domingo, 28 de fevereiro de 2010

CASTANHAS ASSADAS

Àquela hora, a animação e o movimento davam conta da pequenina praça onde se situa a Fontana de Trevi. No meio do cantarolar italiano, o inglês americanizado dominava o linguarejar daquela turba de pessoas: as poses para as fotografias a testemunhar o "eu estive aqui", as luzes dos flashes, o atirar da moeda para dentro de água a querer garantir o "eu hei-de voltar, de novo aqui" são a constante daquele lugar que, durante a noite, ganha um carisma especial.
Também a Praça de Espanha e a sua escadaria, cheia de pessoas, cheia de vida e de sons feitos mistura de falas, de pregões, de músicas de rua, tem um sabor mais especial à noite. Um sabor feito, também, com cheiros de algodão doce e, sobretudo, de castanhas assadas. Caras, mas de bom tamanho e inconfundíveis no aroma e no paladar.
O saborear das castanhas, por momentos, transporta-nos o pensar para a terra lusa, um pensar curto e breve que, como o eco, é rapidamente devolvido ao local que nos rodeia. É que é necessário continuar a cumprir com a máxima universalmente estabelecida: "em Roma, sê romano".

sábado, 27 de fevereiro de 2010

VENTANIA

A estrutura abana, o vento sibila gritante, com sonoridades muito fortes, como roncos de um Adamastor a despertar, assustador e medonho. A chuva, acelerada por este vento possante, bate com força no rosto, castiga o corpo, ensopa as pernas e os pés mal protegidos.
Na paragem do autocarro vai esperando, com a mala de viagem a seu lado, o BUS que tarda. Não há um canto onde se abrigar e não tem outro remédio se não aguentar, estoicamente, a ventania que o envolve. Mas a expectativa de uma jornada diferente anima-o, desperta-lhe um sorrir mal disfarçado nos lábios.
Por vezes também é assim na vida: temos de aguentar, com coragem e com determinação, as intempéries do dia a dia, as agruras das pessoas, os derrotes... mas temos, também, de saber olhar em frente e deixar, sempre, que o sorriso do viver nunca nos abandone.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

LUTO

Chora-se sempre a perda de uma vida. Mas quando a proprietária dessa vida nos toca de alguma maneira, quando a convivência foi longa no tempo, quando os afectos se enraízam, a comoção da partida atinge-nos de forma mais especial.
Um adeus sentido. Até ao reencontro.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

REGRESSO A TI

De partida e preparando já o retorno.
Com saudades curtas porque a Itália vai preenchendo, este ano, uma boa parte da agenda das viagens de sonho.
Roma, a próxima, uma promessa de aniversário a cumprir, imaginando boas conversas e muita cumplicidade. Visitando a bela e monumental cidade, mas também Nápoles, Vesúvio, Sorrento, Isola de Capri... Um roteiro preparado há muito tempo: feito com afectos, com entusiasmos. A juntar às 50 recordações carinhosamente reunidas ao longo dos tempos próximos passados e bem escondidas de curiosidades alheias.
Depois, e de novo, Florença, San Giminianno, Siena, Pisa locais para re-reviver: espero que, desta vez, com alguma primavera a acompanhar.
As notícias e os relatos deste REGRESSO A TI, Itália, irão saindo.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

ACONCHEGO DE TERNURA

ELA: Enquanto dormes... Existe uma ponte e não é distante, onde me leva em pensamentos e por desejos faço-me presente diante de ti... Tudo em ti repousa...Envolvo teu mistério irredutível numa cálida atmosfera de amor e compreensão, enquanto dormes...

ELE: E quando acordo... tua presença, mesmo distante, faz-se sentir em mim, na cálida e envolvente atmosfera de amor e compreensão.
E quando o olhar se abre vejo... teus olhos doces, teu sorriso brando, a repousar sobre mim, qual lençol de seda que me afaga.
E quando me levanto da cama... sinto teu abraço quente, teu corpo se encostando ao meu pedindo aconchego de ternura.
E quando te beijo... nossos lábios sabem ao que procuram.
... não me acordaste, eu é que despertei para ti.

LUGARES DE SONHO

Em Florença existem lugares de sonho, locais onde, só pelo facto de se estar, de se respirar o ambiente, a alma fica cheia e os sentires plenos de imenso bem-estar. Existe um pequeno café, quase no final da ponte Vecchio, junto à margem oposta à da cidade, onde se materializa bem esse sonho de lugar.
O fim de tarde escurecido ainda mais por nuvens ameaçadoras de chuva grossa e bem molhada aconselhou-me a procura de um refúgio e para lá me dirigi guiado por memórias recentes de outra vinda aqui.
E ali fiquei, esquecido do tempo, com um livro a servir-me de companhia. Apreciei quem estava, olhei quem entrava e quem saía. Não dava para ouvir as conversas, que eram feitas em tom adequado à tranquilidade do local. Tomei, com o tempo que queria, uma infusão de maçã e canela e saboreei um bolo de chocolate, daqueles que se derretem na boca com a volúpia de uma gula mesmo pecaminosa... até deu para lamber os dedos!
Assim me deixei ficar, meia hora (?) uma hora (?), não sei! Só sei que deixei o tempo correr por mim, como o rio que corria, este apressado, debaixo dos meus pés.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

FIRENZE, DE NOVO


Florença fascina-me. É um local onde o respirar se faz de sonhos, onde o sonhar vive de saudades, onde as saudades são feitas de realidades passadas. A praça da Senhorinha, a ponte Vecchio, a Catedral, o mercado da palha, David sempre presente, mais as Galerias, os palácios, as vistas sobre o rio, os pequenos restaurantes, o bulício de vida e, claro, o melhor gelado do mundo... tudo deixa encanto, desperta recordações próximas, apazigua tempestades interiores.
Hei-de voltar, de novo, proximamente, para beber um pouco mais desta cidade de doçuras.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

É CARNAVAL! NINGUÉM LEVA A MAL!

A notícia saiu no dia de Carnaval e a malta do governo (com minúscula) e das cliques e claques políticas acham que, por ter saído neste dia, ninguém vai achar nem levar a mal.
Eles, claro, já foram a tudo o que é radio e televisão, dizer que é uma honra e o resultado de uma boa política internacional (executada pelo senhor Sócrates), a nomeação (acreditam que foi alguma eleição?) do nosso governador do Banco de Portugal (o senhor Vítor Constâncio), para vice-governador do Banco Central Europeu.
Diz ele que a vice presidência é "um cargo de grande exigência técnica, o que me cria um sentimento de grande responsabilidade". Pode ser que agora venha a ser responsabilizado pelas mais diversas falcatruas que se fizeram nos nossos bancos desde o Millenium BCP, onde o nosso vara da face oculta é vice-presidente, ao BPN e ao BPP, e que puseram em causa a supervisão do Banco de Portugal e do seu Chefe Máximo, esse tal de sr. Vítor Constâncio.
Acham que os depositantes desses bancos mal supervisionados pelo sr. Constâncio vão ficar satisfeitos? Acham que não vão levar a mal?
E o ordenadito que ele vai ganhar? Pouca coisa... Deve dar para ajudar a equilibrar as finanças de quem ficou sem nada nos bancos que ele não supervisionou (ou não lhe interessou supervisionar!). Com aquele ar de pessoa triste vai, de certeza, distribuir o dinheiro por quem mais necessita!
É o país que somos e os governantes que temos!
E se a malta toda deixasse de pagar impostos? (os tais que eles querem aumentar para pagar os ordenados e as reformas douradas deles?).
Não era uma guerra civil, mas seria uma boa movimentação civil...
Neste país já tudo cheira mal e, de certeza que não é por causa das bombinhas de mau cheiro (aquelas do Carnaval de antigamente, lembram-se?).

sábado, 13 de fevereiro de 2010

CORRIDA LENTA NUM CAMINHAR RÁPIDO

Corria lento no caminhar rápido que se propusera.

O dia tinha acordado soalheiro, pintalgado por uma ou outra mancha branca de nuvens a anunciar calor. Roupa leve, calçado cómodo e um chapéu branco para proteger do excesso de sol na cara e nos olhos. É que isto de olhos azuis e de pele clara não gostam muito da luz intensa. E o dia prometia!

O destino, naquele passo apressado, ficava a cerca de três quartos de hora. Resolveu dar uma folga de quinze minutos e, assim, ficava a dispor de uma hora, o que lhe dava margem para, no final do passeio, tomar uma bica amarga, mas cheia de sabor e aroma, na esplanada que fica defronte do atelier.

A pintura constituía, desde há mais de dois anos, uma forma de preencher o tempo que agora dispunha em abundância. Não que se considerasse um pintor, ou disso quisesse fazer modo de vida, mas sentia necessidade de expressar, em tela, as cores e os motivos que lhe preenchiam a cabeça. Descobrira aquele piso de janelas rasgadas sobre o mar. A luz era mais intensa da parte da tarde e o ocaso, sempre diferente e sempre ansiado, justificava a sua maior dedicação ao sol, à ondulação e ao mistério.

À medida que ia caminhando, o tal caminhar rápido, o seu pensamento ia voando de um lado para outro, deslocalizava-se, e se num momento vivia o ambiente que o rodeava: a rua, as casas, as pessoas com quem se cruzava, o barulho dos carros; no outro, sentia-se a passear na montanha, a subir encostas, a vaguear entre pinheiros, carvalhos, sobreiros e medronheiros; os cheiros da terra, os rumores do vento, os cantos dos pássaros e os ralos dos insectos enchiam-lhe a imaginação.

Como por magia, o passo rápido, o tal caminhar apressado da meta dos quarenta e cinco minutos com mais quinze para a bica, no passeio cimentado, liso e confortável ao caminhar, transformava-se num caminhar lento, o caminho tornava-se irregular, pedregoso por vezes, atapetado aqui e ali de folhas e ramos que convidavam a tropeçares e a um andar hesitante; o passeio desenhado a esquadro que acompanhava os prédios, que fazia ângulos retos nas esquinas desaparecia e deixava-se contornar por arbustos que foram crescendo ao dará dos ventos, das chuvas, dos tempos; o tempo deixou de ter tempo, as paragens nos semáforos para peões, nos atravessares de rua apressados, passaram a contemplações intemporais até onde o olhar alcançava; os ruídos dos veículos a motor eram sons de floresta; os cheiros da rua sublimavam-se em aromas campestres que o envolviam.

Tudo isto em flashes de alguns segundos, minutos(?) e, de novo, o regresso à realidade, aos pregões das peixeiras, agora que atravessava o mercado, ao colorido das bancas de legumes, aos verdes, aos amarelos e aos vermelhos, ao cheiro intenso da zona dos queijos, ao encontro com um conhecido, ao bom dia e ao como vai, que a circunstância exigia.

Faltava pouco, mais um tempo de nada, e o gaio a passar-lhe à frente, com um gralhar roufenho, abrindo as asas de um azul mesclado de tons de mel, atravessando a mata, sem hesitações, num zig-zag de gincana; o balido das ovelhas a pastar naquela baixa de terreno cheio de pasto bem verde; o latir longínquo dos cães de guarda da quinta na outra encosta da serra.

Nem se lembra se chegou ao atelier ou se bebeu a tal bica amarga cheia de sabor! A verdade é que as memórias dessa manhã ficaram nos latires dos cães que  ecoavam daquela encosta do outro lado da sua vida…

CLUBE DA LETRA


O Clube da Letra nasceu no dia 8 de Fevereiro de 2000, no Rio de Janeiro, pela mão de António Chibante e Francisco Amaral, ambos portugueses e residentes no Rio há já muitos anos. Cedo se juntaram António Basílio, Carlos Barata e Cecília de Castro. Desde então muita água passou nos ribeiros, muita gente que entrou e amigos que sairam, muitas mudanças de ambiente e de cenários aconteceram, mas fazendo com que o Clube da Letra fosse crescendo e amadurecendo. Sem dar por isso, o Clube da Letra está festejando o seu 10º aniversário. Para comemorar a década nada mais do que festejar da melhor maneira. Como diria Pessoa, se "a minha pátria é a língua portuguesa", vai de apagar as velas na terra do Portugal que pariu aquele Brasil imenso. E assim foi. Um grupo de elementos do Clube, onde pontificam António Chibante, Cecília Castro (a Presidente cessante), Aloysio Kelly (o actual Presidente), Marion Mac Dowell, Ângela Dutra de Meneses (a autora de "O Português Que Nos Pariu"), António Basílio Rodrigues, Marcos Jorge Gasparian, Ana Maria Kelly, Nãna Pirez, entre outras e outros veio em peregrinação a Portugal, passando pelo Porto, onde se encontraram com o António Ramalho de Almeida (membro correspondente no Porto) e festejaram, mesmo no dia 8, os 10 aninhos do Clube. Foi um motivo de dupla satisfação e comemoração para António Chibante, o pai do Clube, pelo facto de, também ser natural da cidade do Porto, mais propriamente da Ribeira. Depois de uma passagem por Coimbra e Óbidos, o grupo desceu à cidade de Fernando Pessoa e foi obsequiado com um magnífico almoço em casa de Pedro de Moura Reis (o bolinho da bacalhau e o arroz de pato à antiga portuguesa, assim como o vinho do Porto e o leite creme à sobremesa faziam parte da ementa) onde se estabeleceu um são convívio, se fez leitura, ou não fosse o Clube da Letra. Esta passagem por Portugal tem o seu epílogo esta noite de sábado, 13 de Fevereiro, com um jantar no Martinho da Arcada, o café e restaurante da preferência do Fernando Pessoa. O Martinho da Arcada, inaugurado em 1782 é um ícone da cidade e a referência ao poeta Fernando Pessoa. Da ementa farão parte o Caldo Verde e o Bacalhau à Martinho. Certamente que irá ser lida poesia, se irá celebrar a língua portuguesa e a confirmação de Raul Amaral Marques como membro correspondente do Clube da Letra em Lisboa.
Mais um episódio da vida do Clube. Muitos anos bons, de produção literária, de muita amizade e confraternização.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

NOVOS E BONS SENTIRES

É verdade que vale a pena acreditar e confiar na vida e nas pessoas, mas nem sempre naquilo ou nas pessoas que julgávamos ser as certas para nós: quantas vezes, debaixo da capa da fidelidade não vamos descobrir traições (?), ou mentiras, apesar de cobertas por mantos de "verdades"? Quantos nós se vão atando ao longo da nossa vida, uns, pequenos e fáceis de resolver, outros mais complicados e complexos, aos quais não conseguimos descortinar as pontas? Quantas vezes não ficamos presos na vida simplesmente porque temos dificuldades em desatar um nó?
Mas, para tudo há uma solução: mesmo o Nó Górdio foi desfeito, de forma radical, a golpes de espada. A verdade, mesmo que doa, é que muitas vezes temos que entender que, na vida, há coisas e situações que têm de ser resolvidas assim: "d'un coup", como diria o meu amigo Jean Jacques.
Assim resolvidas, não deixam excrescências traiçoeiras, exigências disparatadas ou sentimentos desagradáveis que possam incomodar sentires novos e bons, permitindo a construção de um futuro mais risonho, mais esperançoso e, sobretudo, mais saudável.
A alma sente-se solta, o coração mais leve e a disponibilidade total.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

DIÁLOGOS IMAGINÁRIOS À VOLTA DA LUA


ELA: Pois é! Enquanto um está acordado o outro dorme, até parece que estamos a guardar o mundo!
ELE: Quem sabe não somos os guardiões do Templo? O Sol e a Lua?
ELA: Bela poesia. Vale a pena ter essa visão da vida. Desejar ver além do que os nossos olhos nos permitem ver. Pode-se até dizer, que pessoas assim podem passar por uma floresta e ver mais do que madeira para ser queimada!
ELE: Acho que vemos e sentimos as coisas de modo diferente dos outros... encaramos a vida com a mesma realidade, mas sabemos colocar um pouco mais de poesia, romantismo, encantamento e mistério naquilo que nos rodeia, naquilo que vemos, naquilo que imaginamos...
ELA: Eu desejei saber qual seria a tua resposta... e não foi diferente do que eu esperava...
ELE: Penso que aprendemos a burlar a superficialidade do que nos cerca.

*****

ELA: Dizem que entre duas notas musicais existe uma outra nota musical, que entre dois grãos de areia, por mais juntos que estejam, existe um outro grão de areia...
ELE: Espero apenas que, entre duas pessoas que se amam não exista, nunca, uma terceira pelo meio.
ELA: Todos os dias olho o céu, especialmente à noite. Na minha casa há um espaço onde tenho uma cadeira de praia e é para lá que vou e por lá fico olhando o céu. Eu sempre fui uma observadora da lua, das estrelas...
ELE: Estou olhando a lua quase cheia e você veio-me ao pensamento... A fazer o mesmo desse lado?
ELA: Sim, eu também estive a olhar a lua. Quando era criança diziam-me que havia um São Jorge que morava por lá... talvez fosse por isso que eu estava sempre a olhá-la. O tempo passou e eu descobri que não era verdade, mas eu descobri o que era essencial: observar a natureza e aprender com ela. Pasme, eu não uso relógio mas sei-me situar, quase sempre, dentro do tempo; sei quando vai chover. É verdade! Observo a altura das nuvens e a cor que elas trazem... o vento, a temperatura... Os indícios... que nos apontam direcções. É preciso saber ler os sinais que a natureza nos aponta. Porque é que você disse que esteve a olhar a lua e a pensar em mim? Feche os olhos que lá vai um beijo.
ELE: Porque penso, porque acho existir cumplicidade de pensamentos, semelhanças no modo como olhamos e interpretamos a natureza e porque a lua é magia para mim... como para você!
ELA: Diz-se que a lua é mentirosa, que se esconde nas diferentes faces e, quando tem o formato de um D, de diminuindo, ela está, na realidade, a crescer...
ELE: Mas LUA é LUA! apesar de satélite sem categoria de planeta, apesar de não ter luz própria como as estrelas - como o SOL! -, a verdade é ela que encanta... e tem mais essa curiosidade desse seu São Jorge escondido nela.

*****

ELE: Hoje, dia 29 de Janeiro, nesta noite de sexta-feira, a lua está gorda, grávida de luminosidade, cheia de humor e plena de sorrisos a sorrir para mim. Quem sabe se o São Jorge ou o velho com o saco às costas não te entregam os sorrisos que te estou a enviar daqui?
ELA: É verdade, a lua já está bem grávida! Eu reparei nela esta noite quando ia a caminho de casa... lá looooonge... a espelhar as águas do mar! E eu estava mesmo a pensar em ti. Tão estranho e já tão conhecido... tão distante e tão próximo... Repara como a vida é mágica!
Repara que no tempo há tempo para tudo, até para que os tempos se reencontrem...
Certamente a descoberta não foi minha, mas confesso que, muito recentemente, despertei para uma realidade: que o tempo não existe, o que de facto existe é o movimento... A Terra gira, gira e é dia... ela gira, gira e temos a nossa linda lua!
ELE: O tempo não existe (se assim entender) mas deixa sempre fragmentos de recordações, de instantâneos. As saudades não são mais do que memórias afectivas do tempo que já passou. Estranho sentir saudades de ti: ainda não nos cruzámos de vida, de memórias, de realidades vividas...
No entanto... a lua, bem alta, reflecte-me saudades tuas, dos encantos que ainda não vivemos, dos passeios que ainda não demos, dos jantares à luz de velas que ainda não apreciámos, das noites que ainda não amámos...
Vou sair, vou deixá-la a conversar com a lua. Não lhe pergunte dos meus segredos pois ela é cuscuvilheira...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O SOL

Merece mesmo LETRA MAIÚSCULA, o SOL. Depois de dias e noites infindáveis de chuva, humidade, aguaceiros, gelo, granizo e, mesmo, neve eis que o SOL surge por aí. Entrou sem cerimónias, quase sem se fazer anunciar, mas chegou com todo o seu esplendor. Não sei se veio para ficar já instalado no seu trono de Rei; provavelmente veio apenas fazer uma visita, ver como andam as coisas por cá! Se olhar muito, e nem precisa de muita atenção, vai ver que "isto" continua na mesma, ou pior.
Acho que o melhor era o SOL colocar uns óculos dele mesmo e andar por aí, disfarçado, mas a aquecer-nos a alma e o coração. O orgulho, esse está frio e ferido... os nossos políticos deram cabo dele: do orgulho e do amor próprio. Em contrapartida encheram o país de dívidas, de corrupção, de lugares para os amigos e, parece, de aumento dos impostos para pagar toda a pouca vergonhice.

sábado, 23 de janeiro de 2010

VIDA A BORDO


Faz agora um ano andei pela Antárctica. A viagem, longa e demorada, é feita a bordo de um barco adaptado aos gelos eternos, ao mar alteroso e tempestuoso, aos ventos constantes e fortes. Foram duas semanas únicas e inesquecíveis.
E é na vida a bordo que tudo se desenrola: é o local onde se vive, se convive, se dorme, se come, se percorre o Canal de Beagle, se passa o Cabo Horn, se atravessa a Passagem de Drake, com os tais ventos fortes e ondas alterosas, se sai e se chega quando vamos à terra gelada, quando vamos ver icebergues de perto, pinguins, leões e elefantes marinhos; é a bordo que se aprende sobre a vida na Antárctica, a vida das aves, dos mamíferos, da flora; também a bordo se festeja e se bebem uns copos, se fazem conhecimentos com pessoas interessantes, se encontram pessoas que são amigos de amigos comuns, se reforçam amizades; a bordo encontramos, também, tempo e local para ler, meditar, estudar, adquirir novos conhecimentos, fazer introspecções e, sobretudo, passar a olhar o mundo com outros olhos, com outros veres, a entender e respeitar a natureza.
Esta viagem serviu, para mim, para melhor entender a vida, saber do meu papel como habitante deste maravilhoso planeta, da importância da preservação da natureza e dos perigos dos desequilíbrios ecológicos.
Acho que me reabilitei com o mundo!

domingo, 17 de janeiro de 2010

Um dia sem história

Há dias assim, sem qualquer acontecimento, sem histórias para contar, sem lembranças e sem memória.
É de registar e, por isso, aqui fica a anotação: um dia cinzento, nem quente nem frio, sem chuva nem sol, sem alegrias nem tristezas, sem nada que contar.
Apenas registo um facto: recordações e saudades, sempre presentes e sempre reais. Mas essas são para a vida!

sábado, 16 de janeiro de 2010

CUMPLICIDADES - Tempo para recordar

É sempre bom recordar. Recordar o tempo em que se inicia um conhecimento, o tempo em que a amizade desperta, o tempo da descoberta, o tempo em que a presença se torna constante, o tempo em que se choram as ausências, o tempo dos encantamentos, o tempo da paixão que desperta o amor, o tempo das alegrias e das tristezas, o tempo da paz e da tranquilidade, também o tempo das angústias, o tempo do companheirismo, o tempo da cumplicidade, o tempo em que se resolve construir uma vida a dois, uma vida em comum, o tempo em que se traçam os projectos e planos de futuro, o tempo em que se criam esperanças de vida feita de tudo mas, essencialmente, feita de muito amor, de compreensão e de muita, muita cumplicidade.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Terramoto

Foi ontem, no Haiti, um sismo de grau 7 que destruiu uma cidade, uma ilha, um país. Os feridos e os mortos não vão ser contabilizados tão cedo. Mais uma catástrofe que assola uma região, um país, um povo. Seja na América Central, no Brasil, na Indonésia, na Índia, na China, estes fenómenos naturais têm-se sucedido com uma regularidade caótica. O número de mortos fica sempre aquém do real e o dos feridos, alguns deles com sequelas para o resto da vida, não chega nunca a ser revelado (sempre calculado: calcula-se que...). A angústia, a dor, a ansiedade, as aflições, a impotência de quem vive no terreno estas realidades deve ser incomensurável. Deus nos queira livrar duma situação destas.
Mas piores são as outras catástrofes causadas pelo homem contra os outros homens: os genocídios, os campos de refugiados, as valas comuns, os atentados com bombas. Matam mais que a natureza, espalham terror, angústias, receios, infelicidades.
É verdade que nada podemos fazer contra a força dos fenómenos naturais. E contra os atentados feitos pelo homem? Teoricamente podemos fazer tudo e acabar com eles: basta que se deixem de fabricar e vender armas, que deixe de haver tráfico de drogas e que se acabe com a ganância do poder (político e económico). Na prática... nada é feito, nem interessa muito que seja feito... parece-me.
O Natal foi há 3 semanas. O espírito da paz, da harmonia, do bem fazer, do dar e espalhar amor, do saber ouvir os outros e da entrega deve manter-se constante nos nossos corações e no nosso espírito.
Que ao menos que consigamos captar algum deste espírito e o possamos transmitir, através das nossas atitudes e modo de vida.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O almoço da velha guarda

Uma terça-feira por mês costumo ir almoçar com um grupo de idosos (todos acima dos 8O anos) que têm em comum o facto de, ou serem de Mangualde, ou terem estudado no Colégio de Mangualde (o Colégio de S. José e de Santa Maria). Fui colmatar a ausência do meu pai. É a ocasião para aqueles idosos recordarem episódios de vida, principalmente da sua juventude, histórias muitas vezes repetidas em quase todos os almoços, mas sempre com um outro aspecto de novidade. São histórias de namoros, de paixões, de aventuras e brincadeiras de rapazes de há 70 anos, dos bailes no Grémio com as meninas sentadas numa frisa de cadeiras à espera de serem convidadas, das Janeiras cantadas ao frio enregelador das noites do mês apropriado, enfim, um recordar que para mim é sempre de muita importância pois é, através do escutar destas histórias, que vou aprendendo e apreendendo muito da história de Mangualde, da minha família, como a do vinho fino que o meu avô Manoel tinha na adega da casa e que foi muitas vezes bebido, à sucapa e com a colaboração do meu tio Chico. Curiosamente consegui ainda recuperar uma grande quantidade desse vinho que engarrafei e hoje apenas sirvo em ocasiões muito especiais... uma delas foi brindar a esta época que se avizinha e que agora começa. Prefiro brindar à época do que ao ano... é que tem mais futuro e esperanças não perdidas.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ano Novo Vida Velha?

Há sempre promessas que fazemos com o entrar de um acontecimento, neste caso o Novo Ano. Início de uma década que se adivinha pouco esperançosa em termos globais: por um lado os aspectos ambientais, por outro os desta democracia podre (poder e podre têm as mesmas letras) e, mais ainda, os anos que vamos vivendo e que nos encurtam a esperança de vida.
De qualquer modo, apesar de a vida ir ficando mais velha, o ritmo de viver acentua-se, os desafios sucedem-se, e o querer fazer as coisas bem aprimora-se.
Vou enrugando alguns sentires, colocando carapaças, como os meus cágados, em ilusões de vida e continuando a viver a vida como ela nos merece, colocando a esperança, sempre a esperança, num limiar mais elevado.
A Quinta, este ano, vai ficar mais bonita, mais lavada e mais cheia. Primeiro vou fazer uma boa barrela, tirar os mofos, os cheiros desagradáveis, as más recordações, lavar a roupa encardida. Depois, sempre vou criar o meu espaço com uma janela grande virada a poente, com os meus livros, a salamandra de casa da minha avó, um sofá cheio de espaços e conforto e uma secretária grande onde vou poder espraiar os meus sonhos e contar dos meus sentires.
Afinal não parece que vida do Ano Novo venha a ser assim tão velha. É que, se a dividir em espaços, em tempos, a colocar em gavetas ou caixas, vou descobrindo sempre aspectos que estavam ausentes cada vez que for abrindo cada uma destas diferentes coisas.
Quero ter tempo para saber viver bem, tempo para ter paz, tempo para poder continuar a trabalhar e, sobretudo, muito tempo para desfrutar o amor, as amizades, os amigos e as coisas boas da vida.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Final do Ano

Hoje foi o meu último dia de trabalho de consultório, de ver doentes, de ouvir queixas, da tosse, da gripe A, das vacinas, da ida aos serviços de urgência, de tudo...
Amanhã, dia 31, é altura de pôr em ordem o que ficou desarrumado deste ano. A principal tarefa vai ser a de arrumar a vida e tentar colocá-la em ordem para o dia 1, o meu dia D, o dia que, cada ano, vai marcando o meu futuro.
Confio em Deus!

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A Quinta, de novo!

Hoje a Ginja estava impossível. Vi-me e desejei-me para a meter no canil. Lá consegui enganá-la com os biscoitos atirados, um a um até ao lajedo da porta de entrada. O Fred obediente, mantinha-se sereno, expectante a ver no que aquilo ia dar. A Ginja está, de novo, a largar o pêlo, parece também que anda meia saída... O Fred continua de aspecto óptimo e muito carinhoso.
Tem chovido imenso, as ribeiras espalham-se pelos campos, os terrenos são mais charcos que pastagens, o gado procura os lugares mais elevados e a Quinta parece ter-se transformado numa maternidade de água, tantos os locais por onde ela brota. A casa escorre humidade nas paredes, o chão está escorregadio...
Os Reis Magos do Presépio estão mais próximos, uma estrela, enorme, paira no ar sobre as suas cabeças e eles lá vão, prosseguindo na sua senda, a levar o ouro, o incenso e a mirra, traduzidos em aconchego, em amor e devoção e em coragem para enfrentar os momentos menos bons. É o que se pede para este 2010 que aí vem... a prometer o que a esperança nos pede... e eu que gostaria de ter as prendas dos Magos...

domingo, 27 de dezembro de 2009

Passou o Natal

Entrámos na contagem decrescente, o tempo a passar e a esgotar-se... o fim do ano a chegar e a promessa de outro. Melhor, igual, pior? Eu vivo a esperança de um renovar de vida, de um recomeço diferente, de entrega total, de cumplicidades, de tudo o que a vida pode dar de bom.
Espero e aguardo ansioso, cheio de esperança, que o tempo que pediste seja o da renovação, o do querer, o do desejar...
Se Deus quer... ou quiser...

sábado, 26 de dezembro de 2009

Black Friday

A exemplo do que se passa em Inglaterra, o El Corte Inglez daqui, também tem o seu "boxing day" - a "black friday" - que este ano foi num sábado e se prolonga por amanhã: uma sexta-feira negra que afinal é um sábado e não dura um, mas dois dias... é sempre assim, nada do que se diz ou afirma corresponde à verdade.
Tive o azar de ter de ir ao El Corte Inglez arranjar uma correia de um relógio e, sem saber disso da sexta-feira negra, fui engolido por uma multidão que avançava tipo Tsunami por aqueles corredores dentro... Aquilo funciona um pouco diferente do boxing: são distribuídos lotes de roupas, de televisões, de camaras fotográficas, etc a diferentes horas do dia com um desconto de 50%.
Uma loucura e sinal que o dinheiro não é tão pouco como isso. Não sei onde o inventam, ou o descobrem, mas este Natal, apesar da crise, gastou mais dinheiro do que o ano passado.
Afinal o Sócrates tem razão... vivemos num mar de rosas! O problema é que a vida das rosas é efémera, embora o aroma possa persistir e sobretudo a recordação delas. Por isso os portugueses insistiram no voto socrático... espero que agora estejam bem arrependidos...

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Dia de Natal

Já nasceu o Menino! Já renasceu a Esperança de nova vida, de mais Paz, de mais Amor, de mais Compreensão.
O tempo frio deste Natal pede abraços quentes, pede ternura, pede beijos de consolo, exige Amor.
Que nós saibamos reencontrar os caminhos de Vida e assumirmos perante nós mesmos o cumprimento do comprometimento.
Fico ansiando sem tranquilidade, mas com perseverança, esta chegada. A tua! O teu regresso!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O regresso


O regresso foi complicado! O mau tempo pela Europa levou a atrasos nos aviões e atrasei, em quase 12 horas, o meu regresso. O aeroporto aglomerava-se de pessoas, com filas para tudo, comer, comprar, até para os sanitários. Chegado, finalmente.
Ontem fui até à minha cidade, à bica no Diamantino, aos meus cães, cada vez mais bonitos e obedientes, ao cumprimento a alguns amigos, onde incluo o sr. Andrade, uma passagem pelo consultório, deixar umas prendas, saber do Zé Pedro que foi ia ser operado nesse mesmo dia, uma visita ao meu amigo Emílio com um arranjar das flores tombadas pelo vento e um conversar rápido sobre a vida.
Passei o resto da manhã e da tarde na Quinta, a gozar o espaço, a aquecer a casa com o conforto de uma lareira acesa, a montar um presépio com Reis Magos atafulhados de promessas de vida.
Oxalá tudo se cumpra!