bateres na pedra se iam suavizando. Foram semanas de um trabalho feito a um ritmo desordenado, mas persistente. A pouco e pouco a cabeça foi ganhando personalidade e, nesse correr do tempo, o toque na pedra passou a fazer-se de forma mais branda, mais subtil, quase como um afago, um aconchego.
A obra estava, já, perto do fim. Nesse dia tinha trabalhado quase oito horas seguidas a acertar pormenores, a alisar as poucas asperezas que ainda sentia com o passar dos dedos, a pentear a crina longa e farta que cobria grande parte do pescoço forte de onde emergiam veias bem salientes. E começou a criar um afecto, quase paternal, pela sua obra.
Já tinha esculpido muitas cabeças de cavalo, todas encomendadas, todas vendidas. Mas esta decidiu guardá-la para si, criando um local especial no pequeno museu das suas peças.
Com todos os cuidados transportou a obra terminada para aquela sala acolhedora e bem iluminada, colocando-a no topo de um pedestal de mármore preto.
Era uma obra perfeita, quase real, imaginava-se o respirar por aquelas narinas bem abertas e os olhos, matizados suavemente de rosa e negro, davam a ideia de que viam o que se passava ao seu redor. Ficou horas esquecido a contemplar a sua obra, tocando-a docemente e afagando-a como se tivesse vida.
Quando ia a sair, no momento em que fechava a porta ouviu um breve relincho e, ao voltar-se, ainda teve tempo de ver aquele olhar cheio de vida dar-lhe uma piscadela de agradecimento.

quinta-feira, 4 de março de 2010

PEDACINHOS DA VIDA

Para que servem as rotinas?

Para ciclizar a nossa vida?

Para habituar o nosso viver a uma constância de atitudes?

Ou será que existem para serem quebradas? 

É uma expressão muito usual, essa a de "quebrar a rotina". Isto deve querer significar que a rotina é uma coisa frágil, delicada, pois se ela se quebra com tanta facilidade! 

Mas o quebrar da rotina pode ter várias formas: pode ser uma rotina consistente, que está entranhada no nosso modo de viver, como o acordar, o tomar banho, o fazer a barba, que não se quebra com facilidade, mas que uma vez por outra pode ser amolgada, quando decidimos não fazer a barba naquela manhã, ou nos deixamos a espreguiçar na cama por mais uns tempos - então, aqui, não quebramos, mas amolgamos a rotina; 
uma outra rotina é a que é feita dos sítios que habitualmente, ou rotineiramente, para melhor enfatizar o termo, frequentamos, como o local da bica ou do almoço, os pontos de encontro com os amigos, o supermercado onde fazemos as compras, e esta pode ser, também, não quebrada mas desviada temporariamente para outros locais, estilo agulha do caminho de ferro, em que mantemos o mesmo rumo, mas por outras vias, pois, mais tarde ou mais cedo, tornamos aos mesmos locais - também aqui, não quebramos, nem amolgamos, mas podemos dizer que desviamos a rotina; 
já uma mudança de residência, uma mudança de profissão, uma mudança de vida, podem ser mais assumidas e interpretadas com o tal quebrar da rotina e este quebrar pode ter vários graus: desde o rachar, ao estilhaçar, ao pulverizar.

E quando estilhaçamos ou pulverizamos a rotina, não vale a pena tentar unir os pedacinhos nem arranjar cola para os consolidar. Uma vassoura e uma pá, ou um bom aspirador, solucionam o problema. É que, quando se tenta colar, remendar ou remediar, no fim, vão-se sempre encontrar imperfeições, asperezas, conflitos...
Eu cá não tenho espírito de arqueólogo, não gosto de andar a juntar os pedacinhos da vida.

quarta-feira, 3 de março de 2010

PRAZERES

O almoço era excelente, o local não podia ser mais maravilhoso, a vista da janela perdia-se na imensidão daquele mar azul forte, bem tingido... quase apetecia mergulhar o aparo da caneta com que anoto os meus apontamentos e escrever com aquela tinta azul, bem salgada. De certeza que a escrita ia ganhar outro sabor, mas esta mania das medicinas refreou-me um pouco o entusiasmo porque associei, de imediato, o sal ao aumento da pressão arterial.
De qualquer modo vinguei-me durante a refeição: uma sopa cremosa com calabresa, aquela linguiça fatiada e bem salgada, a fumegar e a fazer-me lembrar a canja de galinha em Tormes ("desconfiado - Jacinto - provou o caldo que era de galinha e rescendia. Provou... e levantou uns olhos que brilhavam, surpreendidos." - Eça de Queiroz in A Cidade e as Serras); depois, e porque a vizinhança daquele mar tranquilo exigia um prato a condizer fui surpreendido por um Strogonoff de arangosta (lavagante) com risoto de trufas negras, de sabor e apresentação espectaculares e acompanhado de um vinho branco soberbo, um Lacrima Christi de 2008, na boa temperatura - um vinho dourado que deixa um adeus inesquecível; finalmente um Zabaglione com frutos vermelhos temperado com um Marsalla seco para cortar o doce deste fim de refeição.
Não sei se o fígado protestou, se a pressão arterial subiu, se os diabetes açucararam o meu sangue ou se o colesterol me besuntou, ainda mais, as minhas coronárias. Também não notei que o Lacrima Christi ou o Marsalla me tivessem perturbado o espírito.
Apenas sei dizer que senti uma onda de prazeres a invadir o meu sossego naquele começo de tarde em que me fui despedir daquele lugar.

terça-feira, 2 de março de 2010

DESPERTARES


ELA: Despertaste para mim, dizes... É o coração que nos diz o que é para ser visto... Os abraços que não se abrem são mortais para o amor, mas tu soubeste acolher-me, não como se de um inapelável destino se tratasse. Abriste os braços da vida para mim, aconchegaste-me no seio da tua intimidade, por isso me deixo adormecer nos sonhos das nossas vidas.
Tu dormes, mas não é sonho, eu existo!

ELE: Ambos existimos! Achamos bonito o que sentimos, porque é verdadeiro e também porque te sinto nos meus abraços, porque te acarinho no aconchego da nossa intimidade, porque te deixas adormecer assim, enroscada na entrega da nossa devoção.
Eu não te peço nada!

segunda-feira, 1 de março de 2010

E SE EU TIVESSE NASCIDO A 29 DE FEVEREIRO?

Como ia comemorar o meu aniversário? Na fracção de segundo ou no ínfimo instante que separa o 28 de Fevereiro do 1 de Março? Ou, só cada 4 anos, na ocasião em que os anos são bissextos? Fiquei cheio de dúvidas em como o iria fazer. E pus-me, por isso, a pensar. E acho que não o faria, nem de uma maneira, nem de outra, acho que iria passar a festejar o meu aniversário cada dia; claro que não teria esse nome e passaria a chamar-lhe diaversário e pronto! Ficava resolvido o problema.
Agora, tanto poderia ter nascido a 29 de Fevereiro, como a 1 de Agosto, ou a 28 de Outubro... qualquer dia dá! Para os amigos tem a vantagem de não ter que se comprar, de cada vez, a prenda dos anos... só a prenda dos dias e que seria proporcional à comemoração: um abraço, um beijo, um olá, um aroma de perfume "Pleasures", um grão de café "Delta platina", ou outra coisa qualquer... E, também, sem ter a obrigação de dar os parabéns diariamente.
E quando se recebe um telefonema, mesmo que não seja dos amigos a dar os parabéns, mesmo que seja daquelas chamadas chatas que nos costumam estragar o dia, sempre há a oportunidade de começar por agradecer com um "muito obrigado", ou um "agradeço muito a atenção por se ter lembrado do meu diaversário". Todos sabemos como um agradecimento pode mudar tanta coisa na vida...
Então, porque não comemorar diariamente o diaversário?
É que uma visita feita às necrópoles de Herculano e Pompeia, no sopé do Vesúvio, despertou-me, ainda mais, para os valores da vida em oposição à morte. É preferível, mil vezes mais, renascer cada dia, sorrir para a vida e andar em frente, do que ir morrendo ou fenecendo, quotidianamente, numa apoptose inglória e fatalista.
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domingo, 28 de fevereiro de 2010

CASTANHAS ASSADAS

Àquela hora, a animação e o movimento davam conta da pequenina praça onde se situa a Fontana de Trevi. No meio do cantarolar italiano, o inglês americanizado dominava o linguarejar daquela turba de pessoas: as poses para as fotografias a testemunhar o "eu estive aqui", as luzes dos flashes, o atirar da moeda para dentro de água a querer garantir o "eu hei-de voltar, de novo aqui" são a constante daquele lugar que, durante a noite, ganha um carisma especial.
Também a Praça de Espanha e a sua escadaria, cheia de pessoas, cheia de vida e de sons feitos mistura de falas, de pregões, de músicas de rua, tem um sabor mais especial à noite. Um sabor feito, também, com cheiros de algodão doce e, sobretudo, de castanhas assadas. Caras, mas de bom tamanho e inconfundíveis no aroma e no paladar.
O saborear das castanhas, por momentos, transporta-nos o pensar para a terra lusa, um pensar curto e breve que, como o eco, é rapidamente devolvido ao local que nos rodeia. É que é necessário continuar a cumprir com a máxima universalmente estabelecida: "em Roma, sê romano".

sábado, 27 de fevereiro de 2010

VENTANIA

A estrutura abana, o vento sibila gritante, com sonoridades muito fortes, como roncos de um Adamastor a despertar, assustador e medonho. A chuva, acelerada por este vento possante, bate com força no rosto, castiga o corpo, ensopa as pernas e os pés mal protegidos.
Na paragem do autocarro vai esperando, com a mala de viagem a seu lado, o BUS que tarda. Não há um canto onde se abrigar e não tem outro remédio se não aguentar, estoicamente, a ventania que o envolve. Mas a expectativa de uma jornada diferente anima-o, desperta-lhe um sorrir mal disfarçado nos lábios.
Por vezes também é assim na vida: temos de aguentar, com coragem e com determinação, as intempéries do dia a dia, as agruras das pessoas, os derrotes... mas temos, também, de saber olhar em frente e deixar, sempre, que o sorriso do viver nunca nos abandone.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

LUTO

Chora-se sempre a perda de uma vida. Mas quando a proprietária dessa vida nos toca de alguma maneira, quando a convivência foi longa no tempo, quando os afectos se enraízam, a comoção da partida atinge-nos de forma mais especial.
Um adeus sentido. Até ao reencontro.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

REGRESSO A TI

De partida e preparando já o retorno.
Com saudades curtas porque a Itália vai preenchendo, este ano, uma boa parte da agenda das viagens de sonho.
Roma, a próxima, uma promessa de aniversário a cumprir, imaginando boas conversas e muita cumplicidade. Visitando a bela e monumental cidade, mas também Nápoles, Vesúvio, Sorrento, Isola de Capri... Um roteiro preparado há muito tempo: feito com afectos, com entusiasmos. A juntar às 50 recordações carinhosamente reunidas ao longo dos tempos próximos passados e bem escondidas de curiosidades alheias.
Depois, e de novo, Florença, San Giminianno, Siena, Pisa locais para re-reviver: espero que, desta vez, com alguma primavera a acompanhar.
As notícias e os relatos deste REGRESSO A TI, Itália, irão saindo.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

ACONCHEGO DE TERNURA

ELA: Enquanto dormes... Existe uma ponte e não é distante, onde me leva em pensamentos e por desejos faço-me presente diante de ti... Tudo em ti repousa...Envolvo teu mistério irredutível numa cálida atmosfera de amor e compreensão, enquanto dormes...

ELE: E quando acordo... tua presença, mesmo distante, faz-se sentir em mim, na cálida e envolvente atmosfera de amor e compreensão.
E quando o olhar se abre vejo... teus olhos doces, teu sorriso brando, a repousar sobre mim, qual lençol de seda que me afaga.
E quando me levanto da cama... sinto teu abraço quente, teu corpo se encostando ao meu pedindo aconchego de ternura.
E quando te beijo... nossos lábios sabem ao que procuram.
... não me acordaste, eu é que despertei para ti.

LUGARES DE SONHO

Em Florença existem lugares de sonho, locais onde, só pelo facto de se estar, de se respirar o ambiente, a alma fica cheia e os sentires plenos de imenso bem-estar. Existe um pequeno café, quase no final da ponte Vecchio, junto à margem oposta à da cidade, onde se materializa bem esse sonho de lugar.
O fim de tarde escurecido ainda mais por nuvens ameaçadoras de chuva grossa e bem molhada aconselhou-me a procura de um refúgio e para lá me dirigi guiado por memórias recentes de outra vinda aqui.
E ali fiquei, esquecido do tempo, com um livro a servir-me de companhia. Apreciei quem estava, olhei quem entrava e quem saía. Não dava para ouvir as conversas, que eram feitas em tom adequado à tranquilidade do local. Tomei, com o tempo que queria, uma infusão de maçã e canela e saboreei um bolo de chocolate, daqueles que se derretem na boca com a volúpia de uma gula mesmo pecaminosa... até deu para lamber os dedos!
Assim me deixei ficar, meia hora (?) uma hora (?), não sei! Só sei que deixei o tempo correr por mim, como o rio que corria, este apressado, debaixo dos meus pés.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

FIRENZE, DE NOVO


Florença fascina-me. É um local onde o respirar se faz de sonhos, onde o sonhar vive de saudades, onde as saudades são feitas de realidades passadas. A praça da Senhorinha, a ponte Vecchio, a Catedral, o mercado da palha, David sempre presente, mais as Galerias, os palácios, as vistas sobre o rio, os pequenos restaurantes, o bulício de vida e, claro, o melhor gelado do mundo... tudo deixa encanto, desperta recordações próximas, apazigua tempestades interiores.
Hei-de voltar, de novo, proximamente, para beber um pouco mais desta cidade de doçuras.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

É CARNAVAL! NINGUÉM LEVA A MAL!

A notícia saiu no dia de Carnaval e a malta do governo (com minúscula) e das cliques e claques políticas acham que, por ter saído neste dia, ninguém vai achar nem levar a mal.
Eles, claro, já foram a tudo o que é radio e televisão, dizer que é uma honra e o resultado de uma boa política internacional (executada pelo senhor Sócrates), a nomeação (acreditam que foi alguma eleição?) do nosso governador do Banco de Portugal (o senhor Vítor Constâncio), para vice-governador do Banco Central Europeu.
Diz ele que a vice presidência é "um cargo de grande exigência técnica, o que me cria um sentimento de grande responsabilidade". Pode ser que agora venha a ser responsabilizado pelas mais diversas falcatruas que se fizeram nos nossos bancos desde o Millenium BCP, onde o nosso vara da face oculta é vice-presidente, ao BPN e ao BPP, e que puseram em causa a supervisão do Banco de Portugal e do seu Chefe Máximo, esse tal de sr. Vítor Constâncio.
Acham que os depositantes desses bancos mal supervisionados pelo sr. Constâncio vão ficar satisfeitos? Acham que não vão levar a mal?
E o ordenadito que ele vai ganhar? Pouca coisa... Deve dar para ajudar a equilibrar as finanças de quem ficou sem nada nos bancos que ele não supervisionou (ou não lhe interessou supervisionar!). Com aquele ar de pessoa triste vai, de certeza, distribuir o dinheiro por quem mais necessita!
É o país que somos e os governantes que temos!
E se a malta toda deixasse de pagar impostos? (os tais que eles querem aumentar para pagar os ordenados e as reformas douradas deles?).
Não era uma guerra civil, mas seria uma boa movimentação civil...
Neste país já tudo cheira mal e, de certeza que não é por causa das bombinhas de mau cheiro (aquelas do Carnaval de antigamente, lembram-se?).

sábado, 13 de fevereiro de 2010

CORRIDA LENTA NUM CAMINHAR RÁPIDO

Corria lento no caminhar rápido que se propusera.

O dia tinha acordado soalheiro, pintalgado por uma ou outra mancha branca de nuvens a anunciar calor. Roupa leve, calçado cómodo e um chapéu branco para proteger do excesso de sol na cara e nos olhos. É que isto de olhos azuis e de pele clara não gostam muito da luz intensa. E o dia prometia!

O destino, naquele passo apressado, ficava a cerca de três quartos de hora. Resolveu dar uma folga de quinze minutos e, assim, ficava a dispor de uma hora, o que lhe dava margem para, no final do passeio, tomar uma bica amarga, mas cheia de sabor e aroma, na esplanada que fica defronte do atelier.

A pintura constituía, desde há mais de dois anos, uma forma de preencher o tempo que agora dispunha em abundância. Não que se considerasse um pintor, ou disso quisesse fazer modo de vida, mas sentia necessidade de expressar, em tela, as cores e os motivos que lhe preenchiam a cabeça. Descobrira aquele piso de janelas rasgadas sobre o mar. A luz era mais intensa da parte da tarde e o ocaso, sempre diferente e sempre ansiado, justificava a sua maior dedicação ao sol, à ondulação e ao mistério.

À medida que ia caminhando, o tal caminhar rápido, o seu pensamento ia voando de um lado para outro, deslocalizava-se, e se num momento vivia o ambiente que o rodeava: a rua, as casas, as pessoas com quem se cruzava, o barulho dos carros; no outro, sentia-se a passear na montanha, a subir encostas, a vaguear entre pinheiros, carvalhos, sobreiros e medronheiros; os cheiros da terra, os rumores do vento, os cantos dos pássaros e os ralos dos insectos enchiam-lhe a imaginação.

Como por magia, o passo rápido, o tal caminhar apressado da meta dos quarenta e cinco minutos com mais quinze para a bica, no passeio cimentado, liso e confortável ao caminhar, transformava-se num caminhar lento, o caminho tornava-se irregular, pedregoso por vezes, atapetado aqui e ali de folhas e ramos que convidavam a tropeçares e a um andar hesitante; o passeio desenhado a esquadro que acompanhava os prédios, que fazia ângulos retos nas esquinas desaparecia e deixava-se contornar por arbustos que foram crescendo ao dará dos ventos, das chuvas, dos tempos; o tempo deixou de ter tempo, as paragens nos semáforos para peões, nos atravessares de rua apressados, passaram a contemplações intemporais até onde o olhar alcançava; os ruídos dos veículos a motor eram sons de floresta; os cheiros da rua sublimavam-se em aromas campestres que o envolviam.

Tudo isto em flashes de alguns segundos, minutos(?) e, de novo, o regresso à realidade, aos pregões das peixeiras, agora que atravessava o mercado, ao colorido das bancas de legumes, aos verdes, aos amarelos e aos vermelhos, ao cheiro intenso da zona dos queijos, ao encontro com um conhecido, ao bom dia e ao como vai, que a circunstância exigia.

Faltava pouco, mais um tempo de nada, e o gaio a passar-lhe à frente, com um gralhar roufenho, abrindo as asas de um azul mesclado de tons de mel, atravessando a mata, sem hesitações, num zig-zag de gincana; o balido das ovelhas a pastar naquela baixa de terreno cheio de pasto bem verde; o latir longínquo dos cães de guarda da quinta na outra encosta da serra.

Nem se lembra se chegou ao atelier ou se bebeu a tal bica amarga cheia de sabor! A verdade é que as memórias dessa manhã ficaram nos latires dos cães que  ecoavam daquela encosta do outro lado da sua vida…

CLUBE DA LETRA


O Clube da Letra nasceu no dia 8 de Fevereiro de 2000, no Rio de Janeiro, pela mão de António Chibante e Francisco Amaral, ambos portugueses e residentes no Rio há já muitos anos. Cedo se juntaram António Basílio, Carlos Barata e Cecília de Castro. Desde então muita água passou nos ribeiros, muita gente que entrou e amigos que sairam, muitas mudanças de ambiente e de cenários aconteceram, mas fazendo com que o Clube da Letra fosse crescendo e amadurecendo. Sem dar por isso, o Clube da Letra está festejando o seu 10º aniversário. Para comemorar a década nada mais do que festejar da melhor maneira. Como diria Pessoa, se "a minha pátria é a língua portuguesa", vai de apagar as velas na terra do Portugal que pariu aquele Brasil imenso. E assim foi. Um grupo de elementos do Clube, onde pontificam António Chibante, Cecília Castro (a Presidente cessante), Aloysio Kelly (o actual Presidente), Marion Mac Dowell, Ângela Dutra de Meneses (a autora de "O Português Que Nos Pariu"), António Basílio Rodrigues, Marcos Jorge Gasparian, Ana Maria Kelly, Nãna Pirez, entre outras e outros veio em peregrinação a Portugal, passando pelo Porto, onde se encontraram com o António Ramalho de Almeida (membro correspondente no Porto) e festejaram, mesmo no dia 8, os 10 aninhos do Clube. Foi um motivo de dupla satisfação e comemoração para António Chibante, o pai do Clube, pelo facto de, também ser natural da cidade do Porto, mais propriamente da Ribeira. Depois de uma passagem por Coimbra e Óbidos, o grupo desceu à cidade de Fernando Pessoa e foi obsequiado com um magnífico almoço em casa de Pedro de Moura Reis (o bolinho da bacalhau e o arroz de pato à antiga portuguesa, assim como o vinho do Porto e o leite creme à sobremesa faziam parte da ementa) onde se estabeleceu um são convívio, se fez leitura, ou não fosse o Clube da Letra. Esta passagem por Portugal tem o seu epílogo esta noite de sábado, 13 de Fevereiro, com um jantar no Martinho da Arcada, o café e restaurante da preferência do Fernando Pessoa. O Martinho da Arcada, inaugurado em 1782 é um ícone da cidade e a referência ao poeta Fernando Pessoa. Da ementa farão parte o Caldo Verde e o Bacalhau à Martinho. Certamente que irá ser lida poesia, se irá celebrar a língua portuguesa e a confirmação de Raul Amaral Marques como membro correspondente do Clube da Letra em Lisboa.
Mais um episódio da vida do Clube. Muitos anos bons, de produção literária, de muita amizade e confraternização.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

NOVOS E BONS SENTIRES

É verdade que vale a pena acreditar e confiar na vida e nas pessoas, mas nem sempre naquilo ou nas pessoas que julgávamos ser as certas para nós: quantas vezes, debaixo da capa da fidelidade não vamos descobrir traições (?), ou mentiras, apesar de cobertas por mantos de "verdades"? Quantos nós se vão atando ao longo da nossa vida, uns, pequenos e fáceis de resolver, outros mais complicados e complexos, aos quais não conseguimos descortinar as pontas? Quantas vezes não ficamos presos na vida simplesmente porque temos dificuldades em desatar um nó?
Mas, para tudo há uma solução: mesmo o Nó Górdio foi desfeito, de forma radical, a golpes de espada. A verdade, mesmo que doa, é que muitas vezes temos que entender que, na vida, há coisas e situações que têm de ser resolvidas assim: "d'un coup", como diria o meu amigo Jean Jacques.
Assim resolvidas, não deixam excrescências traiçoeiras, exigências disparatadas ou sentimentos desagradáveis que possam incomodar sentires novos e bons, permitindo a construção de um futuro mais risonho, mais esperançoso e, sobretudo, mais saudável.
A alma sente-se solta, o coração mais leve e a disponibilidade total.