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sexta-feira, 1 de junho de 2012

A PRETO E BRANCO

Pegou na tinta da china e espalhou com um pincel grosso, de pelos de marta, a tinta negra, pela periferia de toda a folha de papel Cavalinho. Era uma folha grande, de 40 x 60 cm., fixada no cartão grosso, também branco, que lhe ia servir de suporte.

Não tinha uma ideia do que iria desenhar, certamente iria começar por fazer um conjunto de riscos e de manchas negras, bem opacas, da cor da tinta preta vinda China. Era sempre assim que fazia: tinha uma ideia vaga, outras vezes já vinha com uma imagem mais precisa e definida, mas sabia, à medida que o desenho fosse ganhando forma, que o ia ajeitando até chegar ao boneco que também se ia, a pouco e pouco, idealizando na sua cabeça.

E era tão simples! Bastava-lhe só manusear a tinta preta, porque a branca era a do papel. E, como queria dar realce ao branco tratou, por isso, de espalhar, primeiro, o preto pelos lados, por cima e por baixo, para que a mancha branca ficasse centrada na folha que tinha diante de si.

Utilizou uma daquelas mesas de desenhador, com muito espaço, totalmente liberta de objectos para poder dispor apenas dos que necessitava: a folha, claro, os pincéis, de vários tamanhos - desde um bastante grosso, para fazer as manchas extensas de negritude, até um pincel fininho, quase um ou dois cabelos, para ser capaz de desenhar cabelos ou fios de teia de aranha -, um cadinho para colocar a tinta e, aí, poder molhar os pincéis, um pano branco de limpeza, um copo com água para lavar os pincéis, ou adoçar o negro quando o desenho o exigia, e papel absorvente. Mais, um pequeno bloco de folhas A3, um lápis B, uma borracha, para um esboço rápido, afim de avaliar as formas e as proporções, e nada mais!

E não podia falhar! A tinta da china não se apaga, não há safa que a tire, nem rasura que a leve porque, se rasurasse a folha, tirava o imaculado ao papel imaculadamente branco. Por isso, cada mancha, cada risco, cada cinza, tinham que sair no sítio certo, sem hesitações nem tremuras, sem desvios...

A primeira coisa que fez foi arregaçar as mangas da camisa branca e começar... por olhar para a folha branca. A tentar ver o que a sua imaginação projectava na tela diante de si. Esteve assim uns minutos largos a olhar o papel e a olhar, também, a janela rasgada na parede que projectava, na vidraça, o sol a pôr-se, escondido atrás das nuvens. 

Um pôr do sol diferente porque, no meio das nuvens cinzas que apareceram a ameaçar o fim da tarde, se abriu um rasgo por onde a bola de fogo se esplendorou uma última vez, antes de desaparecer por detrás do fim do mundo, deixando o lusco fusco, que se manteve por mais tempo porque a lua, em fase crescente, mas já quase terminal, enchia o céu da sua cor pálida.

(DO AUTOR - PORTALEGRE, FIM DE TARDE DE 31 DE MAIO)

Deixou, então, que a noite tomasse conta do ambiente e lá pegou no pincel grosso mergulhando-o, com suavidade, naquele caldo preto da tinta. Foi esborratando a periferia do papel preservando o centro. Depois de ter pintado de negro toda a moldura, pegou no pincel médio e foi garatujando riscos naquele miolo branco de forma mais ou menos arredondada; um risco aqui, um sombreado mais acima, uma curva mais gorda em baixo e quando deu por ela começou a tornar-se nítida a forma de um pato de bico estreito, de corpo pequeno, arredondado, de penas despenteadas na crista e de olhar lúcido e penetrante. Um traço mais, um risco fino a acabar um detalhe e, quando olhou a obra final, ficou satisfeito!

Só que, quando estava a dar a obra por terminada, no entusiasmo de a ver tão perfeita, deu um toque no cadinho da tinta negra, que se espalhou uniformemente por toda a folha desenhada.

Valeu-lhe a fotografia, a preto e branco, que tinha feito ao verdadeiro pato, dias antes, e que, inconscientemente, lhe foi servindo de inspiração... 

(DO AUTOR - ARGELA)


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1 comentário:

Anónimo disse...

Que lindo, Raul! Muito obrigada pelo envio te tão belos e sensíveis escritos e fotos. Beijinhos, lola